Street ([1995]2014, p.9) compreende que o modelo ideológico de letramento é percebido em termos de “práticas sociais concretas. Ou seja, as práticas letradas são produtos da cultura, da história e dos discursos”. Assim, o letramento não pode ser mais visto como uma prática desconectada do seu contexto e da sua cultura.
Deste modo, Street ([1995]2014) aponta para o crescimento do interesse pelos estudos de Letramento, através de uma perspectiva teórica e transcultural. O autor explicita que há uma notável diferença entre os estudos tradicionais de
letramento, os quais ele denominou modelo autônomo de letramento – aquele tradicionalmente privilegiado nas escolas –, e o modelo ideológico de letramento.
Street pontua, também, que, antigamente, havia uma preocupação com as diferenças existentes entre escrita e a oralidade, assim como uma obsessão em tentar entender os problemas de aquisição por parte dos aprendizes, no que concerne à leitura e a escrita. Em outras palavras, Street ([1995]2014, p. 17) considera que o letramento era percebido como uma “habilidade neutra”.
Quanto à nova conceituação de letramento, Street expõe que, ao contrário da visão dominante de letramento, o que se tem buscado é o letramento enquanto
“prática ideológica, envolvida em relações de poder e incrustada em significados e práticas culturais específicos” (STREET, [1995]2014, p. 17). Assim, ele denomina esse novo modo de olhar para a aquisição da leitura e escrita como “Novos Estudos de Letramento”.
Street ([1995]2014) explica que os Novos Estudos de Letramento se caracterizam como uma fase de transição. Sobre essa mudança de perspectiva dos estudos de Letramento, Street ([1995]2014, p. 17) redige a seguinte observação: “As novas perspectivas teóricas estão afetando de modo desigual os programas práticos, enquanto a experiência dos praticantes empíricos alimenta em graus diferenciados a pesquisa acadêmica”. Logo, percebe-se que os Novos Estudos de Letramento têm impactado de modo significativo o olhar da academia sobre as pesquisas relacionadas ao processo de aquisição de leitura e escrita versus aprendizagem.
De acordo com Street ([1995]2014), o modelo ideológico de letramento é fruto de um modo diferenciado de se olhar para a pesquisa etnográfica. Ele explica que existiram várias fases do estudo antropológico em relação às práticas de letramento.
Entre elas, Street ([1995]2014) cita o letramento dominante, que é muito parecido com o letramento colonial, uma vez que se emprega educadores vindo de países ocidentais para expor o que é certo ou não, nas culturas a serem letradas. Isto é,
“muitas vezes, o letramento está sendo introduzido junto com toda a gama de características da sociedade ocidental – formas de industrialização, burocracia, escolarização formal, medicina, e assim por diante”(LLOYD, 1971; WORSLEY, 1984 apud STREET, [1995] 2014, p. 52).
Deste modo, existe um “mito do letramento”, (ONG, 1982 apud KLEIMAN, 1995). Em outras palavras, é como se o letramento tivesse o poder de aniquilar as
mazelas da sociedade, quando muitos dos problemas sociais são, na realidade, de natureza política e econômica, como o desemprego. Sobre tal questão, Street ([1995]2014, p. 34-35) redige o seguinte comentário:
Os governos tendem a culpar as vítimas em momentos de desemprego, e o
“analfabetismo” é um modo conveniente de desviar o debate da falta de empregos para a suposta inadequação das próprias pessoas ao trabalho.
No entanto, diversas tarefas exigem um letramento mínimo ou um tipo de habilidade letrada diferente das ensinadas na escola, e os empregadores algumas vezes podem ensiná-las facilmente no local de trabalho: a falta de habilidades letradas frequentemente não é uma barreira real ao emprego, como sugerem as declarações públicas.
Outro ponto importante que Street ([1995]2014) questiona é a visão monolítica de letramento, de modo que o autor advoga pela concepção de letramentos, justificando que a aquisição da leitura e da escrita é apenas uma das habilidades que um indivíduo pode ter. Ou seja, uma pessoa pode não ser letrada na leitura e escrita, mas pode ser letrada em outras situações. A título de ilustração, Fingeret (1983 apud STREET, [1995]2014, p. 35) traz o seguinte exemplo:
[...] um mecânico analfabeto pode trocar suas habilidades em manutenção de carro pela capacidade de um vizinho de preencher um formulário; um homem de negócios pode gravar em fita uma carta para que um amigo a escreva, assim como os monarcas medievais usavam escribas.
Ainda,
Entre os hmong4 da Filadélfia, por exemplo, alfabetizadores sensíveis abandonaram o ensino tradicional, orientado por exames, para ajudar mulheres concretas a desenvolver suficiente letramento comercial que as capacitasse a comercializar seus tecidos e a criar uma base econômica independente. (WEINSTEIN-SHR, 1993; WEINSTEIN-SHR e QUINTERO, 1994 apud STREET, [1995]2014, p. 35).
Deste modo, Street ([1995]2014) defende que o letramento pode ser utilizado como uma ferramenta para a mudança social, considerando-se o contexto social onde o processo de letramento está sendo desenvolvido. Neste sentido, é importante que os educadores estejam atentos ao contexto no qual estão engajados e aos indivíduos que estão sendo letrados. Ou seja, um letramento relevante não é aquele que:
4 Os hmong são um grupo étnico do sul da China, Vietnã e Laos. Depois da guerra do Vietnã (1975), muitos deles imigraram para os Estados Unidos (nota do tradutor do livro).
