2.1 INOVAÇÃO
2.1.2 Inovação social
A pesquisa na área de inovação social tem demonstrado que é um conceito relativamente novo, apesar de Cloutier (2003) afirmar que os primeiros autores a usarem o termo “inovação social” foram Taylor (1970) e Gabor (1970), onde cada um defende de uma forma. Taylor visa a transformação dos indivíduos na busca de melhorias para a sua vida. Já Gabor trata a inovação social como uma ferramenta utilizada na solução de problemas de um determinado território.
Na visão de Dadoy (1998), “Inovação Social seria um complexo de ações “destruição- reestruturação” de uma unidade de produção de bens ou de serviços para melhorar as formas de cooperação dentro do sistema de trabalho, gerando, assim, uma maior eficiência no sistema de produção”.
Foi ressaltado por outros autores no constructo de inovação e aqui Lévesque (2002) assume que as organizações da nova economia social inovam à medida que promovem formas econômicas que favorecem o desenvolvimento da esfera social.
Em um dos estudos desenvolvidos por Cloutier (2003), uma das pesquisadoras do CRISES, conclui que a inovação social resulta da colaboração entre uma variedade de atores.
A partir desta perspectiva a inovação social pode ser vista como um processo de aprendizagem coletiva e de criação do conhecimento. Ela também requer a participação dos utilizadores e em diferentes graus variáveis durante o decorrer do processo de criação e aplicação da inovação social.
Essa colaboração, segundo Albagli e Maciel (2004), pode resultar em quantidades bem maiores de inovações e até mesmo fortalece a rede de cooperação dos parceiros ligados a ela, bem mais do que as que não fazem isso.
Na concepção de Moulaert et al. (2005) a inovação social propende a satisfação da necessidade humana como forma de mudanças nas relações sociais, sobretudo no que diz às diferentes formas de governar, ampliando, assim, o nível de participação dos membros de um grupo e a capacidade sociopolítica dos seus cidadãos, bem como acesso aos recursos necessários que atendam suas necessidade à participação social
Para Dandurand (2005), a inovação tecnológica e a inovação social são complementares, visto que, as inovações sociais necessitam de base tecnológica.
André e Abreu (2006) destacam que é mais comum associar a inovação social a um produto, por analogia com a inovação tecnológica e citam exemplos em que as ações de inclusão social através da arte são um produto (serviço) inovadores, em que a capacitação das
pessoas de exclusão se dá em domínios de acesso socialmente restrito. Afirma ainda que, no âmbito dos processos de inovação social, onde a mesma assume maior relevância, é comum associarmos à inovação social a dois atributos: a inclusão social e a capacitação dos agentes mais “fracos”.
Nesta perspectiva, Rollin e Vicente (2007) confirmam que diferentes definições e abordagens conduzem à compreensão e a necessidade de análise de que a inovação social se diferencia da inovação tecnológica por não se enquadrar na lógica de competição de mercado ou de atendimento dos caprichos dos clientes.
Para Farfus e Rocha (2008), o estado de acomodação diante das mudanças trouxe como consequências vários problemas sociais, aumentando assim a desigualdade social.
Enquanto o mercado procura tornar-se mais competitivo, a sociedade só aumenta os seus problemas.
O próprio Manual de Oslo da OCDE, referência para as atividades de inovação tecnológica, afirma haver um elo indissociável entre inovação e desenvolvimento econômico:
a alavancagem simultânea de novos produtos e métodos a partir da criação e difusão de novos conhecimentos.
Historicamente, observa-se que diversas medidas tecnológicas, com o intento de resolver os problemas centrais do mundo tiveram efeito oposto, ou seja, os intensificaram.
Conforme Howaldt e Schwarz (2010), os efeitos colaterais sociais imprevisíveis e novos problemas sociais foram, geralmente, associados com as novas tecnologias, sendo necessárias extensas "mudanças sociais", ou melhor, "medidas não-tecnológicas", o que já provocou diversas discussões sobre a necessidade de um modo de vida diferente e de uma economia diferente, em particular nas sociedades industriais, como a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento de 1992, que adotou a Agenda 21, indicando alternativas de desenvolvimento ecológico, social e economicamente sustentável, o que está de acordo com Lange (2008), o qual afirma que a resposta para os problemas sociais não pode ser encontrada no paradigma de uma sociedade industrial, o que precisamos são inovações sociais.
