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Apesar das ajudas que tem tido des- de que chegou a Silvares, no início de Dezembro, Joaquim Brasinha sente- -se “deslocado”. Com 66 anos, já mais africano que beirão, teve de abando- nar Benguela e uma vida que nada sorria ultimamente, mas que era a sua há quatro décadas.

Em Silvares veio encontrar uma irmã e muita solidariedade. À casa que alugou, alguém vem trazer um saco de arroz, umas batatas, um pouco de azeite. Provisões que mal povoam a pequena cozinha – apenas um fogão, uma mesinha quadrangular e duas cadeiras. É aí que nos sentamos para ouvir a história da fuga de Joaquim Brasinha com as suas quatro crian- ças, entre os oito e os 15 anos, que ficam a escutar atentamente o relato do pai.

Benguela pós-eleições: o terror da guerra

“Não faz ideia da alegria que foi”, diz Joaquim Brasinha, falando da paz que Angola alcançou no decorrer

do ano passado.

Apesar de tudo, nos anos de guer- ra civil, Benguela não terá vivido sob ameaça directa: “Os confrontos eram no mato, nós não tínhamos vis- to praticamente nada”. O lado mais visível era o inchar das cidades, onde todos se foram refugiando – “uma casa como esta era capaz de ter 20 pessoas” – e o recrutamento contí- nuo de jovens para a guerra.

Mas, apesar da campanha eleito- ral ter corrido “muito bem”, poucos dias depois das eleições a violência regressou e tomou conta da pró- pria Benguela. Era a ‘discussão’ dos resultados da votação! Um tiroteio ininterrupto reteve, por quatro dias, Joaquim Brasinha dentro de um ar- mazém – “com um grupo de soldados a 30 metros” – e só com água para beber, enquanto os filhos e a mu- lher também se resguardavam das explosões e dos disparos, fechados em casa. “Não podíamos sair”, conta o Joaquim, de 12 anos, que recorda a tentativa gorada da mãe ir arranjar // Retorno

Os fugitivos da guerra // 87

comida. As crianças, assustadas, escondiam-se num quarto.

Quando, finalmente, os confrontos abrandaram, Joaquim Brasinha deci- diu tomar lugar na ponte aérea que aviões militares portugueses estabe- leciam com Brazzaville. Entretanto, a sua mulher havia desaparecido.

Aterrorizado, “com a impressão de que aquilo ia muito longe”, pegou nos filhos e, apenas com um saco de rou- pa, embarcou, mesmo assim, para Portugal. Estava-se na primeira se- mana de Novembro.

“Já nada funciona”

Segundo Joaquim Brasinha, já restam poucos portugueses em Benguela.

Aliás, no avião vinham “só quatro”.

A maioria dos que rumara a Lisboa eram angolanos – “e vinha muita garotada”.

Passaram um mês num quartel, na Amadora, e muitos acabaram por re- gressar a Luanda. Joaquim Brasinha, cidadão português, foi encaminhado para Silvares, com “algum dinheiro”

que a Segurança Social lhe deu.

A Beira era a região que “ainda tinha um bocadinho na cabeça”. Dela saíra nos anos 50 e, em Benguela, come- çara uma vida nova, a trabalhar na construção civil. Uma vida tão ra- dicalmente nova que, por cá, nunca mais ninguém soube dele. Incluídas a mulher e as duas filhas, que deixou ainda crianças.

“Foi o tempo e a distância”, justifi- ca Brasinha. Agora, à chegada, não

faltaram surpresas: descobriu que é divorciado – não se lembra de “ter assinado papel nenhum” – e encon- trou uma irmã mais nova de quem nem se recordava, mas que tem sido o seu principal amparo em Silvares.

Da actual mulher, angolana, nada sabe para além da falta que faz aos filhos. Já escreveu um par de car- tas, mas não tem notícias. E imagina Benguela hoje. “Nada deve funcionar.

A zona comercial e industrial ficou toda no chão e deve lá estar uma fome que Deus me livre. Todavia, está no seu espírito voltar para “tratar dos documentos e de uns negócios”

que deixou por resolver. Mas isso, só

“daqui a uns três anos”, altura em que calcula que tudo esteja mais calmo, até porque, “a matarem-se como se estão a matar, aquilo não pode durar muito tempo”.

