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Leitura hipertextual

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 49-55)

1. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

1.3 Leitura e letramento

1.3.2 Leitura hipertextual

A leitura hipertextual não surge com o advento do texto digital. Alguns autores (KOCH, 2002; BRAGA, 2003; LÉVY, 2011; MARCUSCHI, 2014) sustentam que o surgimento de novos suportes digitais não inaugura os fundamentos nos quais o conceito de hipertexto foi produzido. Em um sentido lato, as funções desempenhadas pelo hipertexto estão, há bastante tempo, presentes na elaboração dos textos impressos. Referências, citações, índices remissivos, sumários, notas de rodapé ou de final de capítulo, gráficos, tabelas, fotos, ilustrações, verbetes, mapas, boxes explicativos, catálogos, são apenas alguns exemplos imediatos e visíveis da enorme variedade de hipertextos que podemos encontrar nos textos impressos.

De acordo com Koch (2002, p. 62), “o sentido não é construído somente com base no texto central, mas pela combinação de todos esses recursos: portanto, pode-se perfeitamente falar, nesse caso, da presença de uma multissemiose”. Nesta acepção ampla, portanto, hipertexto refere-se à presença de quaisquer situações provocadas pela não linearidade da leitura intratextual. Funcionando como links, os exemplos elencados acima levam o leitor a interromper sua leitura, consultar os hipertextos dispostos, estabelecer relações reflexivas e, ainda, “encontrar outras referências, que o levem a outros textos, e assim por diante” (KOCH, 2002, p. 61). Esta última consideração também é encontrada em Braga (2003, p. 72), a qual afirma que “as relações intertextuais são centrais no processo de leitura e na construção de sentido de qualquer tipo de sistema de hipertexto”. Nesse propósito, Chartier (2001, p. 145) afirma que “a percepção segundo a qual os textos são também imagens, (...) impôs a ideia de que a forma dos textos tem importância para seu deciframento, para sua inteligibilidade e sua compreensão”.

Lévy (2011) também reconhece as ligações intrínsecas existentes entre texto e hipertexto. O autor defende que os hipertextos levam adiante um processo de artificialização da leitura:

Se ler consiste em selecionar, em esquematizar, em construir uma rede de remissões internas ao texto, em associar a outros dados, em integrar as palavras e as imagens a uma memória pessoal em reconstrução permanente, então os dispositivos hipertextuais constituem de fato uma espécie de objetivação, de exteriorização, de virtualização dos processos de leitura” (LÉVY, 2011, p. 43 – grifo do autor).

Com o surgimento e disseminação do acesso ao texto digital, o leitor-navegador pode escolher o caminho da leitura e o conteúdo a ser lido. Escrita e leitura, com o texto digital, estruturam-se hipertextualmente, através dos nós e dos links, em um novo suporte: a tela do

computador (MAGNABOSCO, 2009, p. 54). A teia constitutiva da não linearidade no hipertexto digital alcança velocidade, amplitude, profundidade e uma multissemiose que se instaura através de linguagens diversas (escrita, imagens estáticas e em movimentos, sons) que não encontra parâmetros no texto impresso.

Braga (2003, p. 73), por sua vez, nos oferece elementos particulares de distinção entre os gêneros de textos impressos e os que são constituídos por sistemas de hipertextos. Uma particularidade marcante existente é que, entre os últimos, “a inter-relação entre os textos não é apenas indicada, mas disponibilizada na íntegra ao leitor no momento da leitura”. Segundo a autora, trata-se de uma inter-relação constitutiva do próprio hipertexto. Outra singularidade analisada pela autora é a diferença existente nas relações intertextuais, ou seja, os hipertextos podem ser direcionados pelo autor ou autores dos textos digitais, e, podem alcançar potencialidades infinitas e não controláveis, quando disponibilizados na rede mundial de computadores.

Neste ponto específico, contudo, análise diferente é realizada por Melo (2010), ao colocar em xeque a incontrolabilidade do alcance semântico da teia hipertextual digital.

