cidadãos para tornar-se mantenedor da liberdade de escolha, do livre arbítrio, das individualidades. Assim, o cidadão tem garantida a liberdade de assumir os próprios riscos, com sucesso ou fracasso, o que os autores chamam de ‘governo de si’. Segundo os sociólogos, na ótica neoliberal “a proteção social destrói valores sem os quais o capitalismo não poderia funcionar” (DARDOT e LAVAL, 2016, p.211). Portanto, ascender socialmente não estaria, nesse modo de ver, apenas relacionado às condições históricas, políticas e econômicas de uma sociedade, mas seria também uma questão de ‘governo de si’, de saber administrar a própria vida, um mérito de cada pessoa. Tal abordagem reafirma a ideia de inferioridade das camadas populares que não teriam assim a capacidade, o mérito de progredir socialmente.
Acrescentamos a esse amplo cenário, a relevância da visualidade na contemporaneidade. As sociedades imprimem valor aos fatos e às pessoas que são capazes de serem vistos e se destacarem nas mídias, principalmente nas redes sociais e na televisão, que trabalham com imagens. Como já tratamos nesse estudo, o jornalismo enquanto instituição privilegia os entrevistados pertencentes a outras instituições também validadas pela sociedade e, consequentemente, pela elite branca que controla o mundo institucional. Os pretos e os moradores das favelas historicamente não constituem as fontes do jornalismo. Então, eles não aparecem nos meios de comunicação e tornam-se socialmente invisíveis. Marielle Franco ficou invisível para a televisão até a noite de sua morte.
No Brasil, essa dominação pode ser constatada pelo crescente índice de assassinatos de mulheres, retratado no Atlas da Violência 201927 publicado pelo IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O levantamento aponta crescimento expressivo de 30,7% no número de homicídios de mulheres no país durante os anos de 2007 a 2017, assim como um aumento de 6,3% no último ano da década examinada pelo relatório. Se considerarmos cada grupo de 100 mil mulheres brasileiras, a violência atinge 20,7%. Ainda de acordo com o Atlas da Violência, foram registrados 4.936 assassinatos de mulheres em 2017, uma média de 13 por dia, o maior número em uma década.
O levantamento apresenta maior gravidade quando os dados se referem à raça, ou seja, quando soma a discriminação do preto com a inferioridade e subjugação da mulher. Dos homicídios de mulheres em 2017 no Brasil, três quartos das vítimas eram pretas. Tal estudo chama atenção ainda para a subnotificação em função da não imputação por parte das forças policiais do agravante de feminicídio aos crimes de homicídio.
Essa violência, característica de diversas sociedades ocidentais, reflete um processo histórico ainda mais longo e duradouro que aquele ocorrido com os pretos. No caso do imaginário feminino, a formação remete aos discursos clericais do período medieval (BASTOS, 2016). Portanto, o aviltamento da mulher ocorre nos discursos e representações simbólicas durante muitos séculos. Os homens apropriaram-se dos princípios éticos e religiosos, controlando os registros históricos e as narrativas institucionais. Dessa forma, as imagens em torno do feminino na Idade Média constituíram-se com base em estereótipos.
Segundo Bastos (idem), as narrativas que circularam nesse período medieval associavam a mulher à carne e aos sentidos, tornando-a uma pecadora como a personagem bíblica de Eva.
As mulheres passaram a sofrer depreciação e serem associadas à sexualidade, imoralidade e irracionalidade, ligadas aos sentidos, à intuição e ao corpo. Eram as ‘bruxas’ da Idade Média.
Por outro lado, a salvação e a redenção de tais pecados poderiam ser alcançadas se a mulher buscasse espelhar-se na mãe de Jesus. Maria servia de referencial para todas as mulheres.
Soma-se a tal pensamento medieval, a narrativa da medicina no século XIX, que contribuiu para a imagem de inferioridade da mulher através de explicações biológicas sobre a fragilidade feminina, transformando o recato, a afetividade, a subordinação e a vocação maternal em características tipicamente da mulher (SOHIET, 2009). As representações simbólicas desse ideário feminino nas sociedades patriarcais ocidentais perduraram nas artes, nos meios de informação e comunicação. Freire Filho e Leal (2015) destacam a imagem entusiasta transmitida pela mídia já no século XX de uma mulher que é feliz como dona de
27 Atlas da Violência 2019 disponível em https://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/
PDFs/relatorio_institucional/190605_atlas_da_violencia_2019.pdf Acesso em 16/06/2020.
casa. A televisão e as revistas exibiam o modelo feminino perfeito. Na década de 1950, por exemplo, “experimentar a felicidade em meio às atribuições domésticas [...] constituía no dever da boa esposa” (FREIRE FILHO; LEAL, 2015, p. 02).Os autores salientam que muitas mulheres escondiam sua infelicidade para não serem vistas como descuidadas com o lar, com o marido e com os filhos. Logo, a realização da mulher no lugar de esposa e dona de casa era considerada natural, biológica e não uma questão cultural.
