A autora explica que pidgin é uma língua não materna, com estrutura simplificada, que é usada na intercompreensão de comunidades linguísticas diferentes e originando-se da língua do colonizador. O termo teria origem em business. Já crioulo é o resultado da adoção do pidgin, transformado em língua materna. Sua origem vem do verbo português criar e viria de criadouro.
Continuando a explicação, Nelly de Carvalho (2009, p. 46-47) acrescenta que a denominação língua franca ou sabir engloba todas as mesclas linguísticas de contato para a intercomunicação em situações bilíngues ou plurilíngues. O termo língua franca teria sido usado pelos árabes e turcos (povos invadidos) para designar a língua do povo invasor.
Atualmente designa qualquer língua de intercurso.
O certo é que estes falares (pidgin e crioulo) resultam dos contatos entre colonizado e colonizador em diversas partes da América, Ásia e África e realizam-se como caso extremo de contato e intervenção linguístico-cultural. (CARVALHO, 2009, p. 47)
Peter Burke (1997, p. 18) afirma que do início do século XVI em diante as críticas aos diferentes jargões sobejam e algumas delas expressam xenofobia, como no caso da rejeição alemã ao jargão dos judeus. Outras enfatizam a ininteligibilidade e a mistificação dessas línguas especiais.
O autor concorda com os seus leitores ao mencionar que eles podem sentir aversão por jargão, seja por motivos estéticos ou porque ele é um obstáculo à comunicação eficiente, distinguindo as críticas ao jargão das relações com os conflitos e solidariedades sociais, pois acredita que a tarefa de um historiador social da linguagem seja revelar os diversos elos entre a linguagem e a sociedade. (BURKE, 1997, p. 20)
No início da Europa moderna, por exemplo, o surgimento das críticas ao jargão está associado aos movimentos autoconscientes para a reforma da língua, sendo a Itália do século XVI e a França do século XVII os casos exemplares. Nessas duas culturas críticos e poetas tentaram elevar o status do vernáculo, conferindo-lhe a mesma dignidade do grego antigo e do latim. Para isso, era necessário “purificar”, ou
“purgar”, a língua comum das metáforas recorrentes e reveladoras. [...] A boa língua tem de ser “casta”. Ela deve ser legítima, e não uma língua “bastarda”. Deve ser independente, não “parasítica”; saudável e não “doente”.
Assim, para começar, ficavam de fora as palavras estrangeiras, uma vez que elas violavam ou adulteravam um vernáculo percebido como “puro” (a ligação entre as críticas ao jargão e xenofobia já foi mencionada). Saíam também os termos técnicos das profissões, ofícios e até atividades liberais, palavras “baixas” associadas a pessoas “baixas”, o que nos faz lembrar que o grupo associado a essas reformas era aristocrático, ou pelo menos apresentava-se assim. (BURKE, 1997, p. 20-21)
Consideramos pertinente citar esse movimento de reforma das línguas, datado dos séculos XVI e XVII, pois se enquadra perfeitamente no que está contido dos Artigos 5º, 6º, 7º e 8º do Projeto de Lei nº 1676 de 1999, de autoria do deputado Aldo Rebelo, que,
complementados pela sua “Justificação”, parte da qual citamos abaixo, revelam uma profunda xenofobia e intolerância, conforme aconteceu nos séculos mencionados.
De fato, estamos a assistir a uma verdadeira descaracterização da língua portuguesa, tal a invasão indiscriminada e desnecessária de estrangeirismos - como "holding",
"recall", "franchise", "coffee-break", "self-service" - e de aportuguesamentos de gosto duvidoso, em geral despropositados - como "startar", "printar", "bidar",
"atachar", "database". E isso vem ocorrendo com voracidade e rapidez tão espantosas que não é exagero supor que estamos na iminência de comprometer, quem sabe até truncar, a comunicação oral e escrita com o nosso homem simples do campo, não afeito às palavras e expressões importadas, em geral do inglês norte- americano, que dominam o nosso cotidiano, sobretudo a produção, o consumo e a publicidade de bens, produtos e serviços, para não falar das palavras e expressões estrangeiras que nos chegam pela informática, pelos meios de comunicação de massa e pelos modismos em geral.
