Diogo Berns
Mestrando em Estudos da Tradução (UFSC) [email protected]
Resumo: A Invenção de Hugo Cabret é um livro de ficção e aventura infantojuvenil, escrito por Brian Selznick e publicado em 2007, nos Estados Unidos. O nome do personagem presente no título da obra refere-se a um menino de doze anos que vive escondido em uma estação de trem, localizada em Paris. Ambientada na década de 1930, a história faz homenagem aos primeiros anos do cinema, sobretudo a Georges Méliès, um dos cineastas daquele período que é apresentado como um dos personagens da trama. Quatro anos após o lançamento do livro, a história foi recriada no cinema por Martin Scorsese, que deu novos dimensionamentos à obra com a intenção de tornar o enredo mais atrativo ao público do cinema. O primeiro deles foi a alteração do título que passou a ser
“Hugo”. Os demais têm relação com a estrutura narrativa, como a construção do ritmo das cenas e perfil dos personagens, tornando a relação deles mais próxima. Além disso, Scorsese utilizou recursos técnicos, como o 3D e diversos efeitos visuais, valendo-se da linguagem cinematográfica para recriar a história por meio da visão de mundo que possui e da interpretação que teve com a leitura da obra literária de Selznick.
Palavras-chave: Hugo. Cinema. Literatura. Adaptação. Recriação.
Abstract: The Invention of Hugo Cabret is a teen literature book of fiction written by Brian Selznick and published in 2007 in the United States. Hugo is character’s name in the title of the movie that refers to a boy of twelve years old who lives hidden in a train station located in Paris. The story, which is developed in the 1930s, is a tribute to the early films, especially to the prolific filmmaker Georges Méliès, who lived in that time and is a character in the movie. Four years after the release of the book, the story was recreated in the movies by Martin Scorsese, who gave new perspectives to it in order to make the plot more attractive to the movie’s audience. The first change was the movie title that became “Hugo”. The others are related to narrative structure, construction of the rhythm of the scenes and development of traits of the characters becaming their relations closer. In addition, Scorsese used technical resources like 3D and several visual effects, using the cinematographic language to recreate the story through his vision of world and interpretation who he had about Selznick’ book.
Keywords: Hugo. Cinema. Literature. Adaptation. Recreation.
Introdução
O cinema possui mais de cem anos de existência. Durante esse período, inúmeras obras audiovisuais foram desenvolvidas por profissionais que se dedicaram à arte e expressão humana. Pessoas de diversas culturas e de diferentes gerações assistiram a essas narrativas que se tornaram relevantes na sociedade pelo lazer, aprendizado, influências na moda e comportamento na vida dos indivíduos. O campo cinematográfico impactou a humanidade por meio de histórias que comoveram os espectadores, abordando temáticas de relevância para a população mundial como, por exemplo, preconceitos, relações humanas e fatos que ocorreram no passado considerados de grande importância para a civilização.
Desde os primeiros anos da história da cinematografia, diversas obras da literatura, do teatro e de outras áreas de comunicação foram transpostas para o cinema. Elas o fortaleceram, o que contribuiu para torná-lo um grande disseminador da arte, cultura e indústria audiovisual ao redor do mundo. O processo de transpor uma narrativa de um meio verbal, como a literatura, para um campo não-verbal – o cinema - é um exemplo de tradução. Assim como
75 um texto é traduzido de um idioma para outro, as narrativas escritas podem ser contadas também por meio de imagens. Isso é considerado tradução intersemiótica (JAKOBSON, 1969, p. 65).
Tal como qualquer tradução, a passagem de um texto literário para o cinema exige mudanças na história para se adequar ao novo meio em que será contada. O público que a recepcionará é diferente daquele que leu o livro, no caso da literatura, e do que assistiu a peça, no teatro. O cinema tem maior alcance. A experiência de estar frente à tela é única e passageira, e as sensações e lembranças causadas em ver um filme permanecem (SILVA, 2012, p. 302). A imagem e o som não se combinam com o objetivo de mostrar algo, mas sim significar alguma coisa (XAVIER, 2008 p. 67). Essas características são diferentes em relação à leitura de um livro. Cada meio de comunicação possui particularidades em contar uma história, o que fará com que uma narrativa apresentada ao público através de imagens seja diferente daquela exposta por meio de palavras.
