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PORTUGUESE

No documento CADERNO DE ARTIGOS (páginas 54-64)

Bernardo Antônio Beledeli Perin Mestrando em Estudos da Tradução (UFSC)

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Resumo: Este artigo parte da contextualização da poética e da obra da escritora escocesa Carol Ann Duffy, atual poet laureate do Reino Unido, para propor uma tradução comentada do poema “Frau Freud”, integrante da coletânea The World’s Wife (1999), em língua portuguesa. Durante o percurso, apresenta um recorte teórico dos estudos sobre a tradução de poesia com o objetivo de situar esta pesquisa em relação às reflexões realizadas no âmbito dos Estudos da Tradução a cujos pressupostos críticos e práticos ela se subscreve, e finalmente discute as escolhas tradutórias com base em aspectos formais e temáticos do poema de partida.

Palavras-Chave: Tradução de poesia. Carol Ann Duffy. The World’s Wife. Tradução comentada.

Abstract: This article contextualizes the work and poetics of Carol Ann Duffy, Scottish writer and current UK Poet Laureate, to present a commented translation of “Frau Freud”, a poem from the 1999 poetry collection The World’s Wife, in Brazilian Portuguese. This research’s position regarding the discussions on poetic translation undertaken in Translation Studies, as well as the theoretical and critical framework, are made clear; finally, it discusses the translation choices based on the source-poem’s form and themes.

Keywords: Poetic translation. Carol Ann Duffy. The World’s Wife. Commented translation.

A obra da escritora Carol Ann Duffy (Glasgow, 1955-) tem recebido pouca atenção e permanece inédita no Brasil. Ao longo das últimas quatro décadas, Duffy acumulou um volume considerável de publicações em verso e em prosa, para adultos e para crianças, além de escrever peças de teatro e editar e organizar diversas antologias. A escritora, que é professora de Poesia Contemporânea e diretora da escola de escrita criativa na Manchester Metropolitan University, ocupa uma posição de sucesso crítico e comercial no contexto da literatura produzida em língua inglesa: seu trabalho já foi reconhecida por prêmios literários importantes, como o Whitbread Poetry Award (1993) e o T. S. Eliot Prize (2005), e a consolidou como uma voz poética inovadora e democrática, considerada “demótica” pela crítica (MICHELIS; ROWLAND, 2003, p. 1)1. Atualmente, ela é também poet laureate do Reino Unido, sendo a primeira mulher, a primeira pessoa LGBT e a primeira de nacionalidade escocesa a ser escolhida para a posição – já ocupada por grandes nomes como John Dryden e Ted Hughes – em quatrocentos anos.

Bebendo dos projetos poéticos de T. S. Eliot e do grupo conhecido como Poetas de Liverpool, Duffy explora sujeitos e experiências contemporâneos em uma linguagem acessível e de aparente simplicidade, operando em uma realidade construída a partir da e através da linguagem. Eva Müller-Zettelman considera sua obra voltada a leitores adultos

“confrontadora e filosoficamente exigente”, marcada por “ceticismo inquisidor e

1 Todas as citações em tradução nossa, exceto se especificado.

55 originalidade inflexível” e favorecendo “o pastiche e a colagem” (2003, pp. 187-188). A poética de Duffy lança um olhar crítico para sujeitos que são frequentemente marginalizados nas culturas, sociedades e literaturas ocidentais. Ian Gregson aponta o poder persuasivo do trabalho de Carol Ann como derivando de sua habilidade tanto em retratar como em condenar os modos de representação, principalmente feminina, em jogo nestes contextos; ele chama a atenção para o emprego de táticas dialógicas nos monólogos/solilóquios que constituem muitos de seus poemas, sua imitação dos ritmos conversacionais e expressões contemporâneos e sua preocupação com a introdução material “não-poético” na poesia (1996, p. 97).

As temáticas abordadas pela escritora incluem a alienação provocada pelos cenários urbanos, as políticas de gênero, identidade, feminilidade e masculinidade, a criação dos mitos, os contos de fadas e questões relativas à tradução, à tradição e à linguagem. As temáticas pós- modernas são confrontadas com procedimentos formais e subversões mais próximos daqueles que foram caros ao projeto modernista, com considerável ênfase em efeitos sonoros como rimas, assonâncias e aliterações. Há uma constante tensão entre os elementos poéticos e a tendência a estabelecer relações intertextuais com diversas formas de narrativa.

