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2 INTERAÇÃO E COOPERAÇÃO NA APRENDIZAGEM
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possui autoridade e prestígio, o que leva o seu interlocutor a aceitar o que essa autoridade prestigiada diz, tendo pouca participação racional na produção do conhecimento. “Uma vez que aceita um conhecimento como válido, o indivíduo coagido passa a conservá-lo” (DE LA TAILLE, 1992, p. 19).
Numa situação de ensino, por exemplo, o coagido, repetindo o que lhe impuseram, atua como um divulgador de tais ideias. A coação reforça o egocentrismo, pois não permite desenvolver operações mentais superiores.
Portanto, Piaget a considera um freio para o desenvolvimento da inteligência. Já as relações marcadas pela cooperação vão em direção contrária: não há assimetria, imposição ou repetição, mas a coordenação das operações de dois sujeitos para a promoção da: “[...] discussão, troca de pontos de vista, controle mútuo dos argumentos e das provas. É o tipo de relação interindividual que representa o mais alto nível de socialização.
E é também o tipo de relação interindividual que promove o desenvolvimento” (DE LA TAILLE, 1992, p. 19-20), por que:
Quando eu discuto e procuro sinceramente compreender outrem, comprometo-me não somente a não me contradizer, a não jogar com as palavras etc., mas ainda comprometo-me a entrar numa série indefinida de pontos de vista, que não são meus. A cooperação não é, portanto, um sistema de equilíbrio estático, como ocorre no regime de coação. É um equilíbrio móvel (PIAGET apud, DE LA TAILLE, 1992, p. 20).
As relações de coação são predominantes na vida das crianças pequenas, pela própria existência da hierarquia parental. Porém, na medida em que elas começam a desfrutar da convivência com outras crianças, dão início a relações de cooperação, uma vez que estão entre iguais e tendem a exigir mais explicações sobre as ideias dadas pelos colegas, o que não acontece na convivência com os pais; figuras de autoridade, cujas ideias elas tendem a aceitar, sem questionamento.
Assim, a classificação que Piaget (apud, DE LA TAILLE, 1992) propõe para as relações interindividuais dá indicativos importantes à compreensão dos dados obtidos nesse estudo, que entre outros objetivos, busca analisar o nível de colaboração existente nas relações estabelecidas por estudantes
121 e professores em situação de trabalhos em grupo, especificamente na elaboração de textos Wiki. É importante sublinhar, ainda, que, ao longo das suas trajetórias acadêmicas, a maioria das pessoas esteve envolvida nas chamadas atividades em grupo, o que não quer dizer, que se vier a atuar como educadores saberão gerir trabalhos em grupo, pois tendem a atuar tal como seus professores, que também podem ter falhado nessa tarefa, já que em atividades dessa natureza, frequentemente, a participação dos professores se limita a informar no que consiste a atividade e anotar o nome dos componentes, voltando ao grupo apenas quando ela é concluída, para avaliar o resultado obtido. Assim, tendem a considerar, que se o produto foi bom, o grupo funcionou.
Levisky sublinha que na escola, assim como em outros espaços em que se faz a aprendizagem e a convivência social, o sujeito tem a oportunidade de, ao mesmo tempo, entrar “[...] em contato com sintomas individuais e grupais, resultantes dos vínculos estabelecidos nos diferentes grupos a que pertencemos” (2008, p. 49), e ampliar o autoconhecimento, a forma como se relaciona, sente e age nas mais diversas situações com as quais se depara. Essa autora considera de fundamental importância que os educadores saibam trabalhar com sintomas que emergem no âmbito dos grupos existentes nos espaços de aprendizagem, de modo que, a partir disso, possam prever intervenções que permitam romper atitudes cíclicas que emperram o desenvolvimento dos membros do grupo, ajudando-os “[...] a se arriscar e a assumir novas posturas, na medida em que passam a se conhecer na relação com o outro” (LEVISKY, 2008, p. 50).
