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3. A raiz dos problemas como problema das soluções 44

3.4 Via do sem sentido

3.4.2 Revisando o desafio de Flew

Hallett analisa o exemplo mais simbólico de Flew para o seu caso da negação da negação da significatividade da LR. Podemos dizer que contra a parábola de Flew ele aduz outra:

46 É interessante notar que Flew pretende desafiar somente aqueles que concedem papel cognitivo à LR (FLEW, 1986, 14).

Um garoto pequeno, vamos supor, fica entusiasmado quando os convidados começam a chegar e pede para ficar acordado para a festa. ‘Só essa vez’, ele pede. Mas seu pai insiste em que ele vá para a cama. Por quê? Porque o menino precisa dormir. Porque sua presença desagrada um dos convidados ou causaria algum tipo de inibição na festa. Por causa da regularidade na vida da criança e assim não favorecer todos os seus caprichos, com os resultados que isso teria a longo prazo para o desenvolvimento de seu caráter. E assim por diante. Ou seja, o pai baseia sua decisão em fatos, valores e conexões causais dos quais ele está consciente, mas que estão fora do alcance da criança pequena. O jovem não conhece os convidados ou o que eles planejam fazer ou como sua presença afetaria sua noite. Ele provavelmente esqueceu o efeito sobre sua disposição e comportamento na última vez que ficou acordado até tarde, e talvez nunca tenha conectado a maneira como se sentiu no dia seguinte com a noite anterior mal dormida. E é claro que ele não conhece nada sobre psicologia infantil nem sobre a conexão entre treinamento inicial e personalidade adulta. A própria palavra ‘personalidade’ não significa praticamente nada para ele, esse nível de valores tão decisivo nas considerações de seu pai mal apareceu em seu horizonte. Assim, a criança não está em posição de julgar o amor de seu pai com base em uma decisão ou de qualquer combinação delas. Um sorriso, um beijo, um tom de voz – tais são as bases de sua confiança, não cálculos complicados sobre a motivação e estratégia de seu pai (HALLETT, 1991, 468).

De acordo com Hallett, Flew tem como alvo aquelas pessoas que se negam a dar razões à sua fé (HALLETT, 1976, 785). A parábola de Hallett descreve o fato de que uma criança pequena não faz e, nem poderia fazer, complicados cálculos como meio de teste para fundamentar sua crença no amor de seu pai por ela. Concederíamos facilmente tal coisa, até mesmo sem a descrição das várias razões ilustradas por Hallett. Mas ele tem uma intenção por detrás da composição de cada trecho da parábola e, evidentemente, da parábola de um modo geral. Segundo Hallett, as consequências extraídas por Flew são inadequadas por deixar de lado o aspecto mais relevante da questão: a condição epistêmica humana (id., 1991, 468; cf. LT, 178). Assim, a parábola de Hallett segue pelo caminho negligenciado por Flew.

A parábola tenta evidenciar, através da comparação entre o pai e o filho pequeno, que: (a) as afirmações sobre o amor de Deus não dizem respeito a fatos isolados, mas à providência divina dirigida à totalidade dos fatos. Ele ama toda a criação, comparativamente o amor do pai não é dedicado exclusivamente ao filho, visto que ele ama também a seus outros filhos, seus amigos, etc.

Deus precisa, então, administrar todos os fatos na direção de um bem maior. Por isso, o mal é até mesmo necessário, se compensatório. Assim; (b) qualquer mal tem de ser considerado por referência ao esquema geral das coisas (ibid., 466), e uma vez que; (c) a capacidade epistêmica do homem é limitada, ele está impedido de determinar a razão última de qualquer mal, tipo de mal ou de sua quantidade; (d) então, dada a condição do homem, conclusões que vão contra ou a favor do amor de Deus não podem ser inferidas (ibid., 467); (e) assim como a criança não saberia dizer o que

realmente conta em favor da alegação Meu pai não me ama, o homem, igualmente, não saberia de fato o que seria o caso para verdadeiramente poder dizer que Deus não o ama. Portanto; (f) o teste de Flew não incide sobre a significatividade das asserções religiosas. A “limitada capacidade de entendimento do adulto não implica nenhuma mudança no significado da palavra amor”. Sem tal queixa quanto ao vazio de sentido da fala sobre Deus, bastaria, portanto, que nós “tivéssemos uma compreensão abrangente de todos os fatos, de todos os valores e todo tipo de relação causal” para podermos “responder ao desafio de Flew de maneira apropriada à crença questionada por ele” (LT, 178). Ou seja, para que alguém pudesse dizer, por exemplo, o que teria de ocorrer a fim de afirmar que Deus não nos ama, esse alguém teria de ser onisciente. Em outras palavras, teria de ser Deus.