Embora afirme que tenta revelar uma verdade em cada poema e, assim, considera que seu ponto de partida não pode ser ficcional (apud ANDERSON, 2005), Duffy costuma recusar a identificação entre persona e poeta: ela é uma ventríloqua, assumindo as vozes que melhor servirem ao seu projeto, e se posicionando como self e como outro concomitantemente

(REES-JONES apud ROBERTS, 2003, p. 41). Isto contribui para a força política de sua obra:

se, como defende o teórico Octavio Paz (1971), os sujeitos da Modernidade deixam de se reconhecer uns nos outros e isso desemboca no desenvolvimento de uma nova atitude em relação às diferenças humanas, em que “a estranheza deixa de ser marginal e se torna exemplar” (p. 1), a pluralidade de vozes na poesia de Duffy é testemunha de seu alcance. É uma poética em que as diferenças e a fragmentação das identidades contemporâneas são flagrantes, para a qual a noção de outsidedness, estar à margem da norma, é a própria norma de construção dos seus sujeitos (ROBERTS apud MICHELIS; ROWLAND, 2003).

Estes aspectos do projeto poético de Carol Ann Duffy são perceptíveis, e encontram-se realizados de maneira consistente, na coletânea de poemas The World’s Wife, publicada originalmente em 1999. Obra com uma forte tônica questionadora, que facilita o acesso de seus leitores à discussão das políticas de gênero e de identidade por um viés feminista, abrangente na algaravia de vozes díspares de suas personagens, ela me parece um ponto de partida interessante para a tradução de Duffy no Brasil, ainda mais em se tratando de uma literatura que, para além de seu valor literário, está comprometida com tais posições ideológicas.

A atenção dispensada à poesia escrita em língua inglesa no mercado editorial brasileiro se concentra na produção daqueles escritores que podem ser chamados de “grandes nomes”, que já têm um valor canônico e/ou forte apelo comercial. Assim, encontramos um fluxo constante de edições e reedições traduzidas dos poemas de Shakespeare, Edgar Allan Poe, Emily Dickinson, Walt Whitman, e.e. cummings, Charles Bukowski e dos poetas da Geração Beat, mas poucos esforços dedicados à introdução de autores inéditos. A existência de certo “desinteresse” pelas produções em verso que parece pairar sobre nós e que poderia ser usada para justificar escolhas tomadas nesse sentido no âmbito do mercado editorial, no entanto, não parece se sustentar quando observamos a popularidade recente da publicação de Toda Poesia, de Paulo Leminski (LEMINSKI, 2013), por exemplo. Esse desinteresse também é fruto destas políticas editoriais que tem sido adotadas até agora.

No caso de Carol Ann Duffy, cuja literatura se recobre de questões políticas, um argumento que pode ser feito a favor de sua introdução no sistema literário brasileiro é a efervescência das discussões sobre gênero e opressão para fora dos espaços acadêmicos.

56 Temos celebrado escritoras como Chimamanda Adichie e Ana Cristina César, poeta homenageada da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2016; para além das manifestações que tomam as ruas e as redes sociais, a persistência da violência contra a mulher apareceu até como tema da redação do maior exame escolar do país. Uma maior consciência política a esse respeito parece estar se consolidando, e a poesia de Duffy encontra nela um nicho a ser explorado para sua publicação.

Traduções dos poemas de Duffy para o português se mantém restritas aos contextos acadêmicos e especializados e são escassas, totalizando sete textos no Brasil: quatro com autoria da tradutora Telma Franco Diniz (“Mensagem de Texto”, “Deméter”, “Fim” e “Você”, DINIZ, 2010; 2011a; 2011b) e três minhas (“Aprendizado para o Ócio”, “Dois Pequenos Poemas de Desejo”, “Namorados”, PERIN, 2015). O português europeu conta com uma antologia de dezessete poemas traduzidos por Ana Filipa Oliveira (OLIVEIRA, 2009), igualmente oriunda do contexto acadêmico como acontece por aqui. Percebo uma lacuna a ser preenchida tanto no que diz respeito à circulação da literatura de língua inglesa como ao estudo da obra de Duffy no Brasil, que me causa um incômodo enquanto leitor e enquanto pesquisador das áreas das Letras e da Tradução. Tenho me debruçado, então, sobre a tradução integral de The World’s Wife como objeto de minha dissertação de mestrado, também com certa esperança na capacidade da nossa atividade em operar transformações num determinado sistema literário.

