O jogo de luzes e sombras assim como a própria seleção do conteúdo criticada pelo sociólogo francês não ocorre de forma aleatória ou ao bel-prazer das organizações jornalísticas. A linha editorial de cada emissora e de cada produto informativo direciona o conteúdo na TV. Antes de abordarmos o processo de seleção, tratamento e hierarquização nos noticiários de televisão, buscamos entender o próprio conceito de notícia a partir do pensamento de Sodré (2009), que estabelece limites entre o fato, o acontecimento e a notícia.
Para o jornalista e sociólogo brasileiro, fato é o objeto cuja realidade pode ser provada e o acontecimento é que dá sentido às coisas, é o desdobramento do fato, que submetido a normas e convenções, terá enredo e enquadramento. O acontecimento garante noticiabilidade para alguns fatos. Já o conceito de notícia é definido pelo autor como um ‘microrrelato’. “Parte-se do ‘fato bruto’ [...] para transformá-lo em ‘acontecimento’ por meio da interpretação em que implica a notícia, esse microrrelato que, desdobrado ou ampliado, nos dará possibilidade de acesso argumentativo ao ‘fato social’’ (SODRÉ, 2009, p. 71).
Sendo assim, entendemos que o telejornalismo recebe uma expressiva quantidade de denúncias e apura inúmeros fatos diariamente. No entanto, nem todos se tornam acontecimentos sociais e muito menos cabem no tempo limitado dos telejornais. Os profissionais nas redações de televisão precisam realizar uma seleção daqueles que devem ser narrados, ou seja, transformados em microrrelatos, em notícias. Para isso, avaliam o grau de importância dos acontecimentos, utilizando critérios de noticiabilidade, que podem variar de acordo com a emissora, com o programa, com as condições de captação de imagens e de realização de entrevistas etc. Gislene Silva (2014) salienta que seria reducionista compreender a noticiabilidade de um acontecimento como um conjunto de princípios com os quais uma organização informativa controla a quantidade de notícias a ser produzida ou como conjunto de elementos potenciais do próprio fato. A autora define noticiabilidade como
[...] todo e qualquer fator potencialmente capaz de agir no processo da produção da notícia, desde características do fato, julgamentos pessoais do jornalista, cultura profissional da categoria, condições favorecedoras ou limitantes da empresa de mídia, qualidade do material (imagem e texto), relação com as fontes e com o público, fatores éticos e ainda circunstâncias históricas, políticas, econômicas e sociais (SILVA et al, 2014, p.52).
Dessa forma, noticiabilidade consiste em uma enorme gama de princípios que influenciam diretamente o julgamento sobre determinado fato. O teórico do jornalismo Nelson Traquina (2005) conceitua noticiabilidade como o conjunto de critérios que
estabelecem valor de notícia a certo acontecimento, ou seja, os valores-notícia que transformam o acontecimento em matéria, em reportagem. Os valores-notícia seriam atributos do fato, as características que ajudam os jornalistas a realizarem a seleção. Isso não quer dizer que sejam ‘naturais’, pois Traquina (idem) explica que esses valores são relativos aos aspectos culturais da produção jornalística, são como um código ideológico que envolve interpretação e representação. Eles também são empregados em todo o processo de construção da notícia, incluindo o tratamento e a hierarquização. Os profissionais em uma redação de TV não somente selecionam os acontecimentos a serem noticiados como ainda escolhem o modo como serão abordados e quais deles se tornarão chamada dos telejornais, ocuparão a escalada e terão mais tempo dentro do noticiário.
Diante desse extenso processo, Silva (2014) divide os critérios de noticiabilidade em três instâncias: aqueles aplicados à origem dos fatos seriam os valores-notícia utilizados para a seleção; os critérios para o tratamento dos acontecimentos incluem os valores-notícia e outros fatores relacionados às práticas produtivas; e por fim, aqueles critérios que interferem na visão dos acontecimentos, compreendidos como os fundamentos éticos, filosóficos e epistemológicos da atividade informativa: a verdade, a objetividade, a imparcialidade, o interesse público etc (SILVA et al, 2014, p. 52-53). No entanto, a autora destaca que os valores-notícia não são universais, podem apresentar diferenças de uma organização informativa para outra ou até mesmo de um profissional para outro. Cada qual pode compreender de forma distinta o que são tais valores.
