O DOCUMENTO ELETRÔNICO COMO MEIO DE PROVA NO PROCESSO CIVIL
3.6 DOCUMENTO ELETRÔNICO
À parte, contra a qual o documento é oferecido, terá assim, oportunidade de manifestar-se sobre a sua admissibilidade, cumprindo ao juiz resolver desde logo quanto a essa questão. De capital importância é essa audiência contra quem se produziu o documento, porquanto, conhecendo-o, poderá ela, nos termos do art. 372265 do CPC, oferecer, de pronto ou no prazo do art. 390266, impugnação quanto à autenticidade da assinatura e à veracidade do seu contexto.
Por fim, a que se destacar a atitude da parte contra a qual o documento é oposto uma vez que esta deve se manifestar sobre sua veracidade, mas a apreciação ou não de tal documento cabe ao magistrado.
Todavia, pode se entender que para admissibilidade de um documento o mesmo deve preencher os seus requisitos principais, de qualquer sorte, o juiz é o responsável em admitir ou não o documento proposto no processo.
assumimos que estes também se enquadrariam em sua classificação de documentos informáticos.
Para Junior268 podemos ir um pouco além, subclassificando- os em dois grupos:
[...] os documentos informáticos, stricto senso, fruto de um original cartular e transmitidos telematicamente; e o documento eletrônico, aos quais Barbosa Moreira não se referiu, mas que seriam os documentos residentes na memória de um computador e que exigem sua utilização para cognição.
Ainda prescreve o mesmo autor no sentido de que se o documento é a representação de um fato, ou a coisa que representa um fato, então documento eletrônico seria o arquivo eletrônico capaz de representar um fato através do tempo e do espaço269.
No entendimento de Marcacine270 um conceito atual de documento, para abranger também o documento eletrônico, deve privilegiar o pensamento ou fato que se quer perpetuar e não a coisa em que estes se materializam.
Isto porque o documento eletrônico é totalmente dissociado do meio em que foi originalmente armazenado. Um texto, gravado inicialmente no disco rígido do computador do seu criador, não
267MOREIRA, op. cit., p. 120.
268 JUNIOR, Ivo Teixeira Gico. O documento eletrônico como meio de prova no Brasil.
Disponível na internet em: www.jupitercommunications.com/jupiter/press/releases/1999/1108.html.
Acesso em 13 de abr. 2006.p 5.
269 Quando nos referimos a documento, o correto seria apenas 'capaz de representar um fato através do tempo', pois o documento guarda a informação passada para o futuro, e esse é o seu aspecto mais importante. No entanto, quando nos referimos ao documento eletrônico, temos um novo elemento, não só ele capaz de guardar para o futuro informações passadas, como possibilita a sua utilização simultânea em qualquer lugar do mundo, superando assim a barreira espacial e temporal de conhecimento de seu conteúdo representativo. Para tanto, basta que o documento esteja arquivado em um computador conectado a uma rede. Sendo este servidor (computador utilizado como ponto de conexão e processamento de ume rede de comunicação) conectado à Internet, então o referido documento estará ao alcance de qualquer um, em qualquer parte do globo, simultaneamente (no limite de acessos do servidor, é claro).
270 MARCACINI, Augusto Tavares Rosa. O Documento Eletrônico como Meio de Prova. In:
Revista Eletrônica InfoDireito.
http://www.infodireito.com.br/infodir/index.php?option=com_content&task=view&id=44&Itemid=42, p. 4.
está preso a ele. Assumindo a forma de uma seqüência de bits, o documento eletrônico não é outra coisa que não a seqüência mesma, independentemente do meio onde foi gravado
Em sentido próximo, Camoglio271 ensina que o documento informático272 (documento eletrônico para nós) representa dados armazenados em memórias computadorizadas, ou resultante de cálculos efetuados por meio de elaboratori elettronici273.
Assim, para Marcacine274, renovando o conceito de documento - e até retornando à origem do vocábulo.
Documento é o registro de um fato. Se a técnica atual, mediante o uso da criptografia assimétrica, permite registro inalterável de um fato em meio eletrônico, a isto também podemos chamar de documento.
Nas palavras de Perentoni,275 qualquer objeto material contendo um texto escrito ou em elemento gráfico dotado de significado jurídico e utilizado judicialmente para provar um fato deve ser considerado como documento, independentemente de qual seja seu suporte material.