Nesse contexto está a história de Hugo Cabret, escrita por Brian Selznick, em 2007, e exibida no cinema, em 2011, tendo Martin Scorsese como diretor. A narrativa de A Invenção de Hugo Cabret apresenta um menino órfão de doze anos que vive escondido em uma estação de trem, em Paris, na década de 1930. Para realizar a adaptação cinematográfica, Scorsese alterou a estrutura narrativa, quantidade de personagens e ritmo dos acontecimentos, recriando a história através da tecnologia 3D e empregando as reflexões que teve ao ler o livro com a visão que tem do mundo.
Para elaborar a versão cinematográfica da obra de Brian Selznick, Scorsese repensou o perfil dos personagens e as relações entre eles, inseriu cenas de ação com um teor mais elevado de adrenalina e suspense, utilizando recursos tecnológicos e desenvolvendo a trama.
O filme apresenta o mundo como uma máquina em que todos estão interligados e possuem uma função específica para a manutenção da sociedade.
Apresentação da história
A Invenção de Hugo Cabret é uma obra literária estadunidense, escrita por Brian Selznick, em 2007. O autor nasceu em 14 de julho de 1966 em East Brunswick, New Jersey.
Formou-se na Rhode Island School of Design. O primeiro livro dele The Houdini Box foi publicado em 1991 enquanto trabalhava na livraria Eeyore’s Books for Children em New York. Escreveu e ilustrou diversos livros destinados a crianças, recebendo o prêmio Caldecott Medal, em 2008, por A Invenção de Hugo Cabret. Brian também projetou cenários de teatro e trabalhou como marionetista profissional.
O livro em questão é classificado como infantojuvenil, contém 536 páginas, sendo que 322 são de ilustrações realizadas por Selznick, além de frames de filmes e fotografias de arquivos. Em preto e branco, essas imagens remetem aos enquadramentos utilizados pelo cinema para potencializar o enredo e a atmosfera fílmica, além de lembrar a época em que as demais cores ainda não eram utilizadas no cinema. Elas contam, sem o auxílio de palavras, trechos da história de Hugo e conduzem a narrativa ao levar informações da trama para o leitor.
Figura 1 – Hugo observa o autômato enquanto se recorda do pai
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Fonte: Livro A Invenção de Hugo Cabret (SELZNICK, 2007, p. 110 - 111)
A Invenção de Hugo Cabret apresenta uma linguagem visual que lembra as narrativas apresentadas no cinema, pois faz o leitor adentrar na história através de passagens que instigam a imaginação por meio de descrições que auxiliam na visualização dos acontecimentos. Selznick faz uma homenagem à arte cinematográfica através do personagem Georges Méliès, um importante cineasta dos primeiros anos do cinema responsável por trazer uma nova roupagem ao meio audiovisual da época, valendo-se de diversos efeitos especiais.
Méliès dirigiu centenas de filmes, sendo mais conhecido pela obra Viagem à Lua, de 1902, adaptação do livro Da Terra à Lua, escrito por Júlio Verne, em 1865. O célebre filme de Méliès está presente na história de A Invenção de Hugo Cabret. Um autômato, robô mecânico, desenha um foguete no olho da Lua que corresponde a uma cena da obra cinematográfica. Isso gera mistério e confunde ainda mais Hugo que esperava encontrar uma mensagem do pai que morrera.
