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Graciliano Ramos e seus “monumentos de baixeza”

No documento Diálogo Cordial: (páginas 76-94)

2. DOIS ESCRITORES E UM RETRATO

2.1 Graciliano Ramos e seus “monumentos de baixeza”

Entre março de 1941 e agosto de 1944, Graciliano Ramos publica 25 textos em Cultura Política: dezoito nos primeiros dezoito números, na seção Quadros e Costumes do Nordeste; outros seis a partir da mudança de formato da revista, na seção Quadros e Costumes Regionais (em setembro, outubro e dezembro de

1942, em março e maio de 1943 e em julho de 1944); e, finalmente, um último texto na seção Literatura, em agosto de 194454.

Como já notou Raúl Antelo (1984), num dos poucos trabalhos dedicados a essa parte da obra de Graciliano Ramos, os primeiros dezoito textos que aparecem em Cultura Política não trazem título. Mais que um detalhe, este fato se relaciona à organização interna da revista durante sua primeira fase, que coincide com o período em que Lourival Fontes esteve a cargo do DIP. Logo de sua saída, como já afirmamos, e a pedido do novo diretor do Departamento, o major Coelho dos Reis55, a revista perde seu formato original de seções fixas, característica de seus primeiros dezoito números. Em seu formato original, os textos de Graciliano, assim como os de Marques Rebelo (Quadros e Costumes do Centro e do Sul), aparecem no interior do item Evolução Social que compõe, junto com Evolução Intelectual e Evolução Artística, uma seção muito maior intitulada Brasil Social, Intelectual e Artístico.

Segundo o depoimento de Almir de Andrade, Rosário Fusco foi quem se encarregou, durante este período, de escrever os textos introdutórios tanto à seção como um todo, quanto a cada uma de suas subseções (cf. ANDRADE, 1985; cf.

VELOSO, 1982). Dentro dessa estrutura em certa medida rígida, em que a maioria dos textos de Graciliano e de Marques Rebelo foram publicados, a idéia de colaborador se sobrepõe à figura do autor e ausência do título contribui para esse deslocamento de significado, ao mesmo tempo em que os textos introdutórios procuram dar um sentido unívoco a essa colaboração.

Além da sofisticação ideológica e neste caso editorial do projeto estado- novista, já tão bem assinalados por Velloso e Oliveira, a rigidez característica à revista em seu formato original aponta para um tema muito falado, mas efetivamente pouco trabalhado, talvez por falta de material: o do controle, ou censura, sobre os textos publicados (cf. OLIVEIRA, 1999; VELOSO, 1982). É plausível supor que, aceitando escrever para uma revista oficial do Estado Novo, houvesse uma autocensura por parte dos colaboradores no caso de serem críticos à política

54 A seção Quadros e Costumes Regionais apareceria às vezes simplesmente com o nome de Quadros Regionais. Durante o que consideramos aqui como tendo sido a segunda fase de Cultura Política, isto é, de setembro de 1942 até maio de 1945, as seções não somente deixam de ser fixas como apresentam pequenas variações em seus nomes.

55 O então major Coelho dos Reis, que no ano seguinte promovido a tenente-coronel, seria substituído na direção do DIP pelo capitão Amilcar de Castro de Menezes em junho de 1943, quem, por sua vez, ficaria à frente do DIP até maio de 1945. Voltaremos a esse ponto no último capítulo.

governamental. E mesmo que, como afirmou Oliveira, os autores usufruíssem de liberdade para, simplesmente, fazer o que sabiam fazer. Uma vez que ficavam restritos à sua área específica de atuação, os textos introdutórios a que nos referimos acima poderiam servir como suficiente controle.

No que diz respeito aos Quadros, encontramos não só os textos introdutórios, mas também pequenos cabeçalhos que oferecem um resumo e introduzem o leitor no assunto da crônica. Sua presença ao longo da revista, no entanto, parece ser aleatória, indicando que, se não se tratava somente de falta de organização, e se é que existia algum controle prévio sobre os textos, não é óbvia a maneira como ele era exercido56. Todavia, antes de passarmos ao conjunto das crônicas de Graciliano, é necessário chamar a atenção para o fato de que justamente nos dois primeiros números da revista, em que os cabeçalhos estão, há uma alteração significativa em seus textos, se comparado aos manuscritos postumamente publicados como Viventes das Alagoas. Na primeira crônica, de março de 1941, e que aparece em livro com o título de “Carnaval”, tem-se a supressão de dois parágrafos completos, relativos ao vigário local:

