O texto legal, ainda faz menção à “grave ameaça” como forma de produzir o intenso sofrimento físico ou mental. Tal modalidade configura-se na violência moral (vis compulsiva), exercida sobre o individuo através de promessas de mal futuro, sério e crível, comportamento também os tipos imediato e mediato, ou seja, ameaça ao indivíduo ou a pessoa da família, amigo ou bens. Vale salientar que, para que esteja caracterizada a grave ameaça, basta que a vítima sinta-se intimidada com a mesma, a ponto de consentir com o torturador (no caso a pessoa a quem está subordinada), fazendo ou deixando de fazer o que impõe ou exige, mediante intenso sofrimento.
Pode-se concluir, portanto, que o crime de tortura tendo como vítima criança ou adolescente (aliás, qualquer pessoa) restará consumado se, da violência ou grave ameaça, aplicadas como forma de castigo pessoal ou medida de caráter preventivo, causar intenso sofrimento físico ou mental.
Não se deve esquecer, igualmente, que o sofrimento físico está intimamente ligado ao conceito de dor, tormento, ao passo que o sofrimento mental relaciona-se com a angústia, o temor, a violação moral ou psicológica; se não estiverem presentes quaisquer destes elementos a conduta será atípica pelo menos em relação à Lei 9.455/97.
O delito de tortura, pelo princípio da especialidade, afasta o reconhecimento dos crimes de maus tratos (CP, art. 136), constrangimento ilegal (CP, art. 146), ameaça (CP, art. 147) e abuso de autoridade (CP, arts. 322 e 350, e Lei nº 4.898/65), absorvendo, igualmente, o de lesões corporais de natureza leve (CP, art.
129, caput).
Um dos mais trágicos relatos da horrível justiça que se praticava no século XVIII, na França, vem transcrito em Michel Foucalt 64 descrevendo a execução de um condenado de nome Roberto Francisco Damiens, condenado em 1757, por haver atentado em Versalhes contra a vida do Rei Luiz XV. Eis o relato:
Ascende-se o enxofre, mas o fogo era tão fraco que a pele das costas e da mão mal-e-mal sofreu. Depois um executor, de mangas arregaçadas acima dos cotovelos, tomou umas tenazes de aço preparadas ad hoc, medindo cerca de um pé e meio de comprimento, atenazou-lhe primeiro a barriga da perna, depois a coxa, daí passando aos braços e em seguida os mamilos.
Este executor ainda que forte e robusto, teve dificuldades em arrancar os pedaços de carne que tirava em suas tenazes duas ou três vezes do mesmo lado ao torcer, e o que ele arrancava formava em cada parte uma chaga do tamanho de um escudo de seis libras. Depois desses suplícios, Damiens que gritava muito, sem contudo blasfemar, levantava a cabeça e se olhava; o mesmo carrasco tirou com uma colher de ferro do caldeirão uma droga fervente e derramou-a sobre cada ferida. Em seguida, com cordas menores se ataram as coradas destinadas a atrelar os cavalos, sendo estes atrelados a seguir a cada membro ao longo da coxas, das pernas e dos braços.
O Senhor Lê Breton, escrivão, aproximou-se diversas vezes do paciente para lhe perguntar se tinha algo a dizer. Disse que não; nem é preciso dizer que gritava, com cada tortura, de forma como costumamos ver representados os condenados: ‘Perdão meu Deus! Perdão, Senhor; Apesar de todos esses sofrimentos acima, ele levantava de vez em quando a cabeça e se olhava com destemor. As cordas tão apertadas pelos homens que puxavam as extremidades faziam-no sofrer dores inexprimíveis e repetindo sempre ‘Perdão Senhor’.
Os cavalos deram uma arrancada, puxando cada qual um membro em linha reta, cada cavalo segurado por um carrasco. Depois de duas ou três tentativas, os carrascos tiraram cada qual do bolso uma faca e lhe cortaram as coxas na junção com o tronco do corpo; os quatro cavalos colocando toda a força, levaram-lhe as duas coxas de arrasto; em seguida fizeram o mesmo com os braços. Uma vez retiradas essas quatro partes, desceram os confessores para lhe falar, mas o carrasco informou-lhe que estava morto, embora, na verdade verificasse que o homem se agitava mexendo o maxilar inferior como se falasse. Um dos carrascos chegou a dizer, pouco depois que o lançaram na fogueira, que ele ainda estava vivo.
