1.3 Cultura, qualidade de vida e trabalho
2.1.4 Gestão do Programa de Cultura do Trabalhador
Compete à Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura (SEFIC), do Ministério da Cultura, a gestão do Programa de Cultura do Trabalhador. As empresas operadoras, recebedoras e beneficiárias deverão se cadastrar junto ao
SEFIC por meio do portal (http://vale.cultura.gov.br/), disponível no site do Ministério da Cultura.
Trata-se de uma política pública de cultura executada diretamente do nível federal para o cidadão, sem a intermediação de níveis estaduais e municipais de gestão pública.
Esta política está em implementação em todos os estados brasileiros. Na cidade de Itajaí não há ainda divulgação de sua efetiva implantação, isso estimula a realização de um estudo para compreender como se dá a implementação do Programa de Cultura do Trabalhador no município e identificar se o contexto das empresas itajaienses estimula ou inibe a adesão de todos os atores envolvidos.
3 A METODOLOGIA E A COMPREENSÃO DOS DADOS
A presente pesquisa é teórico-prática do tipo exploratória, quali quantitativa, que segundo António Carlos Gil (2011, p. 27) tem como objetivo “desenvolver, esclarecer e modificar conceitos e ideias”; proporcionando uma visão geral acerca do fenômeno pesquisado, especialmente, quando o tema escolhido é pouco explorado, tornando difícil formular hipóteses precisas e operacionalizáveis. O embasamento teórico para a discussão dos conceitos centrais da pesquisa sustenta-se na abordagem fenomenologia com foco na hermenêutica.
A fenomenologia é o estudo das essências, é uma filosofia que compreende o homem e o mundo a partir da sua factilidade. Trata-se de descrever e não explicar, nem de analisar (MERLEAU-PONTY, 1999).
A compreensão sobre os dados ocorreu, a partir de uma hermenêutica fenomenológica, sustentada pelo referencial teórico e percepções sobre os dados levantados na pesquisa bibliográfica e documental, bem como, pelos dados obtidos nas entrevistas realizadas junto às empresas, durante a realização dos objetivos. Logo os resultados finais da pesquisa foram obtidos frente aos registros com base nos questionários respondidos pelas pessoas participantes.
Segundo Dittrich (2008, p. 63), hermenêutica quer dizer:
Uma postura, uma maneira de entender e expressar a percepção sobre os dados da investigação teórico-prática, de forma qualitativa. A hermenêutica nasce da busca de respostas do pesquisador para seus questionamentos.
A fonte original da hermenêutica é o ser humano pesquisador, que vive os processos dos fatos, dos acontecimentos oriundos de suas reflexões (indução- dedução) elaboradas ao longo de sua existência. “O ser humano (no caso da ciência, o pesquisador é o locus onde a vida acontece e se expressa em pensamento sistematizado – o conhecimento sobre algo percebido na realidade vivida” (DITTRICH; TORTORELLO, 2012, p. 6). Como dizem Maturana e Varela (1995, p. 76), “tudo que é dito é dito por alguém”, pois o conhecer e o fazer estão articulados numa maneira de ser do ser humano. E continua: “O fato de o conhecer ser a ação daquele que conhece está enraizado no modo mesmo de seu ser vivo, em sua organização” e que reflete na construção de seus pensamentos e ações.
O ato da compreensão humana está profundamente associado às raízes mais profundas da vida, que biologicamente falando, se dinamizam em toda estrutura molecular e celular do ser humano que tem em si o fenômeno da cognição como possibilidade para criar aprender e conhecer na inter-relação com o meio circundante. (DITTRICH, 2004, p. 971).
A partir do exposto pelos autores acima, a compreensão dos dados da pesquisa se desenvolveu da seguinte forma:
Indutivamente foi feito a descrição dos dados coletados na realidade pesquisada junto às empresas itajaienses e na pesquisa documental;
O desenvolvimento da compreensão dos dados se deu por meio da percepção da pesquisadora sobre os registros de significações dos participantes, quando se cruzou os dados obtidos com as referências teóricas utilizadas, chegando-se às considerações finais.