Desse modo, percebemos que no âmbito da educação a distância ou mediada por tecnologias, de fato, existe maior possibilidade de interação, o que não implica que ela automaticamente esteja garantida, para que se forme uma comunidade pautada pela cooperação. Na aprendizagem face a face, a possibilidade de interação é bastante alta, porque estudantes e professor compartilham o mesmo espaço geográfico-temporal. No entanto, a interação nem sempre ocorre. É possível dizer que o mesmo ocorre nos AVA’s: não é o fato de haver uma ampla gama de ferramentas de comunicação que vai garantir maior interação, cujos níveis se dão em função não apenas das características do meio, mas das estratégias de aprendizagem delineadas para os programas. E, ainda: mesmo que a interação exista, não é a quantidade de mensagens trocadas por uma comunidade que define se a aprendizagem é colaborativa ou não.
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Porém, a introdução cada vez maior da informática na aprendizagem tem sublinhado a iminente necessidade de se implementar uma filosofia educacional que supere o modelo pedagógico baseado na transmissão e assimilação de conteúdos. Nessa via, Hiltz e Benbunan (apud, BÉLANGER, acesso em 21 fev. 2011) sublinham que a interação é o principal fator que conduz a uma aprendizagem eficiente e que, diante disso, todo programa educacional deve ter como primeiro objetivo o intercâmbio de ideias, informações e sentimentos, para permitir o “aprender juntos”, em atitude de cooperação, formando uma comunidade de aprendizagem.
Carvalho (2011), também, destaca que a cooperação é o mais importante elemento para estabelecer a diferença entre redes sociais, marcadas por relações mais frouxas e com menor comprometimento, e comunidades virtuais, em que os laços são mais estreitos, elevando o nível de comprometimento entre os membros. Segundo a autora, a cooperação é essencial para criar e manter a estrutura da comunidade, pois a interação de caráter cooperativo
[...] pode gerar a sedimentação das relações sociais, proporcionando o surgimento de uma estrutura.
Quanto mais interações cooperativas, mais forte se torna o laço social desta estrutura, podendo gerar um grupo coeso e organizado (RECUERO apud, CARVALHO, 2011, p. 38).
Santos argumenta que os softwares Wiki são muito mais que espaços em que se podem escrever textos colaborativamente, constituindo “[...] um conceito inovador de plataforma digital para a produção textual, que permite a ruptura com o valor dado à autoria individual e à linearidade, priorizando a autoria coletiva e o hipertexto baseado em tópicos” (2009, p. 70).
Ao tomar o processo de construção de conteúdo colaborativo como objeto da sua investigação, essa autora relata ter observado uma grande dificuldade para envolver os participantes: a proposta era construir sites Wiki usando a ferramenta Wetpaint, um repositório de sites dessa natureza, para que, em seguida, os estudantes se envolvessem na elaboração de textos coletivos.
A produção de textos com o uso de softwares Wiki, também, esteve no foco da investigação realizada por Veado (2008). A autora empreendeu um estudo de caso envolvendo um grupo de seis estudantes de língua
123 inglesa, que se pôs a construir resenhas de filme em caráter cooperativo, para compreender a cooperação que se estabelecia entre os componentes do grupo e até que ponto a interação influenciava o texto final. Para ela, a Wiki constitui uma ferramenta bastante útil no desenvolvimento da habilidade de expressão escrita. Uma das suas vantagens é ser parecida com editores de texto comuns, poupando energia para entender o funcionamento do software e permitindo maior foco na produção do texto, propriamente dito.
Ela salienta, ainda, outros benefícios, como a geração de rascunhos sempre que uma nova versão é salva e a possibilidade de se comparar as várias versões do texto, destacando-se as alterações efetuadas.
Os benefícios da produção em modo Wiki listados por esses autores foram assumidos como ponto pacífico na condução dessa pesquisa. No entanto, embora eles tenham como foco a colaboração por meio de Wiki, a pesquisa aqui relatada se diferencia porque observa esses dois fenômenos dentro de um lugar social peculiar: a educação formal. Seu foco recai não apenas sobre o uso da Wiki e da possibilidade de colaboração, mas busca compreender o nível de cooperação que permeia as interações entre estudantes de um curso superior de licenciatura, no processo de elaboração de textos com o uso da ferramenta Wiki, do Moodle. Configura, assim, uma tentativa de analisar até que ponto tais interações baseiam-se na coação ou de cooperação, conforme a já apresentada conceituação de Piaget.