Faz trinta anos que S. Revma profere no púlpito, com ligeiras variantes, o mesmo sermão, ataque feroz ao mundo, à carne e ao diabo, férteis em tentações não especificadas. Prudente, S. Revma impugna o exterior do mal. Acusou as primeiras mulheres que vestiram calça e montaram a cavalo de frente, escanchadas, como os homens, mas este indício de perdição vulgarizou-se rapidamente, os silhões e o costume de cavalgar de banda caíram em desprestígio – e o Vigário passou a denunciar outras manhas dos inimigos da alma. Agrediu as saias curtas das moças e os braços descobertos. Ante a resistência, foi inexorável: esbaforiu-se e enrouqueceu depois da missa, usou argumentos rijos e, no batismo, afastou da pia as madrinhas não inteiramente agasalhadas. Recusou desculpas, triunfou. Idoso e de óculos, enxerga sem dificuldade os colos expostos. E julga que alguns centímetros de pele nua ocasionam prejuízo sério à cristã.

Na campanha mais enérgica do Reverendo, contra o carnaval, um aliado considerável rendeu-se, o hebdomadário noticioso e austero, que entrou na folia para não desgostar os assinantes. O Vigário compreendeu que perdia terreno e contemporizou: admitiu a festa pagã, limitando-se a condenar exageros, que nunca existiram. (RAMOS, 1975, p.17-8)

Num texto crítico à classe política e aos cidadãos médios, com sua moralidade pequeno-burguesa, a supressão desses dois parágrafos não é suficiente para alterar o que, segundo Zenir Reis (1991), poderíamos considerar como uma tentativa de re-estabelecer a transparência de sentido da (des)ordem social por meio

56 Em relação não só aos textos de Graciliano Ramos, mas a toda revista em sua primeira fase, encontramos a presença desses cabeçalhos nos seguintes números: março de 1941; abril de 1941; novembro de 1941;

dezembro de 1941; janeiro de 1942. No caso de Graciliano, os cabeçalhos apareceriam, ainda, em setembro e outubro de 1942.

da ironia. Perde-se a crítica à Igreja, recorrente em Graciliano, mas se mantém a unidade do texto. Na segunda crônica publicada em Cultura Política, em abril de 1941, e que aparece posteriormente em Viventes com o título de “D. Maria Amália”, temos, no entanto, uma alteração que cancela a unidade de sentido do texto como um todo, e a substitui por outra. Vale a pena enfatizar que esta é uma exceção em relação ao conjunto dos textos que Graciliano publicou na revista. E é como uma exceção, e não como regra, que a mencionamos aqui.

A crônica trata da história de um governador que se vê às voltas com uma

“senhora terrível, sempre com um inimigo para deitar abaixo e um amigo para colocar”, mas de quem ele, para obter votos, dependia ao nível municipal. “D. Maria Amália tornou-se um símbolo”, e não é difícil imaginar de que: da política generalizada da troca de favores entre a elite política, típica à Primeira República, em que os governadores se mantinham no poder graças ao controle exercido pelos

“coronéis” nos municípios. No contexto do projeto político-ideológico que Cultura Política representa, e para o qual o governo de Vargas marcava um antes e um depois na história política brasileira, era natural que tal símbolo não pudesse sobreviver. Ou sobrevivendo, vivesse descontente: “– Política de d. Maria Amália. E d. Maria Amália subia. Depois desceu. Hoje é uma senhora grisalha, gorda, respeitável, com boas cores, bom estômago, boa memória. E vive descontente.”

(RAMOS, CP, abril de 1941, p.247).

O final da história, segundo o texto publicado na revista, acompanha, assim, o tom geral do cabeçalho, em que o caudilhismo – de que o coronelismo feminino seria uma variante – é apresentado como o resultado do sistema eleitoral da Primeira República, finalmente combatido pelo golpe de 193757. A crônica apresenta, ademais, uma moral clara, expressa em termos de vícios e virtudes temporamente localizáveis. Nesse sentido, ela não somente se põe de acordo com a linha política da revista como curiosamente se aproxima, também, de personagens e