Machado, Lehmann et al. (2008) afirmam que com a abertura do mercado na década de 90, principalmente o Brasil se sentiu pressionado a busca por tecnologias que acompanhassem a modernidade das multinacionais.
Com a inserção das inovações tecnológicas que contribuíram para a massificação do desemprego a inovação social aparece como estratégia utilizada em resposta ao impacto na reestruturação econômica por volta dos anos 80-90 (Comissão Europeia, 2011). Para (Bepa,
2011) a “inovação social leva ao desenvolvimento e implementação de novas ideias (produtos, serviços e modelos) com o objetivo de atender às necessidades sociais e criar novas relações sociais ou colaborações”.
Rousselle (2011) afirma em seu estudo que a inovação social surge de ações de cidadãos voltados para a coletividade e ações se transformam em produtos ou serviços, enquanto a tecnológica vem do ambiente industrial.
Ferrarini (2011) também contribui com esta pesquisa ao afirmar que processos e resultados são elementos indispensáveis para que a inovação cumpra com seu papel, de fato, que é transformação da realidade.
Bignetti e Silva (2012) afirmam que hoje se ultrapassou fronteiras da inovação tecnológica que visava apenas a resultados para inovação social. Fuck e Vilha (2012) complementam dizendo que o ambiente competitivo entre empresas capitalistas é propício para que a inovação aconteça e, mais ainda, para estimular o empresário a, cada vez mais, buscar melhorias.
Silva (2013) vai mais além e argumenta que as inovações sociais são um produto social, que, em si, geram valor de maneira única e de difícil replicação, seja por meio de combinações específicas de recursos ou pela construção conjunta de novos recursos. Essa complexidade de atores forma redes, fluxos, gerando novas formas de saberes e configurações sociais.
Consequentemente, o termo inovação social vai estendendo-se conscientemente, principalmente, para a ação empreendida pelo Estado e ao longo destes desenvolvimentos, consecutivamente têm se movido cada vez das margens para o centro das atenções.
Oliveira (2013) afirma que o surgimento de uma inovação social ocorre, principalmente, quando um desejo ou necessidade não está sendo satisfeita pelo Estado, ou pelo mercado e que encontra, principalmente, nos países em desenvolvimento mais espaço de atuação, pelas condições de degradação da vida humana.
A autora continua afirmando que há necessidade da inovação social receber o mesmo tratamento dispensado à inovação tecnológica, por meio de políticas públicas, projetos, legislações, órgãos de apoio etc.
Quadro 5: Definições de inovação social segundo diferentes autores e fontes.
Autor Conceito
Taylor (1970) Formas aperfeiçoadas de ação, novas formas de fazer as coisas, novas invenções sociais.
Daninho e Gomes (2000, in Daninho et
al,2004)
Conhecimento intangível ou incorporado a pessoas ou equipamentos, tácito ou codificado, que tem por objetivo o aumento da efetividade dos processos, serviços e produtos relacionados à satisfação das necessidades sociais.
Cotie (2003) Uma resposta nova, definida na ação e com efeito duradouro, para uma situação social considerada insatisfatória, que buscam bem-estar dos indivíduos e/ou comunidades.
Stanford Social Innovation Review
(2003)
O processo de inventar, garantir apoio e implantar novas soluções para problemas e necessidades sociais.
Nove Lobolo (2005) A inovação social deriva principalmente de satisfação de necessidades humanas básicas; aumento de participação política de grupos marginalizados; aumento na capacidade sociopolítica e no acesso a recursos necessários para reforçar direitos que conduzem a satisfação das necessidades humanas e a participação.
Rodrigues 2006) Mudança na forma como o indivíduo se reconhece no mundo e nas expectativas recíprocas entre pessoas, decorrentes de abordagens, práticas e intervenções.
Moulaert et al. (2007) Ferramenta para uma visão alternativa do desenvolvimento urbano, focada na satisfação de necessidades humanas (empowerment) através da inovação nas relações no seio da vizinhança e da governança comunitária.
Mulgan e al.(2007) Novas ideias que funcionam na satisfação de objetivos sociais; atividades inovativas e serviços que são motivados pelo objetivo de satisfazer necessidades sociais e que são
predominantemente desenvolvidas e
difundidasatravésdeorganizaçõescujospropósitosprimáriossãosociais.
