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IDENTIFICAÇÃO DE METÁFORAS

No documento ASSEMBLEIA DE DEUS (páginas 74-86)

73 comentários interpretativos, ainda que esses últimos devam ser evitados nas transcrições em geral. Além dos parâmetros da transcrição básica, a transcrição refinada torna ainda mais precisa a indicação de marcas prosódicas nas falas, como a ênfase dos acentos, o registro de movimentos entonacionais nas sílabas acentuadas e depois delas, de pulos entonacionais, de mudanças no registro entonacional, no volume, na velocidade e na qualidade da fala. No NUCOI, adotamos a transcrição básica, sendo que alguns elementos da versão refinada são incluídos quando aparecem mais marcados nas falas.

74 direta;

 Em (4), quando um significado direto ou indireto conduzido por pronomes pessoais de terceira pessoa ou elipses, palavras utilizadas para substituição léxico-gramatical, pode ser explicado pelo mapeamento entre domínios, essas palavras devem ser marcadas como expressões metafóricas implícitas;

 Já em (5), a palavra cujo significado indica um mapeamento entre domínios deve ser marcada como sinal metafórico;

 E também, (6) quando se trata de um neologismo, devemos reavaliar separadamente cada palavra que faz parte dessa nova formação de acordo com os passos de dois a cinco do MIPVU.

No capítulo 4 do livro de Steen et al. (2010, p. 61-86), foi ilustrada a aplicação do MIPVU a dados de conversa. Os estudos de Cameron (2008; CAMERON; MASLEN, 2010) são destacados como uma das abordagens mais holísticas em relação à fala em interação dentro do campo da metáfora. Cameron distingue entre três níveis de análise metafórica: (1) o nível linguístico, que focaliza a forma da metáfora, para descrever suas manifestações e seu ambiente linguístico; (2) o nível comunicativo, que focaliza o uso da metáfora, para transmitir uma atitude ou gerenciar o discurso; e (3) o nível conceitual, que focaliza o nível cognitivo, para investigar a interpretação da metáfora. Nossa pesquisa não investiga a interpretação das metáforas pelos participantes, no entanto, focalizamos o papel que a metáfora assume no desenvolvimento das falas na interação e as formas que tomam as manifestações no discurso.

Ainda no capítulo 4, Steen et al. (2010, p. 85-86) apresentam os problemas que surgiram na aplicação do MIPVU ao contexto da fala. Primeiramente, os autores levantam que dificuldades na análise metafórica muitas vezes advêm de falta de conhecimento contextual. Esse aspecto é ainda mais delicado quando o corpus é composto de fala em interação, pois não é incomum que os segmentos de fala sejam inacabados, abortados ou mesmo não sejam claros o suficiente para que uma palavra seja assinalada como metafórica sem que haja margem para ambiguidades.

Tais ambiguidades devem ser indicadas no corpus. Ambiguidades também são encontradas no uso do dicionário, quando o significado mais prototípico e menos marcado poderia ser subdividido em mais de uma definição, e também quando há tom humorístico em determinado termo. Outro problema que pode gerar ambiguidades surge quando não é possível separar claramente se a palavra assinalada trata-se de uma metonímia ou de uma metáfora.

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Alguns dos casos de ambiguidade levantados acima não pareceram ocorrer em nosso corpus, pois os dados foram coletados precisamente como parte do desenvolvimento desse trabalho.

Assim, temos acesso ao arquivo em áudio e vídeo, o que por si só já deve sanar alguma dúvida.

Além disso, temos acesso ao conteúdo integral da filmagem, o que minimiza o surgimento de problemas por falta de conhecimento contextual. No entanto, como tanto na primeira quanto na segunda interação os participantes já se conheciam anteriormente, e convivem em uma mesma comunidade. Houve casos em que nosso conhecimento contextual não foi suficiente para sanar ambiguidades. Tais ocorrências foram assinaladas. Além disso, foi feita uma comparação das metáforas encontradas com outras já sistematizadas em estudos da TCM sobre o tema ‘religião’.

Abaixo segue uma demonstração de como fizemos a etiquetação das metáforas na interação, em um trecho da interação 2015BHBrAs01, no qual o participante AD4 responde à pergunta sobre se é ou não religioso:

Sequência 1.1: 2015BHBrAs01 ((08:33.6 - 09:03.0)) 01 AD4: EU?

