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Processo de trabalho nos serviços públicos

Em O capital (volume 1, parte III, capítulo VII — Sobre processo de trabalho e processo de produção de mais-valia, Marx (2013) define três elementos do processo de trabalho: a atividade adequada a um fim, isto é, o próprio trabalho; o objeto de trabalho, ou seja, a matéria a que se aplica o trabalho; e os instrumentos ou meios do trabalho. E destaca que eles precisam ser analisados articuladamente, pois é na sua relação recíproca que um dado processo de trabalho pode ser observado.

Assim, é nesse contexto complexo de mediações que se envolve o primeiro item, ou seja: a atividade que acontece no movimento entre o objeto — a proteção social — e os meios, isto é, os encaminhamentos. Assim acontece o processo de trabalho nos serviços públicos, na intersetorialidade protetiva. Trata-se de movimento que se desenvolve na prática dos agentes públicos, na qual existe a emancipação social em potência, mas, também, onde se estabelecem limites. É um lugar da luta para ampliar a consciência de cidadania, na batalha por avanços na minimizaçao da desigualdade social.

Para Marx e Engels (2006):

A estrutura social e o Estado nascem continuamente do processo vital de indivíduos determinados; mas desses indivíduos não tais como aparecem nas representações que fazem de si mesmos ou nas representações que os outros fazem deles, mas na sua existência real, isto é, tais como trabalham e produzem materialmente; portanto, do modo como atuam em bases, condições e limites materiais determinados e independentes de sua vontade (MARX; ENGELS, 2006, p. 18).

É nesse espaço que o objeto proteção social vai se transformando, onde a prévia ideação sobre o que se pretende alcançar ganha diferentes direções, em razão de diferentes mediações da realidade.

É no campo da realidade que os agentes públicos desenvolvem seu processo de trabalho, envoltos na cultura da sociedade e nos saberes contidos no cotidiano, atravessados por subversões e adequações que protegem a cultura do povo do domínio da cultura burguesa. É em meio a essas mesclas sociais e culturais que um conjunto de práticas são aprendidas numa lógica utilitária e que, relacionadas com elementos produzidos cientificamente, serão assimiladas e replicadas no cotidiano dos serviços públicos.

Assim, as experiências nos espaços de trabalho produzem diferentes saberes em interação, ou seja, o saber produzido na realidade cotidiana, o saber acumulado na sociedade, o saber aprendido no processo educativo, além do saber desenvolvido no processo de trabalho.

O saber profissional, como qualquer outro saber de ação, é um processo de conhecer em ato (‘knowing’) que dilui os conteúdos de conhecimento e significações no fluxo da transitoriedade da vida cotidiana, sem nunca aspirar a ser um produto cultural ou ideológico que se possa transmitir a outros sem convocar a experiência de quem o usa em situação prática (CARIA, 2017, p. 501).

Observo, assim, a existência de uma complexa realidade que envolve os agentes públicos em seu processo de trabalho, em que as diversas atividades de grande relevância para Estado, capital e população, configuram um trabalho que envolve, em alguma medida, aspectos simbólicos, que atravessam a intensa interação entre trabalhadores e usuários do setor de serviços.

Do ponto de vista histórico, as mudanças nos processos produtivos e na organização do trabalho desde a reorganização da produção também se espalharam para o setor público, onde a adoção do gerencialismo52 gerou metas a serem cumpridas sem avaliar a forma interna que molda o serviço público no seio do Estado capitalista.

A imagem do funcionário público é alvo de interesse, e, historicamente, existe um conjunto de estereótipos negativos associados à imagem desse servidor, em que ele é descrito como um trabalhador que não trabalha, é ineficaz, incompetente, desanimado, improdutivo, adaptável, recaído, ausente, demorado, levando a um entendimento que desconsidera as condições reais de trabalho sob as quais esses profissionais atuam. Isso envolve precarização física dos setores, falta de equipamentos básicos, entre outras condições, e leva a um desagaste emocional e físico que atravessa, com força, a mente do trabalhador.