57 Segundo o texto do cabeçalho, lemos: “O sistema eleitoral da Primeira República criou, no interior do Brasil, curiosos tipos de caudilhos. Em torno dele girava a vida estadual e municipal. Todo um grupo de interesses pessoais se organizava ao redor dessas figuras, que comandavam os negócios sociais. Cada uma delas podia repetir a frase simbólica de Luis XIV: L´etat c´est moi. E era mesmo. Depois de novembro de 1937 as coisas mudaram de rumo. Essas figuras caíram, se apagaram, se dissolveram na onda revolucionária que introduziu novos costumes e novos métodos de conduzir a vida política regional. Em sua crônica de hoje, o autor procura fixar um desses tipos, encarnado na pessoa de uma mulher. [...] E é a pena segura de um dos maiores romancistas do Brasil de hoje que nos vai pintar, em poucas palavras, esse quadro tão familiar aos que conheceram o nordeste há alguns anos atrás.” (CP, abril de 1941, p.246). Sobre a importância da relação antes/agora para o projeto político-ideológico estado-novista, ver Veloso, 1982. Sobre o caráter documental, implicado nesse cabeçalho pelo uso dos verbos fixar, pintar, etc., ver BUENO, 2006; ver VELOSO, 1988; e o capítulo 1 desta tese.

situações que aparecerão em muitas das crônicas seguintes. No mundo da literatura popular nordestina e de seu público, diz-nos Graciliano, “as personagens [...] não eram a deplorável mistura de virtudes e vícios que utilizamos: eram tipos absolutamente bons ou absolutamente ruins. Os justos recebiam prêmio, os malandros findavam no castigo e no remorso, como deve acontecer” (RAMOS, CP, maio de 1942, p.272, grifos nossos). D. Maria Amália subia. Depois desceu...

Muito diferente, no entanto, é o final da história no texto posteriormente publicado em Viventes. Aqui, a ironia, operando como repetição do mesmo/continuidade, afirma o mundo precisamente para negá-lo, isto é, funciona como crítica:

– Política de d. Maria Amália. E d. Maria Amália crescia. Hoje é uma senhora bem conservada, respeitável, com excelentes relações. Algumas pessoas julgaram há tempos que ela ia morrer. Tolice. Morrer tão moça, quando, como diz o poeta, este mundo é um paraíso! Resistiu a todas as comissões de sindicância e está forte, gorda e risonha. (RAMOS, 1975, p.30).

Talvez pudéssemos lançar aqui, no entanto, a pergunta sobre como, então, deveria acontecer. Na crônica a que nos referimos acima, intitulada, em Viventes,

“Um homem de letras” – e originalmente publicada em Cultura Política em maio de 1942 –, vemos o escritor assumir uma posição em relação ao seu personagem e ao que ele representa: ao contrário de Domingos Barbosa, cujas personagens são somente boas ou somente más, nós utilizamos essa “deplorável mistura de virtudes e vícios”. Nesse sentido, ao menos em relação à ordem literária, Graciliano parece assumir explicitamente uma posição sobre como as coisas deveriam ser, o que não acontece quando o que está em jogo é a ordem política. Para voltarmos a Reis, poderíamos afirmar que, tratando de literatura, “o lado direito” está à vista. E, no caso específico a que nos referimos acima, mais ainda se levarmos em conta a descrição que a antecede e a antecipa:

Na literatura Domingos Barbosa se revelava pouco mais ou menos como no exterior:

botinas cambadas e de elástico, roupa negra coberta de nódoas, chapéu duro, também enodoado, guarda-chuva, barba crescida e caspa. Ave de arribação, não podia arranjar direito as suas histórias, lavá-las, esfregá-las, vesti-las convenientemente, cortar-lhe as unhas, os cabelos e os calos (RAMOS, CP, maio de 1942, p. 271, grifo nosso).

Domingos Barbosa, esse “novelista consciencioso”, que havia aprendido o vocabulário nos jornais da capital e com esse vocabulário recheava suas historias de

“excelente moral exposta” era, na verdade, um sujeito reprovável ou, para usarmos

uma expressão de Antônio Cândido, uma espécie de projeção da náusea que Graciliano Ramos parece ter sentido sempre em relação a todos aqueles que mantinham algum grau de compromisso com a ordem estabelecida e que se revelaria muitas vezes, em sua obra, através da antinomia sujeira-limpeza (CÂNDIDO, 2006b, p. 60). O próprio termo usado aí por Graciliano – ave de arribação – quando pensado em relação a Vidas Secas, leva-nos a pensar em uma espécie de praga, difícil de “dar cabo”58. Concordando com Antônio Cândido, parece-nos ainda que não só essa aversão está presente e se expressa por meio da negação da ordem estabelecida como também, no que diz respeito à linguagem, afirma-se uma ordem alternativa à que está sendo criticada. Nós utilizamos essa mistura deplorável de virtudes e vícios porque essa ordem é, assim mesmo, mais limpa que a outra, da moral exposta.

