4. Verdade e Sentido 82
5.2 Discurso religioso
necessário, mesmo se a metáfora não passe de um amontoado de palavras, as normas são válidas em princípio.
os responsáveis por determinarem tanto a assertividade quanto a verdade destes enunciados. No entanto, a autoridade da língua, conforme Hallett, “se estende para além de qualquer tipo de enunciação” (LP, 165). Ao “prescrever, interrogar, prometer, proibir, encorajar, alertar e muitas outras variedades de atos de fala, não menos do que descrever, explicar, prever, relatar ou similares, a língua desempenha e deve desempenhar um papel principal na determinação do que dizer” (ibid.).
Em suma, a AL se estende a qualquer tipo de enunciado e ato de fala (ibid.)
Para demonstrar tal alegação, Hallett se vale da espécie de ampliação realizada por J.
Habermas. Não reproduziremos todo o processo de cotejamento, iremos resumi-lo para os nossos objetivos. A divisão dos atos de fala, descrita por Austin, é adotada por Habermas. Os atos de fala são dois: perlocucionário e ilocucionário. O primeiro visa a fins que vão além da informação fornecida nos conteúdos do que é dito, os quais, por sua vez, constituem o próprio objetivo dos atos ilocucionários. Estes objetivos são autoidentificáveis, enquanto que o objetivo do outro tipo é identificado apenas pela intenção do orador (LP, 166). E.g., a sentença O leão soltou-se da jaula pode ser dita ou apenas com a finalidade de informar ou então com a de provocar uma resposta de ação em determinado ouvinte. Diferentes padrões são aplicados às duas espécies de atos. As questões referentes à “validade, no sentido amplo do termo de Habermas, surgem em relação a atos de fala ilocucionários (previsões, relatórios, consultas, comandos, explicações, promessas, etc.), mas não em relação aos perlocucionários (destinados a assustar, confundir, encorajar, auxiliar, alienar, insinuar, etc.)” (LP, 166-7). Hallett está preocupado com os atos de fala ilocucionários, que, segundo Habermas, são avaliados por critérios triplos: verdade, justiça e sinceridade; ou quádruplos: nestes, adiciona-se o critério de inteligibilidade. Em cada enunciado o falante se baseia no acordo de reconhecimento, como p. ex., o acordo de reivindicação da verdade daquilo que é dito;
nas sentenças experienciais de primeira pessoa reivindica-se o acordo de sinceridade ou veracidade;
em pedidos, ordens, etc., há acordo com relação à justiça dos mesmos perante a concordância dos envolvidos. Importa, sobretudo, notar que em todos estes critérios devemos considerar “o papel da língua no estabelecimento de cada tipo de reivindicação” (LP, 167; 210, Nota 6). Concentrando-se, sobretudo, nos aspectos de verdade e inteligibilidade da autoridade compartilhada entre a língua e a realidade, (como co-determinantes dos enunciados assertivos) Hallett afirma que a AL vale para quaisquer tipos de enunciados, ao mesmo tempo em que reconhece a extensão da autoridade da língua promovida por Habermas a tipos e aspectos distintos de atos de fala (LP, 167). Segundo o próprio Habermas, “Os ‘objetivos’ ilocucionários de alcançar a compreensão não podem ser definidos sem referência aos meios linguísticos para chegar ao entendimento: o meio da língua e o telos de alcançar a compreensão inerente nele se constituem reciprocamente” (1998, 203; grifo
nosso). Ou seja, os critérios propostos por Habermas, como a justiça, a veracidade e a verdade, requerem, segundo Hallett, o uso das palavras corretas que somente a língua pode prescrever de modo correto.
Considere promessas, sob cada uma dessas três rubricas. Verdade: embora apenas certos teóricos as chamem de verdadeiras ou falsas, as promessas podem revelar hipóteses verdadeiras ou falsas. Se, por exemplo, eu digo: “Eu prometo reembolsá-lo”, mas não lhe devo nada, revelo uma falsa suposição, e minha afirmação falha em um teste crucial. O seu fracasso decorre, em parte, da minha falta de endividamento e, em parte, do uso da palavra
“reembolso” – ambos juntos. Justiça: na ilustração desse aspecto, Habermas escreve: “as comunicações às vezes são ‘impróprias’, relatórios ‘fora do lugar,’ confissões ‘estranhas,’
divulgações ‘ofensivas.’” Suponha, então, que um amigo diga: “Não se preocupe com esse empréstimo”, e eu respondo: “Eu prometo pagar-lhe”. Esta resposta poderia colocar a sinceridade da observação do amigo em questão. Mas não “Eu quero reembolsar você” ou
“Eu gostaria de reembolsá-lo”. A escolha das palavras, com os significados que elas têm na língua, faz a diferença. Sinceridade: posso sinceramente dizer “prometo pagar-lhe amanhã”, mas não posso sinceramente dizer “eu prometo pagar-lhe ontem” – não se eu conhecer os significados das palavras que estou falando. É duvidoso que tal enunciado pudesse sequer ser qualificado como uma promessa. E a dificuldade, tanto pela sinceridade quanto pela promessa, surgirão não apenas da impossibilidade de agir no passado, mas também da palavra “ontem”, que aponta para o passado (LP, 167-8)112.
