3. A DIFÍCIL HERANÇA MODERNISTA
3.3 O herdeiro: Wilson Lousada e os “tempos de 30”
No item anterior, analisamos a contribuição que, sob o pseudônimo de Pedro Dantas, Prudente de Moraes, neto, prestou a Cultura Política, ocupando-se da crítica literária “de Idéias” durante todo o ano de 1941. Este item será dedicado à análise da crítica propriamente literária representada, na revista, pela subseção “Literatura
de Ficção” a cargo do crítico Wilson Lousada109. Se até hoje não encontramos um perfil da trajetória de Prudente de Moraes, neto, Wilson Lousada se tornou, por sua vez, um personagem praticamente esquecido da história desse período. Mesmo no estudo de Luis Bueno, em que, como já afirmamos, vemos uma análise extensiva tanto das obras como da crítica, não encontramos qualquer referência a seu trabalho como crítico, durante a década de 1930, no importante jornal literário Dom Casmurro, fundado por Brício de Abreu, tendo como editor-chefe Álvaro Moreyra e em que trabalhou, ao lado de Joel Silveira e Danilo Bastos, no que Silveira se referiria, posteriormente, como compondo a “fauna dos (colaboradores) permanentes” em contraposição aos “de passagem”, que foram muitos (SILVEIRA, 1998, p. 132).
Wilson Lousada foi um colaborador assíduo de Cultura Política até 1945, isto é, como Graciliano e Marques Rebelo, ele continuou colaborando com a revista mesmo depois que a seção Brasil Social, Intelectual e Artístico deixou de aparecer, em agosto de 1942. Assim mesmo, analisaremos neste item somente os textos escritos especialmente para essa seção. É que, ao contrário do que aconteceria com Graciliano e Rebelo, os textos que publicou durante a primeira fase da revista formam um conjunto à parte se comparados aos que ainda publicaria nos anos seguintes, no seu caso – como veremos no próximo capítulo –, na seção Literatura. A especificidade dos textos apresentados em “Literatura de Ficção” é que todos eles foram dedicados a entender a evolução literária brasileira entre os anos 1920 e os anos 1940.
Das poucas referências à presença de Lousada no cenário literário da época, encontram-se duas crônicas de Graciliano Ramos em defesa de Joel Silveira e dos
“rapazes” de Dom Casmurro, entre eles Wilson Lousada. Trata-se de “Os Sapateiros da Literatura” e “Os tostões do Sr. Mário de Andrade”110. Lamentando o mau gosto reinante na literatura nacional, Mário de Andrade haveria usado, para se referir a eles, “uma imagem espirituosa e monetária”, mas com sérias implicações que, segundo Graciliano, haviam passado despercebidas. É que, ao classificar os escritores em duas classes distintas, a dos contos de réis e a dos tostões, Mário de
109 Quase todos os textos publicados por Wilson Lousada em Cultura Política foram posteriormente
reproduzidos, ao lado de outras crônicas, no volume O Espelho de Orfeu. Ver LOUSADA, 1968.
110 “Os Sapateiros da Literatura” e “Os tostões do Sr. Mário de Andrade” se encontram reproduzidas em Linhas Tortas. Ver RAMOS, 1971, p. 233-5 e p. 237-8, respectivamente. Todas as citações a seguir são retiradas de “Os Sapateiros da Literatura”, reproduzida nessa edição.
Andrade incorreria em uma visão elitista da cultura e da sociedade de acordo com a qual teríamos, de um lado, uma aristocracia cultural, composta por “literatos por nomeação”, e, de outro, os operários da literatura. E “evidentemente”, diz Graciliano,
“o Sr. Mário de Andrade, homem de cultura e gosto, não iria aproximar um escritor e um operário” (RAMOS, 1971, p. 234).
Se essa está longe de ser a única ocasião em que Graciliano recorre à analogia entre escritura e trabalho manual, é necessário notar que, para além do evidente questionamento de classe, vindo de um escritor de esquerda, a crítica a Mário de Andrade aponta para uma série de debates ainda vigentes no meio literário e mostra como literatura e política, em muitos casos, acabavam se confundindo111. O artigo de Mário de Andrade, publicado no Diário de Notícias, permite a Graciliano reforçar a visão que sua geração tinha do Modernismo como um movimento de elite e descomprometido com a “realidade nacional”. Entretanto, e já agora adentrando um debate próprio à geração de 1930, ele permite também defender os representantes da literatura “do nordeste” no que dizia respeito, nesse caso implicitamente, à polêmica norte-sul. Os rapazes de Dom Casmurro, ao contrário dos modernistas, não saberiam conversar besteira com muita suficiência. Como o próprio Graciliano, eram “sapateiros, apenas”. Mas tendo descido de suas terras miseráveis, “desconhecidos, encolhidos e magros”, e dando voz a uma realidade incômoda e desagradável, esses “retirantes, flagelados da literatura”, usavam as armas que lhe estavam disponíveis, as de papel: “armas insignificantes”, diz Graciliano, mas, ainda assim, “armas” (ib.)112.
