• Nenhum resultado encontrado

Principais conceitos

No documento ASSEMBLEIA DE DEUS (páginas 37-40)

2.3 ANÁLISE DA CONVERSA

2.3.1 Principais conceitos

Na sistemática elementar de Sacks, Schegloff e Jefferson (2003 [1974]), é proposto um modelo para a organização da tomada de turnos na conversa. Este modelo leva em consideração uma série de fatos que ocorrem em qualquer conversa do dia a dia:

(1) A troca de falante se repete, ou pelo menos ocorre. (2) Na grande maioria dos casos, fala um de cada vez. (3) Ocorrências de mais de um falante por vez são comuns, mas breves. (4) Transições (de um turno para o próximo) sem intervalos e sem sobreposições são comuns. Junto com as transições caracterizadas por breves intervalos ou ligeiras sobreposições, elas perfazem a grande maioria das transições. (5) A ordem dos turnos não é fixa, mas variável. (6) O tamanho dos turnos não é fixo, mas variável. (7) A extensão da conversa não é previamente especificada. (8) O que cada um diz não é previamente especificado. (9) A distribuição relativa dos turnos não é previamente especificada. (10) O número de participantes pode variar. (11) A fala pode ser contínua ou descontínua. (12) Técnicas de alocação de turno são obviamente usadas. Um falante corrente pode selecionar um falante seguinte (como quando ele dirige uma pergunta à outra parte) ou as partes podem se auto-selecionar para começarem a falar. (13) Várias

‘unidades de construção de turnos’ são empregadas; por exemplo, os turnos podem ser projetadamente a ‘extensão de uma palavra’ ou podem ter a extensão de uma sentença. (14) Mecanismos de reparo existem para lidar com erros e violações da tomada de turnos; por exemplo, se duas partes encontram-se falando ao mesmo tempo, uma delas irá parar prematuramente, reparando, assim, o problema. (SACKS; SCHEGLOFF; JEFFERSON, 2003 [1974], p. 14-15)

37

É importante também levar em consideração que a troca de turnos se dá na conversa de maneira diferente do que em outros sistemas, como em reuniões de trabalho, palestras ou em cerimônias.

Podemos notar que em alguns momentos de uma conversa, mesmo quando não se trata de uma cerimônia, ou de uma reunião de trabalho, em que há uma hierarquia entre os participantes e a distribuição de turnos entre os falantes favorece mais uns em detrimento de outros, as falas de um ou outro participante têm marcadamente características desses outros estilos. A organização de uma conversa se difere a tal ponto em relação à distribuição de turnos, que, quando alguma contribuição traz características de outros estilos, é facilmente notada.

Quanto aos turnos, a alocação se dá de duas maneiras distintas, seguindo algumas regras: (1) o turno seguinte é alocado por meio da seleção do falante seguinte feita pelo falante corrente; e (2) o turno seguinte é alocado por auto-seleção. Se algum falante é selecionado pelo corrente, aquele assume o turno e dá sua contribuição. Caso o falante corrente não selecione ninguém, pode haver a auto-seleção de um novo falante. Quando isso não ocorre, o falante corrente pode incrementar sua contribuição, até que ele selecione outro falante ou alguém se auto-selecione.

Essas regras possibilitam que a ocorrência de intervalos sem fala, pausas, e de sobreposições seja mínima, e também que tais ocorrências e a própria transição entre falantes se dê em lugares relevantes para a transição.

Turnos são compostos por ‘unidades de construção de turno’, as quais podem constituir-se de apenas uma palavra, de um único sintagma, ou de só uma cláusula, sem que haja necessidade de completude da sentença para projetarem inícios sequencialmente adequados. Cada ocorrência de fala permite a projeção do tipo de unidade que se trata, e de quanto tempo levará a contribuição, possibilitando assim que a contribuição do próximo falante aconteça sem sobreposição ou tempo de espera entre uma outra, em um ‘ponto de possível finalização’ da unidade (SACKS; SCHEGLOFF; JEFFERSON, 2003 [1974], p. 16).

Ainda que Sacks, Schegloff e Jefferson (2003 [1974]) segmentem as contribuições dos falantes em turnos, para nossa pesquisa é relevante a segmentação em ‘unidades entonacionais.’ Trata- se da verbalização de um grupo de informações que é ativada naquele momento em particular.

São segmentos mínimos de fala, por si coerentes, os quais apresentam um contorno entonacional final e pelo menos um pico entonacional – ‘acento focal’ e ‘acentos secundários’

(SELTING; AUER; BARTH-WEINGARTEN et al., 2016) – e são tipicamente separados uns

38 dos outros por pausas ou hesitações (CHAFE, 1990, p. 88). Assim, um mesmo turno pode ser composto de uma ou mais unidades entonacionais.