02 (.) eu num um não posso falAr que eu sou religiOso;

03 → (---) porque religiÃO é BRIga;=né,

04 (-) quando <<acc> cê fala de religiÃO> cê tá fA associando A, 05 → (-) a BRIga;=né,

06 AD1: eu fAlei erRAdo.

07 AD4: até porQUE ↓ˊnão (.) falou cErto;

08 mas até porque religiÃO (.)foi a: o O;

09 (.) a reLIgi↑ÂO foi a o [o:; ] 10 AD1: [o moTIvo,]

11 [<<all, p> a MORte ] de jesUs.>

12 AD4: [o motivo da MORte;]

13 → AD1: [<<dim> o moTIvo (assassIno);>]

14 → AD4: [e que maTOU ] caim e abEl;

15 → (.) tudo começOu <<acc> por causa da religiÃO;>

16 primeiro homicÍdio que teve no MUNdo;

17 foi por causa dA religião;

18 → (.) né:?=a religião ela ↑MAta;

19 → a religião ela ˋMAta.

Conforme destacado pela Figura 9, foram consideradas expressões metafóricas aquelas que pertencem a outros domínios (mais concretos ou não) e foram mapeadas para o domínio

76 RELIGIÃO, tais como religiÃO é BRIga;, [<<all, p> a MORte] de jesUs.>,[e que maTOU] caim e abEl;, (.) tudo começOu <<acc> por causa da religiÃO;> e a religião ela ˋMAta.

Figura 9: Metáforas ligadas à religião na Sequência 1.1.

Para as metáforas gestuais, o sistema de identificação partiu da comparação dos elementos metafóricos com as metáforas já sinalizadas em outros estudos desta área, tais como Müller (2008; 2013), Cienki e Müller (2008), e Cienki (2013). Quando não houve uma similaridade entre os elementos metafóricos encontrados nos dados desta pesquisa e os já sistematizados em estudos da área, tornamos explícito o processo de identificação de forma a demonstrar de maneira clara como chegamos a tal conclusão.

Enquanto para as metáforas verbais foi feita uma análise quantitativa, e dos segmentos em que era marcante o desenvolvimento de alguma metáfora ao longo da fala de um ou mais participantes, foi feita uma análise mais aprofundada, as metáforas gestuais foram consideradas apenas qualitativamente, em microanálises. Nas microanálises, os gestos foram transcritos de acordo com o sistema de transcrição de Ladewig e Bressem (2013), e cada fase do gesto foi indicada de acordo com sua ocorrência em relação à fala. Segundo Kendon (1972 apud MCNEILL, 2005, p. 31-33), os gestos possuem três fases, preparação, golpe e retração.

Posteriormente, outros autores adicionaram as fases sustentação pré- e pós-golpe (KITA, 1990 apud MCNEILL, 2005), e sustentação de golpe (DUNCAN31 apud MCNEILL, 2005). Para a descrição de cada um, baseamo-nos em Pereira (2010, p. 66-67):

31 Correspondência pessoal com McNeill.

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preparação (opcional): é a fase em que a mão se move até uma posição ideal para o golpe. A mão se afasta de uma posição de repouso no espaço gestual onde ela pode começar o curso. O início da preparação mostra o momento em que o conteúdo visoespacial do gesto começa a tomar forma na experiência cognitiva do falante.

golpe (obrigatório): é uma ação, a amplitude máxima do esforço no gesto em torno do qual se organizam as outras fases. Esta ação deixa impressões ou efeitos de considerável relevância, muitas vezes sincronizada com o ponto de ênfase prosódica. É a fase do gesto, onde o formulário é semanticamente interpretável. O significado representado por essa fase do gesto é normalmente expresso no discurso.

retração (opcional): as mãos retornam para descansar (nem sempre na mesma posição que no início). Não pode haver uma fase de retração se imediatamente o falante se move para um novo golpe.

sustentação: é onde a mão é mantida no ar; na mesma posição há um congelamento, isto é, uma unidade estática chamada não movimento. Esta espera pode ser observada antes do golpe. A sustentação sugere que o golpe e a fala expressos contêm uma unidade de ideia criada antecipadamente, desde o início da fase de preparação.

Segundo Bressem (2013, p. 1069), cada fase apresenta certas características articulatórias que podem ser resumidas no quadro abaixo:

Quadro 4: Características de cada fase dos gestos.