Desse modo, os teóricos da Comunicação abordam uma diversidade de valores-notícia.
Frente à grande variedade e ao caráter mutável desses parâmetros, recorremos ao pensamento de Marcos Paulo da Silva (2014) para determinar um tipo de padrão. Consideramos, então, a concepção de ‘desvio’ como princípio fundamental da noticiabilidade. Os valores-notícia
“estabelecem-se atrelados a um padrão clássico de ruptura a uma ordem social anteriormente estabelecida” (SILVA et al, 2014, p. 31). Nesse sentido, a jornalista e pesquisadora Vera França (2012, p.13) complementa que o acontecimento “não é independente, nem autoexplicativo”, mas responsável por uma diferença, uma ruptura, uma interrupção da normalidade. Logo, quanto maior o desvio mais relevância o fato adquire no jornalismo tanto para ser noticiado quanto na forma como será tratado e hierarquizado.
Entendemos que os valores-notícias mais comumente abordados nos estudos do jornalismo e compilados por Gislene Silva (2014) em uma extensa lista apresentam, em sua maioria, tendência desviante, ou seja, fogem da normalidade. Entre eles, encontram-se o conflito (guerra, briga, greve, rivalidade), a tragédia ou o drama (acidente, catástrofe, doença,
violência, morte), a raridade (incomum, original, inusitado), a surpresa (inesperado), a polêmica (escândalo), a curiosidade e o conhecimento (descobertas, invenções, pesquisas).
Sendo assim, compreendemos o assassinato da vereadora Marielle Franco como um desvio da ordem social, um acontecimento desviante e, portanto, merecedor de virar notícia.
A morte por si só já significa uma ruptura. Portanto, o crime apresenta valor como notícia ao expressar tragédia (morte), raridade e surpresa por se tratar de uma parlamentar executada na região central da segunda maior metrópole do país. O fato ainda se enquadra no valor-notícia da polêmica por suscitar debates em torno do homicídio e da trajetória da vítima, conforme veremos adiante.
Entretanto, o atual ambiente de convergência midiática que possibilita maior interação com o público transforma a maneira como os jornalistas e as organizações informativas avaliam os fatos, pois os profissionais passam a ter mais acesso às opiniões e aos interesses da audiência. Por isso, critérios de noticiabilidade que indicam a construção da notícia dentro de uma dinâmica de diálogo com o público e com as mídias digitais passaram a ser discutidos no século XXI. O pesquisador Josenildo Guerra (2014) sustenta que a ‘expectativa da audiência’
deve ser considerada um valor-notícia utilizado no julgamento e hierarquização dos fatos. De acordo com o autor, na atualidade esse parâmetro converte-se no ponto de partida do trabalho jornalístico, pois os profissionais da notícia e as organizações informativas “não podem ignorar a expectativa e a competência de recepção daqueles para os quais direcionam suas mensagens” (GUERRA, 2014, p. 40). Citando o sociólogo Jean Chalaby, Guerra (idem) afirma que a ‘expectativa da audiência’ é uma descoberta essencial para o jornalismo moderno. O julgamento dos acontecimentos sociais a partir de sua importância intrínseca torna-se gradualmente menos relevante para a seleção e a construção da notícia. Produtores e repórteres passam a realizar as avaliações levando em consideração mais o presumido interesse do público em relação ao conteúdo do que as próprias características dos fatos em si.
A adequação estabelece um vínculo entre produtores e receptores. Se a oferta de conteúdo jornalístico não corresponder ao que o público espera, esse vínculo não se sustentará. O autor acrescenta que a mediação exercida pelo jornalismo se realiza efetivamente através dos vínculos afetivos entre profissionais e audiência e entre organizações e consumidores.
Segundo ele, a discussão sobre a questão da qualidade no jornalismo deve abordar aspectos relativos à própria produção da notícia e não o interesse da audiência. Guerra (ibidem) observa, inclusive, que o distanciamento do que é considerado popular para o produto de qualidade vem deixando de representar a questão central na avaliação dos acontecimentos sociais.
