• Nenhum resultado encontrado

O que falta para melhorar a intersetorialidade?

Escola 1: Reconhecer que a questão é social e deve haver uma tentativa de resolver essas questões também. As situações sociais estão invadindo a escola cada vez mais, e não temos condições de dar conta. As parcerias são pontuais e temporais, não temos nada constante. Então, fica assim, acontece quando todos querem que aconteça.

Depende de todos, senão não se resolve nada plenamente. Precisamos de uma

organização em que os encaminhamentos tenham continuidade e que tenhamos as respostas para os encaminhamentos, quase sempre não sabemos que fim os encaminhamentos tomam, só se a família nos informar.

Em retórica, podemos observar um fenômeno muito típico que mostra as intenções do interlocutor ao formular um discurso a partir de afirmações e repetições. No trecho “Depende de todos, senão não resolve nada plenamente e “acontece quando todos querem que aconteça”, mostra uma descrença generalista nas soluções da questão social indagada. Essa descrença é reforçada pelo uso de “deve haver uma tentativa de resolver em vez de “deve haver uma solução”. É como se, automaticamente, o locutor do discurso se colocasse fora da situação, sob os pretextos apresentados.

Escola 2: Responsabilização de cada setor, funcionamento com reciprocidade, investimentos revertidos em questões sociais, menos burocracia, menos personalismo.

O maior problema é que tudo depende do outro querer estar junto. Nós procuramos sempre trabalhar em parcerias com a saúde, a assistência, a guarda, na medida do possível, mas já conversamos sobre isso, essa necessidade de chamar alguém, não sei por que não temos como ter um programa que pudéssemos fazer a inclusão das situações e cada política poderia definir um responsável pelo acompanhamento.

Diferentemente da Escola 1, aqui vemos um discurso mais assertivo, com o uso de expressões firmes. O que aparece constante em ambas são as reclamações quanto à falta de interesse demonstrada por outros setores do serviço público.

Observamos, assim, que em algumas narrativas, após várias tentativas de trabalho para a resolução da questão da infrequência escolar, pelo movimento intersetorial, os profissionais das escolas acabaram por encontrar várias decepções e, a partir dessas decepções, passaram a personalizar as decepções ao sistema, setor, órgão que os agentes representam. Com isso, personalizam o setor e despersonalizam a ação, o que acaba por reduzir a possibilidade de se avançar na percepção da importância de aprimoramentos educacionais para formação de profissionais menos preconceituosos.

Escola 3: É necessário construir uma rede de diálogo entre os setores, as situações são muito políticas, temos de buscar parcerias com pessoas e não com órgãos, não com a política, mas com as pessoas que trabalham na política, aí a gente cai na vontade política de cada um, isso é muito ruim.

A resposta apresentada aqui vai de encontro ao que foi observado anteriormente.

Observamos neste interlocutor uma consciência de que a busca das soluções passa necessariamente pelos agentes, e dessa forma deve ser tomada de maneira pragmática.

Escola 4: Melhorar a organização do CT, modificação dos territórios para melhor atendimento — tentar equiparar e/ou igualar, fortalecer a estrutura para favorecer a modificação da intersetorialidade, aumento de investimento em funcionários e nas políticas públicas. Creio que falta autonomia a alguns profissionais que atendem aos

alunos e suas famílias, sinto que, em determinadas situações de conflito que envolvem a falta do aluno à escola, os profissionais acionados precisam entrar em contato com a gestão para dar respostas, outras vezes, dependendo do profissional que vem no atendimento, ele mesmo liga para o número privado do colega da outra política para resolver a situação e dar encaminhamento. O que nos deixa à mercê das relações políticas da pessoa que vem dar o primeiro atendimento na escola.

O início dessa resposta tem características discursivas reapresentadas pelo tom professoral e institucional observado. Porém, na medida em que se desenvolve, o discurso vai adquirindo personalidade, até chegar a uma crítica pontual que provavelmente tem um referente em um caso concreto vivenciado ou conhecido pela comunidade.

Escola 5: Um dos problemas é a rotatividade de profissionais, tivemos um período que passamos por diferentes profissionais em pouco tempo, principalmente na área da saúde, eles têm outros vínculos, acabam atendendo pontualmente. Na assistência muitos profissionais são contratados também, o que dificulta o trabalho. Esses atendimentos sociais são longos, nada se resolve do dia para a noite, os profissionais que acompanham os casos deveriam ficar e acompanhar até ter uma solução.

Observamos aqui uma apresentação de justificativas, como se houvesse uma premissa anterior até mesmo da própria pergunta. Essa premissa, embora possa ser observada em todas as respostas, se sobressai nesta, como se o interlocutor realmente assumisse para si a responsabilidade por um fato que é a ineficiência da escola para resolver esse problema específico.

