5 ENCAMINHAMENTO METODOLÓGICO DA PESQUISA
Há lugar para reinos no domínio do saber?
Celani (1998)
Neste capítulo, apresento o encaminhamento metodológico da pesquisa, partindo do pressuposto de que a mesma deve ser considerada através do seu contexto de produção. Por isso, alinho-me à Linguística Aplicada, por ser uma área de estudo que compreende que os fenômenos sociais devem ser estudados e analisados através de uma perspectiva interdisciplinar (MOITA LOPES, 2006).
Também teço considerações sobre a Prática Exploratória, como uma abordagem metodológica para a pesquisa, uma vez que os dados desta dissertação foram gerados por meio do trabalho em conjunto e da reflexão, através de seu viés ético e filosófico, seguindo Moraes Bezerra (2007). Por fim, abordarei alguns pontos sobre a natureza da pesquisa qualitativa, que, segundo Denzin (2006), é entendida como uma prática interpretativa, aberta à produção de múltiplos significados.
as mudanças oriundas da globalização levaram a pesquisa a entrar em campos antes não desbravados.
Logo, Signorini (1998, p. 108 apud MOITA LOPES, 2006, p. 23) explica que, diante de tal cenário, a LA “precisa dialogar com teorias que têm levado a uma profunda reconsideração dos modos de produzir conhecimento em ciências sociais”.
Neste sentido, a LA assume um compromisso político, pois passa a considerar as demandas sociais e acaba por dar voz aos invisibilizados. Assim, passa-se a dar importância ao contexto de aplicação no qual a pesquisa é desenvolvida (MOITA LOPES, 2006). Moita Lopes (2002, 2006, p. 22), baseado nas ideias de Pennycook (2001) escreve:
Politizar o ato de pesquisar e pensar alternativas para a vida social são parte intrínseca dos novos modos de teorizar e fazer LA. Assim, a LA necessita da teorização que considera a centralidade das questões sociopolíticas e da linguagem na constituição da vida social e pessoal.
Moita Lopes (2006) esclarece que, para que a LA possa, de fato, compreender a relação entre a linguagem e a complexidade da sociedade contemporânea, é preciso que tal campo de estudo seja interdisciplinar, isto é, que rompa as fronteiras com outras disciplinas. Assim, Rampton (1997 apud MOITA LOPES, 2006, p. 15) diz que: “a LA está se tornando “um espaço aberto” ou “com múltiplos centros””. Fauré (1992, p. 68 apud MOITA LOPES, 2006, p. 19) vai além, explicando que o linguista aplicado pode ser considerado como “um rei sem reino”, o que indica que esse profissional não deve se ater apenas à sua disciplina de origem, para fazer uma pesquisa na área de LA.
Em consonância com Moita Lopes (2006), Pennycook (2006) advoga por uma Linguística Aplicada Crítica (doravante LAC). Pennycook (2006, p. 67) entende a LAC como “uma forma de antidisciplina ou conhecimento transgressivo, como um modo de pensar e fazer sempre problematizador”, isto é, “um modelo híbrido de pesquisa e práxis”.
Assim, a LAC estaria inscrita em teorias transgressivas, nas quais a interdisciplinaridade é vital. Segundo Pennycook (2006), disciplinas como a Linguística, a Psicologia e a Educação podem caminhar juntas, no sentido de abrir caminho para assuntos antes não estudados. O autor até exemplifica uma pesquisa que encaminhou, na qual abordava a relação entre o hip-hop e a LI e para a qual foi
necessária a articulação entre disciplinas, como: estudos culturais, etnomusicologia e sociologia. Dessa forma, Pennycook (2006, p. 73) diz que: “a interdisciplinaridade tem a ver com movimento, fluidez e mudança”.
Pennycook (2006, p. 74) explica que a LAC deve ser transgressiva, por levar os linguistas aplicados “para além de uma concepção de LA como uma disciplina fixa, além mesmo de uma visão de LA como domínio de trabalho interdisciplinar”.
Pennycook (2006) esclarece que o seu entendimento da LAC enquanto LA transgressiva ocorre em função dos múltiplos significados que o termo transgressão carrega. Entre esses diversos sentidos, gostaria de destacar: “o termo transgressivo para me referir à necessidade crucial de ter instrumentos políticos e epistemológicos que permitam transgredir os limites do pensamento e da política tradicionais”
(PENNYCOOK, 2006, p. 74).