Uma parte essencial da organização da fala de turnos é a escuta: qualquer falante disposto a falar, ou que tenha esse interesse em algum momento, precisa escutar e analisar cada elocução emitida ao longo da conversa para ao menos reconhecer quando e se foi selecionado como próximo falante (SACKS; SCHEGLOFF; JEFFERSON, 2003 [1974], p. 51-53). Além disso, a compreensão se torna necessária, pois a seleção do próximo falante pelo falante corrente frequentemente se dá por meio de uma ‘primeira parte de par’ – elocuções do tipo ‘saudação,’

‘pergunta,’ ‘reclamação’ etc. – a qual restringe também o tipo da contribuição a ser dada pelo próximo falante, uma ‘segunda parte de par’ – por exemplo, ‘saudação,’ ‘resposta,’ ‘desculpa’

etc. Ambas as partes compõem um ‘par adjacente.’ Os pares adjacentes têm cada uma de suas partes produzidas por um falante diferente, seguem uma sequência fixa – a primeira parte do par não pode vir depois da segunda parte – e a primeira parte deve ser produzida de tal maneira a provocar a relevância da segunda (SCHEGLOFF; SACKS, 1973 apud SIDNELL, 2010, p.

64).

Para os tipos de sequências que existem, além de uma primeira parte do par tornar relevante uma segunda parte específica, ainda há tipos de resposta que podem ser escolhidos. Caso a primeira parte do par promova a realização de uma ação, a resposta preferida seria a que promovesse o sucesso dessa ação (SCHEGLOFF, 2007 apud SIDNELL, 2010, p. 77-78). Nesta situação, trata-se da ‘preferência baseada na ação.’ Porém, há ainda a ‘preferência baseada no formato,’ quando se trata de uma pergunta de sim ou não, cuja resposta preferida seria a afirmativa, e a despreferida, a negativa. A questão da preferência também pode ser observada em diversos aspectos da fala em interação. Por exemplo, em relação ao reparo, o ‘autoreparo iniciado por si’ é preferido em detrimento do ‘reparo iniciado por outro.’

O ‘reparo’ é o mecanismo por meio do qual os participantes de uma conversa podem abordar e chegar a solucionar problemas em relação à fala, à audição e à compreensão. Uma iniciação de reparo delimita uma possível inadequação em relação à fala anterior, e o reparo em si resulta na solução do problema ou no abandono do mesmo. O segmento de fala específico para o qual é voltado o reparo é chamado ‘reparável.’ O reparo pode ser iniciado tanto pelo falante do reparável, ‘autoreparo iniciado por si,’ ou por um ouvinte, ‘autoreparo iniciado por outro’ ou

‘reparo do outro iniciado por si.’ O reparo iniciado por outro pode promover a oferta de um

39

‘candidato de reparo’ (SIDNELL, 2010, p. 111-113).

O autoreparo iniciado por si é tipicamente iniciado por perturbações e obstáculos na fala, e é feito no mesmo turno em que ocorre o reparável. Já o reparo iniciado por outro costuma gerar sequência e ocorre no turno seguinte ao do reparável. Além disso, os iniciadores de reparo por outro podem ser de diferentes tipos: (1) classe aberta – ex.: quê, ãh, perdão – que detectam problema, mas não localizam o reparável; (2) pronome interrogativo – ex: quem, onde, quando – esses são mais específicos, indicam a parte problemática da fala anterior; (3) Repetição + pronome interrogativo – ex.: eles são o quê – facilitam a localização do reparável; (4) Repetição – nesses iniciadores, o próprio reparável é repetido; (5) Checagem de entendimento – ex.: é isso que você quer dizer – esses iniciadores podem acompanhar um candidato de reparo (SIDNELL, 2010, p. 117-135).

Outro tipo de contribuição que ocorre na conversa é a ‘narrativa.’ Trata-se de uma contribuição que necessita de mais de um segmento de fala para ser exposta. Para que o turno não seja tomado pelos outros participantes em algum lugar relevante de transição, a fala deve ocorrer de tal forma a deixar claro que se trata de uma narrativa. Alguns aspectos tornam possível esse reconhecimento, tais como o ‘prefácio,’ falas que anunciam o início de uma narração, tal como você viu alguma coisa ontem no jornal da noite, e a sequência das ações em curso, que contribuem para o desenvolvimento da narrativa. A sequência da narrativa após o prefácio deve ser mantida – ou abandonada – turno a turno, enquanto durar a narração. Quando a narrativa atinge um ponto de completude reconhecível, os interlocutores habitualmente demonstram sua compreensão e apreciação da narrativa por meio de algum comentário, e também pela simples ação de dar continuação à sequência da troca de turnos (SACKS, 1992, v. II, p. 17-31; 222-241;

LERNER, 1992, p. 247-248).

2.3.2 Interfaces entre Análise da Conversa, Linguística Interacional e Linguística Cognitiva

No documento ASSEMBLEIA DE DEUS (páginas 37-40)