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A atenção devotada por Wasmann ao estudo das formigas materializou-se, rapidamente, em uma série de artigos e livros. Entre 1888 e 1891 Wasmann publica uma série de artigos na revista Natur und Offenbarung que são reunidos em livro com o título Die Zusammengesetzten Nester und gemischten Kolonien der Ameisen, publicado em 1891.

Nessa obra baseada nas observações feitas na região de Limburg entre 1884 e 1890, ou seja, durante seus estudos teológicos privados, Wasmann faz considerações sobre o modo de vida e o instinto desses animais, dissertando sobre as relações entre as formigas e outros insetos que habitavam seus formigueiros.114 As formigas-

108 WASMANN, Erich. Cartas de 26/11/1922, 8 de maio de 1924 e 8 de março de 1925 in BOUDIER, Henk Struyker. Mier en Slang: correspondentie van F. J. J. Buytendijk met Erich Wasmann S.J. Kerckbosch, Mooc, 1990, p. 50, 55, 61

109 WASMANN, Erich. Carta de 8 de março de 1925 in BOUDIER, Henk Struyker. Mier en Slang: correspondentie van F. J. J. Buytendijk met Erich Wasmann S.J. Kerckbosch, Mooc, 1990, p. 59

110 WASMANN, Erich. Christian Monism: meditations on Christian truths in the language of modern thought. London: Burns Oates, 1923, p.11-12.

111 WASMANN, Erich. Christian Monism: meditations on Christian truths in the language of modern thought. London: Burns Oates, 1923, p.63.

112 WASMANN, Erich. Christian Monism: meditations on Christian truths in the language of modern thought. London: Burns Oates, 1923, p.69.

113 WASMANN, Erich. Christian Monism: meditations on Christian truths in the language of modern thought. London: Burns Oates, 1923, p.75.

114 WASMANN, Erich. Die Zusammengesetzten Nester und gemischten Kolonien der Ameisen.

Druck und Verlag der Aschendorffschen Buchdruckrei: Münster, 1891, p. III-IV.

59 escravizadoras da Europa e da América teriam instintos iguais, Wasmann conclui que ou elas foram criadas com esse traço comportamental desde o início ou, algo muito improvável numa perspectiva darwinista, ambas desenvolveram o mesmo instinto de forma separada, em ambientes bastante diversos.115 Wasmann conclui pela primeira alternativa, numa perspectiva claramente contrária à evolução das espécies.

Esse livro é um marco na trajetória do jesuíta, pois é com ele que Wasmann dá início ao seu principal campo de estudos, a interação entre formigas e outros insetos. Ele foi um pioneiro, pois não havia estudo científico sobre o convívio entre esses insetos. 116 Wasmann foi o responsável pelas primeiras descrições acuradas sobre as relações entre as formigas e cupins e os insetos que ele classificou como mirmecófilos e termitófilos.

Outro passo para consolidar a mirmecofilia como uma subdisciplina da Entomologia foi a publicação de Kritisches Verzeichniss der Myrmekophilen und Termitophilen Arthropoden em 1894. Nesse livro Wasmann classifica os artrópodes mirmecófilos e termitófilos em cinco categorias conforme o tipo de interação que estabelecem com seus hospedeiros, as formigas e os cupins, respectivamente. Na obra são estudados e classificados 1249 insetos mirmecófilos e 109 termitófilos sob o ponto de vista comportamental e morfológico, o que demandou longas investigações ao microscópio.117 Essa obra se tornou referência nos estudos sobre a interação entre os insetos e inspirou pesquisas em todo o mundo, inclusive as dos principais entomólogos da época.118

O elevado número de insetos estudados mostra como as redes de colaboradores de Wasmann eram ativas, já que ele dependia dessas pessoas para conseguir exemplares de grande parte das espécies estudadas. No prefácio à obra Wasmann faz seus agradecimentos a cerca de cinquenta colaboradores que lhes enviaram espécimes. Esse número expressivo representa apenas uma parte daqueles que auxiliaram Wasmann nesse sentido ao longo de sua carreira, visto que muitos outros nomes podem ser encontrados nos seus artigos.

115 RICHARDS, Robert J. The Tragic Sense of Life: Ernst Haeckel and the Struggle over Evolutionary Through. Chicago, Chicago University Press, 2009, p.363.