O título da coletânea alude à expressão em inglês “the world and his wife”, “o mundo e sua esposa” em tradução literal, que significa uma grande quantidade de pessoas2. A inversão realizada por Duffy (“a esposa do mundo”) joga com uma carga semântica contida de maneira menos óbvia na expressão, a ideia de uma esposa sem nome e acessória a seu marido, o Mundo. Esta relação é mais difusa no inglês, que não marca gênero nos substantivos, mas pode ser depreendida pelo contexto, em se tratando de uma relação heterossexual por default como é o matrimônio. O deslocamento sintático tira esta figura feminina da posição acessória e a coloca como sujeito, movimento que se constitui como um desafio à ideia de um neutro masculino – é através da demarcação de seu Outro, as mulheres e as identidades que estão fora da masculinidade tradicional, que o masculino se estabelece como “Um” pretensamente neutro. Como argumenta Ana Colling, “os homens detêm o monopólio da interpretação das coisas humanas, e estabelecem seu poder ao mesmo tempo que o legitimam com fundamentos mitológicos, religiosos, ideológicos, filosóficos ou científicos” (2004, p. 19).

Da mesma forma, os trinta poemas que integram a coletânea desafiam a representação canônica de personagens e eventos históricos, ficcionais e mitológicos; subvertendo o foco que tradicionalmente se concentra em personagens masculinas, Duffy confere voz às mulheres que se encontram à sombra destes homens, colocando-as na posição central de narradoras, reclamando para elas o poder de representarem-se. As personas mobilizadas pela escritora são familiares ao imaginário ocidental, têm raízes nos mitos gregos, nas fábulas e contos de fadas, no imaginário religioso cristão e na cultura pop – são as mulheres, as esposas, as amantes e as irmãs esquecidas de Lázaro, Pigmaleão, Elvis Presley, Odisseu, William Shakespeare. Por vezes, o poema transforma as histórias já conhecidas em outras, sobre mulheres; noutras, contesta verdades canonizadas, deslocando as narrativas de seu momento histórico e as reconstruindo num cenário moderno e, frequentemente, urbano. Empregando humor, TWW satiriza as masculinidades e examina também os processos de construção das feminilidades e da História enquanto um domínio masculino.

2 Cambridge Dictionary. Disponível em: http://dictionary.cambridge.org/pt/dicionario/ingles/world-and-his-wife.

Acesso em: 26 out. 2016.

57 Esse movimento confere sentido ao volume, sendo uma importante chave interpretativa para o projeto de tradução de The World’s Wife. É a partir dele que Duffy vai conseguir efetuar uma reescritura, uma retradução em sentido amplo, do próprio mundo ocidental e de suas narrativas formadoras. Mais do que um desdobramento prático de minha pesquisa, a tradução constitui o próprio cerne poético e o eixo estruturante da coletânea.

SOBRE A TRADUÇÃO DE POESIA

No que concerne a tradução de poesia, a crítica que se desenvolveu a respeito ao longo do tempo se concentra na realização da defesa ou do enfrentamento da ideia de que o poema é intraduzível – ou, na célebre máxima atribuída ao poeta norte-americano Robert Frost,

“poesia é o que se perde na tradução” (apud SISCAR, 2011, p. 61). As posições favoráveis a que esse valor de impossibilidade seja encarado como absoluto e fixado manifestaram-se de diferentes maneiras, valendo-se de argumentos calcados nas diferenças fundamentais entre as línguas – se “poético” é um valor originado do emprego de recursos linguísticos específicos de uma dada língua, por definição não seria possível traduzir para outro idioma, já que os recursos não possuem equivalência direta –, da defesa de uma “aura” poética fugidia, de certas concepções do que vem a ser “poesia”.

Nós que traduzimos e pensamos textos poéticos vivemos sob as nuvens desta tendência crítica que argumenta contra uma valorização positiva de nossa atividade, e com a qual precisamos negociar nosso espaço tradutório. De acordo com Siscar, há que se diferenciar entre a definição “em negativo” da poesia e o intraduzível como desafio-tarefa, que “nasce daquilo que lhe resiste” (2011, p. 62) e mobiliza o tradutor. É preciso assumir uma posição crítica que nos permita deslocar a impossibilidade tradicionalmente postulada para a tradução poética para um âmbito em que ela possa ser sentida como valor relativo.

