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WORKING THE COOKING RECIPES TEXT GENRE

No documento CADERNO DE ARTIGOS (páginas 152-163)

Juliana de Abreu

Doutoranda em Estudos da Tradução (UFSC) [email protected]

Resumo: A pluralidade de temas presentes nas pesquisas desenvolvidas no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução (PGET) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) permite que o campo dos Estudos da Tradução dialogue regularmente com as diversas áreas do conhecimento existentes. Ao conceber a tradução como um ato comunicativo, é necessário levar em consideração o contexto situacional em que se encontra o processo de comunicação. Dessa forma, a cultura é o elemento norteador de tal processo e a língua o instrumento de comunicação (REIß, 1983, 1991, 1996; VERMEER, 1986, 1991, 1996; NORD, 1993, 2009).

Sendo assim, a necessidade de traduzir é constante, mesmo que dentro de uma mesma língua, pois a cultura nem sempre é a mesma (ABREU, 2014). Com base na corrente teórica funcionalista da tradução recorre-se ao conceito de línguas pluricêntricas (AMMON, 1995; MUHR, 2000; EBNER, 2008). A pesquisa de doutorado em desenvolvimento apresenta uma proposta de duas ferramentas para a prática tradutória do gênero textual receitas culinárias. A primeira é um glossário intra e interlingual de duas variedades padrão da língua alemã (austríaca e alemã) e uma do português (brasileira) e a segunda é um modelo teórico para a prática tradutória do gênero textual receitas culinárias, de base funcionalista. A pesquisa objetiva auxiliar (futuros) tradutores dos pares linguísticos: alemão–português em sua prática tradutória.

Palavras-chave: línguas pluricêntricas; tradução; funcionalismo; receitas culinárias

Abstract: The plurality of subjects contained in the research programs run by the Postgraduate Translation Studies (PGET) of the Federal University of Santa Catarina (UFSC) allows the Translation Studies field to frequently dialog with the many existing knowledge fields. When thinking translation as communicative act, one must consider the situational context in which the communication process is located. Thus, culture is the guiding element of said process and language is the communication instrument (REIß, 1983, 1991, 1996; VERMEER, 1986, 1991, 1996; NORD, 1993, 2009). Therefore, the need for translation is constant, even within one language, as the culture is not always the same (ABREU, 2014). Based on the functionalist translation theory current, one resorts to the concept of pluricentric languages (AMMON, 1995; MUHR, 2000; EBNER, 2008).

This developing PhD research proposes two tools for the translation practice of the cooking recipes text genre.

The first one is an inttra- and interlingual glossary of two standard varieties of the German language and one of the Portuguese language (Brazilian), and the second one is a theoretical model for the translation practice of the cooking recipes text genre, functionalism-based. This research aims to auxiliate (future) translators of the German-Portuguese linguistic pairs in their translation practices.

Keywords: pluricentric languages, functionalism, cooking recipes

INTRODUÇÃO

“As receitas culinárias exercem uma importante função social, não apenas na sociedade que está inserida, mas também no mundo globalizado que vivemos atualmente.”

(ABREU, 2015, p. 158). Nelas encontram-se registros de tradição familiares, dos quais observamos a língua, a cultura, os costumes. Ou seja, através das receitas culinárias podemos

153 divulgar o patrimônio imaterial de um povo/grupo social e a tradução de receitas culinárias abrangem um valor imensurável para a perpetuação da língua e cultura de origem.

O mercado editoral trabalha de forma acelerada, com prazos curtíssimos de entrega, e os tradutores da área gastronômica acabam enfrentando dificuldades, para entregar suas traduções para as editoras, comprometendo assim a qualidade da tradução entregue e assim, publicada. (ABREU, 2015, p. 158).