116 STUMPER, Robert. Deux grandes figures de la science des insects sociaux: E. Wasmann et A.

Forel. Insectes Sociaux, Tome I, n.4, 1954.p.352.

117 SCHMITZ, S.J., Hermann. In Memoriam P. Erich Wasmann. Tijdschrift voor Entomologie, 1932, p.10.

118 BARANZKE, Heike. Erich Wasmann (29/05/1859-21/02/1931) Jesuit und Zoologe in Personalunion. Jahrbuch für Geschichte und Theorie der Biologie, vol. VI (1999),p.84

60 O sucesso de sua publicação taxonômica não levou a uma aceitação das suas teorias sobre o comportamento animal expostas nos livros anteriores. Wasmann recebia duras críticas de entomólogos de todo o mundo, o que afirmava sobre o instinto dos animais por vezes era visto como mera projeção de ideias teológicas no mundo natural.

Para melhor embasar suas considerações sobre o comportamento animal apresentadas anteriormente e responder aos seus críticos Wasmann escreverá importantes livros especificamente sobre o instinto e a inteligência nos animais. Em 1897 publica duas obras sobre o tema Instinkt und Intelligenz im Thierreich: Ein kritischer Beitrag zur modernen Thierpsychologie e Vergleichende Studien über das Seelenleben der Ameisen und der höhern Thiere. O primeiro livro tem caráter mais teórico e apresenta críticas à chamada “psicologia animal”, que pretende ver comportamentos inteligentes nos animais, interpretando suas ações, na avaliação do jesuíta, de forma antropomórfica. Wasmann qualifica essa abordagem de “psicologia vulgar” e a ela opõe sua “psicologia científica”, livre de antropomorfismos.

Tais críticas são baseadas na psicologia aristotélica-tomista e na vasta experiência de Wasmann com animais. Apesar de não pertencer à escola peripatética, Wilhelm Wundt, é apresentado por Wasmann como um dos teóricos que também se oporia a essa psicologia vulgar. O segundo livro tem caráter mais empírico, pois visa a reforçar a teoria apresentada com estudos de caso versando sobre o comportamento das formigas e dos chamados animais superiores.

Essas duas publicações geraram considerável polêmica entre os entomólogos.

Através de artigos e livros, Wasmann debateu com os mais eminentes pesquisadores europeus e norte-americanos de seu tempo, como, Morton Wheleer, August Forel, Jacques Loeb, Carlo Emery, dentre outros. Apesar de reconhecerem a acuidade das observações do jesuíta e seu extenso conhecimento sobre o comportamento dos insetos, esses críticos afirmavam que seus pressupostos religiosos e filosóficos interferiam de forma negativa na sua formulação teórica. Wasmann nunca conseguiu convencer esses oponentes e também nunca foi convencido por eles, pois as questões aqui já fugiam do campo meramente biológico e ganhavam uma dimensão filosófica e teológica, dimensão essa que era considerada de forma diametralmente oposta pelos seus oponentes materialistas.

61 Em 1895 Wasmann é transferido para o Collegium Maximum Sancti Ignatii de Valkenburg.119 Nessa casa Wasmann tem seu próprio gabinete de pesquisas, com sua já vasta coleção de insetos, uma biblioteca especializada e aparelhos científicos como o microscópio e o microtomo. Vive nesse colégio entre 1895 e 1899, podendo conviver com eminentes estudiosos como o já referido Tilmann Pesch e Christian Pesch, este último teólogo dogmático de fama mundial e um dos mais incisivos críticos do modernismo teológico na primeira década do século XX; Franz von Hummelauer, importante exegeta bíblico com uma visão muito peculiar do livro do Gêneses, afastada de qualquer literalismo e concordismo com a ciência120; e o biólogo Christian Bötzkes, sobre o qual já tratamos.

Fig. 1.4 Padre Erich Wasmann em seu quarto no colégio de Valkenburg.

Fonte. BOUDIER, Henk Struyker. Mier en Slang: correspondentie van F.J.J. Buytendijk met Erich Wasmann S.J. Zeist: Kerckebosch BV, 1990, p.36.

119 SOCIETATIS JESU. Catalogus Sociorum et Officiorum dispersae Provinciae Germaniae Societatis Jesu. Gestel in Sancti Michaelis, 1895.