52 O gerencialismo é uma ideologia que legitimava direitos ao poder, especialmente ao direito de gerir, construídos como necessários para se alcançar maior eficiência na busca de objetivos organizacionais e sociais (NEWMAN; CLARKE, 2012, p. 359).

Assim, o valor social atribuído a essa forma de trabalho afeta os trabalhadores e estabelece necessidade de aprofundamento dos laços e vínculos com determinadas posições politizadas dentro do setor público para se suportar a permanência no espaço de trabalho.

É nessa sociedade heterogênea, em que os grupos sociais no mundo do trabalho apresentam características socioeconômicas distintas, o funcionário público, um trabalhador dos serviços públicos, do trabalho imaterial, que se encontra inserido no circuito do valor, ajuda a entender o que leva os homens a internalizarem como adequado um estilo de sociedade baseado no capitalismo, no qual mercadorias fetichizam a realidade que envolve as relações sociais concretas, que, no processo de trabalho, em face das necessidades materiais e mentais dos agentes públicos, se ajustam para compor seus processos laborais.

É nesse impacto direto do capitalismo na realidade cotidiana que os privilégios se fundem para manutenção do poder político e econômico nos processos de trabalho nos serviços públicos, em que a prioridade da sobrevivência através da venda do tempo e da força de trabalho pela recompensa financeira inibe, muitas vezes, a adoção de uma consciência crítica.

6 O SABER EM USO PROFISSIONAL: REFLEXIVIDADE, RECONFIGURAÇÃO E RESSIGNIFICAÇÃO NA SOCIEDADE CONSERVADORA

O saber em uso profissional se vincula a uma atividade prática que se desenvolve no ato do trabalho, em que diferentes conhecimentos se mesclam para responder, em algumas situações, a improvisos que emergem da realidade. Um produto intelectual que envolve diferentes formas de conhecimento, com as diferentes formas de saberes regulando condutas e interferindo nas escolhas dos agentes públicos.

Assim, o saber que se usa profissionalmente implica a reflexividade sobre o objeto de intervenção profissional, que é uma constante que atravessa todos os espaços da vida social, que atua sobre as experiências vividas, sentidas e percebidas, na vida cotidiana e no trabalho.

É a partir da reflexividade sobre a realidade que os agentes públicos recontextualizam e mobilizam o conhecimento, que, em seu uso, seja em situações rotineiras ou em situações de improviso, se expressará como um saber específico para a atuação nos movimentos no mundo do trabalho. A questão é quantos fatores medeiam a mente dos profissionais no momento da reflexividade, para o uso de um conhecimento em situação de atendimento social.

Uma totalidade que não se restringe ao momento contemporâneo, que traz em si a conexão entre passado e presente, que, a nosso ver, responde às ponderações no ato do trabalho, nas relações entre: como o agente público se vê, como ele vê o usuário, como este reajusta a conduta no ato profissional do atendimento e nas orientações.

6.1 Percepções e tendências no movimento do real

A necessidade imediata é aquela ligada à produção e reprodução da vida biológica (caráter físico), enquanto a mediata é aquela que superou a necessidade imediata para, num nível de liberdade, poder criar, produzir e satisfazer necessidades humanas. Significa que a necessidade propriamente humana tem de ser inventada ou criada a partir da percepção pela experiência.

Vinculada diretamente à experiência estaria também a dimensão afetiva, uma necessidade humana, pela qual o sujeito se relaciona com a cultura e os seus conjuntos de normas e valores, de forma objetiva, ou seja, no confronto com as suas necessidades de convivência.

Assim, apontam Marx e Engels (1984):

Os homens que, dia a dia, renovam a sua própria vida começam a fazer outros homens, a reproduzir-se — a relação entre homem e mulher, pais e filhos, a família [no interior de um determinado modo de produção, cujas relações] têm de ser sempre estudadas e tratadas em conexão com a história da indústria e da troca (p. 32 e 33).

