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NATUREZA JURÍDICA DO LEASING

No documento Vinicius Fengler.pdf - Univali (páginas 71-75)

bens arrendados, na medida em que se evita o comprometimento do capital de giro194, como se viu anteriormente.

locação197. Eis aí uma diferença entre os institutos. A outra verifica-se na questão do objeto dos contratos, já que a alienação fiduciária compreende somente bens móveis, enquanto o arrendamento mercantil pode ter com objeto um bem imóvel.

Ainda, é válido colocar que nem mesmo a antecipação do pagamento do valor residual, realizado juntamente com as parcelas pagas a título de locação, é fato que enseja a desconsideração do contrato do leasing para contrato de financiamento. A esse respeito o Superior Tribunal de Justiça editou o verbete sumular n. 293, conforme segue: “A cobrança antecipada do valor residual garantido (VRG) não descaracteriza o contrato de arrendamento mercantil”198.

Em complementação, cita-se excerto jurisprudencial do Tribunal de Justiça de Santa Catarina:

Sustenta a apelante a descaracterização do contrato de leasing para que seja considerado como de financiamento, uma vez que recolheu antecipadamente o valor residual garantido.

Razão não lhe assiste.

Restou pacificado no colendo Superior Tribunal de Justiça que: "A cobrança antecipada do valor residual garantido (VRG) não descaracteriza o contrato de arrendamento mercantil" (Súmula n.

293).

Neste sentido, colacionam-se os seguintes julgados:

“CIVIL. ARRENDAMENTO MERCANTIL. VRG. ANTECIPAÇÃO.

DESCARACTERIZAÇÃO. NÃO OCORRÊNCIA.

1- A jurisprudência iterativa desta Corte, cristalizada no verbete sumular nº 293, orienta-se no sentido de que a cobrança antecipada do valor residual garantido (VRG) não descaracteriza o contrato de arrendamento mercantil.

2 - Recurso conhecido e provido para que seja julgado o pedido de rescisão do contrato no primeiro grau de jurisdição” (REsp n.

630.870/RS, Rel. Min. Fernando Gonçalves, DJU de 1º-7-2004).

E ainda:

“Embargos de declaração. Agravo regimental. Recurso especial.

VRG. Arrendamento mercantil. Súmula n. 293/STJ.

1. Na linha da jurisprudência firme da Corte, assentada na interpretação dos artigos 5º e 11, § 1º, da Lei nº 6.099/74, ‘a cobrança antecipada do valor residual garantido (VRG) não descaracteriza o contrato de arrendamento mercantil’” (Súmula n.

293/STJ) (EAREsp n. 586.610/MT, rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito, DJU de 2-8-2004).

Acolhendo esta interpretação, o Grupo de Câmaras de Direito Comercial desta Corte editou o Enunciado n. VII, que dispõe: "A cobrança antecipada do valor residual garantido (VRG) não descaracteriza o contrato de arrendamento mercantil".

197 RIZZARDO, Arnaldo. Leasing: Arrendamento Mercantil no Direito Brasileiro.4. ed. rev. ampl. e atual. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000. p . 61.

198 http://www.stj.jus.br/SCON/pesquisar.jsp. Acesso em 13/10/2009. Publicada no Diário da Justiça em 13/05/2004. p. 183.

Diante disso, não merece provimento o recurso neste aspecto, já que a cobrança antecipada ou parcelada do Valor Residual Garantido não descaracteriza o contrato de leasing para o de financiamento.199

No que toca a promessa de compra e venda, a semelhança e diferença evidenciam-se ao mesmo tempo. É que o arrendamento mercantil somente comporta a promessa de venda pelo arrendador, na hipótese de o arrendatário optar por ficar com o bem. É a exegese do artigo 5º da Lei n. 6.099/74, mais precisamente na alínea “c” do respectivo dispositivo: “opção de compra ou renovação de contrato, como faculdade do arrendatário”200. Logo, não há promessa de compra por parte do arrendatário, somente de venda pelo arrendador.

Igualmente em razão dessa opção que detém o arrendatário ao final do contrato, diferencia-se o leasing do contrato de mútuo201. Até porque o contrato de mútuo é de caráter unilateral202, diferentemente do arrendamento mercantil.

Unilateral também é o mandato, que se constitui “quando alguém recebe de outrem poderes para, em seu nome, praticar atos ou administrar interesses” (artigo 653, do Código Civil brasileiro203). Decerto que se verifica tal traço do mandato no leasing, já que o arrendatário, enquanto apenas na locação da coisa, fica incumbido de guardá-la e conservá-la. Todavia, outra diferença o afasta do arrendamento mercantil, justamente porque o arrendamento tem cunho econômico, característica não inerente ao mandato.

