E, com esse espírito, chega-se a justificativa para a inclusão do pacto de não concorrência no anteprojeto, feita da seguinte forma192:
51. Disciplinou-se o pacto de exclusão de concorrência, previsto na legislação comparada e que vem sendo adotado por algumas empresas.
Assim como ocorrera na proposta legislativa de Evaristo de Moraes Filho, o anteprojeto em estudo decidiu adotar a nomenclatura “exclusão de concorrência”
para se referir ao instituto.
Da mesma forma, a existência de regulamentação da matéria em diplomas legais estrangeiros foi reconhecida pela Comissão como motivo relevante para a inclusão do tema no anteprojeto.
Curiosa, contudo, é a justificativa de que a adoção da cláusula de não concorrência por algumas empresas era uma das razões que motivara a Comissão a inserir a regulamentação no projeto legislativo.
Enquanto Evaristo de Moraes Filho declaradamente buscou um instrumento que servisse para compor o conflito de interesses entre o empregador que teme a concorrência desleal do ex-empregado e o trabalhador que não pode ser privado de sua liberdade de trabalhar sem qualquer tipo de remuneração, o trabalho dirigido por Arnaldo Süssekind não informou nenhuma dessas preocupações, mas sim a de legitimar uma medida que já vinha sendo praticada pelos empregadores brasileiros.
Essa postura encontra explicação na visão do Direito do Trabalho que é abraçada e defendida na justificação sumária do anteprojeto, o qual, em seu primeiro item, afirma que193
De acordo com o entendimento dominante na doutrina e na jurisprudência, deixou-se nítida a natureza contratual da relação de emprego. Como já ressaltou ilustre jurista francês, a idéia do contrato corresponde a uma noção central: a da liberdade do indivíduo. Dignifica, assim, a pessoa humana do trabalhador, o que constituiu a finalidade primordial do Direito do Trabalho.
A ótica contratualista do Direito do Trabalho abraçada pela Comissão encarregada de elaborar o anteprojeto explica os fundamentos utilizados para justificar a necessidade de inclusão do dispositivo em análise no âmbito da CLT.
A previsão sobre o pacto de não concorrência foi inserido no Título II do anteprojeto, que versa sobre o contrato individual de trabalho, sendo parte de seu
192 Idem, p.6.
193 Idem, ibidem.
Capítulo I, destinado a tratar das disposições gerais que devem reger o contrato de emprego.
Foi redigido para ser o artigo 26 da nova Consolidação, com o seguinte texto194:
Art. 26. É válido o pacto de exclusão de concorrência, desde que celebrado por escrito, por período não superior a dois anos, e dele conste uma compensação mensal em favor do empregado, durante sua vigência.
Parágrafo único. O pacto deverá cingir-se ao desempenho das mesmas funções exercidas anteriormente e limitar-se a determinada área geográfica.
A norma guarda algumas similitudes e outras tantas diferenças em relação ao texto de Evaristo de Moraes Filho.
Começando-se pelas semelhanças, verifica-se a da formalidade do ato, uma vez que a validade do pacto estava intimamente ligada à sua celebração por escrito, não sendo admitida pactuação verbal.
Como exposto, trata-se de medida importante, visando garantir a clareza das obrigações assumidas, em especial pelo empregado.
A norma em análise tampouco disciplina o momento contratual em que o pacto deve ser celebrado, repetindo a técnica adotada por Evaristo de Moraes Filho, valendo aqui as mesmas críticas anteriormente expostas.
Outra similitude é a de que a pactuação também terá limites de objeto, tempo e lugar, ainda que tais limites não sejam exatamente os mesmos que foram previstos no anteprojeto de Código de Trabalho de 1963.
Quanto ao lugar, assim como no texto de Evaristo de Moraes, não há uma definição clara de quais serão os limites geográficos a serem observados, induzindo à conclusão de que o pacto poderá excluir a concorrência do ex-empregado ao menos em qualquer local em que o antigo empregador desenvolva sua atividade econômica.