Entretanto, essa “culpa assumida” fica apenas na esfera subliminar, uma vez que há um discurso que justifica e diminui a responsabilidade institucional (e, por consequência, dos agentes) do caso concreto.

Escola 6: Acredito que deveria se criar um vínculo entre as pessoas encaminhadas e os responsáveis pelo acompanhamento, talvez no modelo do agente comunitário de saúde, talvez um agente comunitário social. Já que vivenciamos na escola uma relação de falta de segurança, a comunidade tem situação de drogas e violência. Aqui, quem trabalha que mora na comunidade acaba fazendo visitas às famílias, porque tem lugares em que nem o Conselho Tutelar consegue entrar, aí só quem mora mesmo, por isso falei do agente social.

A questão da segurança pública é um fator predominante no paradigma social brasileiro, e de fato remete a uma experiência observada por qualquer cidadão. Observamos como agentes, que possivelmente estão em diferentes classes sociais, lidam com essa situação: “quem trabalha e mora na comunidade acaba fazendo visitas às famílias.

Escola 7: A questão da intersetorialidade é um problema a ser pensado com muita calma, pois envolve muitas situações que vão desde a falta de estrutura dos órgãos para acompanhar até a vontade dos profissionais em atender a determinados casos.

Não vejo saída a curto prazo, falta investimento em aumentar a quantidade de Conselhos, temos só três para a cidade toda, já imaginou se vão dar conta, claro que não. Então, não vejo nenhuma possibilidade de mudança a curto prazo. Não podemos esquecer que somos pessoas com nossos valores e ver determinadas situações mexe

com a gente. O que sinto é que alguns profissionais tendem a escolher dar melhores informações, mais detalhadas para alguns formatos de famílias, ou mesmo para algumas situações sociais, mas não tenho como afirmar isso. Então, penso que deveria ter alguma forma de controlar as escolhas desses profissionais. Para todos poderem receber o mesmo atendimento.

Em paralelo com respostas anteriores, de descrença com relação a soluções, observamos também um dado interessante em: “o que sinto é que alguns profissionais tendem a escolher dar melhores informações, mais detalhadas para alguns formatos de famílias, ou mesmo para algumas situações sociais”. A intersetorialidade é uma realidade sentida e observada, mas, pelas fragilidades das estruturas operativas, acaba sendo conformada em esquemas discursivos, sendo legada a cada geração de servidores.

Escola 8: Existem muitas dificuldades, mas nós resolvemos algumas, criando parcerias com faculdades que querem fazer projetos. Eu acho bem producente ter faculdades junto, elas ajudam a controlar as políticas, até porque quando os profissionais se sentem observados, acabam agindo de forma diferente, mas equânime. Ao ver da escola, o que precisa ser superado é a luta por protagonismo tanto das políticas quanto das pessoas, é uma coisa muito diferente, as pessoas têm envolvimento político na cidade, são colocados em postos estratégicos nas políticas e precisam se apresentar com as pessoas que fizeram a diferença, junto a isso temos a vontade de alguns representantes dos parceiros na intersetorialidade em se tornar vereadores, ou deputados, e tudo isso complica os atendimentos, eles setorizam as ações, para privilegiar seus espaços urbanos, e acaba que onde se tem mais força política recebe um atendimento melhor. Creio que precisa ter um programa de monitoramento que ajude na imparcialidade.

As escolas no geral tendem a buscar saídas possíveis para tentar diminuir as situações que vivenciam no cotidiano. Principalmente na cidade de Niterói, a busca por parcerias com as universidades públicas se vê fortemente no chão nas escolas. O que nós podemos perceber com mais clareza na fala do gestor da escola 8 é o reconhecimento da luta interna entre as ações de classe que acontecem no âmbito da escola.

Quando a escola busca parceria com as faculdades, de certa forma está buscando capacitação para o seu corpo docente. Quando o gestor observa o envolvimento dos profissionais da educação ou assistência com os políticos ou com partidos políticos da cidade, está sinalizando uma ampliação de sua leitura do cotidiano da escola na conjuntura político- social da cidade, de onde percebe a importância de programas que atuam no sentido da imparcialidade político-partidária necessária para se atender a todos de forma justa, fugindo-se do clientelismo.

Vê-se um avanço na consciência pessoal desta gestora, que, ampliado, pode fortalecer a mudança da consciência social. Esta precisa se desenvolver a partir de aprofundamentos capacitativos, para além de só ensinar formas de ensinar, mas que visem à preparação dos profissionais da escola para as situações que envolvem a vida dos alunos.