Partindo de alguns conceitos da Análise do Discurso, a autora advoga que os pontos de contato, isto é, os nexos estabelecidos pelos links só se darão:

entre Formações Discursivas (FDs) assemelhadas. Formações discursivas contrárias à minha jamais serão acessadas através de links presentes no meu site ou home page.

Isto porque todo hipertexto, com relação à construção de sentido, funciona da mesma forma que um texto, ou seja, é produzido com base em determinados interesses e suposições” (MELO, 2010, p. 169).

Xavier (2010) corrobora com a consideração de que ocorre, de fato, uma liberdade possível (mas não ideal) de escolha do leitor, “pois o produtor do hipertexto é quem decide disponibilizar ou não links para outros hipertextos afins”, (XAVIER, 2010, p. 211) podendo esses links respaldarem a visão de mundo do seu autor. Além disso, o autor alerta para o fato de que a não linearidade, ligada à instantaneidade do trânsito de um link a outro, pode tanto contribuir para aumentar as chances de compreensão do texto, quanto para a sua desorientação e dispersão: as possibilidades de distração, desconcentração ou de o leitor se perder estão muito mais presentes em um hipertexto do que em uma enciclopédia, jornais, revistas ou outros suportes de textos impressos.Por isso, o autor sugere a “necessidade dos internautas reajustarem as suas estratégias de leitura em função das especificidades de formatação textual propostas pelos hipertextos, para só assim tirar proveito dessa nova sistemática de organização e acesso à informação” (XAVIER, 2010, p. 212).

O mesmo alerta consta em Marcuschi (2014, p. 205). O autor defende que o leitor deve ser capaz de “fazer escolhas pertinentes para uma continuidade proveitosa e segura” a fim de assegurar uma leitura coerente. A variabilidade da leitura, no caso de hipertextos, é muito maior se comparada a dos textos impressos, tendo em vista as escolhas individuais que cada leitor pode tomar, o que pode aumentar “o risco da dispersão e do resvalamento para margens pouco produtivas” (MARCUSCHI, 2014, p. 205). Segundo o autor,

Assim, o grande problema da coerência, no caso do hipertexto, é o da construção de um ponto de vista interpretativo menos evidente e com menor possibilidade de organização holística. Trata-se de algo mais trabalhoso e com maior chance de ter que ser refeito. Isso não é pouco, mas não chega a ameaçar a noção de coerência nem a exigir outra noção (MARCUSCHI, 2014, p. 205).

Segundo Silva (2014), o professor deve, nesta situação de dispersão/distração, ser um

“sistematizador de experiências” assumindo o papel de “formulador de problemas, provocador de situações, arquiteto de percursos, enfim agenciador da construção de conhecimento na experiência viva da sala de aula” (SILVA, 2014, p. 91). Com a multimídia interativa, o professor pode utilizar textos, fragmentos de filmes, gravuras, músicas, falas, etc., disponibilizando roteiros em rede e oferecendo situações de exploração, de potencializações e de participação (SILVA, 2014, p. 92).

Uma síntese bastante esclarecedora sobre as características que delimitam as diferenças entre texto e hipertexto pode ser encontrada em Xavier (2002). O autor privilegia quatro traços distintivos: a imaterialidade, a confluência de modos enunciativos, a não linearidade e a intertextualidade infinita. Seguem abaixo trechos extraídos de Xavier (2002) para sumarizar os quatro aspectos contidos no hipertexto:

A imaterialidade: “imaterialidade aparente dos dados e sob a multiplicidade simultânea de fontes de conhecimentos que se entrecruzam e se desterritorializam através de uma rede pulverizadora de saberes acessíveis em tempo real” (XAVIER, 2002, p. 88).

A confluência dos modos enunciativos: “o Hipertexto (...) será possível apresentá-lo como resultado do amálgama, integração e superposição dos vários modos de enunciação (verbal + visual + sonoro) em um mesmo suporte digital de leitura e construção de sentidos - a tela do computador” (XAVIER, 2002,p. 09).

