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Intelectual, a cultura e a dimensão histórica

No documento NO MUNDO DA LINGUAGEM: (páginas 192-199)

em milênios. Por isso Nietzsche define o homem superior  como o ser ‘da mais ampla memória’” (1964:83). Tem‐se a  memória, ao longo da história, de que o intelectual, devido a  sua  natureza  irrequieta  e  inconformada,  sempre  buscou  problematizar temas que o libertasse da subjugação e formas  de legitimar  sua  função  dentro da estrutura  social.  Uma  dessas formas  tem, na  atualidade, recebido a atenção de  diferentes intelectuais de várias áreas do conhecimento – a  cultura. 

  Em 1959, Wright Mills já aconselhava o intelectual a,  antes de se insurgir contra qualquer poder prevalecente, se  comprometer com a “política cultural”, a ter por objetivo  preparar  uma  “autêntica  cultura”,  depurada  de  todos  os  elementos que a falseiam. Segundo Wright, se os intelectuais  se  voltam  para a  cultura, a política  segue seus  passos e  também volta sua atenção para o mesmo objeto, produzindo  obras pretensamente culturais, por isso, a necessidade de se  separar,  pela  depuração,  os  intelectuais  “autênticos”  dos  intelectuais “políticos”.  

 

Se organizarem devidamente as suas hostes, se lutarem nas  duas frentes, a interna e a externa, pela veracidade cultural,  se excluírem impiedosamente os intrusos e proporcionarem  o crescente acesso dos legítimos à família intelectual, os  intelectuais prosseguirão e intensificarão o delineamento e  a realização do mundo que conceberam: o mundo feito  verdade, verdade transitória, mas cada vez mais limpa de  escórias. Mas se, apressadamente, dividirem as suas forças,  e consentirem no enfraquecimento da cultura, não só porão  em perigo a sua existência como a própria permanência  cultural (DE MELO, 1964:30). 

 

  Duas  constatações  podem  ser  inferidas  das  considerações feitas por Wright e Melo. A primeira delas é  que  a  política,  que  no  senso  comum  serve  mais  explicitamente às  classes dominantes,  procura  observar  o  movimento  dos  intelectuais,  seus  objetos  de  interesse  e  pesquisa,  para  sobre  estes  exercer  sua  influência  e  manipulação. O que equivale a afirmar que a descoberta, ou  mais propriamente dito, a renovação de focos de atenção, por  parte  dos  intelectuais, pode  ser  tanto  sua  salvação como  condenação, porque o limite entre o intelectual e o político é  tênue. Toca‐se, neste ponto, na segunda constatação, a do  perigo de que o intelectual ultrapasse os limites de sua ação  e, inocente  ou não,  culmine em servir como  político aos  interesses da dominação. A palavra de ordem neste caso é  poder. A diferença, à primeira vista, parece ser clara, como  define Fidelino de Figueiredo, “o pensador quer  entender e  saber e prever; o político só quer chegar ao poder, conservá‐

lo e alargá‐lo; e se alguma coisa útil faz é para justificar essa  conservação  e  esse  alargamento  do  poder.”  (1964:36). 

Entretanto,  a  história  tem  demonstrado  que  “muitos  professores, açodados  homens de  partido, (...) tomam do  prestígio da cátedra a propulsão inicial para a sua carreira de  intelectuais  temporários  e  políticos  permanentes” 

(FIGUEIREDO,  1964:34).  Neste  ponto,  trata‐se  de  um  intelectual em especial, o acadêmico.  