Fase Movimento Tipos de movimento

Fluxo do

movimento Tensão

Preparação [+ movimento] [+ restrito] [- variável] [+ tensão] [-constante] [+ aumento]

Retração [+ movimento] [+ restrito] [- variável] [+ tensão] [-constante] [- aumento]

Golpe [+ movimento] [- restrito] [+ variável] [+ tensão] [+

constante]

Sustentação [- movimento] [+ tensão] [+

constante]

Repouso [- movimento] [- tensão]

Para a fase golpe, apresentamos uma descrição do gesto de acordo com o sistema de notação baseado na forma, de Ladewig e Bressen (2013). Tal sistema se baseia nos quatro parâmetros utilizados para descrever os gestos em línguas de sinais, quais sejam: (1) configuração de mão;

(2) orientação; (3) movimento; e (4) posição. As notações se restringiram à mão, movimentos do braço ou tronco foram desconsiderados. Quando algum movimento de outra parte do corpo chamou a atenção, como quando algum participante olha e volta seu corpo para a câmera ou para outro participante, isso foi indicado na transcrição. As figuras de 10 a 13 resumem os parâmetros acima, as quais foram adaptadas de Ladewig e Bressem (2013), sendo que, para

78 resumir o quarto parâmetro, utilizamos a versão em português do quadrante de McNeill (2005, p. 274) encontrada em Pereira (2010, p. 51).

Figura 10.1: Configuração de mão.

Figura 10.2: Configuração de mão – combinação de dedos.

79 Figura 11: Orientação.

Figura 12.1: Movimento.

Figura 12.2: Movimento – direções.

80 Figura 13: Posição.

Abaixo temos um exemplo de como foi feita a análise das metáforas gestuais, também retirada logo do início da primeira interação.

Sequência 1.2: 2015BHBrAs01 ((01:01.2 - 01:14.9))

[((AD2 olha para AD1 e aponta para os cartões))]

01 AD3: [<<p> é tipo uma FOlha aqui Ó;> ] [((AD2 se levanta)) ] [((AD4 segura o cartão com ambas as mãos))]

[((AD2 se movimenta para pegar cartão em cima da mesa))]

02 AD4: [<<acc> tá perguntAndo aqui PRImeiro aquI_ó;> ] 03 → <<levantando a mão esquerda com palma para fora até ficar em → frente aos cartões e a abrindo> nÃo É (.) é um por Um.>

04 AD2: <<se sentando> a:h_TÁ;>

Figura 14: Repouso do gesto S1.2 (L02).

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Figura 15: Golpe do gesto S1.2 (L03)

O gesto da Sequência 1.2 foi considerado metafórico, pois AD4, que se comporta como o moderador da interação desde seu início, impede que AD2 pegue uns dos cartões levando a mão esquerda aberta até o quadrante esquerdo. Esse gesto seria uma manifestação do esquema imagético do CONTÊINER, uma vez que com esse gesto AD4 cria uma barreira entre AD2 e os cartões, como se a área em que eles estão sobre a mesa fosse seu território exclusivo. Com isso, ele manifesta a metáfora MODERAÇÃO É UM CONTÊINER, sendo que, dentro desse contêiner, apenas ele pode estar.

Como quarta e última etapa, foi feita a comparação das metáforas encontradas nas duas interações. A seguir, demonstraremos como foi feita essa comparação:

Sequência 2.1 – 2016BHBrAs02 ((06:27.6 - 06:45.6)) 01 AD5: mas eu acho Assim QUE:,

02 → nin↑GUÉM consegue vivEr;

03 → sem uma religiÃO <<p> em sI;>

04 <<levantando as mãos abertas com as palmas uma voltada para a outra e movendo para o quadrante superior direito parando pelo trajeto> é a religiÃO QUE:,

05 → d dá um NORte pra pessOa.>

06 AD6: É (.) mas Isso;=né,

07 essa quesTÃO da relI fez;

08 <<movendo a mão direita aberta em perfil com os dedos na direção de ad5> que_aÍ ela faLOU;

09 → que a gen tInha que abando abandoNAR,

82 10 [A religiosi↑DAde; ]

11 → AD8: [religiÃO é muito taBU,]

12 AD7: [<<pp> é;>]

13 AD6: [porquE> ] <<movendo a mão direita aberta em perfil para a direita> as pesSOas;

14 [esTÃO:> <<levando as mãos às têmporas> estÃO,>]

15 AD7: [<<pp> é assIm MESmo;> ]

16 AD6: <<movendo as mãos abertas com as palmas uma para outra para o quadrante direito inferior> fo↑cAdas na religiÃO;>

17 <<movendo arqueadamente as mãos abertas com as palmas uma para a outra para o quadrante inferior esquerdo> nÃO no amor mai [OR em crIsto;=en][tenDEU?> ]

18 AD7: [<<f> Olha vão lÁ][na ↑SÍria;>]

19 AD8: [é; ]

Na Figura 16, podemos observar as metáforas encontradas para religião na sequência 2.1, as quais são manifestadas pelas expressões nin↑GUÉM consegue vivEr; sem uma religiÃO

<<p> em sI;>, é a religiÃO QUE:, d dá um NORte pra pessOa., que a gen tInha que abando abandoNAR, [A religiosi↑DAde;], e [religiÃO é muito taBU,]. As metáforas gestuais serão desconsideradas nessa comparação, pois em S1.1 não há gestos.

