Os primeiros estudos sobre empreendedorismo originaram-se nas ciências econômicas, com a teoria de Schumpeter (1982), daí surgem as principais constatações iniciais, portanto para conceituar empreendedorismo é preciso buscar algumas vertentes e Ferger (2008) traz algumas constatações. Do ponto de vista comportamental, afirma que “empreendedorismo significa tomar iniciativa, organizar mecanismos sociais e econômicos para transformar recursos e situações em algo prático e aceitar o risco ou o fracasso”. Para os economistas, “os empreendedores são aqueles que combinam recursos, trabalho, materiais e ativos para tornar o seu valor maior que antes; é também aquele que introduz mudanças, inovações e uma nova ordem”.
Nessa perspectiva, na visão de um psicólogo, o empreendedor “é a pessoa impulsionada pela necessidade de obter ou conseguir algo, experimentar, realizar ou fugir da autoridade de outros” (FERGER, 2008).
No decorrer dos anos, outros estudos têm sido feitos e esse processo histórico continuará a ser levantado para subsidiar essa pesquisa, bem como permitir um melhor entendimento das teorias apresentadas até então. No entanto, Fillion (1999,p.19) reuniu vários elementos que são encontrados fragmentados, nos vários conceitos apresentados em estudos de empreendedorismo e apresentou o seguinte conceito sobre o ser empreendedor
é uma pessoa criativa, marcada pela capacidade de estabelecer e atingir objetivos e que mantém alto nível de consciência do ambiente em que vive, usando-a para detectar oportunidade de negócios. Um empreendedor que continua a aprender a respeito de possíveis oportunidades de negócios e a tomada de decisões moderadamente arriscadas que objetivam a inovação continuará a desempenhar um papel empreendedor.
O autor resumiu esse conceito, mantendo apenas os elementos essenciais, dessa forma, define “um empreendedor é uma pessoa que imagina, desenvolve e realiza visões” (FILLION, 1999, p. 19).
Apesar de ser um campo com muitos estudos, ainda permite muitas pesquisas focadas em áreas que ainda não foram abordadas, abrindo assim lacunas para novas oportunidades e inovação acadêmicas.
Para Favoreteo et al. (2012), o empreendedorismo é marcado pela complexidade e propõem, em seu estudo, discutir algumas questões endógenas da ciência empreendedora, com o objetivo de contribuir para a clarificação do sistema conceitual do campo empreendedor.
Nessa linha de raciocínio, Favoreteo et al. (2012) consideram que os estudos em empreendedorismo oscilam entre três frentes, partindo dos atributos teóricos e empírico do campo estudado. Postula que ora se cuida da figura do empreendedor, considerado o protagonista do fenômeno; ora se cuida do empreendimento, resultante do esforço empreendedor; ora se cuida do processo empreendedor, considerado a ligação por meio da qual, do primeiro, se conduz ao segundo.
Considerando essas três macroabordagens, os autores procuraram sistematizar os estudos, a partir do que se tem desenvolvido teoricamente no campo, mostrado em resumo no quadro abaixo.
Quadro 11: Macroabordagens do estudo do empreendedorismo.
VERTENTES ALGUMAS DAS PERSPECTIVAS
IDENTIFICADAS REFERÊNCIAS
Indivíduo Empreendedor
O empreendedor como agente econômico gerador de riquezas.
Cantillon (2001), Say (2002), Smith (1985).
Psicologia do empreendedor. McClelland (1961),
McClelland e Burnham (1976) O empreendedor como agente de inovação. Schumpeter (1982), Drucker
(1986), Baron e Shane (2007) Características do indivíduo.
Filion (1999), Hisrich e Peters (2004)
O intraempreendedor.
Kuratko e Hodgetts (2001), Ghoshal e Bartlett (2000), Chisholm (1987)
Empreendimento
Pequenas e médias organizações.
Mintzberg (2003), Marino et al. (2008), Lechner e Leyronas (2009)
O empreendimento como locus de inovação e desenvolvimento.
Schumpeter (1982), Hagen (1969)
O empreendimento como operacionalização da livre organização.
Bygrave (1997)
Processo Empreendedor
O processo como fenômeno complexo.
Shapero e Sokol (1982), Bygrave (1997), Aldrich e Martinez (2001), Anderson (2000)
Fenômeno coletivo.
Shapero e Sokol (1982), Aldrich e Martinez (2001) Sobrevivência Organizacional.
Aldrich e Martinez (2001), Hannan e Freeman (2005) Fases processuais.
Baron e Shane (2007), Bygrave (1997)
Fonte: Favoreteo et al. (2012).
Na concepção de Espejo et al. (2006), “o empreendedorismo gera impactos na sociedade, na economia e na política, produzindo empregos, gerando rendas, proporcionando crescimento e desenvolvimento.
Para o Global Entrepreneurship Monitor - GEM (2008), a população brasileira é classificada como uma das mais empreendedoras do mundo, empreendedorismo é,
“qualquer tentativa de criação de um novo negócio ou novo empreendimento, como por exemplo, uma atividade autônoma, uma nova empresa ou a expansão de um empreendimento existente por um indivíduo, grupos de indivíduos ou por empresas já estabelecidas.”. (GEM, 2008, p. 134).
