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METÁFORA E RELIGIÃO

No documento ASSEMBLEIA DE DEUS (páginas 54-58)

53 Atualmente, o Brasil conta com a maior população de evangélicos pentecostais no mundo em número absoluto, estimada em 24 milhões, segundo a World Christian Database (SINNER, 2012, p. 241). A amplitude dessa igreja, principalmente no território nacional, justifica nossa escolha de membros da AD para participarem das interações em grupo que compõem o corpus dessa pesquisa. Outra questão que serve de respaldo para nossa escolha pela AD está na representatividade dessa igreja no Congresso Nacional. De 594 parlamentares, 87 deputados federais e três senadores pertencem à Bancada Evangélica, segundo o Grupo de Pesquisa Mídia, Religião e Cultura – MIRE – da Universidade Metodista de São Paulo, e desses 87 deputados, 26 são da Assembleia de Deus.19 Devido à representatividade desse grupo cultural no campo político e seu poder de decidir questões diretamente ligadas aos direitos humanos, nos parece claro que ele deve figurar como protagonista nas discussões dos estudos acadêmicos brasileiros, como vem sendo feito por Alencar (2000), Paula (2013), Nobre et al. (2014), Machado (2015, 2017), Campos, Gusmão e Maurício Jr. (2015), Rodrigues e Fuks (2015), para citar alguns.

54 de crenças, formas de adoração, estruturas de organização e códigos morais, é derivado das revelações divinas, mas mediado por perspectivas culturais (AVIS, 1999, p. vi). A linguagem que está presente na prática religiosa é largamente figurativa, sendo repleta de metáforas, símbolos e mitos (AVIS, 1999, p. vi). É através desta linguagem que se tem acesso ao mundo religioso, sem que se seja possível prescindir dela para que possamos acessar este mundo de uma maneira literal.

Assim sendo, nesta subseção, apresentaremos os resultados a que chegaram algumas pesquisas que partiram da TMC ou que se apoiaram nessa teoria em algum momento de sua análise, as quais tiveram como foco temas religiosos. Dos trabalhos que serão apresentados a seguir, alguns estão mais próximos da presente tese, pois analisam a fala de membros de igrejas pentecostais, no entanto, nenhum vai considerar a fala em interação, apenas cultos e sermões (MARTINS, 2011; LEME, 2003; COSTA, 2010) e entrevistas (SILVA, 2012).

Ao analisar metáforas em sua maioria de textos bíblicos do Velho Testamento, Jäkel (2002) focaliza o domínio VIAGEM, que se apoia no esquema imagético de CAMINHO, comparando suas manifestações religiosas àquelas que surgem quando o domínio emerge no discurso profano.

Os dados revelados pelo autor apresentam uma dicotomia clara entre duas variações da metáfora A VIDA É UMA VIAGEM: LEVAR UMA VIDA MORAL É VIAJAR PELO CAMINHO DE DEUS e

LEVAR UMA VIDA AMORAL É VIAJAR PELO CAMINHO DO MAL. Alguns desdobramentos dessas metáforas são COMANDOS DE DEUS SÃO O CAMINHO, PECAR É DESVIAR DO CAMINHO DE DEUS,

ARREPENDER-SE É RETORNAR, ESCOLHA MORAL É ESCOLHA DE CAMINHO, entre outros.

Comparando esses mapeamentos aos que emergem a partir da manifestação da metáfora A VIDA É UMA VIAGEM em textos não religiosos, há tanto semelhanças, tais como a concepção da PESSOA QUE VIVE como o VIAJANTE, das DIFICULDADES como EMPECILHOS ou OBSTÁCULOS NO CAMINHO, e de CONSELHEIROS como GUIAS, quanto diferenças, tais como uma série de aspectos do esquema de caminho que não aparecem nas manifestações religiosas (JÄKEL, 2002, p. 25- 37). São eles:

 o elemento da DISTÂNCIA, que nos textos profanos conceitua o PROGRESSO;

 as PARADAS ou DESTINOS INTERMEDIÁRIOS, que conceituam OBJETIVOS DE VIDA;

 e as ROTAS como os MEIOS PARA ATINGIR OS OBJETIVOS.

Nas manifestações religiosas, aparece apenas o DESTINO FINAL, A VIDA ETERNA EM DEUS

(JÄKEL, 2002, p. 37-38).

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Os trabalhos de Leme (2003) e Martins (2011) têm como corpus a fala de pastores de igrejas neopentecostais, as quais divulgam a Teologia da Prosperidade. Segundo Fonseca (1998), o Evangelho da Prosperidade prega a crença na confissão positiva, que trará a prosperidade caso o fiel aja segundo certos preceitos: que ele reconheça os direitos que tem por ser filho de deus, que creia neles, e que os confesse com firmeza. Esses direitos, herdados do rei, devem ser exigidos com convicção em nome de Jesus, e assim o fiel alcançaria a prosperidade (LEME, 2003, p. 96-103). Por trás desses preceitos e do discurso da Teologia da Prosperidade está a metáfora DEUS É REI, que tem como implicação os FILHOS DE DEUS SÃO PRÍNCIPES, o que lhes garantiria grandes riquezas. Leme (2003, p. 195-198) encontrou em seu corpus os seguintes domínios estruturando prosperidade: ENTIDADE VISÍVEL, ENTIDADE BOA, ENTIDADE DESTRUTIVA, PROCESSO MECÂNICO, ESTAR POR CIMA/ SER O CABEÇA, RECIPIENTE, ENTRAR EM DEUS, ENTRAR EM UM LUGAR EM DEUS, UM LUGAR, UMA FONTE DE ONDE DEUS FLUI, TESOURO/

DINHEIRO, LEITE/ALIMENTO, MEL/DELEITE, TUDO. O investimento do dízimo para alcançar a prosperidade é sistematizado pela metáfora agrícola, em que DAR O DÍZIMO gera CRESCIMENTO ESPIRITUAL e TRAZ RIQUEZAS, ou seja, o PLANTIO DA SEMENTE resulta no CRESCIMENTO e na

FRUTIFICAÇÃO.