Phills et al.(2008) O propósito de buscar uma nova solução para um problema social que é mais efetiva, eficiente, sustentável ou justa do que as soluções existentes e para a qual o valor criado atinge principalmente a sociedade com o todo e não o indivíduo em particular.
Pol e Ville (2009) Nova ideia que tem o potencial de melhorar a qualidade ou a quantidade da vida.
Murray et al. (2010) Novas ideias (produtos, serviços e modelos) que simultaneamente satisfazem necessidades sociais e criam novas relações ou colaborações sociais. Em outras palavras, são inovações que, ao mesmo tempo, são boas para a sociedade e aumentam a capacidade da sociedade de agir.
Kania; Kramer (2011) O desenvolvimento de novos modelos de negócios para o atendimento dos anseios da base da pirâmide, sendo realizado de uma maneira sustentável, demonstrando que a empresa investe no desenvolvimento de inovações sociais para contribuir com a transformação da sociedade de uma maneira equilibrada e justa.
Nobre e Ribeiro (2013) O trabalho conjunto e compartilhado entre a sociedade e as empresas pode proporcionar o desenvolvimento de novos mercados e negócios. A concepção, desenvolvimento e estratégias de negócios que contemplem questões de cunho social é uma forma de aperfeiçoar a organização para se manter em constante evolução no que diz respeito a capacidade de flexibilização para atendimento dos diversos públicos consumidores, em especial os localizados na base da pirâmide.
Autor Conceito
Maurer e Silva (2014) As inovações sociais são vistas como alternativas para resolver problemas sociais e ambientais enfrentados pela humanidade. No entanto, o termo abrange uma ampla gama de definições que podem incluir uma variedade de iniciativas. Com base em dimensões analíticas para o reconhecimento de inovações sociais. O surgimento de empreendimentos coletivos no setor de artesanato brasileiro é consistente com as dimensões estudas e permitiu, uma compreensão de como soluções sociais são desenvolvidas em conjunto e podem ser usadas para gerar outras inovações sociais ou melhorar as já existentes.
Fonte: Adaptado de Luiz Paulo Bignetti, 2011 e atualizado pela autora.
2.1.2.1 As dimensões de análise de inovação social
A definição de Inovação Social pelo centro de maior referência em pesquisas sobre essa temática do Canadá – O Centre de Recherche sur lês Innovations Sociales – CRISE é definida como:
Um processo iniciado pelos atores sociais para responder a uma aspiração humana, suprir uma necessidade, trazer uma solução ou aproveitar uma oportunidade de ação, na intenção de mudar as relações sociais, de transformar um quadro de ação ou de propor novas orientações culturais (CRISES, 2010, p.5).
Foi com base nessa definição que os estudos, divididos em três subáreas, foram desenvolvidos pelos pesquisadores do centro, Tardif e Harrison (2005), com o objetivo de sistematizar esses estudos, desenvolveram um trabalho que produziu uma síntese dos conceitos de inovação social utilizados pelos 49 estudos publicados pelos membros do Centro, com foco nos eixos: 1) Inovações Sociais nas relações de trabalho e na geração de emprego; 2) Inovações Sociais nas condições de vida; e 3) Inovações Sociais territoriais.
De acordo com CRISES (2010), esses estudos em cada eixo foram apresentados com focos diferenciados e, assim, sistematizados em seu modelo: no eixo de trabalho e emprego as pesquisas demonstravam em seus resultados que estavam voltados para a organização do trabalho, a regulamentação do emprego, na governança corporativa e na economia do conhecimento. Nesse eixo, os estudos foram analisados sobre inovações no trabalho, no âmbito de empresas e de setores industriais, além de nas funções públicas exercidas pela Economia Social. Além destes estudos, formas de emprego diversificadas e novas competências, como as mudanças no trabalho, na diversidade no trabalho, no trabalho atípico e na inserção social também fizeram parte desta análise. A institucionalização e difusão de inovações. Como por exemplo, a negociação coletiva (com características e especificidades analisadas em relação a outras áreas e estudos comparativos internacionais) compunham o quadro de análise deste eixo.
