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EXCLUDENTES DA RESPONSABILIDADE CIVIL

Há certas situações que afastam o nexo de causalidade, impedindo o liame entre a conduta humana e o dano, enfim excluindo a responsabilidade civil.

Ainda que de forma breve, sobre as ditas excludentes, seguem algumas observações.

2.4.1 Culpa exclusiva da vítima

A culpa exclusiva da vítima exclui qualquer responsabilidade do causador do dano112, isto porque, esclarece Rodrigues113:

[...] desaparece a relação de causa e efeito entre o ato do agente causador do dano e o prejuízo experimentado pela vítima. [...] o agente que causa diretamente o dano é apenas um instrumento do acidente, não se podendo, realmente, falar em liame de causalidade entre seu ato e o prejuízo por aquela experimentado.

Importante lembrar, que na ocorrência da culpa concorrente, ou seja, quando ambas as partes concorrem para o evento danoso, mister se faz que cada um assuma seu grau de responsabilidade na questão. Caso o prejuízo

111 GONÇALVES, Carlos Roberto, Direito Civil: direito das obrigações; parte especial, 2004, p.17.

112 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro: responsabilidade civil. 7. v. São Paulo:

Saraiva, 1982-1984. p. 83.

113 RODRIGUES, Sílvio, Direito Civil – Responsabilidade Civil, 2003, p 165.

seja experimentado por uma das partes, esse deverá ser rateado entre ambas, vez que contribuíram efetivamente para o evento114.

2.4.2 Fato de terceiro

Por terceiro, anota Venosa115 entende-se “alguém mais além da vítima e do causador do dano” e em se tratando de relações negociais, prossegue o autor, o terceiro é “todo aquele que não participou do negócio jurídico.”

Na ocorrência da culpa de terceiro, isto é, explica Dias116:

[...] se alguém for demandado para indenizar um prejuízo que lhe foi imputado pelo autor, poderá pedir a exclusão de sua responsabilidade se a ação que provocou o dano foi devida exclusivamente a terceiro.

Todavia, é oportuno advertir que a força excludente da responsabilidade dependerá da prova de que o dano resultou do ato do terceiro, posto que, aplicável a norma processual geral quanto ao ônus da prova.

Salienta-se que, terceiro não pode ser entendido o seu filho, seu empregado e seu preposto, isso pela razão de que sempre que se tratar de atos desses terceiros inculpam-se (incriminam-se) os pais, patrões e preponentes117.

Todavia, é bom advertir com VENOSA118 que “quem se obriga por fato de terceiro, se este não cumpre a obrigação, fica vinculado a ela e responde por perdas e danos daí decorrentes, nos termos do art. 929 do CC.”

114 OLIVEIRA, Celso Marcelo de, Teoria Geral da Responsabilidade Civil e de Consumo, São Paulo, Thomson –IOB, 2005, p. 263.

115 VENOSA, Silvio de Salvo, Direito Civil: Responsabilidade Civil, 2006, p 53.

116 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro: responsabilidade civil. 1982-1984. p. 84.

117 VENOSA, Silvio de Salvo, Direito Civil: Responsabilidade Civil, 2006, p 53.

118 VENOSA, Silvio de Salvo, Direito Civil: Responsabilidade Civil, 2006, p 55.

2.4.3 Caso fortuito ou força maior

Na ocorrência do caso fortuito ou de força maior cessa a responsabilidade do agente, “porque esses fatos eliminam a culpabilidade, ante a sua inevitabilidade”, anota Diniz119, esclarecendo a autora, ainda, que essas situações caracterizam-se através da presença de dois requisitos: “o objetivo, que se configura na inevitabilidade do evento, e o subjetivo, que é a ausência de culpa na produção do evento.”

Acerca do caso fortuito ou força maior denota Rodrigues120:

O critério para caracterizar o caso fortuito ou de força maior, que é a excludente maior da responsabilidade fica sempre ao arbítrio do julgador. E o rigor deste variará, inexoravelmente, conforme os seus pendores e as hipóteses em causa, pois o juiz encontrará na flexibilidade da expressão caso fortuito ou de força maior uma porta para julgar por equidade e o mesmo contra a severidade da lei, ainda quando esta não o autoriza lançar mão daquele recurso.

As expressões sob comento, – o caso fortuito e a força maior –, são facilmente confundidas e para muitos doutrinadores se tratam de sinônimos perfeitos, e a distinção entre elas é meramente didática121.

Todavia há o entendimento daqueles que sustentam que embora essas expressões não sejam sinônimas, atuam no mesmo campo, no tocante a responsabilidade civil. O caso fortuito decorreria de forças da natureza, tais como, inundações, terremotos, eventos que independam da ação humana. Já os casos de força maior, seriam aqueles em que houve um ato humano inelutável, tais como, guerras, greves, determinações de autoridades. Ambas as figuras na prática se equivalem, ambas pretendem afastar o nexo causal122.

119 DINIZ, Maria Helena, Curso de Direito Civil Brasileiro, São Paulo, 2005, p 113-114.

120 RODRIGUES, Sílvio, Direito Civil – Responsabilidade Civil, 2003, p 177.

121 GAGLIANO, Pablo Stolze. PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo Curso de Direito Civil – Responsabilidade Civil. 2004, p. 122.

122 VENOSA, Silvio de Salvo, Direito Civil: Responsabilidade Civil, 2006, p 46.

Por isto, Venosa123 apregoa que “qualquer critério que se adote, a distinção nunca terá conseqüências práticas, os autores são unânimes em frisar que juridicamente os efeitos são sempre os mesmos”.