Figura 2 – Frame do filme “Viagem à Lua”, de George Méliès, desenhado pelo autômato
Fonte: Livro A Invenção de Hugo Cabret (SELZNICK, 2007, p. 252 - 253)
77 A história de A Invenção de Hugo Cabret acontece em 1931. Hugo é um menino de doze anos que vive escondido em uma estação de trem, em Paris. Ele possui um autômato com peças faltando que o falecido pai havia encontrado abandonado no sótão de um museu. O rapaz tem a intenção de consertá-lo para descobrir a mensagem que o robô está programado para escrever e, por isso, rouba objetos da loja de brinquedos de Georges Méliès, localizada na mesma estação em que Hugo vive. Sendo apanhado pelo vendedor e tendo de trabalhar para pagar pelo que roubou, o rapaz conhece Isabelle. Ela possui a mesma idade que Hugo e vive com Méliès. Os dois se tornam amigos e conseguem fazer o autômato funcionar. Ele desenha em um papel um foguete no olho da Lua com a assinatura de Georges Méliès, o que os leva a descobrir que o vendedor de brinquedos é dono do autômato e um dos mais conhecidos cineastas da história que inúmeras pessoas pensaram ter morrido na primeira guerra mundial.
Figura 3 - Hugo e Isabelle observam o autômato começando a desenhar
Fonte: Livro A Invenção de Hugo Cabret (SELZNICK, 2007, p. 239)
Hugo trabalha na estação de trem, às escondidas, fazendo a manutenção dos relógios no lugar do tio Claude que está morto no rio há meses, sem ele e os demais saberem. O menino mora ali desde que o pai morreu, sendo que fora levado pelo tio para auxiliá-lo no trabalho. Hugo tem medo do inspetor da estação, pois ele costuma mandar para o orfanato as crianças que vão ao local à procura de alimentos. O rapaz também rouba para sobreviver e vê no autômato a possibilidade de receber uma mensagem do pai e, assim, mudar de vida.
Reflexões acerca da Adaptação Cinematográfica
A tradução é um ato frequente no cotidiano humano. Ela está presente há muito tempo na humanidade, sendo que as histórias têm sido constantemente recriadas pela civilização (HUTCHEON, 2011, p. 10). Ela é uma prática que abrange escolhas feitas a partir de reflexões, interpretações e análises tanto da estrutura do que está sendo traduzido quanto da cultura das pessoas a qual se destina.
Nesse contexto, encontram-se as adaptações realizadas da literatura para o cinema.
Esse procedimento tornou-se a força vital da sétima arte. (SEGER, 2007, p.11). Inúmeras obras cinematográficas têm sido adaptadas da literatura, do teatro e de outros meios de comunicação sem o público ter o conhecimento que não foram escritas primeiramente para o
78 cinema. Elas são recorrentes no campo audiovisual, pois, em muitos casos, garantem um retorno financeiro satisfatório, além de poder expandir a história e valer-se das ferramentas cinematográficas, como a imagem e o som, para contá-la através de outras perspectivas.
As adaptações contribuíram para a propagação de diversas narrativas ao longo do tempo, mantendo-as no imaginário popular. Com o ato de adaptar, a arte cinematográfica ganhou notoriedade e importância, levando a milhares de espectadores histórias que se tornaram célebres e difundiram conhecimento e cultura na sociedade. John Milton aponta que a adaptação pode estar ligada a outros termos, como: apropriação, recontextualização, derivação, redução, simplificação, condensação, resumo, versão especial, reescrita, fruto, transformação, reparo, revisão1 (2010, p. 3). Ao se referir a uma adaptação, muitas vezes esses termos podem ser utilizados, pois fazem parte do papel de recriação que uma adaptação exerce em uma história.
A versão cinematográfica de qualquer obra criada a partir da literatura, assim como a de A Invenção de Hugo Cabret, é diferente em razão da mudança do meio de comunicação (STAM, 2008, p. 20). Cada um deles apresenta particularidades para levar a história ao público, possuindo as próprias ferramentas que concedem novos dimensionamentos às narrativas. Elas, no entanto, entram em contato com público, na maior parte dos casos, distinto do outro meio e novos desdobramentos também ocorrem.