Dessas crônicas de Graciliano ressaltam dois elementos para os quais vale a pena chamar a atenção. No que se refere à discussão sobre autores do norte e autores do sul, Graciliano pareceria reinscrever o romance social nos termos de uma geografia do romance brasileiro, como lhe chamaria Wilson Lousada113. Por sua vez,
111 Tanto Zenir Reis como Cláudio Leitão chamam a atenção para a analogia que Graciliano estabelece no capítulo “Manhã”, de Infância, entre o trabalho artesanal de trançar urupemas, de seu avô, e o trabalho de trançar palavras, que seria o seu. Tal como analogia entre literatura e “armas de papel”, a relação entre atividade intelectual e atividade manual é sempre recuperada na obra de Graciliano. Ver REIS, 1991, p. 37; LEITÃO, 2008, p. 277-8; RAMOS, 2008a, p. 21-6.
112 Como vimos no capítulo anterior, a percepção que Graciliano tinha da literatura como “arma de papel”
apareceria posteriormente em Memórias do Cárcere, para definir a forma possível que ele mesmo havia encontrado de fazer política e literatura.
113 Essa é a interpretação que faz Luis Bueno do conhecido artigo “Norte e Sul”, publicado em abril de 1937 no Jornal, em que Graciliano retoma a discussão e a redimensiona, desconsiderando as diferenças geográficas para instituir outra divisão, segundo Bueno mais consistente, entre autores sociais e autores intimistas, ao mesmo tempo em que assume a defesa veemente dos primeiros contra o que ele chamaria de literatura
com respeito a Mário de Andrade, sua posição pareceria injusta, uma vez que ele próprio admitiria alguns anos mais tarde que o romance regionalista, efetivamente, havia entrado em decadência a partir de 1935 (cf. RAMOS, 1987). Por corretas que estejam, essas observações só fazem sentido, no entanto, a posteriori. Como afirma Luis Bueno, apesar do romance social continuar mantendo sua hegemonia em termos quantitativos no final dos anos 1930, representando a maior parte dos lançamentos do mercado editorial, era perceptível, para ambos os lados do debate norte-sul, que o “domínio incontestável do romance proletário começava a fraquejar”
(BUENO, 2006, p. 405).
Na medida em que se davam conta de que iam perdendo terreno no campo literário, os escritores regionalistas – e Graciliano não foi o único – lançaram-se ao ataque. Nesse sentido, essas duas crônicas seguem a mesma linha – de ataque – de seu conhecido artigo de 1937, “Norte e Sul”, ainda que comportem uma mudança de estratégia: é que, aqui, encontramos não somente a defesa dos escritores nordestinos, com sua literatura ligada à realidade da terra e, por meio dela, à realidade brasileira, como também o surgimento da literatura de caráter social é posta em perspectiva histórica. Ao contrastar o romance social com o Modernismo, Graciliano pôde defendê-lo contra um inimigo não nomeado, o romance intimista –
“do sul” – e sutilmente instituir uma leitura da história literária que elidia sua presença, mais forte do que nunca, no entanto, naquele momento.
Seja no Brasil, seja no plano internacional, os anos 1930 conformam um período de intensas transformações sociais e políticas. Em períodos assim, tantas são as mudanças e tão rápido os reposicionamentos dos atores sociais frente às novas conjunturas que, visto à distância, é como se houvesse transcorrido muito tempo em poucos anos. O auge do romance social e, em seguida, o seu declínio são, na literatura, um exemplo significativo desse ambiente particularmente instável característico aos anos 1930 no Brasil. Em termos literários, o início da década pode ser localizado, em sua relação com o modernismo, nos últimos anos da década de 1920 – especialmente a partir da publicação de A Bagaceira, em 1928. Assim mesmo, a indefinição política que se seguiu à vitória revolucionária acabaria por incidir também sobre a produção ficcional, fazendo com que os romances desse período refletissem, em seu enredo e em seus personagens, certa inquietude
“espiritualista”. Para essa discussão, ver BUENO, 2006, especialmente p. 401-7; ver também RAMOS, 1971, p.