A não linearidade: “A inovação trazida pelo Hipertexto está em transformar a deslinearização, a ausência de um foco dominante de leitura, em princípio básico de sua construção. A não-linearidade está prevista já mesmo em sua concepção. O Hipertexto, então, convida o hiperleitor a re-organizar sua estrutura, originalmente, descontínua,

segundo seus propósitos, e este assim o faz em seu "surfe" virtual com idas e vindas aos hiperlínks” (XAVIER, 2002, p. 31-32).

A intertextualidade infinita: “O Hipertexto possibilita vínculos e associações intertextuais sem fim que só se aproximam a memórias privilegiadas de "eruditos" leitores de impresso” (XAVIER, 2002, p. 32).

Lévy (2011) também apresenta diferenças entre o sistema estabilizado de leitura nas páginas de livros e jornais e os que se utilizam hoje em suportes digitais. Para o autor, uma diferença fundamental entre os hipertextos impressos e os digitais está relacionada à facilitação de acessos e orientações, à celeridade na passagem de um hipertexto a outro (por meio dos links ou nós), o aspecto multimodal e a navegação rápida e “intuitiva”. Esta diferença diz respeito às mudanças nas técnicas de leitura em rede, posto que “doravante é um texto móvel, caleidoscópico, que apresenta suas facetas, gira, dobra-se e desdobra-se à vontade diante do leitor” (LÉVY, 2011, p. 44). Em sua explanação acerca destas diferenças, Lévy sustenta que

(...) o suporte digital apresenta uma diferença considerável em relação aos hipertextos anteriores à informática: a pesquisa nos índices, o uso dos instrumentos de orientação, de passagem de um nó a outro, fazem-se nele com grande rapidez, da ordem de segundos. Por outro lado, a digitalização permite associar na mesma mídia e mixar finalmente os sons, as imagens animadas e os textos. Segundo essa primeira abordagem, o hipertexto digital seria portanto definido como uma coleção de informações multimodais disposta em rede para navegação rápida e “intuitiva”

(LÉVY, 2011, p. 44)

Nas diferenças entre o texto impresso e o hipertexto arroladas pelos autores, Marcuschi (2014) salienta que não podemos apreendê-las nos limites de uma visão dicotômica. O estudioso salienta que ambos são eventos comunicativos, mas, quanto à sua organização, o hipertexto não apresenta um centro: “ele é um feixe de possibilidades, uma espécie de leque de ligações possíveis, mas não aleatórias”, imprimindo-lhe um aspecto saliente, isto é, a falta de ordenação tradicional. Por isso, o autor prefere utilizar a metáfora da estrela ao aludir que não há um centro, “mas vários vértices que se ligam a outros vértices”

(MARCUSCHI, 2014, p. 193).

Não podemos deixar de salientar que, do ponto de vista da autoria, o hipertexto abre várias possibilidades de intervenção criativa do leitor. Diferentemente do texto impresso, em que há um autor determinado e distinto do leitor, Marcuschi (2014, p. 194) defende que, no caso do hipertexto, o autor “poderia ser parcialmente esfumaçado” já que poderia ter uma interferência física do leitor na composição do texto. Contudo, o autor sublinha que ainda continuam marcadas fronteiras entre o autor e o leitor ou, em alguns momentos, eles podem ser entremeados.

Nessa linha, Chartier (2002, p. 25) alude para a mobilidade, maleabilidade e abertura do texto eletrônico. O autor ressalta que, numa comparação com o texto impresso, no texto eletrônico:

O leitor pode intervir em seu próprio conteúdo e não somente nos espaços deixados em branco pela composição tipográfica. Pode deslocar, recortar, estender, recompor as unidades textuais das quais se apodera. Nesse processo desaparece a atribuição dos textos ao nome de seu autor, já que estão constantemente modificados por uma escritura coletiva, múltipla, polifônica (...) Essa mobilidade lança um desafio aos critério e categorias que, pelo menos desde o século XVIII, identificam as obras com base na sua estabilidade, singularidade e originalidade (CHARTIER, 2002, p. 25).