Ora, um dos elementos mais marcantes da nossa identidade nacional reside justamente no fato de termos um imenso território com uma só língua, esta plenamente compreensível por todos os brasileiros de qualquer rincão, independentemente do nível de instrução e das peculiaridades regionais de fala e escrita. Esse - um autêntico milagre brasileiro - está hoje seriamente ameaçado.
Que obrigação tem um cidadão brasileiro de entender, por exemplo, que uma mercadoria "on sale" significa que esteja em liquidação? Ou que "50% off" quer dizer 50% a menos no preço? Isso não é apenas abusivo; tende a ser enganoso. E à medida que tais práticas se avolumam (atualmente de uso corrente no comércio das grandes cidades), tornam-se também danosas ao patrimônio cultural representado pela língua. (Projeto de Lei Nº 1676 de 1999)
Com relação à função dos jargões, Peter Burke (1997, p. 22) afirma que a uma delas é a da conveniência prática. Significa usar termos técnicos, abreviações e alusões em vez de explicar tudo com detalhes, “em outras palavras, “talking shop” [falar de negócios ou de assuntos profissionais] (um dos termos favoritos do século XIX, que combinava desprezo pelo jargão e desprezo pelo comércio).” O autor acrescenta que “shop” tem algumas das características do que o sociolinguista Basil Bernstein chamou de “código restrito”, em especial a dependência que o significado tem em relação a um contexto específico. O resultado é a comunicação mais rápida entre os iniciados. “Os leigos não entenderão, mas então esse tipo de conversa não lhes diz respeito.”
Podemos dar exemplo aqui desse “código restrito” pelo uso freqüente de anglicismos como commodities, private equity, tradable, no tradable, joint venture, swap, bond, dumping, hedge, etc., nos números da revista CE, parte de nosso corpus pesquisado, e que pressupõe-se ser de fácil compreensão para os economistas, já que essa revista se destina a esse público, conforme mencionaremos adiante.
EXEMPLO: “Parte dessas importações é consequência de mais investimentos em áreas produtivas: a demanda do setor petrolífero por máquinas e equipamentos e a contratação de transporte aquaviário para escoar commodities.” (C.E., Ed. de setembro de 2014, vol. 68, nº09, p.31)
EXEMPLO: “Se a taxa baixar, não só a infraestrutura vai se beneficiar, como também o private equity e os imóveis. (C.E., Ed. de janeiro de 2015, vol. 69, nº 01, p. 23)
EXEMPLO: E apesar desse movimento do dólar não ser novo – a alta do dólar começou no início de 2011 -, até agora não influenciou significativamente a relação dos preços tradables x no tradables, que contou com outros fatores para se sustentar. (CE, volume 69, nº01, de janeiro de 2015, pág. 51)
Ainda dentro da função dos jargões, Peter Burke (1997, p. 23) postula que os historiadores desconfiam das tentativas de reduzir as explicações dos fenômenos sociais e culturais àquilo que é útil, eficiente ou conveniente, acrescentando que a linguagem é um sistema simbólico e que devemos nos perguntar sobre as possíveis funções simbólicas do jargão. Assim, o conteúdo dos jargões da mesma forma que sua própria existência traz consigo significados simbólicos, pois os jargões são ricos em figuras de linguagem, especialmente metáforas e eufemismos.
