O sistema educacional do Brasil tem um grande desafio, que é manter os alunos na escola; um problema enfrentado por toda a rede de ensino. Isso nos leva a procurar caminhos para além da busca do aluno, indo na direção da luta pela sua permanência na escola, também a luta pela colocação do aluno no período educacional coerente com sua idade, trazendo um aprendizado que oportuniza o desenvolvimento da consciência de sua classe e que fortaleça uma igualdade de oportunidades com os demais alunos.
Nas orientações do Ministério da Educação, são consideradas como parâmetros pertinentes ao fracasso escolar a reprovação e a evasão.
Anterior a esses dois momentos, temos uma situação vivida pelos alunos que precisa ser analisada, pois é dela que advêm as duas categorias citadas acima. Falo da infrequência escolar29 ou “faltas”. Nesse aspecto, devo reconhecer uma diferença entre o aluno faltante e o evadido; sendo este último o que não retorna mais à escola. Já o primeiro, o infrequente, ainda pode ser recuperado30.
Quando se trata de educação, deve-se ter em mente duas coisas: a primeira é que a escola, por estarmos em um modelo social ancorado no capitalismo neoliberal, tem limites e controles ideológicos; a segunda é que ela, apesar de todos os seus controles ideológicos, ainda é o espaço de mobilidade parcial entre frações de classes em uma etapa geracional, sendo uma oportunidade para as frações populares conseguirem algum nível de mobilidade social durante o percurso da vida. Assim a invasão aparece como um processo de exclusão contínua, e a infrequência escolar como um sintoma a ser estudado.
Dito isso, estudar a infrequência escolar em face da falta de uma proteção social para os alunos — executada por agentes públicos que deveriam atuar na lógica do comum — é um caminho para avançar na compreensão do fracasso escolar, considerando este como um problema social cuja síntese é mais profunda que a simples evasão e reprovação. Uma luta que se trava na escola, e sobretudo na escola pública: lugar de chegada de crianças e adolescentes
29 Segundo Noga e Mattos (2015), a infrequência (ausência escolar, evasão dos alunos) é diretamente mediada por contextos sociais, econômicos e culturais, que envolvem o aluno e a própria escola.
30 Recuperar no sentido de reaproximar novamente o aluno das práticas e ambientes escolares.
vulneráveis31, onde os segmentos sociais mais pobres sofrem a massificação da educação32. Lugar em que a luta ideológica forja uma aceitação de que os sujeitos sociais em vulnerabilidade33 merecem o básico para sobreviver, o básico na educação, o básico na saúde, o básico na segurança, o básico na alimentação, o básico na moradia, apenas o básico, algo que precisamos tensionar para superar a ideia de básico, numa sociedade com padrão econômico civilizatório de qualidade questionável.
A relação da educação para um futuro no trabalho, na sociedade do capital, não se pauta, necessariamente, pelo enfrentamento da infrequência escolar; ao contrário, trabalhadores pouco qualificados, como mão de obra pouco qualificada, podem ser o caminho para um maior lucro.
Se, por um lado, temos: escola, aluno, infrequência escolar, questão social, Estado com as políticas e programas sociais, profissionais que atuam no combate à infrequência escolar pelas vias do movimento intersetorial junto a programas públicos da área social; por outro, temos uma consciência forjada nos ideais do capitalismo conservador neoliberal, que numa luta constante com pensamentos progressistas, fomentam o desenvolvimento de uma consciência útil ao capital, uma luta ideológica que defende o básico para os pobres
Hoje, o sistema avaliativo brasileiro foca o que é denominado “rendimento” (aprovado/
reprovado) e “movimento” (falecido, deixou de frequentar, transferido). Ou seja, a preocupação está na mobilidade educacional do aluno, tanto dentro do espaço escolar quanto dentro do sistema educacional brasileiro, não se preocupando com as situações que envolvem a questão social no que vivenciam a infrequência escolar.
