DIDACTIC CHALLENGES: SELECTING SPECIFIC METALANGUAGE TO TRANSLATION TEACHING
1. Do referencial teórico
O referencial teórico que constitui este artigo se constrói a partir de uma perspectiva da didática da tradução, tendo em vista a necessidade de apresentar um conceito teórico de tradução, além de uma fundamentação pedagógica e metodológica. Também se faz presente a justificativa da necessidade do ensino da metalinguagem já nas primeiras fases do processo de ensino/aprendizagem. A compreensão dessa necessidade auxiliará na escolha dos termos que constituirão o material proposto à conclusão da tese.
1.1. Das bases didáticas
Entender o ensino de tradução dentro de uma estrutura bem definida é fundamental para a elaboração de um material didático que permita a construção do conhecimento e leve o aprendiz à aquisição da competência tradutória. Por conta disso, escolho como base teórica, metodológica e pedagógica dessa pesquisa os princípios estabelecidos por Hurtado Albir (1999) no que diz respeito ao conceito de tradução utilizado. Para a pesquisadora, tradução é texto, não apenas palavras ou sentenças isoladas, mas um todo completo de significado; é processo, pois antes de sua materialização no mundo ocorre na mente do tradutor; e é comunicação, uma vez que põe em contato culturas diferentes por meio do seu produto final e dos leitores desse produto.
Como fundamentação pedagógica utilizo dois princípios complementares. Por um lado, a formação por objetivos de aprendizagem, estabelecida na tradução pelo teórico canadense Jean Delisle, em sua obra La Traduction raisonnée (1993), onde os objetivos de aprendizagem são estabelecidos a fim de que o processo de ensino/aprendizagem de tradução seja guiado a um fim específico, ou seja, em cada etapa do processo o aprendiz percorrerá um caminho que leva à conclusão de um objetivo, resultando na aquisição de sua competência.
Complementando a noção de objetivo, trago a ideia de formação por competências, a partir de uma visão cognitivo-construtivista de aprendizagem, ou seja, o processo de ensino/aprendizagem se dá tanto a partir de fatores externos, do conhecimento possuído ao novo (construção do conhecimento), quanto de fatores internos, como os processos cognitivos e metacognitivos de aquisição de conhecimento, principalmente a noção de autorregulação e monitoramento da aprendizagem. O grupo espanhol PACTE, coordenado pela pesquisadora Amparo Hurtado Albir, desenvolveu pesquisas para estabelecer a competência tradutória e sua aquisição. As pesquisas do grupo estabeleceram que a competência tradutória é componencial, sendo composta de cinco subcompetências e de componentes psicofisiológicos. As pesquisas do grupo revelaram que há uma hierarquia entre essas subcompetências e a competência estratégica parece ser a mais relevante, uma vez que seu
106 papel é corrigir as deficiências das outras subcompetências e dar ao tradutor ferramentas para alcançar o objetivo tradutório e resolver possíveis problemas que possa encontrar ao longo de seu percurso.
A fundamentação metodológica está embasada em um desenho curricular aberto, que permite uma reconstrução do material à medida em que o ensino for avançando e o professor sentir necessidade de mudá-lo a fim de que dificuldades sejam atendidas ou pontos de compreensão problemática pelos alunos sejam revistos, uma vez que não é possível estabelecer a priori quais problemas os alunos terão ao longo do curso. A ideia é construir um modo de ensino em espiral, retomando os pontos relevantes. Tal finalidade metodológica pode ser alcançada por meio do uso de tarefas de tradução, sendo essas entendidas como
“unidades de trabalho em sala de aula, representativas da prática tradutória, que se dirige intencionalmente para a aprendizagem de tradução com objetivo concreto, estrutura e sequência de trabalho” (HURTADO ALBIR, 2005, p.43-4)
O uso das tarefas de tradução como marco metodológico foi proposto por Hurtado Albir (1999) e permite uma metodologia ativa, colocando o aprendiz no centro do processo de ensino/aprendizagem, o que faz com que o professor se torne um guia na construção do conhecimento do aluno. As tarefas de tradução são organizadas em Unidades Didáticas (UDs), sendo cada UD composta de diferentes tarefas que conduzem a um (ou vários) objetivo(s) de aprendizagem específico(s), este objetivo está ligado a uma competência que se deseja desenvolver no aprendiz. As tarefas das UDs conduzem a uma tarefa final, que seria a aquisição (ou demonstração da aquisição) da competência específica para o nível de progressão em que o aluno se encontra.