Como ganhar uns tostões?

A sua preocupação imediata é le- galizar a situação dos filhos, que já frequentam a escola desde a semana passada. Mas a falta de perspectivas não deixa dormir Joaquim Brasinha:

“Com esta idade, onde vou eu ganhar meia dúzia de tostões?”

É que os últimos anos em Angola já foram vividos “tristemente” e, mes- mo lá, não ficaram grandes haveres.

O desmoronar da sociedade angola- na apanhou o ganha-pão de Joaquim Brasinha: um armazém que abaste- cia com meio de transporte próprio e que ficou vazio a partir do momento

em que deixou de haver peças para reparar o automóvel.

O clima de medo que a guerra fra- tricida instalou em Angola é revelado pela decisão de Joaquim Brasinha não dizer algo que o possa compro- meter na viagem que espera fazer a Benguela. Mesmo assim, solta alguns comentários à situação política, en- quanto acende mais um cigarro com um isqueiro de propaganda ao par- tido de Savimbi: “A Unita achou-se defraudada nas eleições e atirou-se para a guerra. Talvez se tenha pre- cipitado, se fosse só para a oposição era capaz de resultar”.

Regresso à penúria

O caso de Joaquim Brasinha não é único na região. Bem perto de Silvares, em Aldeia de São Francisco de Assis, há uma situação parecida:

outro que fugiu ao terror da guerra, voltando apressadamente com mu- lher e filhos angolanos.

Em pequena escala, é uma espécie de refluxo. Gente que saiu daqui e se manteve em Angola nos anos contur- bados da independência e da guerra civil, acaba por ter um regresso im- previsto e de mãos vazias.

Joaquim Brasinha, que há 40 anos quis largar a miséria e os perigos da mina, retorna em situação de “penú- ria” e repara nas “aldeias de viúvas, só viúvas”. Aldeias que “só cresce- ram em casas, construídas por quem anda lá fora”.

Apanhado nas voltas da vida, chega quando se fala no encerramento das minas e, afinal, está tudo na mesma.

Se a mina fecha, não se sabe “o que vai ser destas aldeias”.

15 de Janeiro de 1993 José Ricardo Carvalheiro

IV. MIGRAÇÕES

A neblina dos tempos não deixa ver com total clarividência a plena cons- telação de desígnios que leva à saída, à escondida amargura do adeus, ma- nifestada em pequenos gestos.

Emigrar é deixar para trás, é trocar o rol das infelicidades conhecidas por um travo de sonho. É assim que vai construindo o caminho de saída.

É assim que a decisão se vai alimen- tando, nas agruras do quotidiano, cimentada na escassez de tudo para quase todos. Numa sardinha para três. Para trás ficou um Portugal de ditadura, de pobreza, de uma imensa mágoa, um país de esperança lívida, refém dos seus embargos psicológi- cos e amarras avulso.

Um adeus é complexo. Aquele adeus por trás deste gesto, deste último olhar para a terra antes de se desa- parecer na noite das amarguras. Na noite que está aqui como eterna tes- temunha, nas longas vigílias a que os

Pirenéus ainda distam. Parece uma vida. À frente alguém os leva, os guia nas fintas às polícias portuguesas e espanholas. São eles que os entrega- rão no seu destino e na volta trarão metade de uma foto que se irá jun- tar a outra que ficou. Quando a foto se completar, a missão foi cumprida:

está em França. Esta foi a história de milhares de portugueses.

O coordenador do Observatório da Emigração, Rui Pena Pires, avan- çou recentemente no Parlamento durante na Comissão Parlamentar de Negócios Estrangeiros e Comu- nidades Portuguesas que entre 70 e 75 mil portugueses emigram cada ano. Sem certezas absolutas, porque não existem dados absolutamente fiáveis que possam dar a escala da exactidão à saída. Mas se o indicador avançado estiver próximo da reali- dade actual, aproxima-se das médias dos anos 60 do século passado, mas // As incríveis aventuras da emigração na raia portuguesa e espanhola

Os que forçaram a porta