Com tais observações, Hallett pretende destacar o aspecto do acordo linguístico assinalado por Habermas, mas pouco desenvolvido por ele (LP, 168). Segundo Hallett, “como Habermas estende o termo ‘validade’ para cobrir todos esses aspectos [dos atos de fala], então eu poderia estender o termo ‘autoridade’ para abranger todas essas maneiras em que a língua co-determina o que devemos dizer” (ibid.)113. Uma vez que Hallett adota a ampliação habermasiana, ele pode falar da validade e invalidade de todas as formas de enunciados e, mais importante ainda, da centralidade da língua na determinação de ambas. Portanto, a língua estabelece tanto a validade como a verdade de outros enunciados que não sejam os fatuais. De acordo com Hallett, o contexto, o objetivo ilocucionário e a língua juntos determinam o que é dito, sem qualquer conflito ou competição de autoridade. Todavia, ele afirma certa anterioridade e superioridade da língua. É ela que determina primariamente – com a realidade – a verdade dos enunciados (LP, 169). Para os enunciados de todos os tipos a verdade é “mais importante do que a sua capacidade contextual ou ilocucionária (melhor verdadeiro e desastrado do que apto e falso)” (ibid.). Mas, uma vez que contexto, objetivo
112A citação é de Habermas, J. The Theory of Communicative Action, vol. 1. Reason and the rationalization of society. Boston: Bacon Press, 1984, p. 311.
113As obrigações assumidas entre falante e ouvinte, assimétricas ou simétricas, surgem porque tais foram as implicações contidas nos significados das palavras, e estes são determinados pela língua (LP, 211, Nota 10).
ilocucionário e língua se complementam, não importa a primazia desta última. Com efeito, na escolha das palavras, podemos considerar esses três concorrentes amigáveis (ibid.).
De modo semelhante, podemos, com Hallett, estender a autoridade da língua para cobrir todos os campos da LR. Pois nas orações, súplicas, promessas, batismos e cerimônias, o uso das palavras certas também é condição da validade de todos estes atos. Eu prometo rezar três ave- marias apela para a sinceridade da promessa a Deus. Enquanto Eu gostaria de rezar três ave-marias não realiza o mesmo ato de fala. Se oramos agradecendo a um Deus transcendente, dizendo Obrigado Deus por nos dar o dom da vida e Ele simplesmente não existe, ou se não foi, na verdade, Ele quem nos concedeu o dom da vida, a oração se baseia numa hipótese falsa. E ela falha em parte pelo contexto, pela inexistência da realidade suposta e, principalmente, pelo uso das expressões Deus e nos dar. Neste sentido, o mesmo acontece com a interpretação das crenças como equivalentes a recomendações de comportamento; as quais mencionamos no item 2.3.1. Ela falha em reconhecer o papel determinante do conteúdo cognitivo dos termos. Por esta razão, Lehtonen sugere que a substituição das expressões religiosas alteraria o comportamento dos crentes, pois, além de conceitualizar o objeto de adoração religiosa, elas comunicam, dão razões da adoração, etc.
Portanto, deve haver o mínimo de conteúdo cognitivo necessário respaldando a religião e suas práticas (2007, 116).
Logo, a única posição coerente com vasta extensão da autoridade da língua, bem como com as normas que ela carrega, é a posição cognitivista. E, deste modo, as normas concordam com a tradição. Como ilustração deste ponto, Hallett aduz um exemplo retirado de Crombie. Vejamos o excerto nas próprias palavras deste último:
Os apologistas mais sofisticados exortam que afirmações relativas a crenças podem, sem perda significativa, ser tratadas como equivalentes a recomendações de comportamento e atitudes que são aceitas por todos como seus corolários apropriados. ‘Existe um Deus’
torna-se assim equivalente, ou quase equivalente, a algo como: ‘Trate todos os homens como irmãos e reverencie o mistério do universo’ (CROMBIE, 1968, 84).
Apesar de, segundo Hallett, tais interpretações tornarem a doutrina cristã mais palatável nos dias de hoje, as palavras empregadas nas doutrinas não sugerem o que os apologistas sofisticados dizem em suas interpretações. Elas não podem, deste modo, satisfazer as normas da língua.
Parafraseando Halett, Deus existe pode ser verificado pela existência de uma realidade, embora esta,
se existe, seja transcendente. Ela foi corretamente chamada Deus, mas não de Trate todos os homens como irmãos e reverencie o mistério do universo. Essa última frase seria uma formulação mais precisa da última alegação (LT, 185). Do mesmo modo, segundo Hallett, a expressão Deus nos ama pode ser verificada por uma realidade, ainda que transcendente, que foi corretamente denominada amorosa, mas que não poderia ser verificada pelo supremo valor do amor. Para o caso desse último, o amor é o valor supremo seria uma formulação mais acurada (ibid.). Isto é,
“[e]xpressões alternativas estão disponíveis e preferíveis para o que esses teólogos desejam dizer”
(MWG, 16). As reinterpretações fogem das intenções originais dos Padres da Igreja que formularam tais doutrinas. Portanto, o contexto, o objetivo ilocucionário dos Padres da Igreja e a língua determinam como única possibilidade interpretativa: a posição cognitivista da LR cristã.