Para Ramos (2012), a experiência, ainda que de natureza tácita e espontânea, está sempre acompanhada de pensamento e conhecimento que se imbricam na realidade cotidiana e se apresentam como senso comum, ultrapassando, assim, a percepção de que o conhecimento prático seria apenas a reflexividade da prática.

A experiência, conformando uma consciência afetiva e moral, seria vivida e aprendida pelo pensamento e pelo sentimento na família, no trabalho e na comunidade imediata. Para Ramos (2012), tratar-se-ia de uma ampliação de aprendizagem sociocognitiva na qual o saber poderia ser visto “como produto não só da racionalidade, mas também de processos simbólicos, emocionais e morais que nos envolvem na prática social cotidiana” (p. 127).

Experiência e convivência seriam determinantes da escolha nas práticas, na socialização profissional, na trajetória da carreira, que num primeiro momento implicariam a interiorização de normas e valores profissionais e, num segundo momento, envolveriam a interação na prática da profissão, ou seja, interiorização dos valores e normas do seu grupo de trabalho.

Nesse sentido, a reconstrução dos conhecimentos, que se faz na experiência no mundo da prática no trabalho, recontextualiza o saber profissional, que tem na bagagem a mediação das experiências histórico-sociais. A experiência seria um processo mental de internalização da herança cultural, numa reconstrução e transformação mediada pelas interações sociais no trabalho.

Ainda de acordo com Ramos (2012, p. 38):

A interação não é mediada exclusivamente por processos cognitivos que ocorrem em mentes humanas individuais, mas sim por processos sociocognitivos em que entram em jogo as mentes individuais constituídas por aprendizagens sociais. Nessas aprendizagens está a incorporação de regras, normas, ideologias, teorias, que sustentam as relações de poder. Essas observações não comungam com o mentalismo típico de abordagens psicologizantes ou com o individualismo pragmático, mas também não negam a existência de uma dimensão normativa de ordem histórico- cultural constituinte da socialização (Berger e Luckman, 1973). Essa perspectiva busca superar a dicotomia entre conhecimentos pessoais e coletivos, ao se evidenciar que todas as aquisições pessoais são mediadas por relações sociais. Há uma clara compreensão quanto à determinação social do sujeito.

Essas considerações nos ajudam a entender o movimento na realidade social do trabalho, em que a recontextualização dos conhecimentos gera condutas compartilhadas e saberes que se reconstroem a partir da reflexividade que ressignifica os movimentos práticos no âmbito da intersetorialidade.

A reflexividade utiliza, para as ponderações, para além do passado, de onde emergem resíduos históricos que se impregnam na mente, de dois planos: um macro, onde se situam as questões sobre economia, política, governo e sociedade; e um plano micro, onde estão as questões sobre o imediato, o cotidiano, a vida, o trabalho, a sobrevivência. Na intersecção desses dois planos, a reflexividade define posições/condutas a partir de ponderações sobre interesses pessoais e sociais.

No entendimento de que os homens tomam partido tendo como base algum lugar social como seu, identificado pela sua mente, a colocação acima ajuda a captar o movimento dos sujeitos em suas escolhas/condutas no trabalho, momento em que se anula a neutralidade profissional, quando se manipulam resíduos históricos com experiências diárias.

É na intersecção que se desenvolvem percepções sobre o real, de onde definem-se tendências, lugar em que o agente público do trabalho intersetorial definirá de que lado irá se colocar, se do lado do usuário ou do lado do capital.

Neste ponto, Gurgel (2016) coloca a possibilidade de os burocratas (agentes públicos), frente à autonomia relativa existente, darem um giro e propiciarem uma intervenção mais ampla, voltada para os interesses da classe subalterna (p. 200).

Nesse sentido, devo ressaltar que os agentes públicos não só executam políticas públicas com a relativa autonomia possuída e em uso da reflexividade, mas também fazem política, de acordo com suas prioridades. A reflexividade atua, assim, sobre a realidade dos agentes públicos e dos usuários.