89 instinto de escravidão e o comportamento dos animais que consistiu muito da atividade do naturalista. Para realizar isso, Wasmann teve que se tornar um naturalista completo, trabalhando tanto no seu gabinete com dissecações e análises ao microscópio, quanto em campo, observando o comportamento dos insetos, a forma como comem, como se adaptam aos diferentes meios. Isso implicava produzir mais dados empíricos, ou seja, coletar, encarcerar em ninhos artificiais e fazer diversas experiências com os insetos em situações naturais e artificiais. Essa atividade serão apresentadas em maiores detalhas quando acompanharmos os estudos de Wasmann com as formigas das pradarias do Limburg holandês e dos campos de Luxemburgo às especulação teórica no silencio das ordeiras casas jesuíticas onde o padre naturalista tanto trabalhou.
90 campo, robustecem o corpo e lhe fazem gozar de uma saúde invejável.191” Certamente, benefícios que alguém com a saúde frágil como Wasmann buscava. Mas, além disso, apresentava outro importante benefício para um religioso.
Para um jovem a Entomologia é uma ocupação moralizadora em alto grau.
Encontrar seus encantos em ocupações inocentes, passar longas horas sem sentir no trabalho de campo e de gabinete, e seu espírito, preocupado com as caças e coleções e temperado pelo exercício da ciência, está longe de ser arrebatado pela corrente dos vícios.192
Esse aspecto moralizador, inscrito no ascetismo subjacente ao trabalho científico de campo e atribuído ao exercício da ciência, pode ser considerado um dos motivos que levaram os superiores de Wasmann a apoiar a sua atuação como entomólogo e a de tantos outros religiosos dedicados à História Natural.
Fig. 2.2 – Padres jesuítas caminhando nos arredores do colégio de Exaten.
Fonte: http://members.westnet.com.au/gary-david-thompson/Exaeten_early%20photo.JPG
De seus artigos é possível notar que a prática entomológica era uma constante em sua vida, algo a ser realizado em todas as ocasiões. Não importava se estava fazendo seu curso de Retórica e Humanidades, ou se deveria estudar para as provas de Filosofia
191 NAVAS S.J., Longinos. Los Insectos (Nueva Edicion del Manual del Entomologo). Editorial Casals, Barcelona, s.d., p.15.
192 NAVAS S.J., Longinos. Los Insectos (Nueva Edicion del Manual del Entomologo). Editorial Casals, Barcelona, s.d., p.16.
91 ou Teologia ou mesmo se estava nos períodos de recolhimento religioso prescrito para os estudantes jesuítas, Wasmann estava sempre procurando novos insetos, observando seu modo de vida, avaliando suas relações com outros seres vivos. É possível ver o resultado desses esforços nos detalhados catálogos de espécies de formigas e animais mirmecófilos das regiões onde o jesuíta morou por período mais prolongado, como o Limburg holandês193 e o Arquiducado de Luxemburgo194. O mesmo pode ser observado para as espécies de regiões onde Wasmann passou apenas alguns meses por motivos de estudo ou de religião.195
É possível dizer que ele acordava e dormia com a Entomologia, pois além de fazer observações de campo ao longo do dia, visto que muitas formigas são mais fáceis de serem retiradas dos formigueiros – sem destruí-los – bem no início da manhã196, Wasmann mantinha em seu quarto ninhos artificiais – fabricados em vidro – onde criava formigas e besouros, podendo estudá-los também ao longo da noite.197
Como as relações entre as formigas e seus hóspedes mudam ao longo dos meses, Wasmann observava um mesmo formigueiro ao longo de todo ano para poder compreender os desenvolvimentos das interações entre os insetos. Pode-se ler em seu catálogo da fauna de Limburg, por exemplo, que nas colônias de Formica sanguinea era possível encontrar o besouro Lomechusa strumosa entre os meses de março e setembro, enquanto as Dinarda dentata estavam presentes de fevereiro a outubro.198 Isso mostra que sua atividade de observador da natureza Wasmann não conhecia descanso.
A observação era de grande importância para um naturalista, pois é um dos principais meios para descobrir o comportamento das formigas, o modo como interagiam com seu meio ambiente, dentre outras questões. Mas a observação científica, ou seja, como se observa e aquilo que se procura na natureza, como as demais questões
193 WASMANN S.J., Erich. Verzeichniss der Ameisen und Ameisengäste von Holländisch Limburg.
Tijdschrift voor Entomologie. vol 34, 1891, p.39-65.
194 WASMANN S.J., Erich. Zur Kenntnis der Ameisen und Ameisengäste von Luxemburg. (I) Institut Grand-Ducal de Luxembourg. Section des Sciences, 1906, p. X-X;
195 WASMANN, Erich. Ein neuer myrmekophiler Ilyobates aus dem Rheinland (Ilyobates brevicornis n.sp.) Deutsche Entomologische Zeitschrift, 1902, Heft 1, p.62. Dentre muitos outros exemplos possíveis de serem citados.
196 WASMANN, Erich. Os hospedes das formigas e dos termites (“cupim”) no Brazil. Boletim do Museu Paraense de História Natural e Ethnographia, vol 1, 1896, p.276
197 Wasmann comenta sobre esses ninhos em seu primeiro período holandês (1886-1900, com interrupções) em WASMANN S.J., Erich. Comparative Studies in the Psychology of Ants and of Higher Animals. St.Louis: Herder, 1905, p.22. O entomólogo Robert Stumpfer lembra-se desses ninhos nos aposentos de Wasmann quando o visitou em Luxemburgo em 1909. STUMPER, Robert. Deux grandes figures de la science des insects sociaux: E. Wasmann et A. Forel. Insectes Sociaux, Tome I, n.4, 1954.p.351.
198 WASMANN S.J., Erich. Verzeichniss der Ameisen und Ameisengäste von Holländisch Limburg.
Tijdschrift voor Entomologie. vol 34, 1891, p.58-59.
92 científicas, é algo que varia com o tempo, tem também uma história. O que Wasmann procurava nas suas observações estava vinculado ao que se tornou conhecido como
“perspectiva biológica”, o que demanda uma explicação algo longa, que será útil para explicitar as bases sociais de uma forma de compreender os seres vivos, de um estilo de pensamento adotado pelo entomólogo jesuíta.