Não há lugar ideológico neutro, todos os intelectuais  servem  e  defendem  ideologias,  e  são  avaliados  segundo  parâmetros  ideológicos.  A  universidade,  como  o  próprio  nome  traduz,  deveria  ser  o  lugar  de  acolhimento  das  diferenças, das oposições ideológicas, do diálogo, mas ela  encontra  dificuldades  em  desempenhar  este  papel,  exatamente porque os limites entre o homem em busca da 

verdade – o intelectual – e o homem em busca do poder – o  político – estão sendo apagados. As abordagens e enfoques  dados em sala de aula, muitas vezes, têm direcionamentos  políticos e servem a propósitos outros, distantes do objetivo  último que é o de promover o conhecimento. Não é o ensino  acadêmico que deve ser criticado, mas a “cegueira com que  oferecem  [os  intelectuais]  como  verdades  supostamente 

‘técnicas’,  ‘auto‐evidentes’,  ‘científicas’  ou  ‘universais’ 

doutrinas  que  pouco  de  reflexão  nos  mostrará  estarem  relacionadas com, e reforçarem, os interesses específicos de  grupos específicos de  pessoas, em momentos  específicos” 

(EAGLETON, 2003:268). A universidade teria por finalidade  primeira ser o locus da contestação e, também, da sugestão de  novos caminhos para os impasses e problemas da sociedade,  mas frequentemente ela perde o foco de ação: “Enquanto  isso,  um  exercício  que  nos  deixa  mais  sóbrios  e  quase  aterrorizados  é  o  de  contrastar  o  mundo  do  discurso  intelectual  acadêmico,  na  sua  combatividade  pouco  ameaçadora, geralmente  hermética e infestada de  jargões,  com o que o domínio público ao redor tem realizado” (SAID,  2007:154). Uma forma de contestação e de engajamento é a  auto‐reflexão  do  discurso  acadêmico.  Assim  como  fez  Foucault  com  o  discurso  da  clínica  e  da  história  da  sexualidade,  é  necessário  realizar  uma  hermenêutica  do  discurso  acadêmico,  que  investigue  seus  pressupostos 

“ideológicos”.  A  hermenêutica  se  volta  para  a  “coisa do  texto”, a referência sobre a qual se elabora um discurso. Os  focos  de  interesses  acadêmicos,  que  se  organizam  numa  hierarquia  atrelada  à  trilogia  trabalho‐poder‐linguagem,  estão dissimulados nos discursos e, por isso, necessitam de  uma  hermenêutica  esclarecedora  que  exponha  todos  os  meandros da construção discursiva. 

  Os Estudos Culturais surgem, notadamente, na década  de 50, com as obras dos britânicos Raymond Williams, Richard  Hoggart e E. P. Thompson e se consolidaram academicamente  com a fundação, em 1964 do “Centro de Estudos Culturais  Contemporâneos”, na Universidade de Birmingham. O objeto  de investigação dos Estudos Culturais é a cultura de acordo  com a subdivisão de interesses: os diferentes usos históricos do  termo cultura; a cultura das classes trabalhadoras; o lugar da  história dos excluídos da “grande história” da civilização; a  literatura dos marginalizados, autores e personagens; entre  outros. Trata‐se de uma disciplina acadêmica que se coloca  contra a alta‐cultura e as elites dominantes, o que reflete sua  herança marxista. Os Estudos Culturais oscilam, assim como  tantas  outras  abordagens  intentadas  antes  deles,  entre  a  resposta acadêmica às imposições dominantes, como um grito  de guerra, e o efeito de moda. Na atualidade, uma significativa  parcela  das  universidades  brasileiras  e  estrangeiras,  em  diferentes disciplinas, desenvolve pesquisas no domínio da  cultura.  Tem‐se  a  ilusão  dentro  da  academia,  justificada  quando se lembra do lugar  incomodo em que sempre  se  encontra o intelectual, de que fazer estudos sobre a cultura,  com o viés dos Estudos Culturais, é se aproximar das massas,  e, enfim, conseguir conciliar‐se com a classe operária. Mas o  perigo do pacto do Dr. Fausto ronda, em todos os tempos, os  intelectuais.  A  cultura  popular,  o  marginalizado,  o  homossexual, a mulher, o negro, o indígena, o operário, foram  transformados em  temas acadêmicos que alimentam, entre  alguns grupos, as guerras departamentais. Esse é o perigo do  perverso efeito de moda tão presente no sistema universitário. 

Aqueles intelectuais que não fazem estudos sobre a cultura, no  viés atual, são tachados de elitistas, burgueses e alienados. 