Acredito que expor os alunos a um ensino/aprendizagem mais autorregulado e que permita a reflexão sobre a tradução pode ser um fator determinante para uma melhor compreensão do que é tradução, não apenas entre os próprios tradutores, mas em relação ao respeito que este profissional deveria receber frente à comunidade em geral, uma vez que o papel da tradução é e sempre foi vital para a constituição da sociedade como a conhecemos.
1.2. Do papel da metalinguagem
É possível dizer que há necessidade de se refletir sobre a metalinguagem em todas as áreas do saber, ainda mais se levarmos em conta questões como clareza, interpretação daquilo que é dito e compartilhamento de informação. Com o intuito que a comunicação se torne mais clara e precisa entre os membros de uma determinada classe científica, é preciso que haja uma metalinguagem consiste amparando o discurso científico, de forma que os conhecedores daquela linguagem consigam se comunicar sem equívocos ou mal-entendidos. A interpretação do dito, da mesma forma, ocorreria de forma mais direta, pressupondo que a função da metalinguagem seja evitar grandes ambiguidades interpretativas, diferentemente da língua comum, diminuindo-se, assim, o risco de confusões interpretativas. Além disso, uma metalinguagem menos caótica permitiria o compartilhamento de conhecimento entre aqueles que a compreendem de forma mais autônoma, uma vez que ao aprender os termos, noções3 e conceitos, o usuário conseguiria entender melhor o tema estudado, isso facilitaria também o processo de ensino/aprendizagem, pois o aprendiz se tornaria mais independente ao aprofundar suas leituras sobre os temas de seu interesse.
3 A definição de noção utilizada nesse artigo foi retirada da obra Terminologia de tradução e apresenta noção como “unidade de pensamento constituída por um conjunto de propriedades atribuídas a um objeto concreto ou abstrato, ou ainda a uma classe de objetos que pode ser expressa por uma palavra, um termo ou um símbolo.
(2013, p. 78)
107 Infelizmente, esse não é o contexto da tradução e dos Estudos da Tradução. Há, em nossa disciplina, uma falta de estruturação metalinguística que pode dificultar a clareza textual, uma vez que termos, conceitos e noções variam fortemente de uma escola para outra, ou mesmo de um teórico para outro, ou seja, é bastante comum que cada teórico crie seu próprio arcabouço de termos, impedindo, em certa medida, o diálogo entre pensadores da tradução e aqueles que estão iniciando seus estudos na área. Nesse sentido, pode-se dizer ainda que a falta de convenções metalinguísticas mais bem estruturadas dificulta a aquisição e transmissão de conhecimento por parte de aprendizes, pois os mesmos precisariam de estudos muito amplos e profundos para reconhecer toda a metalinguagem específica da tradução, a fim de reconhecer o sentido de determinado termo dentro de um texto.
Pensando, assim, na necessidade de uma metalinguagem menos caótica um caminho a ser seguido parece iniciar-se no processo de ensino/aprendizagem, uma vez que os usuários de uma (meta)língua auxiliam em sua estruturação. Com essa finalidade, parece ser relevante que o aprendiz tenha um conhecimento que não se restrinja ao caráter epistêmico da metalinguagem de tradução, mas que também seja capaz de utiliza-la de forma apropriada, evitando mal-uso de termos e conceitos, além de confusões terminológicas. Evidentemente a intenção aqui não é unificar ou padronizar a metalinguagem da tradução de maneira prescritivista, mas sim que o seu ensino seja consciente, de forma que o aprendiz consiga autorregular-se e monitorar-se ao refletir sobre o seu processo tradutório e sobre suas decisões e escolhas, compreendendo também, de maneira mais clara, seu posicionamento enquanto tradutor, seu horizonte tradutivo e seu projeto de tradução dentro de uma visada ética da tradução, como diria Antoine Berman (1995).