163-5.
marcada antes pela necessidade de busca que por qualquer certeza sobre o caminho a seguir. Luis Bueno caracteriza esse período, até 1932, como sendo o da
“dúvida honesta”. A necessidade de engajamento já estava, mas seria somente no período seguinte, coincidindo com o auge do romance social, que a polarização ideológica entre esquerda e direita, entre comunismo e integralismo, ganharia relevo ao mesmo tempo nos planos político e literário.
Se é difícil saber exatamente qual foi o impacto da revolução de 1930 sobre a literatura, é igualmente difícil avaliar, no mesmo sentido, quais foram as conseqüências do golpe de 1937, ainda mais se levarmos em conta que, à ditadura no plano doméstico, somava-se a iminência de um conflito de proporções ainda desconhecidas no plano internacional. O certo, no entanto, é que a partir de 1937 parece se iniciar um novo período de indefinição e incertezas, para o qual talvez tenha contribuído, internamente, tanto a suspensão das liberdades políticas como a tentativa de incorporação, por parte do regime, de representantes de todo o espectro político, o que contribuía para minar a polarização ideológica. Se lembrarmos do prefácio que Almir de Andrade escreve para Aspectos da Cultura Brasileira, já agora não soaria tão estranho que ele se refira, aí, à “ansiedade” e à “busca de rumos ainda não definidos”, em 1939, ou que, de uma perspectiva distinta, Mário de Andrade identifique à produção ficcional desse momento à figura do fracassado.
Ainda, a perda de hegemonia do romance social e o papel de destaque que, cada vez mais, a literatura intimista vai adquirindo são sinais de que, quem sabe, como sugere Bueno, vivia-se mesmo “um tempo da nova dúvida”.
Como qualquer esquema, a tentativa de periodização dos anos 1930 deve servir, antes de qualquer coisa, como orientação. Se a fase áurea do romance social, assim como a dos grandes ensaios sociológicos havia ficado para trás, a preocupação com a realidade brasileira – de que a discussão sobre a herança modernista não deixa de ser uma conseqüência – ainda estava na pauta do dia, permitindo ao Estado Novo se incorporar aos debates em voga, a partir de seus intelectuais e órgãos de imprensa, mesmo no início da década de 1940. O conjunto de textos que Wilson Lousada publicou na seção Brasil Social, Intelectual e Artístico, dezesseis no total, entre março de 1941 e agosto de 1942, tem, entre outras particularidades, a de tornar possível acompanhar esse processo de mudanças – e os debates a elas subjacentes – desde a perspectiva de um intelectual que se apresentava como representante da geração de 1930.
Na crônica de março de 1941, Lousada dá início à construção de um panorama geral do longo período que vai da Semana ao final da década de 1930.
Na medida em que sua contribuição visa compreender a literatura de ficção de 1930, no entanto, o modernismo acaba aparecendo aí como espécie de contraponto necessário para uma história focada em sua superação, que já se insinuaria, na poesia, com a publicação de Canto Brasileiro, de Augusto Frederico Schmidt, e, na prosa, com a publicação de A Bagaceira – ambos de 1928. Não é que o livro de José Américo de Almeida revelasse uma paisagem social diferente ou desconhecida da nossa ficção, afirmaria ele, mas “aquele regionalismo tão pobre de colorido e tão rico de sugestões, era quase um despertar em plena realidade” (LOUSADA, CP, março de 1941, p. 253). Com esse “despertar em plena realidade”, A Bagaceira dava, pois, a tônica do que seria a prosa de ficção nos anos seguintes e, ao mesmo tempo, marcava os limites do modernismo. Porque, “realidade brasileira”, diz Lousada:
[...] não existiu no modernismo. Houve, digamos, uma tentativa de interpretação dessa realidade viciada pela influência dos Breton, Cendrars ou Marinetti.
Interpretação puramente literária, prejudicada pelo estetismo, em contraste com a interpretação realista e trágica, por vezes, que viria assinalar os rumos da ficção nacional depois de 1930 (ib.).
