O artigo 2º da Lei nº 9.455/97, dispõe que:
“Art. 2º - O disposto nesta Lei aplica-se quando o crime não tenha sido cometido em território nacional, sendo a vítima brasileira ou encontra-se o agente em local sob jurisdição brasileira.
Respeitando a internacionalização na punição da tortura, assim como de outros crimes contra a humanidade, a Lei nº 9.455/97 contemplou a possibilidade de punição da tortura mesmo que praticada fora do território brasileiro, dispondo no § 2º que o disposto nesta Lei aplica-se ainda quando o crime não tenha sido cometido no território nacional, sendo vítima brasileira”. O principio da justiça cosmopolita e os compromissos assumidos pelo Brasil em tratados internacionais obriga a que se puna o crime de tortura ainda que praticado fora da do território brasileiro, desde que concorra umas das seguintes condições: ser a vítima brasileira:
principio real da proteção que leva a punição de atos lesivos a nacionais e encontrar-se o agente sob jurisdição brasileira, em território brasileiro, em situações de excepcionalidade como a dos crimes ocorridos a bordo de navios ou aeronaves em território estrangeiro ou águas internacionais, quando não puníveis pela legislação do pais ocorridas.107
Assim o crime de tortura segundo a legislação brasileira, será punido tanto praticado em território nacional, quanto no estrangeiro, desde que a vitima seja brasileira, ou sob jurisdição brasileira, ou mesmo quando embarcações ou aeronaves particulares, mas com bandeira brasileira.
107 BORGES, José Ribeiro. O Crime da Tortura da Legislação Brasileira Análise da Lei nº 9.455/97, p. 190/191.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Procurar as origens da tortura na história constitui tarefa árdua, pois há somente registros esparsos, principalmente quando ela é entendida como punição.
Desde o código de Hamurabi, o conjunto de leis adotado na Babilônia no século XVIII antes de Cristo, passando pela Idade Média com a oficialização pela Igreja Católica através da inquisição, e chegando aos dias atuais, onde vê-se essa barbárie sendo divulgada aos quatro ventos pela mídia nacional e internacional, também na rede mundial de computadores (internet), pode-se concluir de que essa forma de punição ou acovardamento do ser humano aquele “hiposuficiente” numa relação onde quem está revestido do poder, quer ele seja estatal, quer seja de ordem pessoal, verifica-se que esta modalidade sempre esteve presente na evolução do ser humano, como sociedade.
No primeiro momento, foram elucidadas as fontes históricas da lei de tortura, mencionando as dificuldades conceituais e normativas contidas nesta Lei, especialmente no inciso II, do art. 1º, da lei 9455/97 que têm levado os aplicadores, diante de cada caso concreto, a continuar classificando apenas como maus tratos (art.136, do Código Penal), condutas que encontrariam tipicidade específica.
No que tange o Direito Canônico, registra-se que visando combater as heresias, a Igreja Católica criou os tribunais de inquisição, que posteriormente foi instalado o Tribunal do Santo Oficio, o qual funcionava como tribunal supremo de resoluções de todas as questões, que envolviam a fé e a moral, nesse período, aqueles que eram considerados hereges, padecia sob o Tribunal do Santo Oficio.
O uso da tortura foi facilitado pela adoção do sistema inquisitivo, e intensificado, pelo fato de os juízes, a exemplo da teoria canônica, passarem a considerar a confissão do acusado como a rainha das provas. Assim, a tortura era o instrumento mais importante do processo penal, para que de qualquer forma, dela se extraísse a confissão do acusado.
Diversos documentos internacionais, aceitos como instrumentos legais, proíbem a tortura e demais formas de tratamento cruel, desumano ou degradante.
Mas apesar deste arsenal de textos jurídicos internacionais, continuam indefinidos
os meios de aplicação à realidade dos diferentes sistemas políticos, religiosos e culturais; surgindo, pois, a necessidade de legislações específicas, em relação à tortura, em cada país.