Na crônica “Um Gramático”, publicada em Cultura Política em junho de 1942, o tema volta a aparecer sob a mesma perspectiva59. O gramático, que “ali por volta de 1930 obteve notoriedade”, é uma figura interessante por exemplificar uma vez mais, e no contexto específico da linguagem, um modo de ser comum a personagens de muitas outras crônicas, pois a ciência dele, “como em geral a dos sertanejos nordestinos” é, diz Graciliano, “sem vacilações”. Tal como acontecia com Domingos Barbosa, o seu mundo se dividia em virtudes e vícios, segundo um processo sumário: “o que fica à esquerda está errado, o que vem à direita está certo”. A prosa vulgar, no duplo sentido da palavra, isto é, como palavrão e ao mesmo tempo como transcrição do discurso oral à linguagem escrita – que o modernismo inaugura e que o romance de 1930 confirma – viria à esquerda e estava errado:

58 Como lembra Wander Melo Miranda, Cardinheiras foi o primeiro título provisório que Vidas Secas recebeu durante o período de escritura, antes de se tornar O mundo coberto de penas e, finalmente, Vidas Secas.

Cardinheiras, diz Miranda, “são as arribações que cobrem o mundo de penas, no duplo sentido da palavra, no penúltimo capítulo do livro. É um segmento importante da narrativa, por assinalar a desoladora possibilidade que os pássaros anunciam, e afinal se confirma, de nova estiagem, outra fuga dos retirantes: As bichas

excomungadas eram a causa da seca. Se pudesse matá-las, a seca se extinguiria. Mexeu-se com violência, carregou a espingarda furiosamente. A mão grossa, cabeluda, cheia de manchas, descascada, tremia sacudindo a vareta. – Pestes. Impossível dar cabo daquela praga. Estirou os olhos pela campina, achou-se isolado.

Sozinho num mundo coberto de pensas, de aves que iam comê-lo. Pensou na mulher e suspirou. Coitada de sinhá Vitória, novamente nos descampados, transportando o baú de folha” (MIRANDA, 2000, p. 117).

Reproduzimos aqui, em cursiva, a citação que o autor faz de um trecho do livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos.

59 Publicada em Cultura Política em maio de 1941, encontramos a terceira crônica que, do total de textos analisados aqui, trata igualmente do tema da linguagem. Entretanto queremos crer que, aí, mais que retratar um personagem, Graciliano retrata um ambiente e a força desse ambiente sobre o personagem. Desenvolveremos este ponto ao longo do texto.

Deitar ao mundo uma criatura em duas sílabas é feio. Indispensável enfeixar o recém-nascido em locução respeitosa. Esse pudibundo chega sugerir a supressão de vocábulos capazes de insinuar-nos idéias desonestas. Buraco, por exemplo. Se aceitássemos o conselho, restringiríamos bastante o dicionário. Mas teríamos decência, limpeza, a aprovação de alguns críticos literários que, nestes últimos tempos, vivem descobrindo obscenidades na prosa vulgar de romances inofensivos.60 (RAMOS, CP, junho de 1942, p.322, grifo do autor).

Mesmo sem extrapolarmos para a sugestão política que a oposição

“esquerda” e “direita” insinua, vemos aí um posicionamento claro do autor em um debate que não se restringe a um espaço-tempo longínquo – imagem idealizada do nordeste que serviria ao “projeto ideológico estado-novista de integração nacional através da cultura” (MIRANDA, 2000, p.114). Desde o primeiro parágrafo, quando somos apresentados à figura do gramático que, “ali por volta de 1930 obteve notoriedade”, já sabemos que o tempo da crônica é o tempo presente, compartilhado por Graciliano e por críticos literários que comungariam daquela mesma ciência sem vacilações dos sertanejos nordestinos – a ciência da falsa moral, de ontem e de hoje. Mais importante do que isso, no entanto, o que gostaríamos de remarcar aqui é que, no que diz respeito à linguagem, encontramos nas crônicas publicadas em Cultura Política não somente uma postura crítica ao status quo, mas a afirmação de uma ordem alternativa possível. Ao menos no plano lingüístico-literário, podemos, pois, identificar o lado direito do avesso ou, ainda, um como deve acontecer.