E em cumprimento a sentença tudo foi reduzido a cinzas.65
Casos como este, descritos por Foucault, não eram raros, sempre praticados oficialmente pelas autoridades e aos olhos de que suportasse assistir a tal barbárie.
O progresso humano é gradual e lento, porém no século XX a prática da tortura passou para a clandestinidade, tendo em vista o repúdio a este tipo de violência, não mais tolerado pela sociedade como um todo, No Brasil, apesar da participação na Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, que
64 FOUCALT, Miguel. Vigiar e Punir. Tradução Ligia M. Ponde. Petrópolis: Ed. Vozes, 1997. p.11-2.
65 FOUCALT, Miguel. Vigiar e Punir. Tradução Ligia M. Ponde, p.11-2.
promulgou a Declaração Universal dos Direitos do Homem, em 10 de dezembro de 1948, dispondo em seu artigo 5º que: “Ninguém será submetido a tortura, nem a tratamento e castigo cruel, desumano ou degradante”, a tortura virou praxe nos plantões policiais, sendo costume sabido e tolerado, principalmente nos anos do Regime Militar.
A tortura pública sancionadora muda-se para os lugares ermos e passa a ter a finalidade de extrair, o mais rápido possível, informações necessárias a repressão. Por isso, a tortura, como não mais existe para a lei, não mais existe para o mundo. Não existe mais a tortura pública, feita as claras, hoje ela é secreta, oculta, instrumento escondido do Estado, de pressão contra as camadas marginais. Todas as forças repressivas em regra a usam, mas só ganha publicidade quando ocorre um erro técnico, um acidente de percurso, com a morte do torturado ou, pelo menos, o vazamento para a imprensa da notícia da tortura. A vítima do suplício, quando vem a morrer, é apresentada, na versão oficial, como um suicida.66
Os principais métodos e instrumentos de tortura adotados no Brasil, além do espancamento indiscriminado e primário, são os seguintes:
2.4.1 O “pau de arara”
Consiste numa barra de ferro que é atravessada entre os punhos amarrados e a dobra do joelho, sendo o “conjunto” colocado entre duas mesas, ficando o corpo do torturado pendurado a cerca de 20 ou 30 cm do solo. Este método quase nunca é utilizado isoladamente, seus “complementos” normais são eletrochoques, a palmatória e o afogamento. Nesta prática, o torturado fica exposto a todo tipo de barbárie, socos, chutes, choques, atentado sexual, que é o mais comum nesta prática. Este método que na França chamava-se passer à la broche. Uma hora nesta posição é suficiente para provocar dores intensas no corpo, enjôos, diarréias, e dificuldade para respirar, o castigo é freqüentemente interrompido e reiniciado para que a vítima não morra.
2.4.2 O choque elétrico
O eletrochoque é dado geralmente com fios de luz, cujas pontas são desencapadas e ligadas ao corpo, normalmente nas partes sexuais, além dos
66 BORGES, José Ribeiro. Tortura: Aspectos Históricos e Jurídicos; O Crime da Tortura da Legislação Brasileira Análise da Lei nº 9.455/97,p. 106.
ouvidos, dentes, língua e dedos. Os fios são conectados a tomadas elétricas ou baterias de carro e tocadas no corpo da vítima, provocando tremores, crises de choro e incontinência urinária. Para intensificar o efeito, costuma-se jogar água sobre o corpo do torturado, devido à alta condutividade que o meio líquido provoca.
2.4.3 O banho Chinês ou afogamento
Onde a cabeça da vítima é enfiada em um balde de água suja ou em um tonel de óleo, no início a cabeça fica submersa por alguns segundos, o tempo vai aumentando até quase o limite do afogamento onde a vítima começa a fraquejar, geralmente seguido de espancamento e choque elétrico. O gesto é repetido várias vezes, a náusea provoca crises de vômito e desmaios.
2.4.4 O telefone
Consiste em aplicar um golpe sobre os ouvidos da vítima com ambas as mãos em posição côncava. Por este processo o torturado geralmente tinha os tímpanos rompidos, devido ao deslocamento de ar provocado na cavidade auricular.