O presente artigo abarca um recorte teórico da proposta de tese iniciada em março de 2015 e modificada em julho de 2016. O estudo tem como objetivo geral: propor ferramentas para a prática tradutória do gênero textual receitas culinárias a fim de auxiliar estudantes, tradutores e profissionais da área gastronômica. As ferramentas consistem em um glossário de termos gastronômicos entre os pares de línguas alemão-português, dentro de algumas das variedades (alemã/austríaca e brasileira), e um modelo didático para a tradução do gênero textual receitas culinárias.

A proposta de doutorado surgiu durante minha pesquisa de mestrado (2012-2014) e foi durante a construção do corpus que constatei a inexistência de dicionários e glossários online que auxiliem tradutores de livros de receitas culinárias nos pares de língua alemão-português e, especialmente, que abordem a variedade nacional austríaca da língua alemã. Inclusive, a suspeita da falta de livros de receitas austríacos traduzidos para o português brasileiro é um fator motivacional do estudo em questão.

Contudo, a seguir são abordadas de forma sucinta aspectos teóricos sobre cultura, língua, receitas culinárias e tradução. As abordagens tratadas estão sendo melhor desenvolvidas na tese, que atualmente encaminha-se para o exame de qualificação.

CULTURA: LÍNGUA, CULINÁRIA E RECEITAS

Conforme o Dicionário Aurélio básico da língua portuguesa (1988, p. 190-191), o termo cultura é definido como:

1. Ato, efeito ou modo de cultivar. 2. V. cultivo (2.) 3. O complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e doutros valores espirituais e materiais transmitidos coletivamente e característicos de uma sociedade; civilização.

4. O desenvolvimento de um grupo social, uma nação, etc., que é fruto do esforço coletivo pelo aprimoramento desses valores; civilização, progresso. 5. Apuros, esmero, elegância. 6. Criação de certos animais, em particular os microscópicos.

Ao refletir a respeito da terceira e a quarta definições, é possível estabelecer a sociedade como promotora e perpetuadora de culturas, assim como a forma que os grupos sociais registram, organizam e divulgam elementos da sua cultura, como por exemplo: língua, culinária, história, entre outros. (ABREU, 2015).

Seguindo nessa linha de pensamento, Santos (2006, p. 12) conceitua cultura de forma ampla, sustentando que “cada cultura é o resultado de uma história particular, e isso inclui também suas relações com outras culturas, as quais podem ter características bem diferentes”

e Laraia (2009, p. 49) concorda entre suas diversas abordagens conceituais sobre cultura, ao abarcar a história como elemento formador da cultura de um povo/grupo social, certificando que cultura é “um processo acumulativo, resultante de toda a experiência histórica das gerações anteriores.” Ambos os conceitos são consolidados por DaMatta (1986, p. 123, grifos do autor) ao tratar de cultura:

154

[...] para nós, “cultura” não é simplesmente um referente que marca uma hierarquia de “civilização”, mas a maneira de viver total de um grupo, sociedades, país ou pessoa. Cultura é, em Antropologia Social e Sociologia, um mapa, um receituário, um código através do qual as pessoas de um dado grupo pensam, classificam, estudam e modificam o mundo e a si mesmas.

Partindo da premissa que cultura é social, Abreu (2015, p. 159) se remete ao conceito de cultura apresentado no Dicionário do Pensamento Social do Século XX (1996, p. 163), como legitimador dos conceitos até então expostos, ou seja, cultura, então, é “o fato isolado mais notável a respeito da história da humanidade é extraordinária diversidade de formas sociais produzidas por seres do mesmo [...] tipo genético”.

A ciência social destaca dois eixos sobre cultura na vida social, sendo o primeiro proporcionar significado e o segundo fornecer regras gerais de ação social para uma sociedade compreender a outra. Sendo assim, durante o desenvolvimento da tese é entendido por “cultura, as manifestações sociais de um grupo, configuradas pelos repletos padrões comportamentais, crenças e valores formados pela história e diversidade dos modos de expressões”, definição adotada por Abreu (2014, p. 12 e 2015, p. 159).