Viemos enfatizando este ponto porque tanto em relação à vida social como à vida política, naquele tempo-espaço restrito (ainda que não absolutamente restrito, como já vimos) de Alagoas no início do século XX, Graciliano não oferece nas crônicas nenhuma pista do que poderia ser para ele uma opção alternativa ao quadro que apresenta. Vale a pena nos determos no conjunto de textos, antes de seguirmos adiante. Em linhas gerais, podemos agrupar as crônicas em dois grandes grupos: de um lado, as publicadas entre março e novembro de 1941, nas quais o ambiente prevalece sobre os personagens. São elas: “Carnaval”, “D. Maria Amália”,

“O moço da farmácia”, “Casamentos”, “Habitação”, “Teatro I”, “Teatro II” e

“Bagunça”. A segunda crônica, de abril de 1941 – e posteriormente publicada em Viventes com o título “D. Maria Amália” – poderia nos induzir, pelo uso do nome próprio, tratar-se de um personagem, o que d. Maria Amália não é. Não fosse suficiente o caráter de símbolo que Graciliano explicitamente lhe atribui, todo o texto

60 Segundo o Houaiss, um dos sinônimos possíveis de buraco é ânus. Pelo contexto da frase, é provável que a palavra de duas sílabas seja puta.

é construído a partir da figura do Governador e de sua percepção do jogo político com aquela mulher sempre ali, a dificultar-lhe a vida61. Ao final, o que vemos aí são dois símbolos que se equilibram, traduzindo perfeitamente bem, no plano literário, a relação que possivelmente se daria, na prática, na “política dos governadores”. De fato, a única exceção desse conjunto é a crônica de julho de 1941, posteriormente intitulada “Ciríaco”. Escrita, ao contrário da quase totalidade dos textos, em primeira pessoa, essa crônica descreve uma conversa passada entre o narrador e um “pastor de cabras”, pondo em questão o papel do intelectual e do conhecimento e recuperando, assim, um importante tema dos escritores de esquerda dos anos 1930.

Neste sentido, gostaríamos de pensar que esse primeiro grande conjunto de crônicas retrata um ambiente – e um ambiente em que a geografia aparece, antes que nada, como um espaço social.

De outro lado, conformando o que gostaríamos de ver aqui como um segundo grande conjunto de crônicas, estão os textos publicados a partir de dezembro de 1941, em sua maioria dedicados a um personagem em especial: “D. Maria”,

“Libório”, “Um antepassado”, “Um homem de letras”, “Um gramático”, “Dr. Pelado”, Joaquim Pereira do Ingá (“A decadência de um senhor de engenho”), Dr. França e Pé-de-Molambo (“Está aberta a sessão do Júri”), “Um homem notável”, Gouveia (“Recordações de uma indústria morta”). Na crônica “Desafio”, de fevereiro de 1942, vê-se a mesma estrutura que já havia aparecido em “D. Maria Amália”, isto é, a contraposição entre dois símbolos que fazem as vezes de personagens. Com exceção desta, e também das crônicas “Funcionário independente” e “Transação de cigano”, respectivamente de março e agosto de 1942, as demais crônicas deste período retratam tipos e/ou comportamentos sociais possíveis em um ambiente cujos traços básicos, poderíamos pensar, já haviam sido previamente delineados pelo autor. Como se Graciliano pintasse um quadro, composto de cenas de fundo, e só depois inserisse nele os personagens que aparecem em primeiro plano.

Se não existem muitas análises sobre o conjunto de crônicas publicadas por Graciliano em Cultura Política, as poucas existentes tendem a ver os “quadros”

como uma tentativa de, nas palavras de Facioli, “congelar o mutável no marco de

61 “Ora, das criaturas que aperreavam S. Exa. D. Maria Amália era a mais incômoda. No gabinete, no sertão, livre das horas de expediente, no cinema, assistindo a uma cerimônia oficial, respirando poeira em vagão da Great Western ou escondido num desses recantos indispensáveis que não é preciso mencionar, fazendo a barba, dormindo, comendo, amando, o Governador era atazanado por D. Maria Amália, pelos representantes de D.

