• Nenhum resultado encontrado

Gênero como marcador estatístico

já desenvolvidas e; 3. permite utilizar os conceitos supracitados em análises sobre resultados e realidades apontadas pelo campo teórico e empírico.

Destacaremos a partir de agora alguns casos onde os usos do termo “gênero”

encontram-se fixados em dados estatísticos. Ainda que não apresentem análise aprofundada sobre os motivos, razões e consequências de haver discrepâncias em relação a homens e mulheres, isentando-se por vezes de análises sociais, políticas, econômicas e históricas, a maioria dos estudos utiliza o marcador junto a outros como classe, escolaridade, nível econômico, local de moradia. Isso demonstra que gênero é considerado um marcador social, e não biológico, o que carrega de alguma maneira alguns significados que produziram o conceito de gênero como analítico nas ciências sociais/humanas. A maior parte desses trabalhos está localizado no campo das ciências biológicas e/ou da saúde, e perceber que gênero é considerado como elemento que provoca desigualdades, ao lado de outros relacionados à produção sócio-política-cultural, nos indica que há certa inserção do conceito não completamente esvaziado de seus propósitos críticos.

No entanto, também se localizam estudos em que gênero é utilizado apenas como sinônimo de sexo/composição biológica. Estudos mais restritos a patologias, em especial aqueles ligados à identificar a maior ou menor incidência de doenças como câncer, utilizam o termo “gênero” apenas para separar homens e mulheres cisgêneros/as, apontando maior recorrência de casos da doença em um dos chamados sexos, não apontando outras motivações que não biológicas para os resultados.

Também há exemplos de trabalhos que focam suas análises em dados estatísticos, apresentando resultados que, ao não serem analisados com alguma base sociológica, acabam por apresentar informações que podem reforçar uma concepção biológica de gênero. É o caso do estudo realizado por Rodrigues et al.

(2015), que apresenta análises da avaliação funcional multidimensional em idosos.

Ao apresentar os dados, os/as autores/as nos dizem que

A diferença entre sexos poderá decorrer da capacidade para desempenhar atividades diferentes. Enquanto os homens têm maior capacidade, por exemplo, para usar o telefone e administrar o dinheiro, as mulheres apresentam maior capacidade para preparar as refeições. Contudo, nos estudos de Oliveira et al. (2010), Rodrigues (2012) e Silva (2014), os homens apresentaram maior dependência funcional nas AVD por uma maior dificuldade para as tarefas domésticas. (RODRIGUES et al., 2015, p.72)

Podemos perceber que os dados, ao serem apresentados apenas como representação da realidade, reforçam uma não aptidão de homens em tarefas domésticas, ao contrário de mulheres que teriam naturalmente mais capacidade para preparar refeições. Ora, o estudo apresenta uma realidade que é produzida em meio a representações de gênero, que fomentam determinados modos de ser e existir para os sujeitos com base em normas e representações de feminilidade e masculinidade. O estudo, ao lançar mão do termo “gênero” apenas o faz como sinônimo a “sexo” (como inclusive a citação evidencia).

Outro exemplo marcante acontece no artigo “Capacidade funcional de idosos institucionalizados com e sem doença de Alzheimer” (FERREIRA et al., 2014). Ao analisarem a capacidade funcional de pessoas idosas em situação de internação em instituições públicas, as/os autoras/es identificam maioria de mulheres idosas internadas. A única possibilidade levantada para justificar esse dado é o processo de feminização da velhice, dizendo ainda que “a institucionalização parece ser em grande medida uma questão feminina, constatada também em outros estudos, que revelam ter ocorrido acentuado aumento nas taxas de institucionalização de idosas”

(p. 571). A falta de uma análise ou mesmo reflexão mais atenta acaba por apresentar dados que pretendem representar a realidade, de uma maneira fatídica.

Por que mulheres idosas são mais internadas nessas instituições de cuidado? Ao não lançar possibilidades de resposta para essa pergunta, o estudo pode produzir o discurso de que mulheres, mais do que homens, tornam-se dependentes na fase idosa por questões puramente biológicas.