2.4.5 Geladeira
Tortura que consistia em colocar a vítima, vestida apenas de roupas intimas, dentro de uma câmara frigorífica, onde a temperatura girava em torno de 30 graus abaixo de zero, conservando-a trancada por um período de dois ou três minutos, repetindo-se o ato até o momento da confissão do torturado.
2.4.6 Processo Corcovado
Tomou este nome porque praticado pela polícia carioca no alto do corcovado.
Consiste em colocar o prisioneiro no topo de um muro alto, de costas para o abismo e de frente para revólveres ou metralhadoras durante horas a fio.
2.4.7 Sabão em pó
Jogado sabão em pó, nos olhos da vítima e seguido da projeção de um feixe de luz no rosto desta.
2.4.8 Churrasquinho
É uma variante do pau de arara. Consiste em acender um pouco de álcool por baixo do torturado ou em inserir-lhe no ânus um papel retorcido, que depois é aceso.
2.4.9 Algemas
Consiste em algemar o torturado preso a uma mesa, por muitas horas e as vezes por dias até.
2.4.10 Ginástica
Consiste em obrigar o prisioneiro a fazer repetidas flexões de pernas enquanto sustenta, nas mãos estendidas, dois catálogos de telefones. Quando para com a ginástica o prisioneiro apanha.
2.4.11 Tenazes e outros instrumentos cortantes
Não foi um método muito difundido, pois o arrancamento das unhas ou de esmigalhamento de partes do corpo deixam marcas duradouras, o que não era conveniente para torturadores semiclandestinos.67
67 ALVES, Márcio Moura. Torturas e Torturadores. RJ: Empresa Jornalística, 1967. p. 29.
2.4.12 Insetos e animais
Em relatos de torturadores, constam o uso de animais como cães e cobras nas sessões de torturas, bem como insetos como baratas colocadas sobre o corpo do preso, e sendo inclusive introduzidas no ânus.
2.4.13 Produtos químicos
Usado pelos torturadores, como o soro de pentotal, substância que faz a pessoa falar, em estado de sonolência; ácido sobre o corpo que faz o preso arder e inchar; injeções de éter, inclusive com borrifo nos olhos.
2.4.14 Lesões Físicas
Comumente aplicada aos presos, como a introdução de garrafas e cassetetes no ânus; forquilhas amarradas aos testículos, para que depois seja arrastado pela sala; jejum por vários dias consecutivos, recebendo somente sal nos olhos, boca e em todo corpo para aumentar a condutividade do corpo; o uso de palmatória de alumínio para deixar o corpo em carne viva; chá de manta, que consiste em colocar sobre o torturado um cobertor quando este estiver deitado ou dormindo, e com sabonetes dentro de toalhas aplicam-se vários golpes sobre o corpo da vítima.
2.4.15 A cadeira do Dragão
Cadeira extremamente pesada, cujo assento é de zinco, e que na parte posterior tem uma proeminência para ser introduzido um dos terminais da máquina de choque chamada magneto; e além disso, a cadeira apresentava uma travessa de madeira que empurrava as pernas para trás, de modo que a cada espasmo as pernas do torturado batessem na travessa citada, provocando ferimentos profundos.
2.4.16 Psicológica
É usada como reforço. Enquanto a vítima é submetida a uma sessão de tortura, os torturadores costumam deixa-la nua, quando aproveitam para ridicularizar algumas características ou defeitos físicos. Quando a vítima chora, defeca ou urina, reações freqüentes diante de tamanha violência, os torturadores fazem piadas. É uma forma de tornar a vítima mais vulnerável. Também costuma-se atemorizar a vitima dizendo que os próximos a apanhar serão seus familiares.
2.4.17 Saco Preto
Método usado por todas as policias brasileiras, e só veio a publico no filme Tropa de Elite, Gravado no estado do Rio de Janeiro, é usado para obter informações e confissões de pessoas suspeitas o até mesmo de presos, onde e vestido um saco de lixo preto na cabeça e trancado com isso, a pessoa com o passar do tempo fica sem respirar é feito durante varias vezes até que obter o resultado desejado é o preferido dos policiais, pois não deixa marcas e nem lesões.