1.2.1. Da metalinguagem de tradução
O início de uma discussão sistematizada sobre metalinguagem em tradução ocorre já nos primórdios da disciplina Estudos da Tradução com Holmes e seu artigo fundacional, The name and the nature of Translation Studies (1972/1988), onde se estabelece uma metalinguagem inicial sobre tradução e Estudos da Tradução. Josep Marco (2009) afirma que para o tradutor profissional, mas também a própria área dos Estudos da Tradução, alcançar seu reconhecimento diante de outros profissionais, tanto de áreas afins, quanto frente à clientes, a metalinguagem bem estruturada e corretamente utilizada se faz necessária. Além disso, Delisle reconhece que toda área de conhecimento possui uma terminologia própria, os Estudos da Tradução não é exceção. De fato, a falta de metalinguagem específica não parece ser o problema, uma vez que já em 1993 Delisle apresenta um glossário com mais de 200 termos próprios da área. O que ocorre, na verdade, segundo Mayoral (2001) é que tanto a
“juventude” da disciplina, quanto seu caráter de ciência humana torna sua metalinguagem mais caótica, faltando consenso mesmo nas definições de termos básicos dos Estudos da Tradução.
Conforme Mary Snell-Hornby em seu artigo What’s in a name?, a metalinguagem dos Estudos da Tradução se constituiu basicamente de termos provenientes de outras disciplinas, dando à metalinguagem um caráter ambíguo já na sua origem. Além disso, segundo a autora, como uma ciência humana que tem como objeto de estudo a linguagem, a metalinguagem da tradução
discute temas complexos que referem-se à língua – e dificilmente favorecem um discurso não-ambíguo. Além do que, a própria natureza da disciplina significa que o discurso será conduzido em e por meio de um número de línguas diferentes, sendo a língua tanto o objeto de
108 discussão e o meio de comunicação, o risco de não-comunicação só aumenta. (SNELL-HORNBY, 2009, p.124)4.
Levando em conta que o propósito da metalinguagem deveria ser tornar a comunicação mais clara e desambígua, os termos próprios da tradução não cumprem esse papel, pelo menos não na maneira atual da metalinguagem da tradução. Snell-Hornby (2009, p.128) argumenta que alguns fatores podem contribuir para essa condição: termos são retirados da língua comum (dificulta a diferenciação entre discurso comum e metalinguístico);
termos culturalmente carregados (escolas nacionais selecionam seus termos e há dificuldade em transpor fronteiras linguísticas); falsos cognatos entre as línguas também levam à confusão terminológica.
Não devemos pensar que a uniformização metalinguística é uma necessidade, ou mesmo uma possibilidade, uma vez que tratamos de uma ciência humana com diversas linhas teóricas e escolas. As sinonímias e a polissemia proveniente da metalinguagem pode ser bem- vistas, desde que os conceitos e termos estejam definidos de forma clara e seu uso seja apresentado de forma inequívoca para o aprendiz. É preciso deixar claro para esse como o termo é compreendido em uma determinada escola e para um autor específico, a fim de que o discurso, sempre pensado para um público específico, seja entendido de forma clara e sem ambiguidades, diminuindo, com isso, a grande falta de consenso dentro da metalinguagem da tradução.
Acredito que essa falta de consenso pode dificultar grandemente o compartilhamento de conhecimento e sua transmissão aos futuros profissionais e pesquisadores da tradução.
Justamente por sua natureza, uma unificação metalinguística não seria possível, entretanto, seria importante para o estabelecimento definitivo da área de conhecimento uma maior consistência no uso metalinguístico, de forma que a disciplina possa ser vista indubitavelmente como independente e que demonstre claramente sua contribuição real a outros profissionais, assumindo seu caráter multi e interdisciplinar.
É preciso dizer que as dificuldades metalinguísticas não se restringem à tradução, mas outros campos de saber também encontram problemas semelhantes. Segundo Gambier e van Doorslaer (2009, p.3) uma disciplina que apresenta tais dificuldades é a de Estudos literários e um dos fatores que podem contribuir para essa dificuldade é a natureza do campo, em grande medida interdisciplinar e o grande número de escolas, movimentos, métodos.