Dentro das diversas manifestações culturais de um povo, estão a culinária e a forma de divulgar a gastronomia através do gênero textual receitas culinárias.

Gilberto Freyre (2010 p. 298) considera a culinária como uma forma de expressão social, a qual estabelece relações interativas através da alimentação:

[...] um elemento de cultura ou de civilização ele próprio ligado interdependentemente a outros: à religião, à higiene, à estética, de modo geral; e, de modo particular, à técnica culinária; ao seu modo social de ser levado o alimento à boca do indivíduo – dedos, pauzinhos, garfo, faca, colher, conforme a predominância de sólidos ou de pastas na alimentação em apreço; a móvel ou o equivalente de móvel associado ao ATP ou ao cerimonial de comer; abluções antes ou depois da refeição; preces ou sinais religiosos antes e depois da refeição.

Montanari (2009), complementa, ao escrever que a culinária pode ser considerada o primeiro modo de adentrar culturas distintas, a fim inclusive da comida auxiliar a intermediação entre culturas. (ABREU, 2015, p. 259). Dessa forma, Abreu (2014, p. 13) concebe a alimentação como uma forma de identificação e afirmação de uma dada cultura, assim como a língua, que pode ser vista como uma maneira de alcançar dada cultura.

“Entre os símbolos culturais que ajudam a estruturar as identidades coletivas, a gastronomia desempenha um papel central.” (ROSS; BECKER , 2011, p. 35) e os meios escolhidos para divulgar as manifestações culturais podem gerar uma outra forma de símbolo cultural.

Contudo, as receitas culinárias de uma sociedade/grupo social podem ser transmitas pela oralidade e formalizadas pela escrita, através do gênero textual receitas culinárias, independentemente do processo (seja oral ou escrito).

Bazerman (2009, p. 38) afirma que o gênero textual receitas culinárias é de fácil identificação justamente pela sua estrutura e tipologia textual, já consolidadas nas diversas sociedades e culturas.

A maioria dos gêneros tem características de fácil reconhecimento que sinalizam a espécie de texto que são. E, frequentemente, essas características estão intimamente relacionadas com as funções principais ou atividades realizadas pelo gênero.

De acordo com a tipologia textual apresentada por Mascuschi (2010) e Travaglia

155 (2007), as receitas culinárias se encaixam no tipo textual injuntivo ou também chamado de instrutivo, conforme apresentam Dolz e Schneuwly (2010).

As receitas culinárias exibem prescrições e instruções, que relacionam à ações e orientação das mesmas. A relação entre os comandos e as execuções que orientam, por um lado e também proíbem, por outro lado, algumas ações são caracterizadas por uma linguagem de regulação mútua de comportamento. (ABREU, 2014, p. 9).

De acordo com Santos e Fabiani (2012, p. 65), essa relação de regulação, salienta que

“o arranjo discursivo do gênero instrucional, necessariamente, inscreve no texto as figuras de um enunciador (aquele que prescreve ou interdita os comandos) e de um enunciatário (a quem se dirigem as instruções ou interdições a serem observadas).”

Sendo assim, “as receitas culinárias podem ser consideradas textos instrucionais, pois quem escreve – o enunciador – estabelece uma série se comandos/instruções a serem seguidos e quem lê a receita – o enunciatário – segue as instruções determinadas.” (ABREU, 2014, p.

9).

Travaglia (2007, p. 50-51) diz que um texto do tipo injuntivo é composto de três partes ou categorias esquemáticas. Sendo a primeira: elenco ou descrição dos elementos a serem manipulados (ingredientes); a segunda: determinação ou incitação onde a realização da ação se encontra, a própria injunção em si (modo de preparo) e por fim, a terceira:

justificativa, explicação ou incentivo (dicas, explicações detalhadas, observações)

No entanto, essas três categorias esquemáticas não apresentam necessariamente uma sequência imutável e podem inclusive se interpor uma com a outra, evidencia Travaglia (2007, p. 51). Receitas culinárias podem ser inclusive musicadas, poetizadas, estarem presentes em corpo de cartas, cujas categorias citadas podem aparecer de forma não estrutural e nem por isso, essa forma alternativa de apresentar uma receita culinária, deixa de ser integrante do gênero textual receitas culinárias.

