2.1. Líquenes
2.1.1. Enquadramento teórico
Os líquenes representam uma relação simbiótica entre dois organismos, são compostos por um fungo que compõe o talo do líquen (micobionte) e uma alga unicelular ou cianobactéria (fotobionte). Embora possam coexistir em separado, partilham de uma ligação mutuamente benéfica para criar um líquen, numa associação autossuficiente. A alga reside sobre os filamentos subterrâneos (hifas) do fungo e realiza a fotossíntese, produzindo alimento através da luz solar. O fungo retira minerais de matéria orgânica em decomposição, retém a humidade e protege a alga.
São conhecidas pelo menos 18000 espécies de líquenes, embora seja estimado que o número ronde no mínimo as 250000 espécies, uma vez que taxonomistas consideram
Fig. 30 - Amanda Schutz, Lichen Pencil Drawings, 2017.
Fig. 29 - Melissa Jay Craig, LISTEN, 2009. Papel, 30,48 x 35,56 x 7,62 cm
44 que 17 a 30% dos fungos se possam tornar líquenes e calcula-se que estes excedam um milhão e meio de espécies.9
Os líquenes, pertencentes ao reino Fungi, podem viver durante muitos anos, são capazes de sobreviver a condições de seca e frio que outros organismos não conseguem tolerar. Crescem de forma lenta e não são, normalmente, muito grandes, podendo surgir em vários tipos de substrato como árvores, rochas, no solo ou mesmo em superfícies artificiais. Reproduzem-se através de esporos lançados para o ambiente ou pela dispersão dos seus fragmentos. Na insuficiência de humidade entram num estado de dormência. Apresentam diferentes colorações, como branco, castanho, verde, laranja, preto, etc. Uma vez que são muito sensíveis há poluição, podem ser utilizados como biomonitor da qualidade do ar e das alterações ambientais, pois retiram o que precisam da atmosfera e acumulam nos seus tecidos. Desta forma a espécie de líquen e a sua coloração dependem do microclima em que se insere e do substrato onde cresce, para além do tipo de fungo e alga que o constitui. A abundância de líquenes, representa uma melhor qualidade do ar, assim, locais onde estes são inexistentes refletem um ecossistema em decadência. Estudos recentes indicam que este organismo pode ser ainda mais complexo do que a relação partilhada entre as duas partes integrantes, representando uma comunidade de organismos, possivelmente composta também por leveduras e outras bactérias.
Foram recolhidas e trabalhadas 11 espécies de líquenes do parque urbano da Rinchoa, que não constituem a totalidade dos exemplares presentes no parque, sendo esta apenas uma amostra baseada na quantidade de líquenes encontrados e na sua relevância em termos gráficos, quer isto dizer que os espécimes foram escolhidos com base nas diferentes características apresentadas entre si.
Como são organismos que dependem da humidade para prosperarem, revelando as suas verdadeiras cores e texturas, a melhor altura para serem encontrados e apanhados é de madrugada, quando o ar está húmido, ou idealmente após alguns dias de chuva, pois é provável que vários líquenes tenham caído dos troncos, facilitando o seu acesso. É importante ter cuidado no modo em como são manuseados, de forma a não danificar as estruturas delicadas, sendo necessário captar a sua morfologia rapidamente, uma vez que estruturalmente estão no seu melhor logo que são apanhados. Neste
9 Fertig, W. (SD). Ten Things You Might Not Know About Lichens, But Wish You Did. Arizona State University. Disponível em https://biokic.asu.edu/ten_things_about_lichens
45 sentido, de forma a tentar perlongar este estado mais viçoso, foram realizadas algumas experiências, colocando pequenas porções de água sobre o líquen. Este volta a abrir-se lentamente, mas é fundamental restringir a quantidade acrescentada, em demasia pode alterar a constituição do espécime e a sua coloração.
Os espécimes foram identificados pela autora, com o auxílio de fotografias já existentes dos organismos, pesquisa realizada sobre os mesmos e aplicações de identificação de biodiversidade10. Dividem-se em 3 categorias principais, diferenciadas através da maneira como cresce o seu talo liquénico: líquenes crustáceos, fruticulosos e foliáceos. Os líquenes crustáceos, são os mais fáceis de observar pois surgem em variadas superfícies, como paredes, pedras, escadarias, telhados, etc., frequentemente apresentam uma forma circular e tal como o nome indica parecem crostas, como:
Lecanora Carpinea e Rinodina. Os líquenes fruticulosos, são muitas vezes bifurcados, tendem a pender dos troncos e assemelham-se a pequenos arbustos ou cachos, possuem uma grande resistência ao frio extremo e são fonte de alimentação para as renas. Neste projeto foram trabalhados: Evernia Prunastri, Ramalina Farinacea, Ramalina Fastigiata e Usnea. Os líquenes foliáceos parecem pequenas folhas e apresentam uma estrutura formada por partes arredondadas. São exemplo: Flavoparmelia Caperata, Parmotrema Perlatum, Platismatia Glauca, Punctelia e Xanthoria Parietina.
Com um significado muito além do puramente descritivo, estas estruturas, carregam uma simbologia metafórica, representando muito mais do que uma beleza desvalorizada. Considerados por uns como pragas, por outros como magníficas formas detalhadas, são “as manchas permanentes da Natureza” (Crabbe, 1810, p. 16, tradução da autora), que tal como os borrões de Rorschach podem ser chave da alma e psicológico do indivíduo. Símbolo da continuidade, resistência, renovação e renascimento, uma vez que, após um longo estado de “hibernação”, em que não apresentam atividade metabólica podem voltar a crescer quando hidratados, mas também por perlongarem o sentido de vida mesmo nos sítios mais inóspitos.
Organismos pouco submetidos aos tempos da natureza, que não partilham do mesmo
10 Foram utilizadas as seguintes ferramentas:
BioDiversity4All. Disponível em https://www.biodiversity4all.org/
Nimis, P., Wolseley. P & Martellos, S. (2009). A key to common lichens on trees in England. [PDF].
Disponível em https://www.record-
lrc.co.uk/Downloads/A%20Key%20to%20Common%20Lichens%20on%20Trees%20in%20England[070 52011].pdf
The British Lichen Society. Disponível em https://britishlichensociety.org.uk/
46 destino efémero de outros elementos orgânicos, mas que se regem pelas condições na constante alteração do mundo natural.
Para além do seu uso na ciência, medicina, alimentação e das suas características plásticas e expressivas, os líquenes, possuem qualidades materiais, podendo ser utilizados na tinturaria graças ao seu pigmento natural. Foram inclusive elementos utilizados para tingir têxteis em tempos antigos. Alguns dos organismos representados neste trabalho, como a Ramalina Farinacea, permitem obter uma cor laranja ou castanha, a Parmelia Caperata e Platismatia Glauca a cor amarela.
Na relação que estabelecem com a arte rupestre, existe um debate sobre a sua ameaça à preservação dos registos. Devido a serem organismos com capacidade de biodeteriorização da pedra, contribuem para a decomposição das superfícies onde se encontram estas pinturas. Em Portugal, no parque arqueológico do Vale do Côa, arqueólogos insistiram na sua remoção, uma vez que, as suas hifas (filamentos ou raízes) inserem-se milimetricamente na pedra, produzindo substâncias químicas que levam à sua degradação. Sendo, mais tarde, defendido por liquenólogos11 e outros arqueólogos, que estes organismos não eram o problema erosivo, ofereciam, na verdade, proteção contra alterações de temperatura e o desgaste provocado pela água.12