Em Portugal, as mulheres já são a maioria no trabalho agrícola.
Cinquenta e um por cento da po- pulação activa é feminina, segundo as últimas estatísticas do sector. Na Beira Interior faltam números, mas a presença feminina impõe-se nos campos. Como assalariadas ou, so- bretudo, na agricultura familiar, esse pilar económico e cultural de uma região onde a matriz rural continua a impor-se.
“Enquanto os homens arranjam emprego, são as mulheres que as- seguram o dia a dia de muitas das pequenas explorações”, diz Graça Rojão, socióloga e coordenadora da associação de desenvolvimento rural Beira Serra. Mas se o papel feminino é fundamental nos campos, “o poder das mulheres é fraco”, acrescenta a
socióloga. Continua a ser o homem que vai mais ao mercado e que de- cide a compra e venda de gado ou o investimento em máquinas agícolas.
O poder masculino “não é questiona- do”, assim como parece pacífico que as mulheres assalariadas ganhem um salário médio inferior, como pagamento de tarefas associadas a um menor esforço. A divisão sexual do trabalho vê-se, por exemplo, nas vindimas, onde as mulheres cor- tam as uvas e os homens carregam os cestos. Se passarem a trabalhos menos pesados, também os homens mais velhos recebem um salário de
Mulheres da Beira // 61
ficam mais caros do que se forem comprados na mercearia, mas não deixam de cultivar os “prédios”. No entanto, mesmo as mulheres criadas nos campos já olham para a agricul- tura “como complemento e não como profissão” e o sentimento geral é que a actividade agrícola representa
“muito trabalho e pouco rendimen-
to”, diz a antropóloga Rosa Duarte.
O caso muda de figura quando se trata de jovens, aos olhos de quem o trabalho agrícola representa um
“desprestígio” a evitar a todo o custo.
“Hoje, vale mais um reles em- prego do que um bom lavrador”, dizem as mais velhas, resumindo o sentimento geral.
Em tempo de apanhar a azeitona, é logo às oito da manhã que Florentina Reis vai para o olival, no Souto da Casa. Mas a geada é tanta que tem de acender uma fogueira para aquecer as mãos, antes de começar a colher a azeitona. “A agricultura é muito ingrata, mas a gente não tem outra maneira de viver”, diz quem trabalha a terra há 40 anos. “Mal saí da escola, meteram-me logo com um sacho nas mãos”, recorda.
Hoje, a única forma de não deixar os prédios ao abandono é tratá-los ela própria. “O rendimento da azeitona não dá para pagar a alguém que a apanhe”, diz Florentina Reis. O que vale é a ajuda entre vizinhos, que vão ao olival do parceiro, para que o parceiro venha ao seu. “Vamo-nos rendendo uns aos outros”.
No fim, o azeite, como as batatas e os feijões, abastecem a mesa de casa. O que sobra já nem vai ao mercado, mas ainda se vende para outras pessoas da aldeia. “Saber o que se come” é uma razão apontada pelas mulheres que continuam a cultivar as peque- nas fazendas. As couves, as cebolas,
o vinho, são de qualidade garantida.
E, apesar dos queixumes, sempre ajudam à economia doméstica.
“Quem tem de comprar tudo, do sal à água, também não sei como se go- verna”, diz Maria José Oliveira, que em nova se fartou de ceifar e ar- rancar batatas. Agora já deixou os campos, mas na sua terra, o Ferro, há trabalhos que estão cada vez mais entregues às mulheres. “Dantes, só os homens é que escavaçavam as vi- deiras. Agora são mais as mulheres”.
Os maridos andam pelos empregos.
Esta é uma realidade semi-oculta do país oficial. A grande quantidade de mulheres que trata das hortas fami- liares fica fora das estatísticas.
Na Beira Interior, os últimos núme- ros são de 1989 (está agora a decorrer novo recenseamento agrícola). Mas, mesmo desactualizados, há dados que mostram o peso das mulheres na agricultura da região. Um deles é o do trabalho sazonal, em que as mulheres fazem, por ano, um nú- mero de horas (831 mil) próximo do dos homens (840 mil) e que equivale a cerca de cem dias. Mas a declarar
Com as mãos na terra
trabalho permanente na agricul- tura, em 1989, eram pouco mais de mil as mulheres da Beira Interior.
Certamente, há muitas a passar os dias nas hortinhas sem que as esta- tísticas o saibam.
Aos 75 anos, Octávia Tomé conti- nua a conduzir o carrinho de mão pelos caminhos de terra. Com gor- ro e avental, vai “deitar comida aos bichos”, que são galinhas, porcos e coelhos. “Às vezes ainda tenho de cavar bocados de terra sozinha”, diz.
Tem batatas, couves e ervilhas por detrás da casa, à entrada do Ferro.
Nunca foi à escola nem se esquece da “pobreza franciscana” que pas- sou na juventude, mas não é por isso que perde o sorriso. “Agora sempre temos a reformazinha”, afirma. Mas
garante que, enquanto puder andar no campo, não tem “génio para ficar em casa”.
A vida nas aldeias está a mudar. Não há jovem que não prefira uma fábri- ca de confecções. Mas as mulheres da Beira começam a afirmar-se nas suas comunidades, nota a socióloga Graça Rojão, com experiência em projectos locais.
Ao mesmo tempo que avança o pro- cesso de “redescoberta do rural” e de valorização dos produtos tradi- cionais, a socióloga afirma que, nas aldeias, “são as mulheres que surgem mais motivadas e se mobilizam para resolver os problemas colectivos”.
Até já dizem que, qualquer dia, vão ser precisos programas de apoio aos homens.
31 de Dezembro de 1999 José Ricardo Carvalheiro
Um bom pastor tem que se lhe diga.
É o que capricha no rebanho. O que sabe selecionar as ovelhas e lhes apura as qualidades de ano para ano.
Tem-nas “boas de leite” e de corpo.
Com os cornos retorcidos próprios da raça “bordaleira”. Nunca com os cornos “escarchados”, que são as
“garrochas”, não prestam. Ou, pior ainda, que não têm cornos, as “mo- chas”. Em Fernão de Joanes diz-se que os pastores “são todos muito vaidosos”. Eles tomam isso como um elogio.
Agora que o sol nasce cedinho e abrasa a meio do dia, Francisco Vendeiro pega no cajado às quatro da manhã. Leva as 38 ovelhas pela serra fora. É o primeiro pastoreio do dia.
À tardinha volta a ir “deitar o gado fora”, que é como quem diz pô-lo a
pastar, até anoitecer. “Antes queria dois invernos do que um Verão”, diz o pastor. Nesta altura faz 20 quiló- metros por dia. Mas nunca leva o gado para muito longe. As longas ro- tas do gado, as invernias na campina da Idanha ou na Cova da Beira, são coisa do passado.
Eram aos três meses longe de casa, a morder o frio e com chuva até aos ossos. “Gemia-se lá”, recor- da Francisco Venteiro, hoje com 62 anos. Era o contrato do “meio leite”, metade para o dono das ovelhas, outra metade para o dono dos pas- tos. Sozinhos, os próprios pastores faziam o queijo, que é tradicional- mente tarefa das mulheres.
A Festa da Transumância nasce este ano, mas transumantes já só há um, o pastor Manuel Ruano, a quem se // Tradição