Dessa forma, é possível afirmar que não se podem tratar receitas culinárias como sendo algo fixo e imperativo. Receitas são dinâmicas e variam na sua forma de apresentação, mesmo existindo uma estrutura convencionada socialmente. O que é preciso atentar é para a linguagem e língua utilizadas, pois são as mesmas que comunicam a mensagem que se deseja propagar nas diversas culturas.

Assim, considera-se, nessa pesquisa de doutorado, a língua, e suas variedades padrão, como o instrumento utilizado para transmissão e compartilhamento, não apenas de informações, mas principalmente de conhecimento. Com isso, pode-se afirmar que é impossível desassociar a língua das suas manifestações culturais, como aqui tratada: a culinária.

LÍNGUA: O ALEMÃO COMO LÍNGUA PLURICÊNTRICA

A língua é compreendida, por Dubois, et al (2007, p. 378), como um “[...] instrumento de comunicação, um sistema de signos vocais específicos aos membros de mesma comunidade.” Assim pode-se articular que “Falar em língua, portanto, é falar sobre a expressão da cultura de um povo. A cultura influi diretamente na língua: em suas estruturas gramaticais e lexicais e, sobretudo, nos sentidos imbricados nas palavras.” (AIO, 2012, p. 27).

Debois et al (2007) ainda ressalta que em uma mesma língua existem variações para os níveis de língua, sendo eles a língua familiar, erudita, popular, de certas classes sociais e grupos profissionais, onde os diferentes tipos de gíria aparecem e também as variações geográficas, sendo os dialetos e patoás. (ABREU, 2014, p. 14).

“As línguas alemã portuguesa apresentam variações geográficas e culturais, as quais muitas vezes nos faz refletir e nos deixa em dúvida se estamos realmente tratando da mesma língua.” (ABREU, 2015, p. 160).

156 Línguas que apresentam diferentes variedades faladas em diversos países ou regiões distintas são consideradas como línguas pluricêntricas. Essas variedades precisam ser regidas por normas nacionais próprias. (AMMON, 1995; EBNER, 2008; MUHR, 2000; BATORÉO, 2014).

Uma língua para ser considerada pluricêntrica precisa obedecer oito critérios específicos, conforme estabelece Muhr (2000, p. 3-4, tradução nossa). São eles:

1. A língua existe em vários países/Estados soberanos.

2. A língua em questão apresenta no seu respectivo país um papel formal sendo reconhecida como língua oficial, co-oficial e respectivamente como língua minoritária.

3. Os falantes da variedade de uma língua pluricêntrica e as instituições governamentais consideram essa língua não como uma língua autônoma e sim como uma parte de uma única língua.

4. A língua apresenta diversas variantes-padrão, de preferência codificadas em dicionários e gramáticas.

5. A respectiva variedade nacional é a norma vigente nos setores administrativos, nos cursos de direito e nas instituições dos diversos países.

6. A existência das diferenças linguísticas e comunicativas em relação às outras variedades estão baseadas nas diferentes condições de vida e nas realidades sociais específicas de cada pais e na identidade social de seus falantes, que é expressada através da língua.

7. A variedade nacional é, em geral, ensinada nas escolas e sistematicamente transmitida.

8. Os falantes são, de regra, leais à variedade nacional

A língua alemã, por cumprir os critérios citados, dentro das suas respectivas variedades e variantes, é considerada uma língua pluricêntrica, diante do enquadramento apresentado. (ABREU, 2014; 2015).