O cinema, por exemplo, conta a história por meio de imagens e som, além dos atores, enquadramentos, figurino, objetos de cena, maquiagem, luz e cenários que potencializam o enredo através da expressão e criação da atmosfera nas sequências fílmicas. A linguagem cinematográfica nunca aparecerá por si só, mas estará vinculada a outros sistemas de significações, que são culturais, sociais, perceptivos, estilísticos (OLIVEIRA; COLOMBO, 2014, p. 17). Na produção de um filme, inúmeras são as escolhas que os profissionais dessa área realizam. Elas se referem tanto a questões ideológicas quanto a opção por determinados aparatos técnicos que serão utilizados na produção da obra, influenciando diretamente no resultado final do trabalho.
O primeiro passo no processo de adaptação é a adequação da obra literária ao tempo do cinema para depois realizar outras modificações (SEGER, 2007, p. 18). Em geral, os filmes possuem cerca de duas horas de duração. Filmes muito longos podem cansar o espectador e diminuir o número de sessões apresentadas por dia nas salas de cinema. Sendo assim, um livro de mais de quinhentas páginas, como é o caso da obra literária abordada neste trabalho, passa por uma avaliação do que será transposto para o filme. Nesse procedimento, situações, personagens, cenários deixam de existir e outros são inseridos. Scorsese precisou, então, analisar a obra literária e as possibilidades tecnológicas que o cinema oferecia em 2011 para contar a história de Hugo em forma de imagens.
Robert Stam (2008) afirma que as críticas em relação às adaptações cinematográficas têm disseminado a ideia de que o cinema vem prestando um desserviço à literatura, atribuindo termos como infidelidade, traição e deformação (p. 19 – 20). Tais atributos, evidentemente, não levam em consideração o potencial que a imagem cinematográfica possui na sociedade.
Apesar de analisar o filme como imagem-objeto, em que ele não é apenas uma testemunha, mas carrega em si uma interpelação sócio-histórico, Marc Ferro enfatiza que se pode observá- lo como algo estético, semiológico, uma obra de arte, um produto, uma imagem-objeto que vai além das significações cinematográficas e integrante do mundo que o rodeia e com o qual se comunica (1992, p. 87). O cinema não é uma pintura, ilustração, desenho ou gravura da literatura. É uma arte que contém as próprias ferramentas, mesmo que muitas delas vieram de
1 M.T: “adaptation, appropriation, recontextualization, spinoff, reduction, simplification, condensation, abridgement, special version, reworking, offshoot, transformation, remediation, re-vision”.
79 outras artes, atingindo pessoas de diversos locais no mundo e capaz de suscitar as mais variadas interpretações.
A época em que uma adaptação é realizada influencia diretamente nas escolhas do roteirista, diretor e de toda a equipe técnica. Cada período tem as ideologias; debates;
costumes e problemas sociais, econômicos e políticos que lhe são característicos. Além disso, para o êxito do projeto é necessário capturar o espírito da época (SEGER, 2007, p. 23). Há determinados assuntos que se tornam ultrapassados, repetitivos e não condizentes com determinado período histórico. Os aparatos tecnológicos também mudam com o passar do tempo. Limitações são superadas. Novas possibilidades são criadas a partir da tecnologia e da evolução da técnica de escrita e aperfeiçoamento nos equipamentos utilizados na produção de um filme. Isso faz com que passagens de obras literárias que não poderiam ser transpostas para o cinema passam a ser possíveis.
Quando se analisa um filme, é necessário levar em consideração a época em que foi produzido, pois traz diversos fatos daquele momento histórico, desde ideologias até questões estéticas, como figurino, corte de cabelo, maquiagem, além de gírias e o modo de as pessoas se relacionarem umas com as outras.
Ao interrogar um filme, vários filmes, ou parte de um ou mais filmes mediante determinada opção metodológica, deve-se tratar esse objeto de estudo como um conjunto de representações que remetem direta ou indiretamente ao período e à sociedade que o produziu. A análise das narrativas e do momento de produção dos filmes comprova que estes sempre falam do presente, dizem algo a respeito do momento e do lugar que constituem o contexto de sua produção. (VALIM, 2012 p.