Importante ressaltar é o fato de que seja caso fortuito ou força maior, detectável à discricinonariedade do juiz, demonstrado o fato, exclui- se a responsabilidade do causador do dano fundado na invitabilidade.

2.4.4 Estado de necessidade

O estado de necessidade funda-se na ofensa do direito alheio ou na deterioração ou destruição de coisa pertencente a outrem para remover perigo iminente, quando as particularidades tornarem absolutamente necessário, desde que o causado do dano não exceda os limites indispensáveis à remoção do perigo124.

Essa excludente tem assento legal no artigo 188, inciso II e parágrafo segundo, do Código Civil e só terá legitimidade quando as circunstâncias do fato não possibilitam outra forma de atuação do agente, que para remover perigo iminente, age de maneira que culmina na agressão de um direito alheio de valor jurídico igual ou inferior ao que se pretende proteger125. 2.4.5 Legítima defesa

A legítima defesa revela-se no emprego dos “meios necessários para repelir agressão injusta, atual ou iminente, contra si ou contra pessoas caras ou contra seus bens”126, também estando prevista no artigo artigo 188, inciso I, do Código Civil.

123 VENOSA, Silvio de Salvo, Direito Civil: Responsabilidade Civil, 2006, p 46-47.

124 OLIVEIRA, Celso Marcelo de, Teoria Geral da Responsabilidade Civil e de Consumo, São Paulo, Thomson –IOB, 2005, p. 294.

125 GAGLIANO, Pablo Stolze. PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo Curso de Direito Civil – Responsabilidade Civil. 2004, p. 112.

126 VENOSA, Silvio de Salvo, Direito Civil: Responsabilidade Civil, 2005, p. 61.

Se o ato for praticado contra o próprio agressor, em legítima defesa, não pode o agente ser responsabilizado pelos danos provocados127, já que, de acordo com a dispositivo legal acima citado, não constitui ato ilícito e, portanto, não há se falar em responsabilidade civil.

Todavia, de alertar que na esfera cível, tanto o excesso como a extrapolação da legítima defesa, seja por negligência ou por imprudência, enseja a obrigação do agente em reparar o dano128.

2.4.6 Exercício regular de direito e estrito cumprimento do dever legal

O estrito cumprimento do dever legal, causa de exclusão da ilicitude, consiste na realização de um fato típico, por força do desempenho de uma obrigação imposta por lei, nos limites exatos da obrigação129.

Em casos tais, o agente é exonerado da obrigação de indenizar os danos causados a vítima, todavia, é possível ao ofendido obter a indenização acionando o próprio Estado, cuja responsabilidade é objetiva em relação aos atos praticados por seus prepostos, não cabendo, entretanto, a ação regressiva do Estado (a ação regressiva só será possível se o agente agiu com dolo ou culpa)130.

É oportuno advertir também, que se o sujeito extrapola os limites racionais do exercício do seu direito, fala-se em abuso de direito, situação desautorizada pela ordem jurídica, que poderá repercutir tanto na esfera cível como na esfera criminal (o excesso punível)131.

127 OLIVEIRA, Celso Marcelo de, Teoria Geral da Responsabilidade Civil e de Consumo, São Paulo, Thomson –IOB, 2005, p. 297.

128 GONÇALVES, Carlos Roberto, Direito Civil: direito das obrigações; parte especial, 2004, p.120.

129 GAGLIANO, Pablo Stolze. PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo Curso de Direito Civil – Responsabilidade Civil. 2004, p. 116.

130 OLIVEIRA, Celso Marcelo de, Teoria Geral da Responsabilidade Civil e de Consumo, São Paulo, Thomson –IOB, 2005, p. 301.

131 GAGLIANO, Pablo Stolze. PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo Curso de Direito Civil – Responsabilidade Civil. 2004, p. 117.

Há que se ressaltar que também o Código de Defesa do Consumidor, além da culpa exclusiva da vítima (já tratada), traz outras duas excludentes da responsabilidade, aplicáveis às relações de consumo, assim consideradas no artigo 12, §3.º, nos incisos I e II:

Art. 12. O fabricante, o produtor, o construtor, nacional ou estrangeiro, e o importador respondem, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos decorrentes de projeto, fabricação, construção, montagem, fórmulas, manipulação, apresentação ou acondicionamento de seus produtos, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos.

[...]

§ 3° O fabricante, o construtor, o produtor ou importador só não será responsabilizado quando provar:

I - que não colocou o produto no mercado;

II - que, embora haja colocado o produto no mercado, o defeito inexiste;

Ambos incisos tratam de meios de defesa do fornecedor.

O inciso I, trata da colocação de produto no mercado, por terceiro não autorizado a fazê-lo, ou que foi feito de maneira não voluntária, fato que obsta o nexo causal entre a ação do fabricante e o dano à vítima, justamente por não haver o elemento conduta, a ação por parte do fornecedor. Cabendo ao fabricante demonstrar que apesar de o produto ter sido introduzido no mercado, não foi introduzido voluntariamente. Esta prova liberatória justifica-se com exemplos como o de falsificação, furto ou roubo de produtos.

O inciso II, demonstra que o fabricante pode se eximir da responsabilidade de ressarcir se provar que, embora o dano haja sido ocasionado

pelo produto, não há defeito incluso a este. O defeito deve estar relacionado à noção de uso razoável (normal e típico). O padrão de qualidade do produto deve ser o correto (exato), de acordo com as normas administrativas atinentes a produção e comercialização, para que se justifique a exclusão da responsabilidade do fabricante, que lhes obedece plenamente132.

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