Ainda em outro estudo, intitulado “Avaliação nutricional de idosos institucionalizados” (VOLPINI, FRANGELLA, 2013) também com pessoas idosas em situação de internação apontou dados parecidos, onde 77% das pessoas internadas eram mulheres. Novamente, não há qualquer problematização desse dado. Além disso, o estudo também aponta que mulheres permanecem institucionalizadas mais tempo, chegando a ficar o triplo do tempo de homens. Surpreendentemente, o estudo levanta uma única possível justificativa para esse dado, ao dizer que “esse resultado pode ser explicado, em parte, pelo fato de as mulheres viverem mais, tornarem-se viúvas mais cedo e apresentarem maior dificuldade para casar ou recasar após separação ou viuvez” (p.36). Sem dúvida essa é uma possibilidade de compreensão desse fenômeno, mas consideramos que gênero, enquanto categoria

analítica, possui potência para apresentar, ao menos, algumas provocações necessárias aos recortes estatísticos.

Destacamos que, ainda que os estudos possuam focos diferentes, como capacidade funcional e nutrição, são trabalhos que se debruçam sobre determinada população, e é preciso pensar não somente nos dados que se apresentam, mas como esses dados são produzidos pelas diversas trajetórias de vida e condições sociais, políticas, econômicas e culturais que envolvem os sujeitos, não apenas em relação à gênero, mas a diversos outros marcadores de diferença, como classe, raça/etnia, sexualidade/orientação sexual, etc. Quando os estudos apresentam seus dados como representação de uma realidade dada, podem colaborar para reforçar estereótipos e percepções que (re)produzem gênero e (re)constróem esses significados na fase idosa. Além disso, de acordo com Mendonça (2008), quando os contextos e diferentes fatores sociais e históricos não são levados em consideração,

“as mulheres implicadas nestas condições podem ter suas queixas socialmente consideradas desvinculadas das condições produzidas pelo trabalho e pela vida e consideradas como naturais de sua condição de mulher” (p. 98). É fundamental também destacar como o corpo da mulher foi, historicamente, “moldado para ser medicalizado” (p. 98), e como esses discursos que naturalizam gênero podem ser elementos que fundamentam as percepções do corpo feminino como doente, incompleto, incapaz, necessitado de intervenções médicas e científicas. Estas análises estão presentes no artigo de Mendonça (2008) sobre a medicalização de mulheres idosas, especialmente no uso de calmantes.

Outros estudos, ao não apresentarem qualquer análise sócio histórica, acabam por tropeçar nas próprias justificativas estatísticas. No artigo “Evolução da perda auditiva no decorrer do envelhecimento” (BARALDI, ALMEIDA, BORGES, 2007) as autoras encontraram no público da pesquisa (pessoas idosas encaminhadas para avaliação clínica audiológica) um número muito maior de mulheres idosas (150 mulheres e 61 homens). Ao tentar justificar, dizem que “tal fato pode ser explicado pelos dados do IBGE que em seu último censo, em 2000, constatou que no Brasil há um número maior de mulheres na faixa etária idosa. A população idosa do Brasil está em torno 13.915.357 (8,1%) de idosos, dos quais 6.309.588 eram homens e 7.605.769 (54,7%) mulheres (p. 68). Ora, a diferença estatística no censo do IBGE nem se compara à diferença apresentada na pesquisa

das autoras, pois o número de mulheres é mais do que o dobro de homens. Logo, é preciso buscar alguma outra hipótese para que o número de mulheres que são encaminhadas para tal avaliação médica seja tão superior ao número de homens.

Porém, o artigo não apresenta outras possibilidades.

Um exemplo que pode ilustrar uma forma de apresentar alguma análise sócio histórica às disparidades de gênero, outra abordagem a partir do campo da saúde, pode ser encontrada em “Função executiva em idosos: um estudo utilizando subtestes da Escala WAIS-III” (BANHATO, NASCIMENTO, 2007), que aponta diferenças em habilidades entre homens idosos e mulheres idosas:

Diversas variáveis apresentaram influência no desempenho executivo de idosos. Vale ressaltar a influência do gênero nas performances executivas, com os homens apresentando melhores desempenhos. Além desses resultados poderem estar associados a uma particularidade da coorte histórica, também apontaram para a evidência de que os homens, em média, neste contexto cultural específico, apresentariam maior desenvolvimento das habilidades abstratas e visuoespaciais. Resultados similares foram relatados por Colom, Quiroga e Juan-Espinosa (1999) e Colom e García-López (2001), que argumentaram que a diferença entre gênero poderia estar associada aos estereótipos dos papéis sexuais e das normas diferenciadas por sexo do contexto social. (p.71)

As autoras apresentam questionamento que leva em consideração a capacidade crítica do conceito de gênero. Ainda que não se aprofundem nessa análise, compreendendo que as áreas de conhecimento por vezes excluem-se, é fato importante a preocupação em não essencializar as diferenças entre homens e mulheres que se apresentam em pesquisas puramente estatísticas.