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Cada leitor pode interpretar de modo distinto um texto. A época em que ele vive é uma das razões para as reflexões que surgem durante a leitura. Sendo assim, uma pessoa que deseja adaptar determinada obra literária para o cinema fará a transposição de forma distinta de outro indivíduo. Isso pode ser explicado pelo fato de os seres humanos lidarem de modo peculiar com a imagem. Contar uma história com as ferramentas que o cinema possui exige repensar o modo de levar a narrativa ao público e o que este deseja ver, pois a cada época existem anseios diferentes. O ritmo das narrativas muda, as temáticas, o modo de representar a sociedade também sofrem modificações.
Recriando A Invenção de Hugo Cabret no cinema
A versão cinematográfica de A Invenção de Hugo Cabret foi lançada em 2011, nos Estados Unidos, com o título “Hugo” e em 2012, no Brasil, mantendo o título do livro. É um filme colorido, sonoro, de 126 minutos, do gênero aventura com o orçamento de R$ 170 milhões de dólares, sendo produzido pela companhia GK Films e Infinitum Nihil, distribuído pela Paramount Pictures. O filme foi dirigido por Martin Scorsese e escrito por John Logan.
Asa Butterfield atuou no papel de Hugo, Chloë Grace Moretz interpretou Isabelle e Ben Kingsley, Georges Méliès.
O diretor Martin Scorsese nasceu em 17 de novembro de 1942, em Queens, New York.
Formou-se em cinema na New York University, no ano de 1964. Trabalha como diretor, produtor, roteirista e ator. Entre as obras cinematográficas que mais se destacaram da carreira do cineasta estão: Taxi Driver, Gangues de Nova Iorque, O Aviador, Os Infiltrados, A Invenção de Hugo Cabret e O Lobo de Wall Street. É fundador e presidente da Film Foundation, uma organização sem fins lucrativos dedicada à preservação de filmes, o que pode explicar o interesse dele em adaptar para o cinema a obra de Selznick devido à homenagem que ela faz a sétima arte.
80 Para compor a história de A Invenção de Hugo Cabret em imagens, Scorsese teve de repensar a estrutura da narrativa criada por Brian Selznick. Em parceria com o roteirista, John Logan, transpôs o enredo literário em roteiro, adequando a história ao ritmo, estrutura e características do meio audiovisual. Depois, durante as filmagens e o período de pós- produção, utilizou a linguagem cinematográfica, a fim de potencializar o enredo com o intuito de atrair o público.
Uma das mudanças mais significativas que ocorreu na adaptação da obra de Selznick foi a alteração do título. Scorsese nomeou a versão cinematográfica apenas de “Hugo”, sendo que a tradução no Brasil manteve o título do livro A Invenção de Hugo Cabret. Essa modificação é bastante expressiva, pois demonstra que o foco da narrativa permanece no protagonista Hugo, enfatizando a vida dele e as relações com as outras pessoas, pois, de fato, o menino não inventa o autômato ou qualquer outra coisa material. No entanto, ele confere sentido à presença daquele robô no quarto em que dorme. Ele renova a vida das pessoas com quem estabelece contato e a de si mesmo.
Scorsese humaniza o personagem Hugo, não dando tanta ênfase ao fato de ele ser um ladrão, como aponta Mark Macleod, no artigo Brian Selznick’s The Invention of Hugo Cabret, Martin Scorsese’s Hugo, and the theft of subjectivity (2012, p. 35). Ele apresenta o menino sendo obrigado a roubar para sobreviver devido ao fato de o tio não voltar para a estação por estar morto no rio, o que só será descoberto quase no fim da história. Além disso, Hugo rouba as peças da loja de brinquedo de Méliès para poder consertar o autômato, a última lembrança que lhe restou do falecido pai. Scorsese atribui a Hugo a figura do menino pobre, órfão, abandonado, sem rumo. No entanto, não deixa de representá-lo com alegria e vivacidade pela companhia de Isabelle e tendo a esperança de encontrar uma mensagem do pai quando terminar de consertar o autômato.