Podemos observar, considerando as Figuras 9 e 16, que em ambas as sequências os grupos utilizaram metáforas positivas e negativas para falar sobre RELIGIÃO, sendo que em S1.1 predominou a visão negativa, e na S2.1, isso foi mais balanceado.

Figura 16: Metáforas ligadas à religião na Sequência 2.1.

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Não podemos dizer que houve uma tendência a metaforizar de forma negativa a religião em qualquer das interações, pois em outras sequências, as metáforas já tendem a ser mais positivas.

Como aspecto conversacional, chama a atenção que em S2.1, que possui o mesmo número de unidades entonacionais que S1.1, ocorrem cinco sobreposições com falas simultâneas, e todos os falantes participam da sequência, enquanto em S1.1 não ocorre nenhuma sobreposição e há apenas um falante principal, AD4, já que as falas de AD1 se tratam de um autorreparo (L06) e checagens de entendimento (L10-11, L13), o que remete à estrutura hierárquica que existe tanto entre os papéis sociais dos participantes da primeira interação, quanto entre os papéis que eles desempenham na interação, com AD4 sendo o moderador, e os demais, os moderados. No sexto capítulo, Discussão, traremos comparações envolvendo também o todo das interações. Já no próximo capítulo, teremos a apresentação e a descrição dos dados.

84 5 DADOS

Este capítulo traz, para cada uma das interações, primeiramente uma exposição mais geral dos dados, e em seguida a apresentação das metáforas verbais, gestuais e verbo-gestuais relacionadas ao domínio alvo RELIGIÃO encontradas no corpus. Essa exposição mais geral considera tanto elementos conversacionais como o reparo com função correção, por meio do qual torna-se mais notável uma assimetria nas relações entre os participantes da primeira interação, ou o byplay sem suavizar o volume da voz, que ocorre quando um participante da segunda interação fala sobre sua experiência em um momento em que parou de praticar sua religião e que acaba por suspender a fala dele, partindo de uma sequência base de cada uma das interações. Já as ocorrências metafóricas encontradas no corpus serão apresentadas em sequências, as quais foram escolhidas em três momentos distintos da preparação das transcrições para investigação.

Em um primeiro momento, a filmagem foi assistida antes de haver transcrições, e alguns momentos foram marcados como relevantes tanto em relação a aspectos estruturais da AC, quanto com respeito a metáforas verbais e gestuais. Durante o processo de transcrição, outros momentos também foram marcados como significantes, no entanto, nessa etapa, tal marcação foi feita em arquivo à parte, não aparecendo nas notações da transcrição, a qual se restringiu ao GAT 2. No processo de revisão da transcrição, foi adicionada uma camada além da que já havia para cada participante, e nessas novas camadas ocorreu a notação dos gestos de acordo com as dimensões que possuíam, e a sinalização do uso de metacomunicação, principalmente em reparos, que se mostraram significativos para a estruturação da participação de cada um na interação, principalmente em 2015BHBrAs01. Foi também no momento da revisão que foram escolhidos certos termos ligados ao domínio RELIGIÃO os quais apareciam metaforizados nas interações, além de manifestações de ‘metáforas adormecidas’, para que pudessem ser usados na última etapa da seleção das sequências. De posse das versões finais das transcrições, foi feita uma busca por meio do concordanceador do pacote EXMARaLDA, Exakt, em sua versão integrada ao Partitur-Editor, pelos seguintes termos: religião, fé, crença, deus, jesus, espírito santo, senhor, bíblia, palavra, pastor, fiel, irmão, evangelização, obra, igreja e assembleia.

Cada palavra foi reduzida de forma a não deixar de fora ocorrências com pequenas variações ou ocasionais erros de digitação. As ocorrências encontradas pelo Exakt foram analisadas como metafóricas ou não, e no caso das metafóricas, foi feito um recorte de uma sequência de fala em que fosse possível reconhecer um contexto para dada metáfora.

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As ocorrências metafóricas estão em itálico no contexto em que ocorrem na interação, situadas em sequências com no mínimo três unidades entonacionais para que tenhamos uma ideia mais clara sobre o que estava sendo falado no momento, e as UEs a que pertencem são indicadas com uma seta após a numeração da linha. Após cada sequência, seguem listadas as metáforas identificadas, de acordo com os mapeamentos do domínio RELIGIÃO ao que pertencem.

No documento ASSEMBLEIA DE DEUS (páginas 74-86)