Dentro desse contexto, o valor-notícia proposto funciona, no primeiro momento, a partir da idealização do telespectador, em que o jornalista e a emissora de TV supõem quem seria esse receptor das notícias e quais seriam suas expectativas em relação aos fatos do dia.
Guerra (2014) associa tal situação ao interlocutor imaginário definido pelo teórico britânico Denis McQuail, destacando a necessidade que o jornalista tem de presumir o perfil da audiência para estabelecer de forma eficiente a comunicação. Ressaltamos que a convergência entre o telejornalismo e as redes sociais é capaz de aperfeiçoar essa suposição dos interesses do telespectador, uma vez que a audiência se manifesta nas plataformas digitais com reações e comentários. Sendo assim, o comportamento e o engajamento do público nas redes sociais permitem aos jornalistas acompanhar e monitorar os temas de interesse da sociedade e, consequentemente, adequar a oferta de conteúdo informativo à ‘expectativa da audiência’.
Estabelecemos aqui distinção entre o valor-notícia ‘expectativa da audiência’ e o conceito de interesse público. Embora ambos possam desenvolver uma aproximação e integrem a noção de noticiabilidade, compreendemos que nem todos os anseios da audiência se referem a um conteúdo de interesse público. É o caso, por exemplo, das notícias sobre celebridades, que são do gosto da audiência, mas não representam um tema para o bem comum. No entanto, quando se trata dos parâmetros que influenciam profissionais e organizações, Basílio Alberto Sartor (2016, p. 18) elenca o interesse público, pois os próprios
“jornalistas atribuem a ideia de princípio normativo e critério de noticiabilidade à noção de interesse público”. A imprensa consolidou-se como instituição que permite o amplo acesso às informações de interesse geral, isto é, a ideia de interesse público acabou incorporada ao jornalismo. Sartor (idem, p. 25) afirma que a defesa de tal interesse tornou-se “fundamento ético-epistêmico da profissão [...] e incidiu na produção jornalística como um dos mais importantes critérios para seleção, hierarquização e construção da notícia”. Apesar do caráter comercial das organizações informativas, a concepção idealista, romântica e tradicional do jornalismo associa-se às ideias de verdade, democracia, transparência e objetividade. Segundo Sartor (ibidem, p. 218), o interesse público constitui um ‘valor de resistência’ da identidade profissional.
Para entender o conceito de interesse público recorremos à ideia do bem comum. O escritor e jornalista Carlos Chaparro (2016) afirma que o interesse público está implícito no princípio platônico do Ser e do Conhecimento. Para o filósofo da Grécia antiga Platão, a esfera do público mostra-se relativa à ordem social, à cidade devidamente ordenada. “Nesse princípio de ordem e razão, em função da cidade justa e verdadeira, legou-nos o platonismo uma noção do que poderia ser chamado de interesse público.” Dessa forma, tal conceito não
se concentra em um acontecimento isolado, mas nos fatos da cidade, ou seja, relacionados à coletividade. Interesse público remete à ideia de valores coletivos ou ordem social estabelecida para o bem da coletividade. Porém, entendemos que um fato isolado pode também corresponder a interesse público na medida em que expressar ruptura de um princípio ou um valor considerado um bem comum da sociedade.
Ainda explicando o conceito, Sartor (2016, p. 154) advoga que um acontecimento de interesse público funciona como um elemento simbólico agregador, pois a “comunicação estrutura-se no interior dos públicos à volta de um certo interesse comum partilhado.” Sendo assim, as opiniões sobre determinado fato podem divergir, mas ainda assim ele será em si mesmo objeto de visibilidade e discussão na esfera pública a partir do momento em que representa um interesse público. Sob essa perspectiva, o interesse público consiste em um critério de noticiabilidade, pois
[...] dentre os variados e virtualmente inesgotáveis acontecimentos do mundo, devem ter prioridade no relato noticioso aqueles que dizem respeito ou afetam diretamente o público, em detrimento daqueles que dizem respeito exclusivamente ao privado ou exercem menor influência no público” (SARTOR, 2016, p.123).
Portanto, os produtores de notícia na televisão, assim como nos demais veículos de comunicação, devem priorizar os fatos que carregam competência intrínseca para ganhar visibilidade e que afetam de alguma forma a ordem estabelecida ou os valores da coletividade.