Por fim, quanto à locação, Venosa, ao contrário de Mancuso, assevera que é esta a “idéia centralizadora” do contrato de arrendamento mercantil204. Por outro lado, além da locação, o leasing propicia o capital de giro, a possibilidade de compra, além do que suas prestações não são somente a remuneração pelo

199 BRASIL. TJSC. Apelação Cível n. 2004.034115-9, relator Desembargador Cláudio Valdyr Helfenstein, julgado em 06/08/2009, publicado em 17/09/2009. Disponível em:

<www.tj.sc.gov.br/jurisprudencia>. Acesso em 17/10/2009.

200 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L6099.htm. Acesso em 13/10/2009.

201 COMPARATO, Fábio Konder apud MANCUSO, Rodolfo de Camargo. Leasing. 3. ed. rev e ampl.

São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002. p. 35.

202 [contratos] “em que só uma das partes se obriga em face da outra. [...]. É o caso ainda do depósito, do mútuo e do mandato, além do comodato.” (MONTEIRO, Washington de Barros. Curso de Direito Civil: Direito das Obrigações. 34. ed. rev. e atual. por Carlos Alberto Dabus Maluf e Regina Beatriz Tavares da Silva. São Paulo: Saraiva, 2003.v. 5. 2ª parte. p. 24.).

203 Código Civil e Constituição Federal. Colaboradores: Antônio Luiz de Toledo Pinto, Márcia Cristina Vaz dos Santos Windt e Lívia Céspedes. 12. ed. São Paulo: Saraiva, 2006. p. 76.

204 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito Civil: Contratos em Espécie. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2004. v. 3.

p. 626.

aluguel. Nelas estão contidos os custos operacionais, o desgaste da coisa e o lucro da instituição financeira205. Sobre o assunto:

A maior afinidade é com a locação, mas não pode ser tido [o leasing]

como simples modalidade desse contrato porque encerra elementos jurídicos próprios que impedem a assimilação e rejeitam a integral submissão ao seu regime legal.206

Nesse passo, não há encaixar o leasing em qualquer outra forma de contrato que seja pré-existente a ele, ante a sua evidente e inegável complexidade, na medida em que se trata da compilação de diversos outros negócios jurídicos que, individualizados, obviamente, não comportam o seu espírito207.

Assim, infere-se “que o leasing é, pois, contrato misto, por conter elementos obrigacionais de origem diversa, mas coalizados e harmonizados pela unidade de causa”208.

A seguinte citação, extraída de julgado exarado pelo Supremo Tribunal Federal elucida bem a questão da caracterização do contrato misto:

O que caracteriza o contrato misto (ou complexo) é a coexistência de obrigações pertinentes a tipos diferentes de contratos, enlaçadas pelo caráter unitário da operação econômica, cujo resultado elas asseguram. Ele se distingue da união de contratos, que se caracteriza pela coexistência, num mesmo instrumento, de tais obrigações simplesmente justapostas, sem a amálgama da unidade econômica aludida. No caso de união de contratos, pode ser anulado ou rescindido um deles, sem prejuízo dos outros, enquanto que, em se tratando de contrato misto, o grau de síntese alcançado torna inseparáveis as partes ou elementos do negócio.209

É exatamente o que se verifica no contrato de leasing, havendo impor-se o seu reconhecimento como instituto autônomo, próprio, típico.

205 RIZZARDO, Arnaldo. Leasing: Arrendamento Mercantil no Direito Brasileiro.4. ed. rev. ampl. e atual. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000. p . 159 - 160.

206 GOMES, Orlando. Contratos. 24. ed. atualizada por Humberto Theodoro Júnior. Rio de Janeiro:

Forense, 2001. p. 461.

207 WALD, Arnoldo. Curso de Direito Civil Brasileiro: Obrigações e Contratos. 12. ed. rev., ampl. e atual. (colaborador) Semy Glanz. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1995. v. 2. p. 472.

208 MANCUSO, Rodolfo de Camargo. Leasing. 3. ed. rev e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002. p. 46.

209 BRASIL. STF. Recurso extraordinário n. 79562/SP, relator Ministro Rodrigues Alckmin, julgado em 10/02/1976, publicado em 26/03/1976. Disponível em: <www.stf.jus.br>. Acesso em 18/10/2009.

3.3 DA IMPOSSIBILIDADE DE A NORMA TRIBUTÁRIA MODIFICAR

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