Figura 4 – Hugo e Isabelle pesquisam sobre os primeiros filmes na Academia Francesa de Cinema
Fonte: Filme A Invenção de Hugo Cabret (SCORSESE, 2011)
Martin Scorsese optou por estabelecer entre Hugo e Isabelle uma relação mais próxima de amizade do que havia na obra literária. Os dois passam mais tempo juntos, confiam um no outro e são mais espontâneos. A mudança estabelecida pelo diretor do filme se deve ao fato de tentar criar empatia com o público, afinal eles são protagonistas do longa- metragem e as ações que realizam conduzem a trama. A afinidade de Hugo e Isabelle chama a atenção do espectador. A amizade dos dois desperta o interesse, o envolvimento da plateia que anseia para que, juntos, descubram o segredo que está contido no autômato.
No filme, os personagens Hugo, Georges Méliès, Isabelle, Inspetor Gustavo, a Florista Lisette, Senhor Labisse, Senhora Emile e Senhor Frick são apresentados logo nos primeiros
81 minutos, ao passo que no livro os dois últimos aparecem apenas pouco antes do término da narrativa. A estratégia de Scorsese estabelece identificação e empatia com o público, sem causar estranhamento, o que poderia acontecer se deixasse para apresentá-los somente no final. A Florista não existe na obra de Selznick. Ela foi criada exclusivamente para o filme com o intuito de ser o par romântico do Inspetor e mais uma pessoa que trabalha no local, o que faz com que haja mais interação entre os personagens. Diante disso, o espectador observa a relação que existe entre os indivíduos daquele ambiente e os acontecimentos que ocorrem ali, percebendo como é a rotina daquele lugar, o que acaba gerando verossimilhança, algo bastante importante em uma obra fílmica.
Figura 6 – Hugo, Isabelle e Georges Méliès abaixo; Florista Lisette, Senhor Frick, Senhor Labisse e Inspetor Gustavo, nos primeiros minutos do filme
Fonte: Filme A Invenção de Hugo Cabret (SCORSESE, 2011)
A escolha de Scorsese por iniciar a obra audiovisual mostrando os personagens de maior destaque da história logo na primeira sequência foi vital para desenvolver as características deles ao longo da trama e evidenciar ao público a presença e a importância que possuem no enredo. O cinema precisa mostrar e mostrar repetidamente. Personagens, lugares, objetos e demais componentes da diegese são evidenciados com frequência durante o filme com a finalidade de o espectador identificá-los e acompanhar o enredo. Uma informação que, na televisão ou no teatro, é feita pelo diálogo; e na literatura, através de descrições, no cinema costuma ser pela imagem, por meio da ação dos personagens (CAMPOS, 2007, p. 188 - 189).
A imagem é o recurso em que o cinema exprime os fatos, a atmosfera fílmica, a sensibilidade dos personagens, a presença do obscuro e até mesmo a manipulação de dados.
Na versão cinematográfica de A Invenção de Hugo Cabret, as relações entre os personagens são mais próximas. Eles dialogam por mais tempo, conhecem mais da vida dos demais, estão mais presentes e atuantes com o que ocorre ao redor deles. O Inspetor, por exemplo, também é humanizado e possui um cachorro que o acompanha. Entre os dois percebe-se que existe afeto. O cão ajuda-o a monitorar a estação e, por diversas vezes, corre atrás de Hugo e dos demais órfãos que vão ao lugar para roubar alimentos. O Inspetor possui uma perna com um aparato mecânico devido a um ferimento que teve durante a primeira guerra mundial. Assim como Hugo, ele também é órfão, sendo representado como uma pessoa rude por causa do sofrimento que carrega consigo. A inserção da Florista Lisette demonstra a vontade de Scorsese em atribuir uma nova perspectiva ao Inspetor, dotando-o de sentimentos. Ele não é uma pessoa má, apenas alguém cujas experiências lhe transformaram em um ser fechado e irritado.