George Steiner enfatiza que “os ataques à tradução de poesia são simplesmente o gume afiado da afirmação geral de que nenhuma língua pode ser traduzida sem perdas fundamentais” (1975, p. 292)3. Posicionando-se contra esta concepção em seu After Babel, ele discute que:

o modelo esquemático da tradução é um em que a mensagem de uma língua-fonte passa para uma língua-receptora através de um processo de transformação. A barreira é o fato óbvio de que uma língua é diferente da outra, que uma transferência interpretativa [...] deve acontecer para que a mensagem ‘atravesse’. (op. cit., p. 28)4

Nos termos de Steiner, a tradução sempre será uma operação que envolve interpretação porque, para transformar um texto em outro, traduzido, é preciso entender mais do que o que ele “diz”, mas também os recursos de significância por ele mobilizados, a serem reconstruídos com recursos linguísticos distintos. Um processo interpretativo que tenha por objeto o poema, onde a linguagem é empregada de forma a construir relações de sentido que extrapolam o convencional, precisa levar em consideração tanto os aspectos formais (rima, métrica, repetições, ritmo) como os aspectos temáticos que caracterizam o texto e a complexa rede de significâncias que ele estabelece em relação ao que lhe é externo.

3“Attacks on the translation of poetry are simply the barbed edge of the general assertion that no language can be translated without fundamental loss.”

4 “The schematic model of translation is one in which a message from a source-language passes into a receptor- language via a transformational process. The barrier is the obvious fact that one language differs from the other, that an interpretative transfer […] must occur so that the message ‘gets through’.”

58 Para mim, a busca pela tradução poética enquanto possibilidade passa por entendê-la como gesto motivado pela consciência da existência de um espaço de desencontro entre as diferentes línguas e entre os valores mobilizados pelos textos. Enquanto práxis que tem na interpretação o seu percurso, vejo a tradução poética como demandando um movimento de análise profunda e contextualizada do poema, crítico e autocrítico, que permita que a lógica interna do texto venha à tona. É entendendo o que o texto de fato diz – e de que forma – que é possível pensar sua transformação de modo que consiga funcionar por conta própria, assim como o poema originário com o qual guardará essa relação específica da tradução.

É desta posição crítica que tento responder aos desafios da tradução, tomando como base entre os modelos teóricos existentes aqueles que favorecem os procedimentos de leitura cerrada – close reading – do poema. Isso levou a uma afinidade com o trabalho de teóricos como o professor Álvaro Faleiros, que identifica questões próximas para a prática tradutória:

[u]m projeto de tradução, em princípio, parte da identificação dos elementos centrais no processo de construção de sentido do texto de partida. Essa postura

interpretativa implica reescrever o texto com o intuito de reconfigurar esses aspectos considerados primordiais para o modo de significar do texto. (2006, p. 1)

Outra reflexão em que encontro base é a proposta pelo professor Paulo Henriques Britto (BRITTO 2012; 2016), que busca estabelecer critérios de trabalho mais objetivos para a tradução e a avaliação de textos traduzidos. Ele defende que “traduzir poesia é uma maneira de escrever poesia” (2016, p. 25) e o tradutor, não necessariamente um poeta, alguém que opera com os recursos linguísticos de línguas diferentes para (re)construir um texto poético.

Como procedimento metodológico, ele propõe que:

[...] o tradutor literário deve ter consciência de que o seu objetivo – produzir um texto que reproduza, na língua-meta, todos os aspectos da literariedade do texto original – é, em última análise, inatingível. Sua tarefa, portanto, [...] é determinar quais as características do original são as mais importantes e quais são passíveis de reconstrução na língua-meta, e tentar redigir um texto que contenha essas características. É importante colocar os elementos do original em uma escala hierárquica, e concentrar-se naqueles itens que ocupam o topo da hierarquia. (BRITTO, 2012, p. 54)

