87
88 estas sensações encontram-se condensadas, a mão não é tão sentida, o que se constata é a essência do próprio objeto, este é o foco principal.
O grande formato permite uma maior liberdade na representação, não existe um planeamento totalmente consciente das manchas, o desenho descobre-se à medida que é construído. O tamanho obriga o artista e o observador a um movimento constante de afastamento e aproximação, de forma a apreender a imagem na sua totalidade. Esta ação pode, igualmente, ser realizada nos desenhos de formato reduzido e mais objetivos.
Observados de muito perto, ambos os trabalhos se transformam numa superfície cheia de marcas abstratas, que parecem não ter qualquer sentido, são somente matéria inscrita no suporte, quando afastados é possível conferir-lhes significado e por vezes até conceder uma interpretação mais objetiva a um desenho inicialmente pensado para ser vago e ambíguo. Existindo uma diferença na maneira como se leem as marcas relativamente às mudanças de escala, relacionada com a interpretação do mundo imediatamente compreendido. O jogo entre o micro e o macro, entre o absoluto afastamento e a aproximação intimista, envolve o observador e o artista num mundo criado pelo imaginário e pela essência da realidade. A natureza e o desenho tornam-se então um refúgio, um lugar de reflexão, liberdade e desprendimento.
Estes são desenhos que evidenciam como o olhar altera o foco entre o particular e o geral no confronto com o espaço. A fieldade e rigor para com o mundo natural requerem um estado mais atento, desperto ao pormenor, que carrega o peso da sua lenta execução e prolongamento do tempo psicológico. Interrompem essa disposição mais adormecida, experimental, envolvida no transe das formas que se apoderam e engolem o indivíduo.
Para além da interpretação de um desenho em função da sua aproximação ou afastamento, o entendimento deste depende da forma como se encontra enquadrado no suporte, assumindo significados diferentes conforme o espaço que ocupa e a sua organização. Os desenhos científicos aqui presentes, para além de se apresentarem na sua totalidade mediante uma escala micro, estão centralizados na folha, são o foco principal. Já os trabalhos artísticos representam um qualquer ponto de vista do líquen que parece mais interessante e apelativo de trabalhar, utilizando o espaço vazio da folha como elemento da composição, permitindo que o olhar passeie livremente pela superfície do desenho, simplesmente orientando-o para os pontos principais da imagem, sugerindo uma composição mais dinâmica e menos regular.
89 Cada trabalho foi realizado quase ininterruptamente, um após o outro, sendo a sua apreciação efetuada só no fim de cada conjunto de forma a criar um distanciamento da obra, para que esta não ficasse demasiado trabalhada, mas também para mais tarde perceber se haveriam aspetos a melhorar, aprofundar ou ajustar. Num constante movimento de avanço e recuo do trabalho, nunca estando o desenho completamente terminado, criando um ciclo, uma corrente impulsiva que parte de um trabalho para o outro, de forma quase hipnótica, pouco racional, alimentada pelas formas indefinidas.
Esse instante movido pela inspiração momentânea, coloca o artista, simultaneamente, dentro e fora do trabalho, é um período instável e de alguma desordem, em que o resultado final não é totalmente previsível ou projetado.
Algumas das tentativas iniciais nos desenhos artísticos das manchas por vezes não resultavam, assim optava-se por começar de novo, em vez de insistir num trabalho que não estava a funcionar. Berger refere que este é o “momento crítico” do desenho, quando se decide se este vai correr bem ou mal, se o que já foi desenhado tem tanto interesse como o que ainda falta descobrir. A continuação do trabalho irá acentuar os requisitos que correspondem às suas necessidades, um desenho fiel continuará a busca pela verdade, pela semelhança, enquanto que um infiel à realidade acentuará as características que o definem, tornar-se-á ainda mais distante do ponto de partida.
(Berger, 2011, p.14)
90 CONCLUSÃO
Não existe forma correta de caminhar pelo mundo ou através do processo de criação. Este projeto pretende mostrar evidências de uma experiência pessoal, alicerçada e justificada pelas fontes literárias e gráficas descritas ao longo do trabalho. Mas o percurso traçado é um território individual, do qual são fruto as experiências e sensações que formam o percurso daquele que cria, unindo-se na construção do seu reportório artístico.
A representação do mundo natural evoluiu ao longo dos tempos, este deixou de ser apenas um cenário e passou a refletir a sua beleza, força e a importância da proteção e preservação do ambiente. A natureza revela-se como o ponto de conexão, a zona de tangência entre as duas linguagens, a do desenho científico e a do artístico. E os líquenes, estas verdadeiras obras de arte da natureza, pequenas florestas demonstram através da sua relação simbiótica a importância da cooperação simultânea das partes na construção do todo. A combinação entre um trabalho de estudo profundo e uma representação imediata expressiva.