Em contrapartida, a filósofa estadunidense Judith Butler (2002) alerta que gênero vai além dos limites do corpo, sendo uma construção social. A pesquisadora afirma que a relação de poder na sociedade constrói o binário ‘homem/mulher’, onde ‘mulher’ representa o lado mais fraco. Para Butler (idem), as escolhas de gênero estão sujeitas a uma negociação com as normas sociais. Essas regras determinam a maneira como as pessoas devem se comportar, o que devem vestir e a quem devem desejar. A filósofa critica o movimento feminista que trata a oposição ‘homem/mulher’ como naturalizada, como algo que precisa ser combatido.
Segundo Butler (ibidem), a pluralidade das opções sexuais LGBTQIA (lésbica, gay, bissexual, transexual, queer, intersexual e assexual) também está sujeita aos gestos e comportamentos padronizados no binário ‘homem/mulher’, ao qual chama de comportamento performático. De acordo com a autora norte-americana, as estruturas institucionais e jurídicas (entre elas, o jornalismo) engessam os aspectos de identidade, atendendo à relação de poder binária entre homem e mulher.
Sob tal perspectiva, a mulher encontra dificuldade de assumir posições de liderança, ocupar cargos políticos e até mesmo de ter liberdade para tomar decisões. A organização social brasileira é caracterizada não apenas pela autoridade doméstica do pai, mas também pela superioridade política masculina, o que acaba excluindo a mulher da vida pública (BASTOS, 2016). Portanto, a presença de mulheres em cargos eletivos no Brasil ainda é considerada exceção. Marielle Franco não correspondia aos modelos de comportamento que a sociedade brasileira espera da mulher e ainda assumiu publicamente a homossexualidade, lutando pelo fim da violência de gênero.
Sendo assim, o jornalismo como instituição contribuiu para a conservação dos valores hegemônicos como o sistema patriarcal. Allan (2014) afirma que as imposições de gênero são reproduzidas de forma sutil na narrativa jornalística, que trata a sociedade como dividida entre homens e mulheres. Em muitas construções de notícias de violência contra a mulher, o jornalismo esmiúça em sua narrativa as atitudes e o passado da vítima, quando deveria fazê-lo com relação ao agressor. Allan (idem) aponta ainda a existência de uma ‘cultura machista’ nas práticas diárias dentro das redações. Segundo o autor, o cotidiano de grande parte das organizações informativas no mundo ocidental é conduzido por normas predominantemente
masculinas e, embora tenha havido considerável crescimento do número de mulheres na atividade de produção de notícias, os homens brancos da classe média continuam ocupando as posições de poder no setor inteiro. Corroborando com essa visão, a professora universitária e jornalista Maria de Fátima Costa (2016) – Fafate Costa - em sua pesquisa acadêmica sobre as notícias do assassinato da modelo Eliza Samúdio, cujo acusado foi o ex-goleiro do time de futebol carioca Flamengo, Bruno Fernandes das Dores de Souza, identificou nas reportagens de jornais impressos brasileiros discursos que desqualificavam a vítima e tentavam perdoar o acusado.
Frente às discussões teóricas aqui abordadas, entendemos que minorias sociais estabelecidas ao longo da história permanecem representadas no simbolismo de um imaginário constituído a partir de relações binárias antagônicas de dominação e inferioridade:
o branco e o preto; o rico e o pobre; o homem e a mulher. A invisibilidade dessas minorias encontra-se, assim, no âmago do racismo, do sistema patriarcal misógino e no preconceito latente nas sociedades ocidentais contemporâneas. Sendo assim, entendemos a dificuldade enfrentada pela vereadora Marielle Franco em conseguir espaço nos meios de comunicação tradicionais, não apenas por se tratar de uma mulher negra vinda da favela como também por defender as camadas populares, desafiando a elite. Martins (2020) lembra que a primeira novela da Rede Globo de Televisão com uma mulher negra como protagonista chamava-se sugestivamente ‘Da cor do pecado’, exibida já no século XXI, em 2004. No telejornalismo, a primeira vez que uma mulher preta ocupou a bancada do principal noticiário brasileiro foi há bem pouco tempo, com a jornalista Maria Júlia Coutinho apresentando o Jornal Nacional em 16 de fevereiro de 2019.28
Por isso, Martins (2020, p. 40) destaca “o quão importante é disputar o imaginário na atualidade”. Da mesma forma, percebemos a necessidade de o jornalismo escapar dessas dicotomias históricas das relações sociais, o que já vem se revelando gradativamente nos últimos anos.