comer, mas elas vão ensinar vocês que vocês tem que comer espinafre e sementes de não sei o que”.
Os desdobramentos não se dão apenas na relação entre as/os profissionais e o saber do campo em que atuam. As políticas, orientadas por uma visão de responsabilizar o sujeito, passam a considerar certas estratégias como (in)desejáveis. As estratégias de condução de condutas, na forma de orientações e conselhos científicos para o bem viver, encontram espaço. Porém o momento atual, como C. destaca, também desativa os conselhos de direito, incluindo os conselhos da pessoa idosa. Ou seja, a participação social não parece ser uma estratégia desejável.
Tais rotas produzem efeitos nas vidas dos sujeitos, que são atravessadas por uma série de elementos, marcadores de diferenças, que de modo interseccionado produzem múltiplas singularidades e muitas desigualdades. As percepções do que é saúde, do que é um corpo que envelhece de forma saudável, quando não comprometidas com alguma problematização dos conceitos de saúde e de velhice, tendem a tomar o rumo da prescrição, com efeitos nulos em termos de oferecer condições concretas de melhoria, e extremamente fortes nas formas como a sociedade se organiza em torno do cuidado, do envelhecimento, da relação com o próprio corpo. É preciso ainda destacar que as vidas, as condições sociais e os marcadores de diferença desafiam as prescrições, colocando em xeque os saberes baseados em ideais regulatórios.
Construímos esse formulário seguindo a metodologia construída desde o início da proposta, discutindo de forma coletiva, analisando e produzindo certas questões. Após esta etapa, apresentamos o formulário em formato virtual. Tivemos 15 respostas, o que representa o número quase exato de participantes que se mantiveram até o fim do percurso (o que significa que tivemos cerca de 10 abandonos totais ou parciais). O formulário continha perguntas de cadastro, como nome e e-mail, e as seguintes questões avaliativas:
a) Os temas trabalhados e os diálogos produzidos no grupo de estudos repercutiram em sua prática profissional (em relação ao trabalho com envelhecimento e/ou no estudo do tema)? Comente e/ou justifique sua resposta.
b) Os conteúdos e as discussões do grupo de estudos mobilizaram aspectos de sua vida pessoal e/ou comunitária? Você poderia dar exemplos? Quais tópicos ou temas merecem ser aprofundados ou poderiam ser introduzidos em nossos passos futuros? (Em caso de indicação de temas ou tópicos, indique a relevância).
c) Você teria alguma sugestão de continuidade? Como ela poderia ser desenvolvida e/ou qual metodologia poderia ser mais adequada para a atual situação sanitária (pandemia)?
d) Como você avalia a metodologia do grupo de estudos? (Você pode comentar isso considerando também outras experiências formativas que você tenha realizado em formação inicial e/ou continuada).
e) As ferramentas digitais utilizadas no decorrer do grupo (como a plataforma Google Meet, Google drive, WhatsApp, respectivamente para conversação, arquivo de dados e para comunicação) foram facilitadoras, práticas ou não? Vocês teriam alguma sugestão de plataforma, compartilhamento de arquivos que facilite o acesso dos materiais ou outra técnica ou ferramenta?
f) Algum outro comentário ou observação a fazer?
Inicialmente, todas as avaliações, tanto ao final como no decorrer dos encontros, indicaram que o material selecionado foi um elemento que repercutiu bastante entre as/os participantes. As crônicas de Andréa Pachá surpreenderam na
medida em que apresentavam vidas, com seus (im)prováveis acontecimentos, que não deixavam de estar próximas de análises mais amplas em torno da idade, da raça, do gênero, da sexualidade, da desigualdade econômica e política. Nossos olhares por vezes acostumados a discutir os sujeitos como blocos de populações, fomos desafiadas/os pelos textos a discutir elementos singulares que complexificam as abordagens teórico-profissionais. Os demais materiais, como vídeos, curtas- metragens, trechos de filmes ou filmes inteiros, também tocaram em pontos que fizeram emergir muitas análises, muitas dúvidas, mas principalmente, como diz A.L., no encontro do dia 19 de maio, “isso traz para mim um lugar de ter mais sensibilidade com os idosos que eu escuto, né?”. Essa sensibilidade relatada pela participante parece ser o olhar (e ouvido) interessado, menos desejante de sobrecarregar o sujeito de verdades, mas de produzir com aquele sujeito uma relação que possa intervir de modos outros nas realidades, inclusive de educação e(m) saúde.