Ao longo deste projeto tencionou-se promover os líquenes como modelo de inspiração no início de um desenho científico ou artístico, pela sua natureza ambígua, que provoca a procura pelo conhecimento e pela imaginação. Tal foi realizado através de um conjunto de trabalho que não só ilustra estas duas vertentes, mas que também tenta unificá-las, mediante a utilização da mesma técnica, do processo de conhecimento e autoconhecimento, integrando a natureza, utilizando a caminhada como ferramenta de meditação e análise. Um processo que agora fica disponível para referência e possivelmente continuação futura.
Durante o desenvolvimento do projeto surgiram alguns desafios, inicialmente com a quantidade de espécimes a representar, tal ficou resolvido com a decisão de trabalhar apenas uma amostra dos organismos presentes num parque específico. Selecionando espécimes que eram visualmente diferentes, o que possibilitou uma representação mais abrangente e diversificada.
Uma outra condicionante advém do facto da autora não ter conhecimento científico que permitisse identificar prontamente cada líquen. Assim procurou-se seguir um percurso de autoaprendizagem. Fazendo pesquisas prévias, através da determinação
91 de imagens semelhantes aos organismos apanhados, consultando sites, aplicações e guias de identificação que auxiliaram a classificação de cada espécime.
Foi possível entender no decorrer da investigação que a paisagem não representa só o cenário natural que se oferece à visão, convoca também a utilização dos outros sentidos para totalizar a experiência. Além disso, a floresta é símbolo do território psicológico dos pensamentos pelos quais se caminha. Podendo ainda ser constituinte dos próprios elementos que a compõem e que em si exibem uma paisagem alternativa natural, talvez impossível e que exige a imaginação por parte do seu observador, como são exemplos os líquenes neste projeto.
Caminhar e desenhar associam-se, desta forma, com a natureza, manifestando uma relação de domínio sobre aquele que caminha, observa e cria. Dando-se o sujeito a estes elementos e deixando-se evadir por eles, procura e tenta encontrar a sua unidade, a sua relação com aquilo que observa, o que experiencia, que julgava conhecer e que volta a aprender. Num confronto desarmado de pressupostos, sem tentar apropriar-se do que vê, mas com conhecimentos que são reaprendidos, numa exploração contínua do visível e do invisível, do que já é sabido e do desconhecido, possibilitando a perda, deambulação, desapego num território consciente ou inconsciente com um percurso constante. E por isso o objeto representado serve como memória, não em termos de suposição da forma, mas de agregação de experiência sensível obtida pelo contacto com o mundo tangível, pelo o efeito que este causou no observador. Tal como a interação do corpo com o mundo que o rodeia é simultaneamente percetiva e consciente, sensorial e racional, também o desenho é uma mistura da linguagem artística (expressivo ou abstrato) e científica (objetivo).
A caminhada realiza-se no lugar, na mente, no universo dos pensamentos, interconectando-os, estabelecendo relações, formando ideias. É da mesma forma utilizada no desenho, caminha através dele, explora-o.
O desenho científico refere-se então, em conclusão, à procura e entendimento do mundo exterior, da natureza. Enquanto que o desenho artístico tem acesso ao mundo interior e à compreensão do artista. São duas realidades que simplesmente não existem uma sem a outra, não há controlo sem espontaneidade e vice-versa. O desenho é a forma de ordenar e exprimir o pensamento desorganizado.
O texto escrito no seguimento do trabalho prático é no fundo uma análise que tenta de forma racional compreender um processo que na prática é algo divagante.
Analisando todo o percurso, desde a maneira como o projeto foi pensado, até aos
92 estados mentais durante e após o trabalho, bem como as sensações associadas ao estar, caminhar e criar, permitindo o alcance de uma compreensão do psicológico e da forma autónoma de trabalhar e apreender o mundo, concedendo tempo para pensar e ganhar uma sensibilidade sobre os temas aqui abordados que trarão uma nova perspetiva em trabalhos futuros. Criando um distanciamento de todo o processo e tentando perceber como é que funcionou e como é que as diferentes fases foram assimiladas e compreendidas. Entendendo que existe a certeza no trabalho realizado e no que foi sentido, mas uma incerteza na totalidade, o trajeto nunca está completamente encerrado, porque o “eu” não se completa é um sujeito em permanente mudança e por isso o que o rodeia está em permanente alteração tal como o mundo. Então sempre que o corpo voltar a caminhar, a observar ou a desenhar, irá haver um conceito, uma experiência e um pensamento diferente, algo novo a explorar apurado a cada momento.
Sendo descritas as decisões tomadas ao longo da parte prática do projeto, que material utilizar, como é que as duas linguagens se iriam ligar, qual a apresentação que seria mais adequada para uma possível exposição dos trabalhos, compreende-se que todas elas foram tomadas inconscientemente, mas que têm por base conhecimentos adquiridos ao longo do tempo e por isso foram construídas de forma tão orgânica e devido ao percurso pessoal de forma tão relevante.
Um caminho iniciado com muitas dúvidas e incertezas, que avançou para uma fase de busca, exploração, criando gradualmente um conhecimento e maior respeito pela natureza, um entendimento das capacidades expressivas pessoais, que no fim culminou num projeto que expressa por palavras e principalmente por imagens o estudo de caso do “eu” individual e próprio.
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