• Nenhum resultado encontrado

Velhices atravessadas: gênero, sexualidade, idade e o

Ainda no mesmo encontro, a conversa enveredou para pensar o que conceitos como masculinidade e feminilidade representam. Falando de mulheres idosas, conversamos sobre como a questão da sexualidade assume diferentes contornos a depender da idade. Se, em certas experiências, a idade parece propiciar um afrouxamento dos significados extremamente restritos da feminilidade com relação à sexualidade, demonstrando que a velhice pode ser um campo de experimentação e de novidades, em outras, a idade longeva parece cristalizar os mesmos padrões rígidos a que as mulheres foram e são submetidas. Ou seja, as noções de feminilidade não tornam as experiências de vida idênticas, justamente porque quando falamos de mulher, não estamos falando de um sujeito à parte. Esse sujeito que é mulher, é negra, branca, indígena, gorda, magra, nordestina, sulista, jovem, criança, idosa, adulta etc. Em suas vidas, os sujeitos nomeados como mulheres vivenciaram diferentes percursos, com múltiplas influências. Tudo isso torna, de fato, difícil utilizar tais conceitos para definir, de algum modo, o que é ser isso ou aquilo. Sem dúvida, o conceito de feminilidade nos serve para pensar sobre os sujeitos marcados como detentores dessa característica como se fosse inata, no entanto ele não nos servirá para definir o que é uma mulher ou o que não é, na medida em que as noções de feminilidade compõem e participam da experiência de qualquer sujeito, de diferentes modos e intensidades. Os significados que compõem o que compreendemos como feminilidade(s) serão sempre provisórios, pois estarão em relação com outros marcadores já citados, e outros que sequer podemos supor.

Para que serve, então, pensar nesses conceitos?

Articular as noções de feminilidade e masculinidade nos possibilita colocar verdades em suspenso, sobre nós e sobre o mundo. O conceito de feminilidade nos põe a duvidar de que “a mulher” seja naturalmente sensível, bem como nos evoca a olhar para “o homem” e perceber as possibilidades de existência que são (im)possíveis. Além disso, pensar esses conceitos de modo atravessado na vida dos sujeitos propicia o entrelaçamento de diferentes marcadores. Por exemplo, ainda

nesse mesmo encontro e seguindo este rastro, incentivado por comentários e perguntas do próprio grupo, pensamos também sobre que significados a masculinidade assume em sua relação com a velhice. Em uma dessas nossas intervenções, comentei sobre palavras que parecem se repetir nos relatos de homens sobre a velhice:

Eu fico pensando nesse entrecruzamento da masculinidade com a velhice, o que se produz de sentimento. Odiar envelhecer, como que isso se relaciona com os próprios sentimentos consigo mesmo e com o mundo? O que ele imagina que o mundo vai esperar dele agora que é um homem idoso? O que ele espera dele mesmo? E essas palavras são tão fortes: vergonha, morte, medo, perda, uma ideia de passado ou muito ligada ao passado, ou ainda não querer pensar no passado. Como que essa masculinidade junto com a velhice tem produzido os sujeitos também? Sem dúvida impacta no modo como vão se relacionar com tudo, inclusive com educação, com saúde. (Daniel, Encontro do dia 5 de maio de 2021)

O que a velhice (re)arranja e (des)estabiliza na masculinidade e vice-versa? O próprio dado que nos informa que homens vivem menos do que mulheres nos fez fazer algumas perguntas e apostas:

Sabe que eu acho curioso esse dado que os homens envelhecem menos, vivem menos né. Que morrem antes, e sempre leio isso relacionado a se cuidar menos, à saúde. Mas agora te ouvindo fiquei pensando nisso, né?

Até que ponto essa falta de cuidado, esse não querer se cuidar não tem um pouco a ver com isso ali. Acho que a Juliana escreveu “odiar envelhecer”.

Até que ponto essa falta de cuidado esbarra nesse ódio ao envelhecimento a ponto de não querer viver tanto assim mesmo. Talvez não sendo de propósito, mas é muito curioso como isso aparece no discurso, nos dados dos homens que envelhecem menos. (A.C., Encontro do dia 5 de maio de 2021)

Por esse viés, o gênero e a sexualidade deixam de ser algo a ser explicado ou explicativo para ser um conceito disparador de análises. Ou seja, deixamos de encarar estes conceitos como ideias que devem ser desvendadas para prescrever significados, inclusive para produzir definições de sujeitos como heterossexuais, bissexuais, homossexuais e quaisquer outras classificações. Por exemplo, se falamos de um homem que passa a se relacionar com outros homens na velhice, utilizaremos os conceitos de gênero e sexualidade para dizer que ele se descobriu bi/homossexual ou tensionaremos os conceitos para pensar como as expressões de gênero e sexualidade são (im)possíveis a partir de muitos significados sobre o corpo, sobre a vida e sobre o sujeito?

O percurso que produzimos e os olhares das/os participantes possibilitaram também que gênero fosse visto como um conceito-ferramenta potente. Nas problematizações levantadas, em geral as categorias que utilizamos na organização para análise do material transcrito foram desfiadas pelo grupo, e entrelaçadas. No

encontro do dia 5 de maio, por exemplo, conversávamos sobre masculinidades e velhice a partir de alguns disparadores já citados: duas crônicas do livro, o filme Chega de Saudade e um texto de Guacira Lopes Louro que se refere também ao filme. C., em uma de suas falas, levantou uma questão que surge no filme, quando uma mulher jovem se surpreende ao conhecer um baile frequentado por pessoas idosas, dizendo que não pensava que eram daquele jeito. “Ela pensava que seria um lugar morgado, sem prazeres, eu achei isso bem interessante também”. Aqui temos elementos que conversam sobre a produção de subjetividade em relação à velhice, a vida longeva. Conversando com C., comentei de um trecho da crônica “Samba e amor a vida inteira”, do livro de Pachá, na qual uma mulher jovem se relaciona e engravida de um homem idoso. Na audiência de conciliação em torno da paternidade, a mulher diz que não imaginava que pudesse acontecer algo, por ele ser velho. “Não imaginava naquele sujeito idoso, não imaginaria que ali sairia um encontro afetivo ou sexual, não foi uma coisa que passou pela cabeça dela. As representações da velhice né? O que a gente imagina acha possível para aquele corpo.” A sexualidade é considerada como um elemento que compõe o sujeito (idoso). A participante J., em sua fala, continua o diálogo, introduzindo uma perspectiva de gênero, quando diz que a masculinidade parece cobrar que o sujeito tenha um corpo ativo, “o corpo (que) ainda consegue seduzir”, pois tanto no filme como na crônica são exibidas personagens masculinas idosas que “quer[em]

galantear e mostrar-se ali como o homem da relação”.

Apontamos que o currículo forjado, com a diversidade de linguagens e materiais, possibilitou que os conceitos de gênero, velhice, sexualidade fossem utilizados como ferramentas analíticas, levando a um encontro com a complexidade das problemáticas estudadas e possibilitando que as/os participantes apresentassem olhares diversos, a partir das variadas áreas de atuação. O conjunto dessas análises, que foram também costuradas entre si, produziu um percurso menos explicativo e mais provocativo. Não à toa as finalizações dos encontros eram marcadas por falas que ressaltavam quantas questões haviam surgido ao longo do encontro. Ao invés de terminarmos com respostas, nos encontrávamos com novas perguntas.