Independentemente do contexto sócio-econômico, cultural e racial de cada nação, se faz necessário o respeito às garantias mínimas, que derivam do direito internacional já vigente, tais como: proibição absoluta de prisão clandestina; o direito para todo o prisioneiro de entrar imediatamente em contato com parentes, um advogado e um médico; supervisão dos interrogatórios por uma autoridade independente; proibição de ser levada a julgamento qualquer declaração prestada sob tortura.
Outra disposição visando preservar a liberdade individual dos presos, e de caráter internacional, é o artigo 10 do Pacto sobre direitos Civis e Políticos, segundo o qual toda pessoa privada da própria liberdade deve ser tratada com humanidade e ter respeitada sua dignidade como pessoa humana.
À aplicação da tortura a um acusado enquanto se faz o processo é uma crueldade consagrada, para arrancar dele a confissão do crime, ou para esclarecer as contradições em que caiu, ou para descobrir cúmplices ou outros crimes de que não é acusado, mas dos quais poderia ser culpado, quer enfim, por razões sofistas incompreensíveis da maioria dos governos.
O interrogatório do réu é feito para conhecer a verdade, mas se esta verdade dificilmente se revela pela atitude, pelo gesto, pela fisionomia de um homem tranqüilo, muito menos apareceria no homem, no qual, as convulsões da dor alteram todos os sinais, através dos quais, a maioria dos homens deixa, algumas vezes, contra a vontade, transparecer a verdade. Toda ação violenta confunde e suprime as mínimas diferenças dos objetos, por meio dos quais se distingue o verdadeiro do falso.
É dever de todos buscar a fraternidade, esquecida no mundo de hoje; pela solidariedade entre os povos, para que não haja tortura e violência; pela tolerância entre as pessoas, pelo desarmamento das mentes e dos corações; pela aceitação do outro, diferente mas igual, sempre nosso irmão. Não importa que essas belas idéias sejam um trabalho, em longo prazo. Sem utopias, a vida não vale a pena.
Para a efetivação desta Monografia, partiu-se de uma idéia, que aos poucos foi se transformando em palavras, muitas vezes doloridas e indignadas, cada vez
que se lia algo a respeito da tortura, principalmente os relatos das torturas praticadas por policiais.
Buscou-se trazer a tona a doutrina e a Lei, para fazer um paradoxo, visando sempre à obtenção de conhecimento, o que foi de grande valia.
Ao final, vê-se que há um longo caminho pela frente! Caminho esse, que é o de incutir ou lobotomizar a mente daqueles que foram treinados para arrancar informações a qualquer preço, pois é respeitando os tratados internacionais e as garantias constitucionais, que se pode chegar a tão sonhada paz social.
De posse dos dados pesquisados através de pesquisa bibliográfica, após criteriosa análise, algumas considerações relevantes surgiram. A primeira delas é o fato de que segurança pública e direitos humanos podem conviver dentro de um Estado democrático de direito. Não há o que contestar aquilo que está no escopo da lei; basta tão e quão somente respeitar os seus preceitos e os direitos humanos já estarão sendo promovidos.
Na elaboração de uma política de direitos humanos exeqüível para a sociedade, há que ser considerado que não é possível resolver imediatamente problemas que foram gerados ao longo de décadas, em que diversos organismos policiais violaram princípios fundamentais e elementares dos seres humanos.
Porém as violações de direitos humanos têm muitas causas, de ordem política, econômica, social, cultural e psicológica.
Na primeira hipótese estudada, verificou-se que as fusões, incorporações, novos conhecimentos, a violência do dia-a-dia, conciliação entre trabalho e família, sinais de stress, impactos tecnológicos, onde todos são elementos de uma nova realidade. Todos os documentos abordados tiveram por fim a garantia dos direitos fundamentais, a dignidade humana e a limitação ao poder estatal, através da liberdade religiosa, a inviolabilidade de domicílio, o devido processo legal, a ampla defesa o tribunal do júri, o princípio da legalidade entre outros.