Dentro da fenomenologia, o olhar perceptivo da pesquisadora, naturalmente, é perpassado pela dinâmica criativa de processos da percepção, que se estruturam entre a sensibilidade intuitiva, intencional e racional, na qual a objetividade e a subjetividade são relacionais às referências qualitativas e quantitativas, que se implicam na complexidade do fenômeno pesquisado – o Programa de Cultura do Trabalhador (Vale Cultura) e a sua implantação no município de Itajaí.
O público alvo foi composto por oito empresas de Itajaí, que representam diferentes áreas de produção no município e que atuam no regime tributário de lucro real3. Em cada empresa foram entrevistadas três pessoas da gestão, sendo:
um Diretor/Presidente, um responsável pelo setor Contábil/Financeiro e um responsável pelo setor de RH/Gestão de pessoas; e também três trabalhadores, com renda entre 1 e 5 salários mínimos, por empresa.
Os critérios de inclusão implicaram na escolha de empresas com tributação por lucro real. E isso se deve ao fato deste tipo de organização ser o único que tem benefícios de isenção fiscal ao aderir ao Programa de Cultura do Trabalhador (Vale Cultura).
3 É a base de cálculo do imposto sobre a renda apurada segundo registros contábeis e fiscais efetuados sistematicamente de acordo com as leis comerciais e fiscais (BRASIL, [201-]).
A escolha dos sujeitos participes da pesquisa e que estão vinculados às empresas se justifica pelos seguintes motivos: o diretor/presidente por ser este o cargo mais alto da empresa e, em última instância, é a pessoa responsável por todas as decisões estratégicas da organização. Entretanto, para a tomada de decisão a diretoria precisa de informações da equipe de gestão. Neste caso específico, do responsável pelo setor contábil/financeiro, pois a adesão a este programa envolve questões financeiras e tributárias. E também do responsável pelo setor de RH/gestão de pessoas, uma vez que interfere nas políticas de gestão de pessoas da empresa, por ser um programa com participação voluntária dos funcionários, que impacta diretamente na qualidade de vida dos trabalhadores.
O Programa de Cultura do Trabalhador é opcional para os trabalhadores, sendo que a adesão deles é essencial para que o programa funcione.
Considerou-se, portanto, muito importante ouvir sua percepção sobre a introdução deste benefício.
Quanto ao número de trabalhadores, escolheu-se três por ser o mesmo número de gestores a serem entrevistados em cada empresa. Para identificação destes trabalhadores foi solicitado à direção da empresa autorização para divulgar a pesquisa entre os funcionários, de modo que, três dentre eles pudessem se voluntariar como participantes. Por opção das próprias empresas, o responsável pelo setor de RH realizou esta divulgação internamente, para todos os departamentos, e indicou à pesquisadora os três primeiros funcionários voluntários. Apesar de não ser um pré-requisito, um ponto favorável foi o de que, em sete das oito empresas, os voluntários trabalhavam em setores diferentes dentro das empresas. Contribuindo assim, com perspectivas diferenciadas durante a coleta de dados. E a definição de faixa salarial seguiu a normativa do Programa de Cultura do Trabalhador, que foca a distribuição do Vale Cultura principalmente para trabalhadores entre 1 e 5 salários mínimos.
Os critérios de exclusão implicaram as empresas optantes por regime tributário diverso do lucro real. Excluiu-se todos os demais membros da administração e gestão das empresas que não os indicados como sujeitos desta pesquisa. Excluiu-se também todos os trabalhadores com renda maior de 5 salários mínimos e, na faixa de 1 a 5 salários mínimos, todos que não foram os
três primeiros a se voluntariar para participar da pesquisa. Tudo isso para manter a coerência com as normativas do Programa de Cultura do Trabalhador.