O sentido com que a reação esboçada contra um modernismo “já incompreendido e distante” se afastava – com a publicação de O Quinze, O Esperado e Oscarina, no despontar da década de 1930 – de uma interpretação
“puramente literária da realidade brasileira” só se torna explícito, no entanto, na crônica seguinte, de abril de 1941. A visão crítica em relação ao movimento modernista permanece. No modernismo, nossas realidades desapareciam sob meras aparências. E mesmo o mergulho no passado, buscado por várias de suas correntes, não seria mais que uma aparência desprovida de objetividade histórica:
um passado “construído” foi o que os modernistas haveriam ido buscar nas lendas do folclore, no primitivismo, diria. À diferença deles, os novos romancistas não encaravam mais a literatura somente como literatura. E o que explicaria essa mudança entre dois períodos tão próximos no tempo era, sem dúvida, a ocorrência da revolução:
Diversos críticos e ensaístas têm procurado explicar, com argumentos de ordem literária, essa força imaginativa que se apoderou de nossas letras nos últimos dez anos. Sem dúvida, nenhuma das interpretações analíticas que se oferecem ao
nosso exame podem ser consideradas insuficientes. Todavia, ao lado de vários fatores de ordem meramente artística, é necessário considerar outros mais que escapam ao domínio da literatura em si. Entre esses, vale a pena considerar o fator revolucionário de 1930 como de importância básica na estrutura do nosso romance moderno. [...] Antes de 1930, o ambiente social, político e intelectual do Brasil era quase nulo num sentido de vida própria. Ambiente estático, sem ressonância de qualquer espécie. E foi, precisamente, a vitória do movimento revolucionário, o fator mais considerável na transformação sofrida pelas nossas letras (LOUSADA, CP, abril de 1941, p. 261).
Para Lousada, a revolução haveria incidido sobre a literatura em dois níveis.
Por um lado, sobre a imaginação criadora, a “força imaginativa”, ao produzir uma correspondência, ausente durante o Modernismo, entre o artista e o meio social. Daí resultaria o realismo e mesmo o pessimismo em relação ao homem e ao meio de muitos dos nossos romances, justificáveis, no entanto, à medida que pela primeira vez procurávamos em nós as causas de nossos problemas. Por outro lado, transformando o ambiente social até então sem “ressonância”, a revolução alterava igualmente os critérios que balizavam a recepção da obra de arte, ou seja, atuando sobre o público, ela haveria permitido que esses novos romances e romancistas pudessem ser compreendidos “em seu verdadeiro alcance” (id., p. 262). Além de apontar a revolução como um dos principais, se não o principal fator das mudanças que afetaram a literatura, a opinião de Lousada também se aproximaria, no que diz respeito ao público leitor, daquela expressa por Jorge Amado no inquérito promovido pela Revista do Brasil.
A passagem de uma literatura descolada da realidade social, de caráter mais
“cerebral” e “subjetivo” – a modernista – para uma literatura “mais rica em nacionalismo”, que se impôs na década de 1930 com o romance regionalista, não se daria, entretanto, de maneira imediata. Tampouco de maneira imediata desapareceria “nossa passividade no aceitar qualquer malabarismo da forma”
(LOUSADA, CP, maio de 1941, p. 265). O período que se seguiu à revolução, até o aparecimento de Menino de Engenho, em 1932, quando o romance brasileiro ingressaria definitivamente em uma nova fase, caracterizar-se-ia por incertezas e dúvidas. Tateava-se, diante de diversos caminhos abertos. Aqui e ali, tentativas isoladas, mas nenhuma unidade de tendência e de concepção, seja no romance, seja na poesia, como se a revolução, para além das conseqüências a que nos referimos acima, também houvesse produzido no meio literário um efeito imediato que se aproximava da desordem.
Apesar da relativa coerência com o espírito do tempo que o romance apresentava, mesmo nesse período de busca desordenada, seria somente depois de 1932 que ele se mostraria, pois, para Lousada, como o gênero de mais seguro desenvolvimento no terreno da ficção. De qualquer maneira, a partir de 1930 teríamos um processo orientado pela preocupação de descobrir, compreender e revelar o Brasil através do romance social regionalista ou de caráter “sociológico”.
Esse processo atingiria seu auge em 1936 e a partir de 1937 a importância dos aspectos sociais da realidade brasileira começaria a perder terreno para os aspectos psicológicos e interiores dos indivíduos, retratados pelos romances intimistas. A publicação, neste mesmo ano, de Mundos Mortos de Octávio de Faria, mesmo considerando sua “prolixidade” e “rudeza de estilo”, seria uma “revelação estupenda”
e acabaria por se impor como marco, afirma, de uma nova inflexão na evolução literária do período (LOUSADA, CP, março de 1941, p. 255).
