Esta pesquisa reconhece que para se aproximar da realidade é fundamental o uso do método do materialismo histórico-dialético, cuja proposta de análise apresenta conceitos fundamentais para a leitura macrossocial da vida, categorias que estão atravessando toda nossa exposição no plano macro e no plano micro conceitual deste trabalho.
Dito isso, entendo que a interpretação de um dado fenômeno envolve a captação das percepções acerca da realidade, que passa pela observação da totalidade social que envolve cada sujeito em relação com a reflexividade que desenvolve.
Para tentar me aproximar da realidade pelas mediações e nexos existentes, me ancorei em conceitos fundantes do método; e para avançar na leitura do mundo próximo ao fenômeno estudado, utilizei ferramentas de trabalho das Ciências Sociais, que podem me ajudar nas aproximações pretendidas.
A escolha de um olhar etnográfico passou pela compreensão de que sujeitos em situação reflexiva utilizam uma dinamicidade que, para ser captada, precisa de um movimento observacional denso, no sentido de Geertz (1989), que vê na descrição etnográfica densa das
observações de campo o lugar privilegiado para leitura das minúcias do real que não costumam ser expressas em palavras; percepções que são captadas no interstício das conversas abertas durante os encontros. Foram nos espaços entre as perguntas que orientaram nossa pesquisa que este momento se abriu, onde foi possível captar os detalhes que envolviam as respostas de cada pessoa e do grupo.
Para Geertz (1989) a cultura como semiótica, está repleta de teias de sentido, nos quais se buscam as mediações significativas — os significados. O pesquisador, para o autor, não estuda o nativo, ele estuda junto com o nativo, não é nativo, mas está em inter-relação contínua com a cultura do outro. Assim, ao aplicar meus questionamentos, sendo funcionária da fundação eu estava no meio, junto com meus colegas, compartilhando as experiências.
A observação densa, assim se apresentou: interpretativa, percepções sobre a realidade que precisam ser tensionadas pelos conceitos da teoria; observadora dos discursos em fluxo, a partir dos enunciados no movimento do real; organizadora dos enunciados discursivos em suportes pesquisáveis, ancorando-os em conceitos fundantes da teoria e conceitos conjunturais, e, por fim, participante do mundo da realidade pesquisada.
A partir desse entendimento, ancorei-me para o estudo do grupo profissional do agente público, nos estudos de Ramos (2014), sobre os agentes comunitários de saúde, ou seja, no entendimento de que o olhar etnográfico possui um potencial observacional crítico que nos ajuda na aproximação com o objeto da pesquisa.
Tendo como instrumento de organização textual das ideias um diário de campo, o estudo a partir de um olhar etnográfico nos permite retornar às observações vividas e sentidas transcritas em palavras, onde preocupações e cuidados expressam as emoções primárias do olhar etnográfico; e, assim, pode redimensionar o fenômeno em movimento. Tendo sempre a clareza de não confundir a “fala que (se) ouve com a verdade científica e o envolvimento emocional do pesquisador com seu campo de trabalho” (MINAYO, 1994, apud RAMOS, 2014, p. 107).
Assim, ainda em conjunção com o pensamento de Ramos (2014), “não negamos a contribuição dessas correntes para a construção do senso comum como objeto da sociologia, entendemos que a compreensão dos processos sociais não pode prescindir do estudo da experiência humana” (RAMOS, 2014, p. 107)
Nesse sentido, as percepções captadas foram do grupo representado pelos profissionais da escola: professores e equipes diretivas, como vivenciavam a experiência de acionar as malhas da rede intersetorial. Que se deu em momentos diferentes, algumas entrevistas e um
grupo aconteceram antes do momento pandêmico, e outras na volta parcial nos pós clausura pandêmica.
Com essa compreensão, nossa pesquisa foi se fechando nas percepções de grupos de profissionais da escola, a partir de dois grupos: primeiro — de professores e pedagogos; e segundo — da equipe diretiva; com ambos, procuramos:
[...] captar, ao nível da linguagem cotidiana, o que é dito e repetido entre as pessoas do grupo profissional (também incluindo com quem, quando e onde), entendendo (que) o etnógrafo a principal fonte de dados e o diário de campo, a principal ferramenta de registro, a ser utilizada, preferencialmente, após cada período da observação (RAMOS, 2014, p. 118)
Assim,
É fundamental que as pessoas se ponham a falar, mas que também consigamos que sua fala se oriente para os nossos objetivos, sem que tenhamos, para isso, que invadir ou interceptar a fala dos sujeitos, com o risco de comprometer seu fluxo e, assim, perder esse meio como fonte de dados (RAMOS, 2014, p. 120).
Reconheço que o protagonismo das enunciações é dos que vivem a experiência de buscar a intersetorialidade.
O materialismo histórico possibilita a compreensão dos fenômenos da natureza e da vida social, na complexa interação entre o sujeito e o objeto, buscando captar as múltiplas determinações que compõem o fenômeno, uma análise que envolve a leitura da totalidade do real. De onde se apreende a relação da prática com o todo complexo em que os agentes públicos da intersetorialidade estão imersos, e faz com que coincida a produção do seu trabalho nos serviços públicos com o que os agentes foram desenvolvendo em sua formação – sujeitos históricos produtos das relações sociais.
Assim, os fenômenos vividos, em processualidade, forjam uma dialética entre singularidade, particularidade e universalidade, que se expressa na unidade do real, que movimenta a prática intersetorial no mundo da alienação, no qual o homem tem uma atitude imediata e alienada em face da realidade concreta.
No primeiro momento da pesquisa optei por utilizar os dados que pudessem ser coletados pelo grupo de profissionais que estavam atuando no programa, o que levou a ter no primeiro ano de aplicação do programa atividades com as equipes diretivas e os alunos infrequentes o que permitiu ampliar o olhar e aprofundar a certeza de que este movimento intersetorial e suas implicações com a formação humana precisava ser observado com maior cuidado.
Já nos momentos seguintes, devido a mudança de foco do setor para outros projetos, como também, o esvaziamento da busca pelo PTDE pelas escolas, optei por atividades com os professores, justamente para observar suas percepções, pois, a partir de suas observações sobre
as possíveis mediações culturais, esses profissionais poderiam estar, também, diminuindo a busca pela intersetorialidade para os alunos infrequentes.