Os diversos canais, instrumentos e mecanismos de diálogos existentes com os autores possibilitam que o leitor se considere capaz de produzir e emitir-lhes análises, comentários ou julgamentos de seus textos e tais opiniões, muitas vezes, permitem a troca ou interlocução com os autores originais. Marcuschi (2014, p. 191) denomina tais combinações de intervenção ou interferência digital por parte do leitor de hipertextos “construtivos”, os quais “não só haveria escolhas de caminhos pelos leitores-navegadores, mas também complementações e adendos de novos conteúdos”. Tais situações são rotineiras em muitos blogues e em sites de produções de conteúdos de pesquisas construídos por softwares colaborativos, como os Web Wiki 6 (Wikipédia, Rational Wiki, EvoWiki, Scholarpedia, Wikinologia, Wikibooks, Wikiversity, WikiAnswers, Conservapedia, Uncyclopedia, Wikiquote, Wikisource, Wikinews, WikiWikiWeb,Wikitravel, dentre muitos outros).7

Um outro registro que merece destaque no que tange à diferenciação entre o texto impresso e o digital diz respeito ao que Chartier (2002) denomina “ordem das razões”, entendida como “modalidades das argumentações e os critérios ou recursos que o leitor pode mobilizar para aceitá-las ou rechaçá-las” (CHARTIER, 2002, p. 24). Segundo o autor, o desenvolvimento das argumentações e demonstrações do texto eletrônico lança mão de uma lógica que pode ser “aberta, clara e racional graças à multiplicação dos vínculos hipertextuais” (CHARTIER, 2002, p. 24). Por outro lado, se redimensiona algo fundamental, não impossibilitado, mas dificultado em sua aferição quando se trata de texto impresso: a

6“Os termos wiki (traduzindo-se como "rápido, ligeiro, veloz", dependendo do dialeto havaiano) e WikiWiki são utilizados para identificar um tipo específico de coleção de documentos em hipertexto ou o software

colaborativo usado para criá-lo. Uma das características definitivas da tecnologia wiki é a facilidade com que as páginas são criadas e alteradas - geralmente não existe qualquer revisão antes de as modificações serem aceitas, e a maioria dos wikis são abertos a todo o público ou pelo menos a todas as pessoas que têm acesso ao servidor wiki. Nem o registro de usuários é obrigatório em todos os wikis”. Retirado de

<https://pt.wikipedia.org/wiki/Wiki>. Acesso em 28/10/2016.

7 Retirado de <https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_wikis>. Acesso em 28/10/2016.

modificação profunda da possibilidade de comprovação da validade das “técnicas clássicas da prova (notas de rodapé, menções, referências), que pressupunham a confiança do leitor no autor (...)” transformando “as modalidades de construção e de crédito dos discursos do saber”

(CHARTIER, 2002, p. 24-25).

O problema na leitura dos hipertextos não se localiza nos hipertextos em si, mas na relação do leitor com os textos. Quer dizer, as dificuldades encontradas na leitura de hipertextos provavelmente não se devem às especificidades inerentes à leitura no meio digital, mas sim às relações com os textos de modo geral. Leitores com dificuldades de compreensão textual em suportes impressos (jornais, revistas, livros, etc), ao se defrontarem com os hipertextos, consideradas suas propriedades, muito dificilmente terão êxito na utilização dos instrumentos facilitadores e holísticos proporcionados pelos hipertextos (MARCUSCHI, 2014, p. 205). Como alude Marcuschi “o esforço cognitivo no trato do hipertexto é maior e, como a coerência reside neste aspecto, trata-se de uma diferença significativa”

(MARCUSCHI, 2014, p. 206).

2.0 METODOLOGIA DA PESQUISA

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 49-55)