Essa medida se apresenta como quantitativa, pois ao final são as quantidades de alunos em cada movimento que servem de base para o cálculo das taxas, ou seja, cada escola terá no final da coleta uma quantidade de alunos aprovados (apontados em uma mobilidade ascendente), uma quantidade de alunos reprovados (apontados em uma não mobilidade) e uma quantidade de alunos em nenhuma das situações anteriores (são os que desapareceram da
31 Nesta pesquisa considero crianças e adolescentes vulneráveis, os que vivem situações sociais e familiares frágeis, com múltiplos fatores que ampliam suas fragilidades, dentro da lógica do PNAS, que os coloca fora da condição de acessar a escola, não é uma questão de renda familiar, vulneráveis são os que vivenciam as expressões que a questão social se apresenta na sociedade de classe.
32 A massificação da educação considerada nessa pesquisa se refere a uma expansão quantitativa focalizadas na introdução do ensino escolar para a população mais pobre sem poder ver o cuidado com a qualidade da educação oferecida. Uma ampliação das matrículas concentradas no setor público no contexto das políticas neoliberais, que caminha junto com a distorção série idade, como aprendizado pouco qualificado.
33 Para a Política Nacional de Assistência Social – PNAS (Brasília: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, 2009), o termo “vulnerabilidade” amplia a compreensão dos múltiplos fatores que
fragilizam os sujeitos no exercício de sua cidadania, expressa por diferentes situações que podem acometer os sujeitos em seus contextos de vida, e o campo de atuação de suas ações denota a multideterminação de sua gênese não estritamente condicionada à ausência ou precariedade no acesso à renda, mas atrelada também às fragilidades de vínculos afetivo-relacionais e desigualdade de acesso a bens e serviços públicos.
escola). Essas são as medições usadas para cálculo, dados sem rostos, sem histórias; números em uma estatística educacional.
Isso significa que não temos uma preocupação com a qualidade do ensino de fato, nem com a qualidade da vida dos alunos: o que se mede é a capacidade da escola de ser eficiente em alterar o lugar do aluno dentro das séries ou ciclos estabelecidos pelas políticas.
Além disso, esse sistema mede também a capacidade da escola de dar um certificado ao aluno, tendo esse aspecto como indicador de “eficiência escolar”, o que demonstra o paralelismo entre as relações utilitárias e corporativistas que consideram principalmente os elementos quantitativos de mobilidade entre séries ou quantitativos de desaparecimentos.
Quando falamos de desaparecimento do aluno da escola, o censo não procura a qualidade do dado, ou seja, não procura saber o que ocasionou o abandono (deixou de frequentar), nem o que levou à transferência; a única coisa medida de fato que se apresenta como qualitativa é o evento morte; os outros dados são completamente vazios de sentido.
Na busca de melhorar os números das matrículas ativas, que entendemos como o sentido do censo escolar brasileiro, temos comportamentos que acompanham a medição dos dados no ano civil seguinte ao ano recenseado, ou seja, a medição final do censo escolar acontece depois que todas as matrículas são aferidas no ano seguinte ao ano contabilizado como base do censo escolar, incluindo nestas os alunos que retornaram à escola e se rematricularam34.
Assim, ao final do mês de maio temos a contabilização geral das matrículas ativas no ano em curso, ou seja, aqui temos os alunos novos na série e os repetentes (incluindo nestes os que estavam na condição “deixou de frequentar – abandono”) do ano anterior, restando assim os evadidos, quando retirados os que saíram por transferência ou morte.
Já a infrequência escolar é um momento anterior ao abandono: ela se configura dentro dos parâmetros legais quando o aluno se matricula em um ano letivo, mas, em um determinado momento, deixa de ir à aula, ausentando-se de forma reiterada e injustificada, de forma contínua ou fracionada; ou seja, faltas não justificadas em períodos diferentes durante o ano letivo que comportam valores que beiram a reprovação por faltas. Ocorre que a questão da infrequência escolar é consequência de variadas questões que se expressam no cotidiano das famílias.