Ainda sobre a LAC, Pennycook (2006) acrescenta que um dos reflexos de seu desenvolvimento se deve à chamada “virada discursiva” nas Ciências Sociais, o que levou antigas formas de pesquisar a entrar em colapso. Nas palavras de Macbeth (2001, p. 36 apud PENNYCOOK, 2006, p.78), a antiga forma de pesquisar estava em crise:
Crise da representação na vida acadêmica do ocidente... A representação realista foi exposta a dúvidas radicais e campos flexíveis de investigação (por exemplo, campos de regras, normas e estruturas formais) explodiram em múltiplas junções/ ligações com identidade, orientação, poder e conhecimento.
Assim, Pennycook (2006) explica, ainda, que, como resultado da virada discursiva, o discurso passou a ser entendido como constitutivo do sujeito. Tal fato implica em um novo tipo de sujeito, que está suscetível a mudanças da sociedade contemporânea. Dessa forma, Canagarajah (2004, apud PENNYCOOK, 2006) diz que o ser humano passa a ser percebido por meio de uma nova ótica, que auxiliou os linguistas aplicados a:
Redefinir nossa compreensão do ser humano. Pedimos emprestados construtos de disciplinas tão diversas quanto a filosofia, a retórica, a crítica literária e as ciências sociais. Adotamos posições teóricas diferentes, englobando a pesquisa feminista, os estudos de socialização da linguagem, a semiótica bakhtiniana e o pós-estruturalismo foucaultiano. Essas escolas nos ajudaram a entender as identidades como múltiplas, conflitantes, negociadas e em desenvolvimento. Viajamos para bem longe das pressuposições tradicionais em estudos da linguagem, que as identidades
são estáticas, unitárias, distintas e dadas (CANAGARAJAH,2004, p. 117 apud PENNYCOOK, 2006, p. 78).
Desse modo, Pennycook (2006, p. 81) defende que o “sujeito é produzido no discurso” e que a LA transgressiva “está sempre engajada em práticas problematizadoras” (PENNYCOOK, 2006, p. 83). Partindo, então, da ideia de LA enquanto uma área de estudo indisciplinar (MOITA LOPES, 2006) e transgressora (PENNYCOOK, 2006), gostaria de acrescentar a ideia de LA enquanto espaço de desaprendizagem (FABRÍCIO, 2006).
Fabrício (2006), assim como Moita Lopes (2006) e Pennycook (2006), afirma que a LA enfrenta o grande desafio de lidar com os eventos decorrentes da Globalização. Assim, Signorini e Cavalcanti (1998 apud FABRÍCIO, 2006, p. 4834) explicam que os estudos de LA debruçam “sobre as práticas linguísticas um interesse explícito em analisar a linguagem de uma perspectiva indisciplinar e transdisciplinar”. Segundo Fabrício (2006) esclarece, para que a LA seja um espaço propício a novas aprendizagens, é necessário que a mesma possa desenvolver uma agenda política, transformadora/intervencionista e ética.
Assim, baseada em Freire Costa (2001), Fabrício (2006, p. 61) afirma que é importante que os linguistas aplicados compreendam que, apesar da existência da pluralidade do mundo atual e dos laços frouxos entre as disciplinas, não devemos
“nos eximir do cuidado com os efeitos de nossas construções para o mundo social”
(FREIRE COSTA, 2001 35apud FABRÍCIO, 2006, p. 61). Ou seja, para Freire Costa (2001, apud FABRÍCIO, 2006, p. 6236),“não devemos almejar o saber pelo saber, ou a invenção pela invenção, deslocados de compromissos éticos. Não devemos tampouco, nos relacionar com o conhecimento que produzimos como ‘captura teórica’ do ‘real’”
34 Fabrício (2006) não faz referência às páginas lidas da obra de Signorini e Cavalcanti (1998).
35 Fabrício (2006) não faz referência às páginas lidas da obra de Freire Costa (2001).
36 Fabrício (2006) não faz referência às páginas lidas da obra de Freire Costa (2001).