As três primeiras crônicas publicadas por Wilson Lousada em Cultura Política, entre março e maio de 1941, traçam, pois, um longo panorama da então recente história literária brasileira, começando pelo Modernismo e chegando ao que já nos referimos aqui como sendo a perda de hegemonia do romance social. Se é notável a fina percepção do crítico em relação ao que Luis Bueno classificou recentemente como os “tempos de 30”, dois outros elementos merecem destaque. Em primeiro lugar, chama atenção a avaliação duramente crítica que Lousada faz do movimento modernista, referindo-se a ele quase sempre com termos que poderíamos considerar mesmo pejorativos, como “malabarismo” e “jogo verbal” ou, ainda, apontando para o “frágil valor objetivo” de seu projeto estético renovador. Em segundo lugar, para Lousada, como para muitos outros intelectuais de sua geração, o espírito modernista pareceria não permanecer, tendo sido, ao contrário, completamente superado pelo realismo social da prosa de ficção e o fator mais significativo dessa profunda transformação de nossas letras se encontrava na revolução de 1930, ou seja, fora do domínio da literatura em si.
De fato, considerando somente as três primeiras crônicas, poderíamos dizer que seus artigos se acomodam perfeitamente ao cabeçalho que apresenta sua participação na revista: “um nome da mais nova geração de intelectuais brasileiros”
– lê-se – que já esteve “na direção da crítica bibliográfica de um dos mais lidos jornais literários da Capital da República”, faz uma síntese da literatura de ficção no Brasil para mostrar como “os acontecimentos políticos influenciam decisivamente na
literatura nacional, concretizando os anseios vagos dos modernistas de 1922” (CP, março de 1941, p. 252).
As cinco crônicas seguintes – publicadas entre junho e outubro de 1941 – tratam da “geografia do romance brasileiro” e tentam mapear o que havia sido produzido nos anos anteriores no terreno da ficção do Brasil. Começando pelo nordeste e o norte, Lousada passa por Minas, com seu romance oscilante entre o intimismo e o realismo social, pelo Rio de Janeiro e o romance urbano, pela obra de Érico Veríssimo, no sul, para terminar na decadência que, depois do modernismo, haveria atingido a produção ficcional de São Paulo114. Surpreendentemente, a crônica de novembro de 1941 é inteiramente dedicada a um dos principais personagens modernistas, Mário de Andrade, e à maneira como Mário lidava, no início dos anos 1940, com a herança de sua obra modernista. Mais surpreendente ainda, no entanto, é que, ao retornar ao tema, Wilson Lousada se afaste daquela que pareceria ser até então, como vimos, sua própria avaliação do movimento.
A crônica não deixa de ser uma crítica a Mário de Andrade, mas se trata de uma crítica que, naquele contexto, não poderia ser recebida senão como uma defesa. É que, para Lousada, era de se estranhar certa “indiferença” e mesmo certo
“desprezo” com que o criador desse “livro extraordinário que é Macunaíma” se posicionava então em relação ao problema da forma em literatura115. Problema que constituía não somente um dos aspectos mais incompreendidos, mas também um dos mais notáveis de sua obra:
Não digo que o romancista de Macunaíma – [...] – venha negando pura e simplesmente seu passado artístico. Mas uma certa indiferença, uma certa displicência em face de um dos aspectos mais notáveis e mais incompreendidos de sua experiência literária – capítulo da fala, da linguagem, dos recursos de expressão – fazem suspeitar que o poeta do Acalanto do Salgueiro traga na carne um espinho de dúvida. Bem sei que a dúvida, nesse caso, seria um sintoma natural de aperfeiçoamento. Um sintoma de que o artista não parou na escalada e que, mesmo interiormente, a si mesmo se vem superando nessa admirável jornada literária. Mas eu me refiro a essa indiferença com que o artista parece encarar, hoje em dia, esse assunto que foi sempre dos mais visados em literatura. Tal fato – [...] – deixa na gente a impressão de que Mário de Andrade esqueceu uma das grandes conquistas das nossas letras nos últimos 20 anos. A liberdade de usar os mais diferentes
114 Ver LOUSADA, CP, junho de 1941, p.235-7; CP, julho de 1941, p. 271-3; CP, agosto de 1941, p. 277-9; CP,
setembro de 1941, p. 291-3; CP, outubro de 1941, p. 266-8.
115 Em si mesmo, já é surpreendente a maneira como Wilson Lousada inicia a crônica de novembro de 1941, elogiando um livro “símbolo” tão controverso, naquele momento, como Macunaíma: “A tendência mais
construtiva que espontânea de Mário de Andrade – visível em toda a sua obra de romancista e poeta – parece ter alcançado o máximo de grandeza artística nesse livro extraordinário que é Macunaíma. Bem sei que essa obra nunca pôde ser classificada entre os diversos gêneros literários. Muitos a consideram um romance, outros uma rapsódia, mas a verdade é que se trata de alguma coisa diferente e excepcional” (LOUSADA, CP, novembro de 1941, p. 389).