120 HUMMELAUER S.J., Franz von. Le Récit de la Création. Paris: Lethielleux, 1897; Commentarius in Genesim. Paris: Lethielleux, 1895.

62 Em 1899 Wasmann é enviado para o Domus Scriptorum Luxemburgensis em Bellevue, Luxemburgo.121 Como o nome diz, é uma casa de jesuítas escritores. Trinta pessoas moravam lá, sendo 22 padres e oito irmãos coadjutores. Lá residia o Pe.

Josephus Blötzer, Superior da Casa e Diretor das revistas Stimmen aus Maria Laach e Die Katolischen Missionen. Wasmann, que era um dos editores da primeira revista, dedicava grande parte do seu tempo ao periódico e às pesquisas científicas. Um historiador alemão contemporâneo, professor na Universidade de Bonn, afirmava que devido às constantes perseguições políticas, os jesuítas estavam mudando suas linhas de ação, deixando um pouco o aspecto missionário, tão característico da atuação anterior, e se voltando mais para o ensino e, principalmente, para a produção de livros e revistas como um meio de influenciar os mais diversos meios intelectuais. As armas dos jesuítas seriam agora “mais refinadas, mais intelectuais”122, o que justifica a criação de uma casa para abrigar quase que exclusivamente pessoas dedicadas à escrita.

Foi durante o período em que Wasmann residia nessa casa que o entomólogo luxemburguês Robert Stumper o conheceu. Em 1909, após ler um pequeno livro chamado Krieg und Frieden im Ameisenstaat [Guerra e Paz no Estado das Formigas] de K. Sajo, no qual havia citações elogiosas a Wasmann, o então estudante de 14 anos decidiu conhecer o renomado pesquisador que residia algumas centenas de metros da sua própria casa. Já tinha escutado elogios ao jesuíta da parte de um dos seus professores de escola, Gustave Faber, mas só agora seu interesse pelos insetos justificava uma visita. O relato de Stumper referente ao seu primeiro encontro com Wasmann, ocorrido na casa jesuítica de Luxemburgo, nos dá uma imagem do ambiente onde ele vivia e dos seus modos:

Resumidamente, na minha imprudência juvenil, um belo dia me apresentei à porta do mosteiro. [sic]. Para a circunstância solene, enverguei minha roupa de domingo e coloquei à entrada do impressionante edifício. Toco, o irmão porteiro me introduz numa sala de espera e bastante sóbrio me pergunta o motivo da visita. Respondi que gostaria de falar com o reverendo padre Wasmann, o irmão porteiro me olha de forma meio contente, meio reprovador e sai para saber se o padre Wasmann poderia me receber. Um pouco tempo depois, tempo que me pareceu interminável, ouço sonoros passos no corredor, a porta se abre e eis que me vejo diante de Wasmann: era um homem bastante baixo, de aparência frágil, vestindo uma espécie de batina; sua fisionomia viva, de traços finos, olhos inteligentes que impressionavam imediatamente. Sua

121 BARANZKE, Heike. Erich Wasmann (29/05/1859-21/02/1931) Jesuit und Zoologe in Personalunion. Jahrbuch für Geschichte und Theorie der Biologie, vol. VI (1999),p.100.

122 BOEHMER, Heinrich. Les Jésuites. Armand Colin, Paris, 1910, 2ªed, p.294. (Original de 1904).

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testa ligeiramente saliente lhe dava um ar decidido e até um pouco teimoso.

Wasmann lançou sobre mim um olhar escrutinador, perguntou meu nome, idade, o que eu fazia e qual era o motivo da minha visita. Eu balbuciei que tinha o desejo de aprender um pouco mais detidamente sobre a história das formigas que havia começado a aprender pela leitura da pequena obra de Sajo – que eu prudentemente levava comigo como uma peça de legitimação – e pelas minhas próprias e diminutas observações. A face de Wasmann se abrandou e ele me convidou com toda simplicidade a o seguir. Subimos até sua célula, bem espaçosa, é verdade, mas encoberta, ao lado da cama, por uma multidão de coisas maravilhosas. Por mais de uma hora Wasmann me mostrou sua coleção de formigas, cupins, de mimercófilos, me explicou ao microscópio uma secção de formiga, me fez admirar seus ninhos artificiais, resumindo, me deu uma lição magistral intercalando preciosos conselhos sobre como estudar os adoráveis animaizinhos. Por fim, aludiu à sua saúde bem abalada: eu entendi, a audiência estava terminada. Ainda intimidado, mas exaltado pelas belas coisas que havia visto e tocado, me apressei em formular alguns vagos agradecimentos, mas Wasmann me deteve dizendo que seria melhor mostrar gratidão às formigas, que ele me convidava calorosamente a estudar, na medida do possível, mas acrescentando paternalmente que não negligenciasse meus estudos escolares. Ao me reconduzir [à saída], Wasmann ainda me fez ver a imensa biblioteca do claustro. Eu me despedi do grande mirmecólogo que havia mostrado tanta bondade e se mostrou de uma calorosa e afável simplicidade. O tempo de deslumbramento havia acabado.123