Entretanto, para o desenvolvimento de novos negócios ou produtos não é necessário somente a motivação, é preciso também conduzir de forma satisfatória para que se tenha sucesso. Nesse sentido, Dias et al. (2008) sugerem que os empreendedores precisam contar
com extensa variedade de habilidades sociais, as quais envolvem um conjunto de capacidades que permitem aos indivíduos interagirem uns com os outros.
Filard et al. (2014) desenvolveram um estudo para identificar a evolução das características empreendedoras de 1848 a 2014 do homo empreendedor ao empreendedor contemporâneo. Com o objetivo de analisar a evolução das características empreendedoras partido dos estudos de Kuratko e Hodgetts (1995) sobre estas características de 1848 até 1982.
Fez um estudo bibliométrico que “apontou em seus resultados para um perfil empreendedor muito mais relacional, baseado mais em competências interpessoais e sociais e focado nas demandas do ambiente externo, do que o perfil auto centrado, soberano, autônomo e independente do empreendedor da primeira fase do século XX”.
Para ampliar o entendimento, faz-se necessário um retrospecto do processo histórico no que tange ao empreendedorismo. Serão apresentados, a partir da pesquisa de Escobar (2012), os primeiros estudos que datam do final do século XVIII e início do século XIX, com os pioneiros Richard Cantillon e Jean-Baptista Say.
Quadro 12: Cronologia de conceitos de empreendedorismo.
Autor Ano Conceitos
Cantillon 1755 Introduziu o termo empreendedorismo.
Say
1803 - Elaborou uma teoria que evidenciava as funções dos empresários e atribuiu-lhe um papel especial.
1888
- Os empreendedores são planejadores, avaliadores de projetos e tomadores de riscos. (...) eles são capazes de alterar os recursos econômicos de uma área de baixa produtividade, transformando-a em uma área de produtividade e lucratividade elevadas.
Schumpeter
1934
- O empreendedor é aquele indivíduo que é capaz de aproveitar as chances das mudanças tecnológicas e introduzir processos inovadores nos mercados.
1978
É quem faz novas combinações de elementos, inventando novos produtos e processos, identificando novos mercados de exportação ou fontes de suprimento, criando novos tipos de organização na busca do desenvolvimento regional.
McClelland 1972
Aponta como um dos traços mais importantes do empreendedor a motivação para a realização ou o impulso para melhora.
Drucker 1986
O empreendedor é também alguém que aproveita as oportunidades, criando algo que irá gerar valor.
Degen 1989 É o agente do processo de destruição criativa que é o impulso fundamental que aciona e mantém em marcha o motor capitalista.
Gerber 1998 É o processo de descobrir ou desenvolver uma oportunidade para gerar valores através da inovação.
Fillion 1999
O empreendedor é um identificador de oportunidades de negócio que cria e define contextos, visualiza situações, determina objetivo e projeta e concebe estruturas organizacionais, as quais põem em funcionamento no sentido de explorar a oportunidade existente.
Apontam que embora exista um visível crescimento de pesquisa sobre
Shane e Venkataraman
2000 empreendedorismo não há, no entanto, um modelo conceitual integrador que o explique e, por vez, que possa ser aplicado a uma variedade de contextos.
Morris e Kuratko
2002
Dentro e fora do campo do empreendedorismo, a orientação empreendedora emergiu como a união dos conceitos de estratégia e empreendedorismo.
Dornelas
2003
É representado por um processo em que as pessoas são diferenciadas, possuem motivação singular, são apaixonadas pelo que fazem, não se contentam em ser mais um na multidão, elas querem ser reconhecidas e admiradas, referenciadas e imitadas, querem deixar um legado.
2008
Uma oportunidade de criar um negócio para capitalizar sobre ele, assumindo riscos calculados.
Baron e Shane 2007
O empreendedorismo ajusta-se muito mais à ideia de um processo em movimento do que à de um evento único. O fenômeno empreendedor revelar-se-ia, assim, não imediato, mas ao longo de fases sucessivamente encadeadas, presentes – respeitadas as naturais variações – no ciclo de vida de qualquer empreendimento.
Hisrich, Peters e Shepherd
2009
Processo que ocorre em diferente ambientes e situações organizacionais, adequando-se as situações de mudança. Caracteriza-se pela inovação provocada por pessoas que geram ou aproveitam oportunidades e que, nesse movimento, criam valor tanto para si próprias com para a sociedade.
Maximiano 2011
A ideia de um espírito empreendedor está de fato associada a pessoas realizadoras, que mobilizam recursos e correm riscos para iniciar organizações de negócios.
Filard. et al 2012 Os principais fatores associados à mortalidade precoce das micro e pequenas empresas e concluiu que as características ligadas diretamente à atuação do empreendedor à frente do negócio mostraram-se decisivas na sobrevivência das empresas estudadas
Autor Ano Conceitos
Vale, et al 2014 Os motivos que levam um indivíduo a empreender ultrapassam a lógica binária de oportunidade versus necessidade, incluindo: atributos pessoais, mercado de trabalho, insatisfação com emprego, família e influência externa.
Fonte: Adaptado de Escobar, (2012) atualizado pela autora.
Com isso, verifica-se o desenvolvimento do empreendedorismo ao longo dos anos, que demonstra sua dinâmica progressiva, o que inova os estudos continuamente. Assim, após a passagem pelos conceitos aqui apresentados, identificou-se a relação com as competências, cabendo dar continuidade aos estudos para entender as competências empreendedoras necessárias para o desenvolvimento de negócios por meio das pessoas.