Esse é, em resumo, o argumento hallettiano47. No entanto, para o correto entendimento de nossa condição epistêmica, precisamos salientar que, na comparação do contínuo entre a infância e a idade adulta, de um lado, e, entre a mínima compreensão e a onisciência48, de outro, não sabemos se estamos na situação de uma criança de dez anos ou de um adolescente. Isto é, somos, segundo Hallett, duplamente ignorantes (HALLETT, 1991, 469). Não temos medida alguma de nossa ignorância. E é justamente a dupla ignorância, segundo Hallett, que mostra a fraqueza dos argumentos que se valem da existência do mal contra o teísmo (ibid.).

Sobre a argumentação de Hallett, nossa avaliação é de que ela parece ter as seguintes implicações: (i) existindo mal no mundo, (ii) não podemos entendê-lo, dado que somos seres epistemicamente incapazes e limitados; segue-se, então, que (iii) existindo bem no mundo, (iv) somos epistemicamente incapazes e limitados também para entendê-lo; (v) mais ainda, não tendo medida do tamanho de nossa ignorância, somos, assim, duplamente ignorantes sobre o bem e o mal;

portanto, (vi) o mundo, por si mesmo, não nos pode fornecer evidências sólidas que vão contra nem a favor de Deus, nem tampouco pode a experiência humana. Logo, as implicações da reflexão (plausível e realista) de Hallett parecem (1) revelar o alicerce da posição do crente, baseada numa fé esperançosa sem nenhuma evidência que possa realmente corroborar sua posição. Parafraseando Hallett, um sorriso, um beijo, um tom de voz – tais são [metaforicamente] as bases de sua

47 Muitas outras parábolas foram criadas com finalidade de responder ao desafio de Flew. Por exemplo, a parábola do estrangeiro de B. Mitchell ou a parábola do lunático de R. Hare. Entretanto, acreditamos que nenhuma delas parte de uma leitura profunda como a de Hallett e, por isso, não oferecem, igualmente, uma contra-argumentação efetiva. Para uma análise mais completa das parábolas reportadas cf. Antiseri, D. Filosofia analitica e semantica del linguaggio religioso. Brescia: Queriniana, 1969, pp. 71-74 e pp. 103-9. Neste sentido, Hallett (LT, 178) enfatiza sua surpresa com a falta de êxito dos apologistas em suas tentativas de resposta ao desafio, devido ao fato de o desafio de Flew incidir sobre a parte menos problemática para o significado das expressões: epistemológica.

48A respeito da onisciência, seria relevante indagar sobre a possibilidade de Deus ter certeza absoluta de sua própria onisciência. Como ele poderia saber? Supondo que Ele soubesse tudo o que houvesse para conhecer, excetuando o conhecimento de sua condição, ele não seria mais onisciente, ao menos no sentido pleno da palavra. Em todo caso, o apontamento da questão é importante uma vez que questiona, de certo modo, o conceito de onisciência, sobre o qual repousam inumeráveis reflexões.

confiança; (2) revelar o alicerce da posição do ateu – em sentido forte49 – baseada numa fé desesperançosa sem nenhuma evidência que possa realmente corroborar sua posição. A falta de um sorriso, a ausência de um beijo, o silêncio – tais são [metaforicamente] as bases de sua confiança50; (3) revelar o agnosticismo originário da condição humana, que corresponde a nossa condição epistêmica. Nesse sentido, tal posição parece-nos, de algum modo, mais honesta e racional– no sentido de razoável e ponderada – diante de nossa condição geral. Por fim, a argumentação de Flew poderia ser reformulada e reabilitada, agora em outra esfera – a epistemológica. E, podemos dizer, reformulada de modo que ela seja extremamente significativa e muito desafiadora.