No Brasil, alguns projetos de lei começam a tratar do assunto276, mas apenas um traz uma definição do que venha a ser documento eletrônico. O Projeto de Lei n° 2.644277 diz o seguinte em seu artigo 1°:
271CAMOGLIO, op. cit., p. 575.
272Por rigor metodológico manteremos a nomenclatura utilizada pelo autor, mas como já dissemos antes, documentos informáticos serão partes de uma categoria mais ampla, que abarcaria tanto os documentos informáticos stricto senso (e.g. telex, telegrama), quanto os documentos eletrônicos propriamente ditos (arquivos de computador). Pelo menos esta é a diferenciação que adotamos no presente trabalho.
273 Laboratório eletrônico, Tradução livre do leitor.
274 Ibid, p. 5
275 PARENTONI, Leonardo Netto. A regulamentação legal do documento eletrônico no Brasil . Jus Navigandi, Teresina, a. 9, n. 772, 14 ago. 2005. Disponível em:
<http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=7154>. Acesso em: 08 abr. 2006.p. 7.
276 Projeto de Lei n° 1.483, 1999, que trata da fatura eletrônica, mas tem apenas dois artigos, o que, em conjunto com sua redação lacônica, nos faz duvidar da seriedade da proposta, e o Projeto de Lei n° 1.589, 1999, produzido pela OAB, e que é uma adaptação da Lei Modelo de Comércio Eletrônico da UNCITRAL, órgão especial das Nações Unidas para regulação do comércio internacional.
Considera-se documento eletrônico, para efeitos desta Lei, todo documento, público ou particular, originado por processamento eletrônico de dados e armazenamento em meio magnético, optomagnético, eletrônico ou similar.
Relevante fazer aqui uma distinção de que se ocupam muitos dos doutrinadores estrangeiros, entre o documento formado pelo computador e por meio do computador.
No entendimento de Junior278 por documento eletrônico se entende, a priori, ambos.
Retomando, nesta hipótese, o computador não se limita a documentar a vontade externa, mas determina o conteúdo de tal vontade; a linguagem eletrônica não constitui simples documentação de uma vontade já expressada pelas formas tradicionais, mas constitui a forma entendida como elemento expressivo necessário de tal vontade, a manifestação exterior necessária da regulação dos interesses.
Diverso é o caso em que o computador não forma mas documenta uma regulação de interesses já expressos em outras instâncias ou em outras formas; em tais casos, com efeito, a atividade do computador não se dirige a constituir, mas apenas a materializar, e portanto, a tornar menos controvertida a regulação, a relação ou o fato jurídico preexistente279.
De qualquer sorte, Junior280 destaca que, o elemento representativo de que se valerá a parte interessada em um processo para influir na cognição do juízo é o documento eletrônico residente na memória de um computador, com o auxílio deste, ou a sua impressão (cópia), resultando na sua cartularização.281
277 CÂMARA DOS DEPUTADOS, Projeto de Lei n° 2.644, 1996, autoria do Deputado Jovair Arantes, CD, Congresso Nacional.
278 JUNIOR, Ivo Teixeira Gico. O documento eletrônico como meio de prova no Brasil, p. 6.
279GIANNANTONIO, op. cit., p. 94.
280 JUNIOR, Ivo Teixeira Gico. O documento eletrônico como meio de prova no Brasil, p. 7.
281Não utilizamos a expressão materialização pois poderia levar o leitor menos avisado a pensar que o documento eletrônico não é algo material, o que seria um equívoco.
No pensamento de Lopes282, em qualquer dessas espécies ressalta que o documento é sempre uma coisa corpórea, o que num primeiro momento lance, afastaria a idéia de que documento eletrônico, só existe no mundo virtual.
Segundo o mesmo autor a objeção é, porém, facilmente superada com a abservação de que os bits do mundo virtuais, submetidos a programas de informática, transmitem informações que podem ser materializadas com o uso do papel.
Nesse sentido, Lima Neto283 situa o documento eletrônico como um meio de prova não elencado especificamente no Digesto Processual Civil, mas, reconhecido por este diploma legal, de forma genérica, como um meio válido desde que não esteja eivado de ilicitude.