ainda, “conversa profissional reflexiva” (MORAES BEZERRA, 2007), como geração de dados, o que explicarei com mais detalhes no item posterior deste capítulo. Como último passo, Farber (2006) menciona a análise de dados. Nessa etapa, segundo Farber (2006), o pesquisador deve considerar a codificação dos dados e, posteriormente, escrever sobre esses dados.
Denzin e Lincoln (2006) problematizam a pesquisa qualitativa, ao fazerem o percurso histórico da mesma, explicando que esta é bastante antiga, tendo suas origens na história colonial. Assim, a visão colonialista influenciou o modo como os etnógrafos olhavam para os indivíduos que estudavam.
De acordo com Denzin e Lincoln (2006, p. 15), “a antropologia nasceu de uma preocupação em entender o outro”. Nota-se, no entanto, que, apesar do objetivo da antropologia ser legítimo e bem intencionado, o outro era visto a partir de uma visão colonialista, na qual os etnógrafos punham-se em uma posição de superioridade, diante daqueles que eram estudados. Assim, o outro, conforme esses autores apontam, “era o outro exótico, uma pessoa primitiva, não branca, proveniente de uma cultura estrangeira considerada menos civilizada do que a cultura do pesquisador” (DENZIN e LINCOLN, 2006, p 15).
Denzin e Lincoln (2006) explicam que, tanto os retrocessos quanto os avanços da pesquisa qualitativa, foram resultado de alguns momentos históricos, entre os quais, os autores citam: o tradicional (1900-1950); o modernista ou era dourada (1950-1970); gêneros (estilos) obscuros (1970-1986); a criação da representação (1986-1990); o pós-moderno (1990-1995); a investigação pós- experimental (1995-2000); e o futuro (2000-). Assim, Denzin e Lincoln (2006, p. 17) afirmam que “qualquer definição da pesquisa qualitativa deve atuar dentro desse complexo campo histórico”.
Denzin e Lincoln (2006, p.18) descrevem o pesquisador como “um bricoleur, um indivíduo que confecciona colchas”. Tais autores se valem de tal metáfora para exemplificar a variedade de práticas metodológicas que a pesquisa qualitativa pode abarcar, elucidando a natureza interdisciplinar da pesquisa qualitativa.
Denzin e Lincoln (2006) explicam que, em virtude da essência da pesquisa qualitativa, a mesma enfrenta resistência. Nas palavras de Denzin e Lincoln (2006, p. 22), “a pesquisa qualitativa representa muitas coisas para muitas pessoas”.
Portanto, a pesquisa qualitativa é descentralizada e é fruto do intercâmbio entre
muitas disciplinas, o que gera um desconforto para estudiosos da pesquisa quantitativa.
Estudiosos da pesquisa quantitativa, conforme aponta Denzin (2006, p.23), defendem que as soluções para as suas questões são encontradas pelo “ato de medir e de analisar as relações causais entre variáveis, e não processos”. O que vale, nesse tipo de pesquisa, é a quantidade, o volume, a intensidade ou a frequência dos dados (DENZIN e LINCOLN, 2006). Ao passo que a pesquisa qualitativa é de natureza interpretativa, conforme Denzin e Lincoln (2006, p. 17) expõem:
A pesquisa qualitativa é uma atividade situada que localiza o observador no mundo. Consiste em um conjunto de práticas materiais e interpretativas que dão visibilidade ao mundo. Essas práticas transformam o mundo em uma série de representações, incluindo as notas de campo, as entrevistas, as conversas, as fotografias, as gravações e os lembretes. Nesse nível, a pesquisa qualitativa envolve uma abordagem naturalista, interpretativa, para o mundo, o que significa que seus pesquisadores estudam as coisas em seus cenários naturais, tentando entender, ou interpretar, os fenômenos em termos dos significados que as pessoas a eles conferem.
É importante destacar que Denzin e Lincoln (2006) enfatizam que, ao longo do percurso histórico percorrido pela pesquisa qualitativa, ocorreu uma crise de representação. Isso significa que os sujeitos, antes passivos diante da pesquisa, passam a reivindicar sua participação, que sua voz seja ouvida. Assim, Denzin e Lincoln (2006) esclarecem que, após a contestação da hipótese do melting pot42 de Park, na década de 60, surgiram “programas de estudos étnicos que viam os nativos – americanos, os latinos, os ásio-americanos e os afro-americanos tentarem assumir o controle sobre o estudo e seus próprios povos” (DENZIN e LINCOLN, 2006, p, 26).
Deste modo, Fineet al. (2006) começam a questionar a quem se destina a pesquisa qualitativa, ou seja, quais são as responsabilidades sociais envolvidas nesse tipo de pesquisa. Essas autoras põem em questão as representações sociais referentes às minorias, expondo o quão devastadoras são essas interpretações sobre o outro. Por isso, tecem a seguinte consideração: “Nas mãos dos pesquisadores relativamente privilegiados que estudam os indivíduos cujas experiências foram marginalizadas, o potencial do modo reflexivo de silenciar os sujeitos é particularmente preocupante”(FINEet al., 2006, p. 117).
42 Lugar onde muitas pessoas e ideias diferentes existem juntas, muitas vezes misturando e produzindo algo novo.
Logo, o pesquisador inscrito na pesquisa qualitativa deve ter em mente a responsabilidade social que existe no ato de escrever sobre outros indivíduos. Ter essa consciência é vital para que a pesquisa seja ética, mesmo com os problemas de manipulação, inerentes ao processo de pesquisar o outro, que é resultante da assimetria de poder entre os participantes, conforme Stacey (1991, p. 113 apud FINEet al., 2006, p. 122) indica:
Situações de inautenticidade, de uma traição dissimulada, e potencial, talvez inevitável, são inerentes à pesquisa de trabalho de campo. Pois, não importa o quanto a presença de um pesquisador de campo possa parecer bem-vinda, ou até mesmo agradável, aos habitantes locais, o trabalho social geralmente representa uma intrusão e uma intervenção dentro de um sistema de relações, um sistema de relações que o pesquisador tem muito mais liberdade para abandonar do que o pesquisado. Não há como escapar da desigualdade e da perfídia potencial dessa relação.
Assim, McCarthy et al. (1997 apud FINE et al., 2006, p. 125) diz que “cabe a todos nós imaginar como dizer o que precisa ser dito sem comprometer os indivíduos e nutrir representações sociais perversas”. Em outras palavras, Fine et al.
(2006), fundamentadas em estudiosos como Austin (1922), Lykes (1989) e Saegert (1997), compreendem que a pesquisa social deve ser voltada para a justiça social.