Entretanto, nada impede que os contratantes fixem limites geográficos superiores, uma vez que o texto legal nada dispõe em sentido contrário.
Da mesma maneira que no anteprojeto de 1963, o artigo 26 não disciplina as consequências a serem enfrentadas pelos contratantes na hipótese de descumprimento do pacto de não concorrência.
194 Idem, p. 20.
Em relação à duração, o anteprojeto de CLT de 1979 limita os efeitos do pacto ao período máximo de dois anos, independentemente do cargo exercido pelo trabalhador.
Assim, difere do anteprojeto de 1963, tanto na duração máxima, quanto na possibilidade de que empregados com maior grau de confiança e responsabilidade sejam submetidos a impedimento por período superior aos demais empregados.
E esse é um dado importante: de acordo com a redação do artigo em comento, qualquer empregado pode celebrar o pacto de não concorrência, o que faz com que se assemelhe ao anteprojeto de Evaristo.
O objeto da cláusula de não concorrência é mais restrito no anteprojeto de Arnaldo Süssekind do que no de Evaristo de Mores Filho: enquanto esse permite o impedimento em atividades análogas, aquele só autoriza o pacto em relação às mesmas atividades.
Com isso, não há óbice a que o empregado se reinsira no mesmo ramo de atividade econômica, desde que não desempenhe as mesmas atividades que realizava em favor de seu ex-empregador.
Por fim, o anteprojeto de 1979 também propugnava a necessidade de pagamento pelo impedimento assumido pelo trabalhador.
Diversamente do modelo proposto por Evaristo, na sistemática do artigo 26 do anteprojeto de 1979 o pagamento necessariamente seria mensal, enquanto perdurasse o pacto, não havendo autorização para que o pagamento seja realizado em uma única parcela.
Contudo, nenhum parâmetro para a fixação do pagamento é disposto, relegando-se às partes sua negociação.
Reproduzindo em parte o que fizera o anteprojeto de Evaristo, a norma em análise denomina o pagamento de “compensação”, abstraindo o conceito jurídico de compensação como forma de extinção de obrigações recíprocas.
A impressão que se tem ao analisar tanto a proposta de Evaristo, quanto a de Süssekind é a de que nenhum dos dois anteprojetos preocupou-se com a natureza jurídica do pagamento que deve ser feito ao empregado em troca do impedimento assumido.
O anteprojeto de CLT de 1979 não prosperou. Segundo o ex-Ministro do TST, Almir Pazzianotto, em palestra proferida durante o seminário “Novas Relações de Trabalho para o Brasil do Século XXI”, promovido pelos Diários Associados, em
conjunto com a CBIC e a CNI, no dia 7 de novembro de 2012, na sede do jornal Correio Braziliense195:
O reaparecimento dos movimentos grevistas em 1978, a partir do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, estimulou o Presidente João Figueiredo a retomar a idéia de atualização da CLT, lançada em 1974, e reavivada em 1975, com a criação de Comissão Interministerial instituída pelos Ministros da Justiça e do Trabalho.
Da Comissão constituída por 9 juristas, presidida pelo Dr. Arnaldo Lopes Süssekind, resultou Anteprojeto divulgado em março de 1979. Sobre o trabalho, a revista Veja, na edição de 9 de maio, estampou matéria com o título ‘Grande por fora – O anteprojeto da CLT com mais de 1.300 artigos’.
Trazia a reportagem a opinião de ‘Lula e outros sindicalistas’, os quais diziam ‘não adianta remendar a CLT’. Necessária se faz, afirmavam, uma lei básica com garantias mínimas, como o máximo da jornada de trabalho, por exemplo, deixando o resto para ser discutido em convenção coletiva.
Prossegue a matéria: ‘Pelo menos no que diz respeito aos ‘remendos’, o governo parece concordar com Lula.