A coleta de dados iniciou após a apresentação deste projeto de pesquisa ao Comitê de Ética da UNIVALI, e sua aprovação mediante o parecer de nº 1.173.796 e CAAE nº45279615.1.0000.0120 e se desenvolveu da seguinte forma:
O desfecho primário foi obtido com a realização dos objetivos específicos.
Os dados para alcançar o primeiro objetivo foram obtidos por pesquisa bibliográfica e documental e registro de aspectos documentais e legais, bem como, alterações normativas ocorridas desde o lançamento do Programa de Cultura do Trabalhador até o presente. A fonte principal de informação foi o site do Ministério da Cultura/Vale Cultura, o site de cadastramento do Vale Cultura e a Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura (SEFIC), que é uma fonte de acesso público.
A obtenção de dados para o segundo objetivo se fez por meio de consulta direta à Secretaria Municipal da Fazenda, bem como a empresas de contabilidade do município, para obtenção de listagem de empresas itajaienses que operam no regime tributário de lucro real. Estas são fontes de acesso público.
Como instrumentos de coleta de dados para a execução do terceiro objetivo, a pesquisadora utilizou quatro modelos de questionários, sendo um para cada categoria de gestores e um para os funcionários. Os questionários foram elaborados com perguntas diretivas e não diretivas, qualitativas e quantitativas. A forma de aplicação do questionário foi por entrevista individual, em que ambos, o(a) entrevistado(a) e a pesquisadora, possuíam uma cópia do questionário. Este foi lido pela pesquisadora e respondido verbalmente e por escrito pelo(a) entrevistado(a). As respostas verbais foram gravadas. A dupla coleta de dados foi realizada para minimizar o risco de perda de dados (em arquivo digital e escrito).
As perguntas elaboradas para cada categoria de participantes visam identificar a percepção dos mesmos sobre o delineamento desta política, suas vantagens e desvantagens para as empresas e seus funcionários, bem como, fatores relevantes para sua implementação e a percepção de viabilidade ou não da adesão das empresas ao Programa de Cultura do Trabalhador.
Algumas perguntas preliminares que são básicas para a compreensão do fenômeno estudado, foram feitas para todos os participantes da pesquisa. Os
grupos de respondentes foram escolhidos por interagir como o Programa de Cultura do Trabalhador a partir de perspectivas diversas, de acordo com a área de atuação dos participantes, a saber: direção, contábil, recursos humanos e funcionários. Portanto, para buscar uma ampla compreensão do tema de pesquisa, que é O Processo de Implantação do Programa de Cultura do Trabalhador no Município de Itajaí, optou-se pela complementação do questionário com algumas perguntas específicas para cada categoria de participantes. De modo que a discussão dos dados levantados se fez, pelo total dos respondentes, no caso das perguntas preliminares, e por categoria, no caso das perguntas específicas.
As identidades dos entrevistados e das empresas foram nominadas de forma alfanumérica e por categoria de respondentes. A letra indicou a categoria e o número se referiu a empresa, por exemplo D.1 era o participante da Diretoria da empresa 1; C.2 era o participante Contábil da empresa 2; R.4 era o participante RH da empresa 4. Na categoria Funcionários foram três os participantes respondentes para cada empresa. Neste caso, foi adicionado um número para a identificação da ordem dos entrevistados – F.4.1 era o participante Funcionário da empresa 4, primeiro entrevistado; F.5.3 era o participante Funcionário da empresa 5, terceiro entrevistado, e assim por diante.
O local de realização da pesquisa foi o município de Itajaí. As empresas foram contatadas por telefone para identificar o nome e email dos responsáveis a serem entrevistados. Em seguida, por email, foi introduzida a explicação da pesquisa quanto ao seu tema, objetivos e benefícios aos possíveis participantes, visando agendar uma data para a entrevista, que realizou-se no local da empresa.
Antes do início da entrevista foi apresentado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido ao participante e coletada a assinatura do Consentimento de Participação do Sujeito.