A língua alemã possui três variedades nacionais e outras três denominadas binacionais, conforme a figura a seguir:

Figura 1: Variedades nacionais da língua alemã

Fonte: Muhr (2000, p. 31 tradução nossa)

As variedades nacionais em três níveis: [1] A língua alemã geral; [2] [3)] [4] As variedades nacionais austríaca, germânica e suíça; e [5] [6] [7] As variedades binacionais:

austríaca e suíça, alemã e austríaca e alemã e suíça.

157 Enquanto que a variedade alemã da língua está consagrada, as variedades austríaca e suíça ainda lutam pelo reconhecimento das suas variedades padrão e não como variante, ou dialeto. O Conselho da Europa, apresenta no seu programa de Políticas Linguísticas, uma proposta não mais voltada para o reconhecimento, pois pensa-se que este já está resolvido, trabalha não mais apenas para o reconhecimento, mas principalmente com vistas para o ensino das variedades nacionais austríaca e suíça da língua alemã. (ABREU, 2014, p. 21).

De acordo com Abreu (2014, p. 21) “o ensino das variedades tem sido tema de discussões em artigos, dissertações, teses e eventos, e vem sendo tratada também nas escolas, tanto nas de ensino regular, como também nas de língua alemã (como língua estrangeira).”

O Goethe Institut publicou no ano de 2007, em parceria com a editora Hueber, uma revista dedicada exclusivamente ao ensino da língua alemã com enfoque para a teoria de línguas pluricêntricas (Plurizentrik im Deutschunterricht).

Nos último dez anos pesquisas e relatos apontam que o ambiente cultural reflete na variedade da língua e que já não se pode determinar que uma única variedade da língua é a correta e que essa é a que deve ser difundida/ensinada pelo mundo.

Um dos artigos traz a pluricentricidade da língua alemã enquanto experiência de vida.

As autoras Jana Ratajová, Dagmar Giersberg e Stephanie von Gemmingen compartilham suas experiências como aluna, falante nativa e professora de língua, respectivamente. O foco do artigo intitulado, Der Klops mit den Marillentopfenknödeln und andere Plurizentik- Erfahrungen (A comoção dos bolinhos de damasco com ricota e outras experiências pluricêntricas), são as diferenças intralinguais dentro das variedades nacionais. (ABREU, 2014, p. 21).

Jana Ratajová relata sua experiência vivida na Áustria e na Alemanha e aborda com o tema Essen (comida) como pano de fundo. Ela percebe diferenças lexicais entre o alemão germânico e austríaco para o mesmo objeto, efetivamente quando passou seis meses na Áustria.

A autora comenta que o alemão que ela aprendeu em sala de aula, não correspondia com a realidade cotidiana vivida na Áustria. As diferenças nacionais estão desde o simples cumprimento de quando encontramos alguém (Guten Tag na Alemanha – Grüß Gott na Áustria) ou quando desejamos bom apetite (Guten Appetit na Alemanha – Mahlzeit na Áustria), até mesmo quando vamos ao supermercado para comprar ingredientes – por exemplo: Kartofeln, Aprikose, Pflaume na Alemanha e Erdäpfel, Marillen, Zwetschken na Áustria (batata, damasco, ameixa).

Como uma forma de preservar a identidade e cultura austríaca, na área gastronômica, a EU estabeleceu em 1994, através do Protocolo Nr.1013, expressões da variedade nacional austríaca da língua alemã que são consideradas patrimônio nacional da língua. No protocolo estão listados 23 termos austríacos, com os quais o país têm inclusive o direito de exportar seus produtos e exigir que os produtos importados entrem no país com a terminologia austríaca e não alemã geral.

Sendo assim,

Diante do exposto podemos dizer que a língua é um elemento cultural, e através dela é possível expressar questões culturais e identitárias, além de registrar suas tradições. Pensando em receitas culinárias, fica evidente que nelas estão inseridas tradições que refletem a cultura, bem como a identidade de um povo – ou certa região – através da sua língua como forma de registro, bem como uso do sistema de comunicação, ou seja, da sua linguagem. (ABREU 2014, p. 22).