Wasmann viveu em Luxemburgo entre 1899 e 1911. Nesse pequeno país teve a oportunidade de realizar pesquisas mirmecológicas e escrever diversos artigos sobre o tema. Foi também ai que escreveu seu polêmico livro sobre a sua proposta de teoria da evolução.

É importante notar que Wasmann viveu toda sua vida adulta em casas da Companhia de Jesus, toda a sua pesquisa foi realizada nesse ambiente religioso, de forma que seu local de residência era também seu local de trabalho, como ocorria entre os pesquisadores científicos com certa frequência desde o século XVII.124 De modo semelhante à trajetória e atuação de vários pesquisadores ao longo da história da ciência moderna,Wasmann realizava seus estudos num ambiente que não pode ser chamado de privado e nem propriamente de público, merecendo, talvez, por nós, o nome de institucional: pois quase sempre recebeu na sua carreira respaldo e condições institucionais, da ordem jesuíta, para a realização de suas pesquisas e publicações científicas.

123 STUMPER, Robert. Deux grandes figures de la science des insects sociaux: E. Wasmann et A.

Forel. Insectes Sociaux, Tome I, n.4, 1954.p.347-8.

124 SHAPIN, Steven. Nunca Pura: estudos históricos de ciência como se fora produzida por pessoas com corpos, situadas no tempo, no espaço, na cultura e na sociedade e que se empenham por credibilidade e autoridade. Belo Horizonte: Fino Traço, 2013, p.61-73.

64 A compreensão do caráter institucional de sua obra se reforça com a consideração de que, uma vez socializado numa ordem religiosa, Wasmann estava ligado aos seus correligionários por diversos laços e valores cristãos. O de respeito, pois normalmente viveu junto com seus antigos professores; o de obediência às autoridades jesuítas, concretamente, ao Padre Reitor de cada casa e ao Padre Provincial dos jesuítas alemães; e o de gratidão, pois, na lógica religiosa dos jesuítas, seus professores e superiores eram pessoas que o ajudaram e o ajudavam a cumprir com a vontade de Deus e, assim, progredir na vida espiritual. Todos esses laços certamente tinham importância não só na sua vida religiosa, mas na sua produção intelectual, pois Wasmann, por mais que alegasse isso, não era plenamente livre de influência e exigências sociais – no seu caso, de caráter religioso. Devemos considerar que suas obras publicadas não apenas correspondiam ao seu pensamento, mas, em alguma medida, deveriam respondem a um contexto institucional, deveria expressar pontos de vista que não chocassem com os dos seus superiores ou, ao fazer isso, deveriam ser apresentados de forma cautelosa e bem embasada.

Muitos dos seus artigos foram publicados na revista dos jesuítas alemães. E como todo padre da sua época, Wasmann teve seus livros analisados e aprovados por outros jesuítas da sua Província antes de poder publicá-los. Um dado sutil, mas importante, é que a parte mais importante do seu trabalho foi realizado enquanto Wasmann ainda era jovem, tendo, portanto, uma posição algo inferior, sujeita a críticas dos jesuítas mais velhos. Tudo isso nos leva a depreender que a pesquisa de Wasmann, como a dos outros jesuítas/cientistas/naturalistas, deve ser vista não só como a obra de um homem, mas como algo em alguma medida institucional.

Nos próximos capítulos procuraremos mostrar de qual forma, concretamente, o pertencimento de Wasmann aos grupos jesuítas influirá na elaboração da sua teoria. Por ora, faremos apenas uma apresentação sumária dela.