Todos  rejeitam  a  aura  da  universalidade,  da  eleição 

transcendental, do elitismo, e a fazem passar retoricamente de  cabeça  a  cabeça,  quando,  de  fato,  a  aura,  como  prática  intelectual  a  serviço  da  classe  dominadora,  nunca  esteve  ausente. Ao que tudo indica, os intelectuais perdem tempo  digladiando entre si quando deveriam, como disse Nietzsche,  revisitar o baú dos erros e tentar outramente efetivar seu papel  na sociedade.      

  A cultura é um elemento fortemente representativo  das classes sociais, ela expõe, mesmo que dissimuladamente,  as diferenças e representa, de fato, um foco de atenção para a  investigação dos intelectuais. Mas se faz necessário repensar  a forma de articular o impasse entre cultura hegemônica e  culturas marginais para que o conflito não redunde numa  guerra fria. Sartre chama a atenção para este fato:  

  

Se a nossa responsabilidade é tão grave, e se temos tantas  faltas no nosso ativo é – explicação e não desculpa – porque  vivemos num tempo em que a cultura se utiliza em toda a  parte  como  arma  de  guerra.  Compreendam‐me:  certos  escritores, certos políticos, fazem as coisas conscientemente; 

outros  atuam  sob  o  império  de  forças  objetivas  que  desconhecem; a cultura já se transformou, há já linhas de  forças, rumos. Numa palavra, já se converteu em estratégia  e tática militar (1964:335). 

 

       O filósofo, assim como outros pensadores, já percebeu 

o jogo perigoso, a cilada em que alguns intelectuais caem,  inconscientes alguns e lúcidos outros, de que, ao pretender  defender a cultura, “o que na realidade se faz é imobilizá‐la; 

declara‐se em toda a parte que se faz a guerra para salvá‐la,  quando  realmente  ela  é  submetida  inteiramente  aos  interesses guerreiros”. De acordo com Sartre, o processo para  se  chegar  a  esse  resultado  é  simples,  basta  especular  e 

intensificar  os  caracteres  contraditórios  “que  definem  o  conjunto de toda a cultura: o particularismo nacional e a  universalidade, pelo menos potencial” (SARTRE, 1964:336). 

Hoje a separação da cultura se concentra no particularismo  nacional que se subdividiu em particularismos nacionais. A  universalidade é rejeitada unanimemente, mas seria o caso de  interpretá‐la a partir da dimensão histórica do século XXI e  não resgatá‐la no sentido histórico do século XIX.   

A defesa das múltiplas culturas, com rejeição ao diálogo  entre elas, nega o princípio dialético que orienta suas gêneses. A  consequência é que a cultura fica dividida, fragmentada, em  várias  vertentes  que  “se  condenam  entre  si,  e  que  são  incompletas uma[s] sem a[s] outra[s], ainda que em sentidos  sumamente diferentes” (SARTRE, 1964:340). E o interessante é  questionar quem ganha com essa fragmentação, a qual órgão  interessa  essa  divisão?  Aos  intelectuais  acadêmicos,  que  manipulam pequenos poderes institucionais, aos trabalhadores  e marginalizados da história ou aos órgãos de dominação? 

Stuart Hall (2006) relata um episódio exemplar a esse respeito, a  indicação feita por George W. Bush, em 1991, do juiz negro,  Clarence Thomas, para a Suprema Corte americana. O então  presidente desejava com isso restaurar a maioria conservadora e  indicando  um  juiz  negro  conservador  ele  atenderia  a  dois  grupos culturais distintos: aos eleitores brancos conservadores,  que aceitariam o juiz pela orientação política e não pela cor da  pele, e os eleitores negros, apesar de apoiarem políticas liberais  em questões raciais, o apoiariam porque era negro. Percebe‐se aí  o político atento ao movimento intelectual, obtendo poder à  custa  da  fragmentação  cultural53.  Hall  estende  o  relato 

53 Esse tema será retomado no capítulo “Identidade Alteridade”, ao  comentar a fragmentação identitária e sua implicação ética. 

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