A viagem da tortura e da violência através dos séculos se confunde com a história do próprio homem. A tortura na sua evolução histórica, inicialmente era um meio pelo qual o estado aplicava os tormentos como forma de punição, mais adiante na história, usada como meio inquisitivo, e nos momentos atuais a tortura é vista como crime que causa repudia na sociedade.
Na segunda hipótese observou-se que no Brasil a prática de tortura é coibida através de texto constitucional, pois o progresso humano é gradual e lento. Porém
no século XX a prática da tortura não é mais tolerada pela sociedade como um todo.
Tendo em vista o repúdio a este tipo de violência, o Brasil, participou da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, que promulgou a Declaração Universal dos Direitos do Homem, em 10 de dezembro de 1948, dispondo em seu artigo 5º que: “Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento e castigo cruel, desumano ou degradante”; o Brasil também ratificou o mesmo texto da Declaração Universal dos Direitos do Homem de coibição à prática da tortura, quarenta anos depois, através do artigo 5º-III, da Constituição Federal.
Na terceira hipótese buscou-se a tipificação dos crimes de tortura e as conseqüências para o ser humano, pois “O Brasil é um país formado pelo caldeamento de várias raças, cujo povo professa vários credos. A despeito disso, existe preconceito de raça contra negros, índios, orientais e outros. [...]”108 Além disso, o preconceito atinge também a esfera religiosa, sendo ela praticada contra seguidores e membros de seitas de origem africana, religiões cristãs, espíritas, e também contra os evangélicos.
Tipificaram-se os crimes de tortura, que devem ser coibidos, e assim preservando o interesse comum aliado ao convívio pacífico entre todos, elevando a condição humana, alcançando o desiderato de por fim as diferenças sociais, religiosas, culturais, e raciais. A liberdade e a dignidade, bem jurídico protegido na situação de tortura, pertencem à essência do ser humano.
Há várias consequências que podem ser físicas ou mentais para a prática da tortura qualificadora do delito, uma vez que com o resultado o agente atinge não só os efeitos da tortura, mas causa outros resultados, exemplo da morte da vítima. O delito de tortura, na hipótese aqui enfocada, absorve o crime de maus tratos, em face da aplicação do princípio da subsidiariedade, de forma que quando o ato não se revestir de intenso sofrimento físico ou mental, poderá amoldar-se ao tipo definido no art. 136 do Código Penal.
O próprio Estado brasileiro, em relatório encaminhado ao Comitê Contra a Tortura da ONU, reconheceu as dificuldades na erradicação da prática da tortura no Brasil, em face da corrupção policial e o abuso de autoridade, que gravitam nos organismos policiais, portanto este tema deve ser objeto de outras investigações e
108 LIMA, Mauro Faria de. Crimes e torturas, p. 34.
estudos para que um dia possa realmente se coibir a completamente a tortura no Brasil.
Existem graves desigualdades sociais, injusta distribuição de renda, problemas estruturais do desemprego, do acesso a terra, da educação, da saúde e do meio ambiente. Como já afirmado, esta pesquisa não esgota o assunto, apenas reuniu alguns conhecimentos fundamentais de direitos humanos, buscando contribuir para que haja condições, centrados na legislação vigente de dignidade de pessoa humana.
O desconhecimento e o desrespeito aos direitos conduziram a atos bárbaros que revoltaram a consciência da humanidade e provocaram o advento de novas leis, com o objetivo de garantir a todos os homens, a liberdade de expressão, de manifestação, de crença, de locomoção e, principalmente, com a miséria, com a tirania e com os extermínios individuais ou em massa.
Dentro da política, a que o estudo se propôs, como forma de embasamento, alguns temas de relevância tiveram o seu lugar de destaque, assim como amplas mudanças de mentalidade, de modo que o cidadão se sinta protegido, tenha os seus direitos garantidos e seja tratado com a dignidade que merece, quebrando paradigmas.
REFERÊNCIAS
ACQUAVIVA, Marcus Cláudio. Dicionário Acadêmico de Direito: de acordo com o Novo Código Civil. 3. ed. Atual. São Paulo: Editora Jurídica Brasileira, 2003.