Maria Amália ou pela recordação de D. Maria Amália” (RAMOS, CP, abril de 1941, p. 246).

uma visão autoritária e exterior” que Graciliano, funcionário de um governo autoritário, compartilharia em alguma medida (FACIOLI, 1987, p. 69). Raúl Antelo vai além, vendo a ironia, nessas crônicas, como sinal da complacência de um autor que, condenando o atraso frente à modernização, situa-se a si mesmo no “pólo lúcido do conflito”, como se ocupasse a posição de quem, em relação ao mundo que narra, visse mais e melhor (ANTELO, 1984, p. 31). Essas afirmações, por si sós, podem parecer injustas com respeito a um autor que buscou denunciar as conseqüências de um sistema produtivo opressivo ou, melhor, da opressão erigida em sistema. E mais ainda se levarmos em conta que, inclusive quando comparado a seus contemporâneos, Graciliano se destacou por haver problematizado a relação entre intelectuais/classe trabalhadora, assim como a de autor/personagens, pondo em dúvida a capacidade dos primeiros representarem e, especialmente, compreenderem os segundos em sua diferença e autonomia62.

De fato, a narrativa de Graciliano parece evocar um mundo estável, como mencionamos na introdução desse capítulo. Mas isso acontece não pela ausência de movimento em si, senão porque a ação aparece, muitas vezes, ao mesmo tempo como causa e conseqüência de um processo de reificação do mundo, para recuperarmos o ponto de Luis Lafetá em seu clássico texto sobre São Bernardo63. No caso de São Bernardo, a ação de Paulo Honório é representativa de uma força

62 Comparando, neste mesmo sentido, Graciliano com Jorge Amado, Bueno afirma que: “Por caminhos muito diversos, Graciliano Ramos e Jorge Amado acabam trabalhando com o mesmo impasse. A diferença é que Graciliano parte desse impasse e o incorpora a seus romances como aspecto problemático, enquanto Jorge Amado vai tentando resolvê-lo até chegar sem perceber ao ponto de partida. Esse é um dos motivos – talvez o motivo central – por que a obra de Graciliano tem uma consistência que a de Jorge Amado não consegue ter. Ao perceber o proletário como um outro enigmático, Graciliano não precisa valorizá-lo conscientemente porque a percepção de sua autonomia – e portanto de sua condição humana – já é também a demonstração da percepção de seu valor. Jorge Amado, ao contrário, tentando atribuir valor, faz tanto que, no final de seu trajeto nos anos 30 – só publicará outra obra de ficção em 1944 – acaba criando um romance no qual o máximo da valorização coincide com a figuração da máxima dependência” (BUENO, 2006, p. 268). A obra a que Bueno se refere é Capitães de Areia, de 1937. O romance seguinte de Jorge Amado, Terras do Sem Fim, só sairia publicado em 1943. Apesar de ser uma referência conhecida, vale a pena voltar à carta de Graciliano à Marili Ramos, de 23 de novembro de 1949, em que Graciliano fala abertamente à irmã sobre os defeitos que julgava ver em seu conto:

“Julgo que você entrou num mau caminho. Expôs uma criatura simples, que lava roupa e faz renda, com as complicações interiores de menina habituada aos romances e ao colégio. As caboclas da nossa terra são meio selvagens, quase inteiramente selvagens. Como pode você adivinhar o que se passa na alma delas? Você não bate bilros nem lava roupa. Só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida. Arte é sangue, é carne. Além disso não há nada. As nossas personagens são pedaços de nós mesmos, só podemos expor o que somos” (RAMOS, 1994, p. 213, grifo nosso). Graciliano mostra outra vez aqui, e fazendo uso do mesmo verbo – adivinhar – uma preocupação que já o acompanhava, explicitamente, desde a escritura de “Baleia”, conto que viria a fazer parte de Vidas Secas (cf. MIRANDA, 2000).

63 Luis Costa Lima, em Por Que Literatura, de 1968, é apontado como o primeiro autor a identificar esse mecanismo em São Bernardo. Utilizamos aqui, no entanto, a análise que posteriormente se tornou clássica, de João Luis Lafetá. Ver LAFETÁ, 1981. Segundo Luis Bueno, ambos desenvolvem um ponto que aparece por primeira vez em uma crítica de Carlos Lacerda, ainda na década de 1930. Ver BUENO, 2006, p. 240. Sobre o

“sentimento de propriedade”, ver CÂNDIDO, 2006b, especialmente p. 32-39.

No documento Diálogo Cordial: (páginas 76-94)