Britto busca posicionar o tradutor estrategicamente durante o processo, de posse de recursos para administrar os conflitos que invariavelmente surgirão na tradução, tanto pela distinção existente entre os repertórios de cada língua como pela sua habilidade individual ao enfrentar o texto. Trata-se de um processo transformador que estabelece um novo valor poético no texto traduzido, um que se constrói por referência em relação específica com o texto originário, transparente o suficiente para que ele seja visível e, ao mesmo tempo, algo completamente diferente. Essas questões se colocam desta forma, também, porque penso tradução como processo que se aproxima do texto fonte, que Britto (2012) chama de

“centrípeto” – seu norte é o estudo dos poemas e da obra dos escritores. Se fosse pensar a tradução como um processo centrífugo, de maior afastamento em relação ao texto fonte, os argumentos seriam outros, mas ainda uma defesa válida da traduzibilidade poética.

No caso específico de Carol Ann Duffy e da tradução de The World’s Wife, essas posições gerais em relação ao fenômeno tradutório e à prática definem a maneira como me

59 posiciono frente ao texto e como tento negociar significados e trabalhar com os mecanismos de compensação, buscando evidenciar relações de sentido estabelecidas entre os poemas da coletânea traduzida como uma unidade. Além delas, há outro fator a ser levado em consideração, que poderia ser definido como uma questão ética para essa tradução. Como essa poesia se coloca como defesa e representação em relação ao discurso de um outro que foi historicamente subjugado pela cultura, traduzir de modo centrífugo textos que tratam de experiências que não tenho enquanto integrante da categoria homem seria uma forma de promover esta hierarquização que o texto combate. Assim, contestar minha própria posição em relação ao sistema hegemônico das políticas de gênero, por mais desconfortável que possa parecer, me dá a oportunidade de ceder o espaço que tradicionalmente me é reservado para que as vozes silenciadas sejam ouvidas. E esta me parece a situação mais arquetipicamente tradutória possível.

DESDOBRAMENTOS PRÁTICOS: RECONSTRUINDO “FRAU FREUD”

Frau Freud

(Carol Ann Duffy, 1999)

Ladies, for argument’s sake, let us say

that I’ve seen my fair share of ding-a-ling, member and jock, of todger and nudger and percy and cock, of tackle,

of three-for-a-bob, of willy and winky; in fact, you could say, I’m as au fait with Hunt-the-Salami as Ms M. Lewinsky – equally sick up to here with the beef bayonet, the pork sword, the saveloy, love-muscle, night-crawler, dong, the dick, prick, dipstick and wick, the rammer, the slammer, the Rupert, the shlong. Don’t get me wrong, I’ve no axe to grind with the snake in the trousers, the wife’s best friend, the weapon, the python – I suppose what I mean is, ladies, dear ladies, the average penis – not pretty…

the squint of its envious solitary eye… one’s feeling of pity…

Concentremos-nos agora em “Frau Freud”, um dos trinta poemas que compõem The World’s Wife. Duffy o constrói como registro de um discurso proferido por uma persona, identificada pelo seu título. Trata-se da esposa de Sigmund Freud, fundador da psicanálise – frau é o pronome de tratamento alemão usado para se referir à mulheres casadas. Embora este discurso seja dirigido a uma audiência composta por mulheres (“ladies”), a voz da senhora Freud é a única que se faz ouvir. Em tom de óbvio deboche, ela elenca uma grande quantidade de sinônimos para o órgão genital masculino para concluir afirmando que o pênis é um órgão que desperta sentimentos de pena feminina.

Numa leitura como essa, transparecem os efeitos dialógicos produzidos nos solilóquios/monólogos de Duffy e a inserção de material convencionalmente pouco poético no texto que ela realiza, como apontado por Gregson (1996), e o registro de linguagem utilizado pela poeta é prosaico e coloquial, ainda que suas palavras possam ofender certas sensibilidades. Esta é uma das subversões que Duffy realiza no poema, já que ao pensarmos na esposa de Freud, provavelmente imaginaríamos uma mulher tanto mais recatada, restringida pelo espaço que ocupava em um contexto social burguês, europeu e do final do século XIX. O leitor pouco pode se aprofundar em sua personalidade, dada a brevidade e a estrutura do poema. Ela no entanto revela ter uma língua ferina e poucos pudores, e após um primeiro verso bem educado, que lembra a introdução a uma palestra, desata em uma longa lista que contabiliza trinta sinônimos para pênis. Esta é uma mulher que, de maneira oposta ao

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