ALENCASTRO, Luiz Felipe de: O Trato dos Viventes. São Paulo: Cia. Das Letras.
2000.
ALVES, Márcio Moreira. Tortura e torturados, 2ª ed., Rio de Janeiro: Ed. Idade Nova, 1967.
ALVES, LJA. Os direitos humanos como tema global. São Paulo: Perspectiva, 1994.
AURÉLIO BHF. Novo Dicionário. São Paulo: Fronteira, 1989, p.125
BECCARIA, Cesare. Dos Delitos e das Penas. Tradução de Paulo M. Oliveira.
Biblioteca Clássica. Volume XXII. 6ª Ed. Atena. São Paulo.
BORGES, José Ribeiro. Tortura: aspectos históricos e jurídicos: o crime da tortura na legislação brasileira – análise da lei 9.455/97. Campinas: Romana, 2004.
BRASIL. Decreto Lei nº 2.848, de 07/12/1940. Código Penal.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de Outubro de 1988. Senado Federal, 1988.
COIMBRA, Mário. Tratamento do Injusto Penal da Tortura. São Paulo: RT, 2002.
COUTO, Jorge. A Construção do Brasil. Lisboa: Edição Cosmos, 1998.
DOTTI, René Ariel. Casos Criminais Célebres. 2ª ed., São Paulo: RT, 1999.
DOURADO, Denisart. Tortura. 2ª ed. Ampl., ver. e atual. Leme: Editora de Direito, 2001.
FERNANDES, Paulo Sérgio Leite. Aspectos jurídicos-penais da tortura / Paulo Sérgio Leite Fernandes, Ana Maria Bebette Bajer Fernandes. Belo Horizonte: Nova Alvorada Edições Ltda., 1996.
FOUCALT, Michael. Vigiar e Punir. Tradução Ligia M. Ponde, Petrópolis: ed. Vozes, 1997.
FRANCO, Alberto Silva. Tortura. Breves Anotações sobre a Lei nº 9.455/97.
GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas, 1994 p.48 GOMES, Luiz Flávio. Estudos de Direito Penal – Tortura. São Paulo. RT, 1999.
LEI nº 9.455 de 07 de abril de 1997. Define os crimes de tortura e dá outras providências. Brasília: Senado Federal, 1997.
LIMA, Mauro Faria de. Crimes de Tortura: Comentários a Lei 9455/97. Brasília Jurídica, 1997.
MATTOSO, Glauco. O que é tortura. São Paulo: Nova Cultura: Brasiliense, 1986 MAXIMILIANO, Carlos. Comentários à Constituição Brasileira, vol. I, 1954, p. 155, apud MARQUES, José Frederico. Tratado de direito penal, vol. III..
MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. 16 ed. Atual. São Paulo: RT, 1991.
MIRABETE, Júlio Fabbrini. Manual de Direito Penal. São Paulo - SP: Atlas, 2001.
MORAES, A. Direitos Humanos Fundamentais. Comentário dos arts. 1º a 5º da Constituição da República Federativa do Brasil, Doutrina e Jurisprudência. 3ª ed.
São Paulo: Atlas, 2000, p. 20-39
NETO, Alfredo Naffah. Poder, Vida e Morte na Situação de Tortura (esboço de uma fenomenologia do Terror. São Paulo: Hucitec, 1985.
PASOLD, Cesar Luiz. Prática da pesquisa jurídica – idéias e ferramentas úteis para o pesquisador do direito. 7. ed. rev. atual. amp. Florianópolis: OAB/SC, 2002.
PIMENTEL, Manoel Pedro. O crime e a pena na Atualidade. São Paulo: RT, 1993 PRIMEIRO Relatório ao Comitê Contra a Tortura CAT. Ministério da Justiça, 2000.
PIOVESAN, F. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. São Paulo: Max Limonad, 1996. p.20
REVISTA Veja. V. 28, nº 44, p. 28-35, 1º nov, 1995.
REVISTA Consulex. Ano VIII – nº 178, 2004.
REVISTA Brasileira de Ciências Criminais, v. 19, São Paulo. RT, 1997.