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46 destino efémero de outros elementos orgânicos, mas que se regem pelas condições na constante alteração do mundo natural.

Para além do seu uso na ciência, medicina, alimentação e das suas características plásticas e expressivas, os líquenes, possuem qualidades materiais, podendo ser utilizados na tinturaria graças ao seu pigmento natural. Foram inclusive elementos utilizados para tingir têxteis em tempos antigos. Alguns dos organismos representados neste trabalho, como a Ramalina Farinacea, permitem obter uma cor laranja ou castanha, a Parmelia Caperata e Platismatia Glauca a cor amarela.

Na relação que estabelecem com a arte rupestre, existe um debate sobre a sua ameaça à preservação dos registos. Devido a serem organismos com capacidade de biodeteriorização da pedra, contribuem para a decomposição das superfícies onde se encontram estas pinturas. Em Portugal, no parque arqueológico do Vale do Côa, arqueólogos insistiram na sua remoção, uma vez que, as suas hifas (filamentos ou raízes) inserem-se milimetricamente na pedra, produzindo substâncias químicas que levam à sua degradação. Sendo, mais tarde, defendido por liquenólogos11 e outros arqueólogos, que estes organismos não eram o problema erosivo, ofereciam, na verdade, proteção contra alterações de temperatura e o desgaste provocado pela água.12

47 O micro refere-se a um elemento muito pequeno ou reduzido e o macro a um objeto muito grande ou aproximado. Neste projeto o micro é entendido como a representação do todo, a totalidade do líquen, realizada numa escala reduzida relativamente ao macro que trata o particular do todo, o pormenor aproximado deste organismo. Estas noções de escala são subjetivas, uma vez que não existem coordenadas estipuladas no que diz respeito à perceção do espaço, esta está sujeita ao corpo e ao seu constante movimento. Partilhando de uma relação simbiótica e variável, já que o líquen pode tanto ser o objeto micro contido numa floresta, como ser a própria floresta quando ampliado a uma escala macro. As diferentes interpretações conduzem assim a novos mundos, transmitindo uma realidade que vai além do alcance da visão e entra no campo da sensação e do imaginário.

A maioria dos desenhos, sejam eles mais abstratos ou figurativos, quando observados de perto são um amplo campo de símbolos ambíguos, dissolvem-se em experiência subjetiva. A distância conduz à revelação, ao entendimento formal da imagem e a aproximação oferece a contemplação do particular, sem o necessário entendimento das restantes partes ou do seu conjunto. Este movimento coloca o observador simultaneamente fora e dentro da imagem. No entanto o movimento de aproximação a um desenho não equivale à sua melhor compreensão, em termos de conteúdo visível ou invisível. A observação de perto a um trabalho deforma-o e embora crie a sensação de imersão na imagem normalmente não altera as interpretações realizadas pelo observador, estas dependem da sua experiência.

Fig. 31 - (da esquerda para a direita) Exemplificação da passagem de afastamento para aproximação, do micro para o macro no desenho científico de Ramalina Farinacea, terminando a sequência com o seu

desenho artístico.

Quanto maior a proximidade ao elemento representado mais ambíguas se tornam as formas.

As fascinantes ilustrações do cientista Robert Hooke (1635-1703), em Micrographia: or some Physiological Descriptinos of Minute Bodies made by Magnifyng Glasses with observations and inquiries thereupon (1665), contemplam 38 gravuras de criaturas ou objetos inanimados observados através do microscópio e

48 telescópio. Estas são algumas das primeiras representações em ampliação que permitem observar de forma macro aquilo que está contido no micro. O seu trabalho, tendo acompanhado o desenvolvimento do microscópio, permitiu a apresentação de um novo mundo e de uma nova verdade, sendo este o primeiro livro com representações dos objetos tal como eles eram vistos através da lente, um conhecimento fundamental no campo da investigação científica. (Simblet, 2010, p.18)

Fig. 32 - Robert Hooke, Observ. XV. Of Kettering-stone, and of the pores of Inanimate bodies em Micrographia: or some Physiological Descriptinos of Minute Bodies made by Magnifyng Glasses with

observations and inquiries thereupon, 1665.

As macro pinturas de flores realizadas por Georgia O’Keeffe (1887-1986), revelam uma procura pela representação do essencial na natureza através do ritmo proposto pelas formas. Estes trabalhos, iniciados em 1924, apelam à imaginação do observador através de temas florais abstratos contemplando a beleza do mundo natural, frequentemente comparados a partes do corpo feminino. A sua obra, constituída não só pela temática das flores, como também por outros motivos importantes como paisagens e as pinturas de ossos, tornou-a uma das mais importantes artistas do século XX e da arte moderna.

Tendo estudado técnicas de pintura tradicional e formas convencionais de reproduzir a realidade fielmente, o seu percurso artístico adquiriu uma nova direção no período em que foi aluna de Arthur Wesley Dow, encorajando-a a expressar os seus

49 sentimentos e ligação com o que via.13 O fascínio pelas formas naturais e orgânicas levou-a a uma simplificação dos detalhes. Nas flores o aumento das pétalas para grandes dimensões capta o pormenor muitas vezes ignorado pelo observador, demonstrando as delicadas variantes de cor, forma e o subtil contraste entre luz e sombra.

Fig. 33 - Georgia O’Keeffe, Black Iris, 1926. Óleo s/ tela, 91,4 x 75,9 cm. Met Museum.

Os desenhos de Van Gogh exemplificam, mais uma vez, como a mudança de perspetiva altera o completo significado de um trabalho. Uma aproximação às suas paisagens revela um extenso conjunto de pontos e linhas variados, que não apresentam qualquer indicação figurativa, mas antes uma composição abstrata. O movimento de afastamento, no entanto, mostra imediatamente que estas marcas servem de equivalente a características do espaço natural, para descrever as diferentes texturas da folhagem, o céu, etc., a coesão figurativa está dependente da forma como estes símbolos se encontram espalhados pelo suporte e pelo peso que lhes é atribuído. E quanto mais longe o observador se colocar em relação aos desenhos, à medida que estes vão perdendo foco, mais parecerão uma representação realista da paisagem.

13 Georgia O’Keeffe Museum. (SD). About Georgia O’Keeffe. Disponível em https://www.okeeffemuseum.org/about-georgia-okeeffe/

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