[...] pode nos levar a crer, de uma simples escolha entre o “congelamento”
de valores tradicionais, de um lado, ou de uma crua “modernização”, do outro. A questão, antes, é a de sensibilidade para com culturas locais e do reconhecimento do processo dinâmico de sua interação com culturas e letramentos dominantes. A realidade, em tais situações, é de adaptação pragmática, sobretudo da parte dos mesmos poderosos, às novas habilidades, convenções e ideologias introduzidas (STREET, [1995]2014, p.
60).
Como último ponto de análise, Street ([1995]2014) assinala a importância do diálogo entre áreas do conhecimento como antropologia, linguística e discurso, a fim de que haja a percepção do letramento como prática social (LPS). Em suma, o LPS consiste em:
assumir uma abordagem mais qualitativa, valendo-se em particular de pesquisas “etnográficas” que nos permitem ver e ouvir o que os próprios participantes realmente fazem e seus significados sociais locais, os pesquisadores em LPS afirmam que engajar-se no letramento é sempre, desde o primeiro momento, um ato social, em vez de supor que o letramento pode ser aprendido “autonomamente”, por assim dizer, em contextos formais, e assim, ser transportado para a sociedade em seguida, uma abordagem que parece sugerir que as habilidades podem ser medidas e “comparadas” em algum tipo de escala universal (STREET, [1995]2014, p.
191).
Sobre o modelo autônomo de letramento, Kleiman (1995), fundamentada nas ideias de Street (1984), diz que este compreende a escrita como um:
produto completo em si mesmo, que não estaria preso ao contexto de produção para ser interpretado: o processo de interpretação estaria determinado pelo funcionamento lógico interno ao texto escrito, não dependendo das (nem refletindo, portanto) reformulações estratégicas que caracterizam a oralidade, pois, nela, em função do interlocutor, mudam-se os rumos, improvisa-se, enfim, utilizam-se outros princípios que os regidos pela lógica, a racionalidade, ou consistência interna, que acabam influenciando a forma da mensagem (KLEIMAN, 1995, p. 21-22).
Entre as características pertinentes a esse modelo autônomo de letramento, Kleiman (1995) menciona as seguintes:
1) a correlação entre aquisição da escrita e o desenvolvimento cognitivo;
2) a dicotomização entre a oralidade e a escrita;
3) a atribuição de “poderes” e qualidades intrínsecas à escrita, e, por extensão, aos povos ou grupos que a possuem (KLEIMAN, 1995, p.22).
Kleiman (1995) busca problematizar cada uma dessas características, a fim de apresentar as controvérsias relacionadas ao modelo autônomo de letramento.
Sobre o primeiro aspecto do letramento autônomo, Kleiman (1995) explica que estudiosos como Goody (1977) e Olson (1983) defendiam que a aquisição da escrita está relacionada ao desenvolvimento cognitivo.Assim, tal concepção sobre a escrita embasava a tradicional visão entre grupos que usam ou não a escrita. Segundo Kleiman (1995, p. 27), o perigo desse tipo de correlação reside no fato de que tal associação pode “fornecer argumentos para reproduzir o preconceito, chegando até criar duas espécies”, ou seja, os letrados e os iletrados.
Quanto ao segundo item do modelo autônomo de letramento, Kleiman (1995, p. 28) afirma que “nem toda a escrita é formal e planejada, nem toda oralidade é informal e sem planejamento”. Assim, Kleiman (1995) explica que a divisão entre oralidade e escrita é uma grande falácia. A autora propõe a superação dessa divisão, buscando-se, assim, uma integração entre oralidade e escrita. Deste modo, Kleiman (1995, p. 30) reitera que “faz mais sentido reencaminhar o ensino da escrita na escola priorizando o que há de comum e relegando a um segundo plano a diferença”.
No que concerne a terceira característica do modelo autônomo de letramento, a autora faz o seguinte comentário:
Em geral, a caracterização apresenta processos mentais orais como mais simples, subjetivos, tradicionais, voltados para exterioridade, para os aspectos da condição humana, enquanto o pensamento dos povos que têm a escrita seria mais complexo, objetivo, inovador, voltado para a vida psicológica interna (KLEIMAN, 1995, p. 31).
Assim, Kleiman (1995) põe em dúvida as qualidades intrínsecas da escrita.
Tal autora explica que a escrita tem sido muito mistificada naquilo que autores como Graff (1979) e Ong (1982) chamam de “mito do letramento”, entendido como:
[...] uma ideologia que vem se reproduzindo nos últimos trezentos anos, e que confere ao letramento uma enorme gama de efeitos positivos, desejáveis não só no âmbito da cognição, como foi apontado, mas também no âmbito social(GRAFF,1979; ONG, 1982 apud KLEIMAN,1995, p.34).
Em suma, como um modelo alternativo, Street (1993 apud KLEIMAN, 1995) propõe o modelo ideológico de letramento. Segundo Kleiman (1995, p. 38), baseada nas ideias de Street (1984; 1993) o modelo ideológico de letramento compreende que “as práticas de letramento são aspectos não só da cultura, mas também das estruturas de poder”. Alinho-me a esse último modelo de letramento, por entender
que ele compreende que o ensino deve considerar o contexto em que o aprendiz está inserido. Além disso, acredito que, tal modo de ensino é relevante para a construção de espaços que permitam discussões de fenômenos sociais, tais como o racismo. Tais discussões também precisam ter lugar na formação do professor de línguas, e de língua inglesa em particular, desde o início.