O formulário continha também uma pergunta diretamente relacionada à prática profissional, na qual convidamos as/os participantes a pensar sobre possíveis contribuições do grupo para suas práticas de trabalho. E a fala de A.L. sobre o grupo ter de alguma forma aguçado certa sensibilidade ecoa em outras avaliações, que destacam sempre o impacto que o grupo teve “na forma de olhar e compreender o velho e as mais diversas formas de velhice que são ou não postas” (RI., formulário de avaliação).
R.I. continuou sua avaliação no encontro de avaliação, destacando elementos do percurso em si. A diversidade de áreas profissionais foi um ponto considerado positivo, mobilizando outros olhares, como ela disse:
[...] a troca, a experiência foi gigantesca, ela cresceu com essa aventura de ter vários profissionais, de várias áreas e tem várias experiências a contribuir. Então posso dizer que meu olhar da velhice, ele cresceu bastante. No sentido pessoal, de eu poder estar dialogando com minha mãe, com minha sogra. E no profissional, eu trabalho na área da saúde, e a gente atende pessoas, crianças, jovens, adultos, idosos, bastante idosos passam por nós e fazemos orientações e diálogos. Então a minha visão hoje não é mais a mesma [...] (grifos nossos)
O uso do termo “experiência” foi repetido na fala de R. e nas falas das/os demais participantes. Aqui, podemos ver que R. utiliza “experiência” para falar do próprio grupo de estudos, e também para falar de vivências outras. Retornamos à
palavra “percursos”, pois consideramos que ela pode ser uma forma de compreender as diversas experiências que nós vivenciamos, e como elas se atravessam em nosso modo de nos relacionarmos conosco e com o mundo. A prática profissional não está isolada dos diversos modos de se constituir sujeito.
Dessa forma, compreendemos que a sensibilidade colocada por A.L., na forma de olhar e compreender, como disse R., reverbera no atendimento a idosos/as, “na formulação de políticas voltadas para a temática do envelhecimento” (C., formulário de avaliação).
O formulário possuía um pedido de análise da metodologia do grupo de estudos, levando-se em consideração outras experiências formativas anteriores, iniciais e continuadas. A “palavra circulando”, como disse AC. em sua resposta ao formulário, foi um elemento destacado por vários/as na metodologia que desenvolvemos. Apesar disso, M. destaca que o aspecto virtual acabou por nos fazer recorrer a um certo modo mais rígido de organização das falas, a partir de inscrições, o que, em sua consideração, impacta na fluidez dos diálogos. Em nosso encontro de avaliação, M. abordou mais detalhadamente essa questão. Na conversa, ela lamentou a certa rigidez das inscrições, que impossibilitava que pudessem ocorrer intervenções mais espontâneas durante as falas. Porém, a participante também considera, afinada com outras/os participantes, que era preciso estabelecer algum acordo, pois as ferramentas virtuais nos colocam certos desafios para os quais precisaremos encontrar estratégias. Em nossa inexperiência ou mesmo nas limitações que o recurso oferece hoje, seria caótico se várias pessoas abrissem seus microfones simultaneamente para intervir. Destacamos, entretanto, que havia também o recurso do bate-papo, um local onde intervenções escritas poderiam ser feitas a qualquer momento, independentemente de quem estivesse com a palavra. E essa ferramenta foi bastante utilizada ao longo dos encontros, com comentários acerca das falas e indicações de materiais.