34 Taxa de transição e a avaliação da progressão dos alunos a partir das taxas de transição entre series, isto é, para cada série existe um fluxo de entrada e um fluxo de saída. Fluxo de entrada são os alunos que entraram ou foram promovidos (alunos na série s no ano m, que estavam matriculados no ano m - 1 na série s - 1) + os alunos repetentes (alunos na série s no ano m, que estavam matriculados no ano m - 1, na série s). Enquanto, o fluxo de saída são os alunos promovidos à série seguinte (alunos na série s +1 no ano m + 1, que estavam matriculados no ano m na série s) + alunos repetentes (alunos na série s no ano m + 1, que estavam matriculados no ano m na série s) + alunos evadidos. A partir dessa configuração, é possível o cálculo das taxas de transição entre séries (promoção, repetência e evasão).
Como consta no artigo 24 da LDB que o aluno, para conseguir a frequência necessária para ser aprovado, precisa frequentar dos 200 dias letivos, no mínimo 150 dias presenciais, entendemos que há uma ausência tolerada pelas escolas, conforme permite a lei, em torno de cinquenta dias, o que é um número de dias impossível de não ser percebido como infrequência na escola.
O que ocorre na prática é que em alguns espaços escolares os profissionais da educação tentam a comunicação com a família, com os responsáveis pelos alunos, e acabam enfrentando grandes dificuldades em obter sucesso nesse caminho de busca do aluno infrequente, fato que os leva, a partir do vigésimo quinto dia, a ter de comunicar ao conselho tutelar essas ausências.
É neste ponto que começo a perceber como a intersetorialidade poderia estar sendo mais efetiva e que, não sendo, precisa ser analisada tanto a partir do olhar do profissional da escola quanto sob o olhar do conselho tutelar, que passa a ser a instância pública que vai atuar na busca mais efetiva do aluno antes que complete cinquenta dias, quando não mais se conseguirá superar essa infrequência escolar dentro do período letivo anual.
No que toca à busca pelos infrequentes, há autores que entendem ser a infrequência escolar resultado das mais variadas situações sociais, o que envolve situações sociais de violência na comunidade (violências comunitárias), família (violências intrafamiliares) e até nas questões pessoais (adoecimentos).
Para Arroyo (2005), outro fator determinante para a evasão35, quando se refere ao aluno trabalhador, é a incompatibilidade entre horário de trabalho e horário do curso ofertado. Isso apresenta-se como obstáculo para a permanência na escola, pela necessidade de o aluno trabalhar para ajudar a família. Outros fatores, como: escola distante de casa, não ter um adulto que leve até a unidade escolar, falta de interesse, doenças, falta de transporte escolar, a necessidade de se sustentar, o ingresso na criminalidade e na violência, também atravessam de forma muito comum o cotidiano dos alunos.
Assim, a partir da infrequência escolar declarada no formato de abandono do ano letivo, mecanismos são acionados, sendo um deles a visita domiciliar (VD), que tem por objetivo identificar possíveis motivos para a não ida à escola (infrequência escolar).
35 Para Arroio a evasão escolar tem relação direta com as desigualdades sociais, que acaba se expressando no espaço escolar, principalmente na escola pública, onde os mais pobres buscam sua formação educacional.
Assim para Arroio a evasão escolar tem relação direta entre desigualdade social e exclusão social, que em relação impulsiona o aluno para fora do espaço escolar em busca da sua produção/reprodução socio-material de sobrevivência.
Para além da visita domiciliar, há outras medidas protetivas previstas no artigo 101 do Estatuto da Criança e do Adolescente que identificam a importância do encaminhamento para a proteção do aluno infrequente36.
Todas visam a realizar parcerias protetivas articulando as diferentes políticas públicas sociais para defender o direito do aluno a permanecer no espaço escolar, combatendo a infrequência escolar e entendendo o mundo dos problemas que se apresentam na escola.
Denuncia-se, assim, que a ausência da criança ou do adolescente é um alerta de situações complexas que se traduzem na violação do direito à educação, manifesta no ato de faltar e de não ir à escola, e a expressão real da questão social na vida das crianças e adolescentes.
2.2 Desqualificados e desprotegidos: ditames da questão social sob o véu da infrequência