O capítulo que ora apresentamos trata-se de uma investigação no campo do ensino da Álgebra nos anos iniciais, entendida hoje, como uma demanda curricular entre as unidades temáticas contempladas pela Base Nacional Comum Curricular - BNCC (BRASIL, 2017) no ensino da Matemática, cujo objetivo é compreender de que maneira se apresentam as concepções e desafio dos professores pedagogos acerca do ensino para o desenvolvimento do pensamento algébrico nos anos iniciais do Ensino Fundamental, e discutir algumas possibilidades de tarefas que podem potencializar o desenvolvimento de tal pensamento matemático ainda nos primeiros anos de escolaridade.
Os dados utilizados nesta investigação foram revisitados da produção de Santana e Quintiliano (2017), os quais originaram-se a partir das observações e experiências de sala de aula das autoras e de inquietações sobre a construção do pensamento algébrico nos alunos: tarefas significativas que contribuem para o seu desenvolvimento, o baixo desempenho em avaliações externas com questões que exijam articulá-lo em sua resolução, o conhecimento algébrico do professor que ensina Matemática nos anos iniciais e o uso das tecnologias na sala de aula cada vez mais equivocadas. Tal projeto foi realizado por meio de uma proposta metodológica de ensino com uma turma de 4º ano do Ensino Fundamental, a partir da utilização de ambiente virtual de aprendizagem com tarefas articulando os campos da Aritmética, da Geometria e da
Álgebra como saberes igualmente importantes, contribuindo com o desenvolvimento do pensamento algébrico e rompendo com a visão tradicional do ensino da Álgebra, da crença que os alunos só estão aptos a pensar algebricamente, por volta do sexto, sétimo ano do Ensino Fundamental. Aqui discutimos a partir de respostas dadas no Questionário 1, instrumento da referida pesquisa, pelos professores dos anos iniciais sobre os seus saberes para o ensino do desenvolvimento do pensamento algébrico, a fim de nortear e embasar percursos formativos, objetivando o aprimoramento da prática docente acerca da temática.
Na perspectiva da Psicologia da Educação Matemática, lugar de onde vislumbramos os processos de ensino e aprendizagem, entendemos que os aspectos afetivos que permeiam as aprendizagens matemáticas são tão importantes quanto os aspectos cognitivos. Nesse sentido, o contato com boas experiências nas aulas de Matemática logo no início da escolarização podem contribuir para o desenvolvimento de atitudes e crenças positivas em relação à essa disciplina e, consequentemente, em determinados conteúdos específicos apresentados ao longo da escolaridade, bem como já evidenciado em diversos estudos a influência que a família e professores podem exercer sobre o indivíduo de maneira negativa ou positiva (BRITO, 1996).
Dizemos isso, pois dentre as áreas que constituem a base da Matemática Escolar, a Aritmética, a Geometria e a Álgebra, essa última é apontada, de forma significativa, como um dos campos que alunos e professores, de diferentes níveis de ensino, apresentam mais aversão, despertando medo, angústia e ansiedade, como constatada na pesquisa recente Santana (2019), estudo esse envolvendo professores dos anos iniciais (in-service) e estudantes do curso de Pedagogia (pre-service). Isso justifica-se não somente pelas metodologias de ensino utilizadas pelo professor, mas o próprio desenvolvimento de conceitos e crenças que tangenciam o ensino da Álgebra e o conhecimento especializado do professor (CARRILLO et al, 2013).
Haja vista, tais considerações, defendemos que o ensino para o desenvolvimento do pensamento algébrico deve acontecer desde os primeiros anos de escolaridade, como corroboram os estudos de Blanton e Kaput (2005); Canavarro (2007); Ponte, Branco e Matos (2009) e Mestre (2014), não como uma mera preparação para os anos subsequentes, mas para, além disso, trata-se do desenvolvimento da capacidade de generalizar, da abstração do raciocínio matemático, de garantir os direitos de aprendizagens das crianças, reduzindo também, possíveis impactos nas aprendizagens algébricas e o rompimento das fronteiras entre os diferentes campos do saber
matemático. Concordamos pela inclusão do pensamento algébrico no currículo ainda nos anos iniciais “não só pelo seu carácter preparatório para a Álgebra dos anos posteriores, mas também o seu contributo para o aprofundamento da compreensão da Matemática e do poder desta área do saber” (CANAVARRO, 2007, p. 92). Portanto,
A introdução do pensamento algébrico nos primeiros anos de escolaridade representa um passo em frente muito significativo pela possibilidade que inspira de uma abordagem à Matemática mais integrada e interessante, na qual os alunos desenvolvam as suas capacidades matemáticas motivados por uma actividade rica e com sentido, que lhes possibilita a construção de conhecimento relevante, com compreensão, ampliando o seu património quer ao nível dos processos, quer dos produtos matemáticos (conhecimentos que podem usar posteriormente). Em consequência, os alunos poderão desenvolver uma atitude favorável em relação à Matemática, reconhecendo a sua unidade, o seu valor e o seu poder, e poderão igualmente conseguir melhorar a preparação para as aprendizagens posteriores, nomeadamente no domínio da Álgebra. (CANAVARRO, 2007, p. 113)
Ainda que, consideramos um avanço, a conquista de termos um documento norteador (BRASIL, 2017), que traz explicitamente uma unidade temática denominada
“Álgebra”, sinalizando sua relevância no desenvolvimento do pensamento matemático ao longo da escolaridade dos alunos, infelizmente ainda este comete as mesmas falhas de documentos curriculares anteriores (BRASIL, 1997, 2012), a falta de clareza, de aspectos de conceptualização a respeito do ensino da Álgebra nos anos iniciais do Ensino Fundamental, a qual entendemos que se trata do ensino para o desenvolvimento do pensamento algébrico. Apenas elencar habilidades que devem ser desenvolvidas em sala de aula, não subsidia a prática docente e continuaremos a ver tarefas algébricas trabalhadas em sala de aula sem intencionalidade.
Nesse sentido, apresentamos algumas concepções e elementos caracterizadores do pensamento algébrico, bem como as contribuições da literatura nacional e internacional, em seguida, discutimos o que pensam os professores que ensinam Matemática nos anos iniciais, suas concepções e desafios acerca do ensino para o desenvolvimento do pensamento algébrico, com dados coletados de um grupo de cinco (05) professores de uma escola particular do interior de São Paulo.
A posteriori, passamos a ilustrar, por meio de diferentes tarefas algébricas, algumas possibilidades que potencializam o trabalho pedagógico para o desenvolvimento desse pensamento matemático, as quais abordam padrões figurais e numéricos por meio da identificação de regularidades, padrões e sequências; relações entre adição e subtração e entre multiplicação e divisão, as propriedades da igualdade e, sobretudo, a generalização, por ser considerado o ponto central desse pensamento matemático.
Finalizamos o capítulo trazendo à luz da teoria e da discussão dos dados coletados nossas considerações sobre o que preconizamos e entendemos a respeito do desenvolvimento do pensamento algébrico nos anos iniciais, a relação com a formação inicial e continuada e práticas que podem contribuir para uma aprendizagem significativa dos diferentes conceitos matemáticos, em especial, os algébricos.