Nas pesquisas voltadas para o eixo condições de vida, identificaram dentre os temas, estudos que retratavam aspectos de consumo, uso do tempo, ambiente familiar, inserção no mercado de trabalho, habitação, saúde e segurança, geralmente vinculados as políticas públicas e os movimentos sociais”, estudos sobre as inovações em serviços (habitação social e comunitária; auxílio a domicílio; e serviços para populações específicas; inserção social e profissional; luta contra a pobreza; história; e comparações internacionais) e inovações da
rede institucional (serviços de saúde bem-estar. Além disso, foram analisados estudos sobre inovação em serviços relevantes da Nova Economia (cooperativas de solidariedade, etc.) (CRISES, 2010).
Já no eixo território, a principal característica é a presença de ambientes inovadores e que possuem condições para reprodução que inclui estudos a respeito das iniciativas de revitalização (rural e urbana), mobilizações locais, inserção para o emprego e empoderamento de atores sociais. Aborda também política de desenvolvimento local. Isso demonstrou o surgimento das redes e suas ligações com a territorialidade, ligações com as empresas, parcerias sociais, entre outros. (CRISES, 2010)
A síntese do trabalho desenvolvido por Tardif e Harrisson (2005) fica como contribuição com o conceito de inovação social, visto que apresentam em seus resultados a integração, semelhança e complementaridade dos três eixos, objetivando uma perspectiva de transformação social, onde emergem as dimensões de análise de inovação social: a) transformações; b) caráter inovador; c) inovações; d) atores e e) processos. Conforme Quadro 6:
Quadro 6: Dimensões de análise da inovação social.
Dimensão Conceitos - chaves
Transformação
Contexto Micro: crise; ruptura; descontinuidade; modificações estruturais;
Contexto econômico: emergência; adaptação; relações do trabalho, produção e consumo;
Contexto social: recomposição; reconstrução; exclusão e marginalização; prática;
mudança; relações sociais.
Caráter inovador
Nos modelos: de trabalho; de desenvolvimento; de governança
Na economia: do saber (conhecimento); mista; e social
Nas ações sociais: tentativas; experimentos; políticas; programas; arranjos institucionais; regulamentação social.
Inovação
Na escala: local
Tipos: técnica, sociotécnica, social, organizacional e institucional.
Finalidade: bem comum, de interesse coletivo e geral, cooperação.
Atores
Sociais: movimentos, cooperativas, associações; sociedade civil, sindicatos
Organizacionais: empresas, organizações de economia social, organizações coletivas, destinatários;
Institucionais: Estados, identidade, valores e normas.
Dimensão Conceitos – chaves
Processo
Modos de coordenação: avaliação, participação, mobilização, aprendizagem;
Meios: parcerias, integração, negociação, empowerment,, difusão
Restrições: complexidade, incerteza, resistência, tensão, compromisso, rigidez institucional.
Fonte: Adaptado de Tardif e Harrison (2005).
Esse trabalho tem servido de base para os novos estudos, novas discussões no campo acadêmico, voltado para a área de inovação social. Por isso tem sido amplamente debatido, replicado, e considera-se um trabalho seminal para fundamentar a inovação social. Portanto, a
análise tem sido aplicada em vários campos. Podendo ser visto nos trabalhos de Maurer (2011), que analisa se as dimensões de IS do modelo idealizado pelo CRISES se refletem nas diferentes formas de organização de empreendimentos econômicos solidários do setor de artesanato. Já Correa et al. (2014), parte do pressuposto de que o Turismo de Base Comunitária - TBC é uma forma de inovação social e tem por objetivo analisar as congruências entre os conceitos de TBC e IS e utilizar o modelo supracitado. Isso demonstra à possibilidade de aplicação em outros setores da sociedade, podendo ser identificados nesses fenômenos as dimensões: de transformação, visualizando o contexto que está inserido, as mudanças, a esfera social, ou seja, o impacto do contexto nas estruturas sociais. Já a dimensão do caráter Inovador irá abranger as ações sociais que levam à inovação; a dimensão Inovação, atentando para os objetivos gerais dos envolvidos, conciliando os objetivos individuais e coletivos e, por fim, a descrição dos diversos atores envolvidos na implantação de uma determinada inovação social. Assim é possível fechar, concluir a análise das dimensões de inovação social estabelecidas por Tardif e Harrisson (2005).