Montanari (2009, p. 11) ainda afirma, “Exatamente como a linguagem, a cozinha contém e expressa a cultura de quem pratica, é depositaria das tradições e das identidades de

158 grupo.” E faz uma analogia entre cozinha e linguagem, ele diz que: A cozinha tem sido equiparada à língua:

[...] como esta possui vocábulos (os produtos, os ingredientes), que são organizados segundo regras de gramática (as receitas, que dão sentido aos ingredientes, transformando-os em alimentos), de sintaxe (o cardápio, isto é, a ordem dos pratos) e a retórica (os comportamentos do convívio). (MONTANARI, 2009, p. 11).

Ao tomarmos receitas culinárias alemãs e austríacas, versadas em dois países e em duas culturas distintas que a apresentam como uma mesma língua, porém bifurcadas em duas variedades nacionais padrão, a questão da pluricentricidade acaba sendo indispensável uma análise e discussão do conteúdo, sendo passíveis então de uma tradução dentro da mesma língua.

Quando pensamos na língua portuguesa, os critérios apresentados por Muhr (2000) também são cumpridos e conforme afirma Batoréo, (2014, p. 3) “[...] estamos perante duas variedades nacionais da Língua Portuguesa – a norma portuguesa e a norma brasileira [...].” A mesma autora ainda complementa:

Do ponto de vista linguístico, cada uma das variedades do Português, independentemente do status que lhe é atribuído oficialmente (língua nacional, língua oficial, língua segunda etc.) pode apresentar as suas especificidades ao nível sintáctico, semântico, fonológico e/ ou lexical, o que pode até chegar a criar dificuldades de intercompreensão entre os falantes de variantes diferentes.

(BATORÉO, 2014, p. 3).

Pode-se afirmar que a incompreensão mencionada ocorre, também, entre os falantes das três variedades nacionais (Alemanha, Áustria e Suíça) da língua da alemã, conforme já supracitado.

Já com relação à língua portuguesa, há quem defenda as variedades lusitana e brasileira como duas línguas distintas, como propõe Marcos Bagno (2012) em sua obra intitulada Gramática pedagógica do português brasileiro. Bagno defende o reconhecimento do português brasileiro enquanto língua e não como uma variedade padrão da língua portuguesa.

Não é objetivo do presente artigo discutir a respeito das vertentes teóricas em defesa do português lusitano e/ou brasileiro enquanto duas línguas distintas e sim, apenas, apresentar o conceito de línguas pluricêntricas onde as quatro variedades, das duas línguas, se encaixam.

Contudo, em alterações recentes no projeto de doutorado, a variedade nacional lusitana da língua portuguesa não será mais abordada na referida pesquisa devido à falta de domínio e dificuldade de legitimar os termos culinários lusitanos no [futuro] glossário proposto. Porém, reitero a importância do conhecimento da teoria de línguas pluricêntrias e as tantas línguas que podem ser encaixadas na teoria.

Ao pensar as receitas culinárias infere-se a importância da tradução entre as variedades nacionais e também entre línguas distintas, objetivando a difusão das praticas culturais existente no mundo e motivando o rompimento de fronteiras físicas e linguísticas. Assim, ao se pensar tradução é preciso pensar no público que recebe esse material traduzido diante de toda a pluricentricidade até então apresentada.

TRADUÇÃO: A TEORIA FUNCIONALISTA

Campos (2004, p. 27-28) afirma que “não se traduz de uma língua para outra, e sim de uma cultura para outra [...].”, e Eco (2011, p. 180) ainda enfatiza que “Já foi dito, e trata-se hoje em dia de ideia aceita, que uma tradução não diz respeito apenas a uma passagem entre

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