1.2.2. Da metalinguagem no ensino da tradução
Ao se pensar o ensino da metalinguagem da tradução não estou propondo apenas um enfoque na teorização da tradução, pois, conforma Hurtado Albir (2005) a tradução é uma atividade essencialmente operativa, isto quer dizer que pode ser realizada sem uma fundamentação teórica específica por parte do tradutor, uma vez que é bastante comum encontrarmos tradutores profissionais que não possuem formação acadêmica em tradução, possuindo, contudo, a competência tradutória para realizar sua tarefa. Um tradutor profissional consegue realizar sua prática sem qualquer teoria, contudo, não sem reflexão, pois, segundo Berman (2007, pg. 17-18) realmente não há necessariamente uma relação entre prática e teoria na tradução, há, sim, uma relação entre experiência e reflexão.
4 discusses complex issues that themselves refer to language — and they hardly favour unambiguous discourse.
Above and beyond that the very nature of the discipline means that the discourse is conducted in and through a number of different languages, and with language being both the object of discussion and the means of communication, the risk of non-communication is only increased. Tradução minha.
109 O que é importante, e, me parece, fundamental, é que o aprendiz seja capaz de refletir sobre o processo de trabalho em que está envolvido, entender e conseguir justificar suas escolhas. Desta forma, o aprendiz deveria ser capaz de refletir objetivamente sobre os processos tradutórios que realiza, para tanto deve ser capaz de ir além da “tagarelice ensaística sobre tradução”5 (LEVÝ, 1969, pg.13), que protagonizava os escritos técnicos sobre o tema na metade do século XX e que está estritamente ligado à tentativa de pensadores de teorizar sobre a prática própria. Em outras palavras, é preciso que o aprendiz desenvolva um espírito crítico sobre a tradução e que consiga reconhecer seu papel social enquanto tradutor.
Pensando no aprendiz de tradução em um contexto específico, a saber, o curso de Letras, penso que o papel do educador é não apenas ensinar ao aprendiz competências necessárias para se tornar um tradutor, mas também fazer com que aquele seja capaz de refletir sobre os processos de aprendizagem. Nesse sentido, o ensino sistematizado da metalinguagem específica da tradução permitiria ao aluno uma melhor compreensão de seu próprio processo de ensino/aprendizagem, levando-o a uma reflexão que o permita compreender melhor sua experiência tradutória, conforme nos fala Berman (2007). Esse caminho promoverá no aluno uma capacidade de compreender seu processo tradutório, entender suas escolhas, sendo capaz de defende-las e justifica-las, ou seja, aquilo que Hurtado Albir chama de Espírito Crítico, um dos componentes da competência tradutória.
Delisle (1993), aponta como ponto de entrada no processo de ensino/aprendizagem a metalinguagem, ou seja, o primeiro passo para a formação do tradutor é ser capaz de reconhecer e utilizar a metalinguagem apropriada sobre tradução. Por conta desse fator, uma proposta didática que procure ensinar a metalinguagem deveria ser pensada justamente nesse contexto, isto é, no primeiro contato do aprendiz com o universo da tradução e com os Estudos da Tradução. O contexto que penso ser apropriado é o do curso de graduação em Letras da UFSC, uma vez que está prevista no currículo obrigatório uma disciplina de introdução aos Estudos da Tradução. Tal disciplina tem como objetivo geral a familiarização do aluno com processos tradutórios de textos, além de uma reflexão crítica sobre a tradução e o tradutor. Por conta da natureza acadêmica do referido curso, há uma forte demanda por conhecimento declarativo, já que se procura uma integração entre teoria e prática de tradução.
Para elaborar a proposta didática de ensino de metalinguagem específica da tradução, utilizarei os preceitos definidos no item 1.1, de forma a promover no aluno o conhecimento declarativo necessário para que o mesmo seja capaz de refletir sobre a prática tradutória, ampliando também sua capacidade de aprendizagem, uma vez que entendo haver uma proximidade entre o conhecimento metalinguístico e a autorregulação da aprendizagem por parte do aprendiz, pois permite uma melhor compreensão tanto de seus objetivos ao final do processo, quanto do estabelecimento de metas para a aprendizagem.
Mesmo que o caráter declarativo esteja mais destacado, não é a intenção formar apenas pesquisadores em tradução, mas desenvolver a competência tradutória exigida para quem ingressa no mercado de trabalho, demandando profissionais qualificados e que saibam seu papel social como tradutores. Segundo Marco, “a projeção social do profissional de tradução frente a outros profissionais pode depender de sua habilidade de usar uma terminologia reconhecível” (2009, p. 65) 6.