Partindo de uma abordagem cognitivo-discursiva, Martins (2011), que analisou metáforas utilizadas em cultos televisionados da Igreja Universal do Reino de Deus e da Igreja Internacional da Graça de Deus, observou em seu corpus a emergência de principalmente dois nichos metafóricos (VEREZA, 2007, p. 496), PROSPERIDADE É CONSUMO e FÉ É EMPREENDIMENTO, cujos domínios-fonte trazem clara relação com o setor econômico e empresarial. Ainda assim, nota-se no corpus a predominância de um tratamento indireto dado à questão da prosperidade, por meio do uso de sinônimos e paráfrases metafóricas (MARTINS, 2011, p. 138-140).

Costa (2010) analisou as metáforas linguísticas relacionadas ao domínio-alvo CASAMENTO em sermões de igrejas pentecostais e adventistas em língua inglesa. Além da metaforização por meio de domínios relacionados ao contexto cristão, como SACRIFÍCIO, ALIANÇA, INSTITUIÇÃO SAGRADA e CHAMADO ESPIRITUAL, houve ocorrências também de domínios-fonte frequentemente utilizados em nossa sociedade, como TIME e GUERRA. Costa destaca metáforas sistemáticas (CAMERON, 2008) e nichos metafóricos (VEREZA, 2007) emergidos no discurso, principalmente as metáforas criativas CASAMENTO É COMO FAZER UM PURÊ DE BATATAS

56 e CASAMENTO É UMA ILHA, desenvolvidas mais profundamente pelos pastores de forma conduzir a compreensão da audiência, o que reforça o papel discursivo-argumentativo da metáfora (COSTA, 2010, p. 84-85).

Silva (2012) entrevistou seis sujeitos, duas mulheres e quatro homens, todos adultos e membros da Assembleia de Deus há pelo menos cinco anos. Este estudo está inserido no quadro teórico da Análise de Discurso de linha francesa, e em sua análise, o autor recorre à Teoria da Metáfora Conceptual (LAKOFF; JOHNSON, 1980; SARDINHA, 2007; entre outros), no entanto, não sistematiza as ocorrências nem chega a tematizar a maioria das metáforas do corpus.

Considerando os segmentos de transcrição citados na dissertação, podemos destacar algumas metáforas, tais como:

BÍBLIA É REGRA, É BOCA (VOZ, PALAVRA) DE DEUS, É PESSOA, É BÚSSOLA;

LEVAR VIDA MORAL É SEGUIR O CAMINHO DE DEUS, É PROXIMIDADE DE DEUS, É ANDAR NA LUZ;

EVANGELHO É GUIA;

CRENTE (EVANGÉLICO) É CONTÊINER (VASO, CASA) CHEIO (DE AZEITE, DO ESPÍRITO SANTO), É OVELHA, É SERVO DE DEUS, É LUZ;

DEUS (JESUS, ESPÍRITO SANTO) É PAI, É SALVADOR, É PASTOR (DE OVELHAS);

A análise acima se trata de algo ilustrativo com o fim de demonstrar que a fala sobre religião recorre a metáforas, mesmo quando não ocorre no contexto das práticas religiosas. As metáforas apresentadas foram identificadas apenas nos trechos citados por Silva (2012, p. 84-120), não foram consideradas as entrevistas integrais.

Um aspecto que aproxima os trabalhos de Leme (2003), Martins (2011), Costa (2010) e Silva (2012) da presente tese, além da temática religiosa e do suporte da Teoria da Metáfora Conceptual, é o fato de que ambos analisam dados transcritos de linguagem oral. Os três primeiros trabalhos focalizam a fala de pastores em pregação, já o último analisa a fala de pastores e fiéis em entrevistas, fora do contexto da pregação, como também ocorre nas interações em grupo que compõem o corpus dessa tese.

Na próxima seção, serão apresentados os procedimentos metodológicos da presente tese.

Primeiramente, trataremos da realização das filmagens das interações em grupo. Em seguida, da transcrição das interações, e por último, da análise das metáforas.

57 4 METODOLOGIA

Este estudo foi realizado em quatro etapas. A primeira consistiu do levantamento bibliográfico de obras sobre metáfora, metáfora gestual, análise da conversa, religião, linguagem religiosa e igrejas pentecostais. Uma segunda etapa foi a preparação e realização das interações em grupo.

Já a terceira se tratou da transcrição das interações filmadas, e a quarta envolveu tanto a análise das interações de acordo com a AC, quanto a categorização e comparação das metáforas verbais e gestuais, multi e monomodais, encontradas nas interações. Neste capítulo, serão descritas de forma detalhada as etapas a partir da filmagem.

Ressaltamos que esta tese está vinculada ao Núcleo de Estudos de Comunicação (Inter-) Cultural em Interação (NUCOI), coordenado pela professora Ulrike Schröder, o qual tem aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (COEP-UFMG) para a realização de interações filmadas, com o intuito de promover comparações entre participantes de diferentes culturas ou de um mesmo grupo cultural, sendo que o último seria o nosso caso.

No documento ASSEMBLEIA DE DEUS (páginas 54-58)