..., a vítima dos vigaristas na Londres elisabetana era conhecida como “Cony”, ou pobre coelho tolo, ao passo que nos séculos XVIII e XIX ela havia se tornado
“pigeon” [pombo] a ser “depenado” (em espanhol também a vítima era conhecida como palomo). No jargão dos prisioneiros, em mais de uma língua, confessar ou informar é “cantar”, e o informante é um “canário”. (BURKE, 1997, p. 24)
Encontramos em nosso corpus um exemplo disso, onde os termos ingleses dove (pombo) e hawk (falcão) são usados metaforicamente para classificar o economista, escolhido por Dilma Rousself, para enfrentar a alta de preços:
EXEMPLO: No início do primeiro mandato de Dilma Rousseff, vários economistas e algumas publicações – EXAME em especial – chamaram a atenção para a necessidade de o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, ser implacável com a alta de preços. Usando expressões importadas dos Estados Unidos para classificar os economistas, Tombini, o escolhido de Dilma, estava mais para dove (pombo), que defende uma abordagem menos agressiva diante do perigo de inflação, do que para hawk (falcão). Resultado: a inflação anual média do primeiro mandato foi de 6,2%. (E, ed. 1086, ano 49, nº 6, 01/04/2015, p. 70) (Grifo meu)
Encontramos outro exemplo em nosso corpus, quando o termo iceberg (grande massa de gelo flutuante que se desprendeu de glaciar ou de plataforma de gelo continental, e que anda à deriva nos mares árticos e antárticos, ou, às vezes, encalha junto à costa) é usado para dar uma dimensão do problema enfrentado. Aqui “ser a ponta do iceberg” significa que é
apenas um dos aspectos de um grande problema. Assim, o termo “iceberg” também está sendo usado metaforicamente.
EXEMPLO: Outro dado alarmante é que em 81% dos hospitais, o maior problema é o déficit no quadro de profissionais; em 63% deles há constante falta ao trabalho dos funcionários. Essa parece ser somente a ponta do iceberg de um problema mais complexo, de gestão e não tanto de recursos, sem desmerecê-los. (CE, volume 68, nº11, de novembro de 2014, pág. 60)
Ieda Maria Alves (2001, p.175) também observa
“...o economês é pleno de metáforas. O emprego figurado, presente na linguagem das ciências e das técnicas, como também nos sistemas semióticos utilizados nas ciências, não se mostra incompatível com a busca de precisão que caracteriza as terminologias, enfatiza Kocourek [...] (1991, p. 167). Assim, pelo procedimento da transferência semântica – que contribui, justamente com as criações formais (derivação, composição, formações sintagmáticas e por siglas) e os empréstimos uma das possibilidades de criação neológica (cf. Guilbert, 1975; Boulanger, 1979) -, os economistas vão atribuindo a palavras da língua geral e a termos de diferentes áreas técnicas um outro significado e criando, assim, termos do domínio da economia.”
Francisco Labate (2008) cita Kucinski (1996, p. 167) ao afirmar que no jornalismo dedicado à economia um dos principais problemas de linguagem reside no fato de ele se dirigir a pelo menos dois públicos bem diferenciados, que se comunicam por códigos próprios:
de um lado, especialistas, grandes empresários e profissionais do mercado; de outro, o grande público e os pequenos empresários. O grande público e os pequenos empresários sentem-se permanentemente agredidos pela linguagem técnica inevitavelmente usada no jornalismo econômico. Os mecanismos principais da economia não são necessariamente complexos numa primeira aproximação, mas há detalhes, às vezes importantes, de explicação difícil. Frequentemente, as prórpias fontes do mercado alimentam uma aura de mistério em torno de suas transações, disseminando expressões exóticas. (LABATE, 2008, p. 106)
Concluindo, o autor acrescenta que o tratamento da informação deve ser crítico e que o desafio do jornalista está em reportar e analisar, transmitir opiniões de economistas e governo, sem usar linguagem que as pessoas comuns não entendam, e sem violar os conceitos criados pela linguagem dos economistas. (LABATE, 2008, p. 107)
Walter Nash afirmou que não se trata apenas de “shop talk”, mas também de “show talk”, um meio de impressionar os não iniciados. Damos como exemplo o vernáculo latinizado dos advogados. “O uso do jargão por um grupo social é um dos meios mais potentes de inclusão e exclusão.” (BURKE, 1997, p. 23)
Sírio Possenti comenta que a crítica aos jargões é romântica, uma espécie de utopia pré-Babel. “Não dá para falar de linguística sem usar jargão. Um aspecto constitutivo de qualquer saber é a linguagem própria”, afirma Possenti. Segundo ele, é ingenuidade tentar combater as divisões sociais começando pela língua. “O problema é a mídia ouvir o economista sobre a alta de juros, em vez de ouvir o feirante”, argumenta. “Economista usa jargão, feirante usa gíria, mas a diferença entre os dois fenômenos linguísticos é menos científica e mais baseada no status”, segundo ele. “Na verdade, é uma distinção social. Jargão é a gíria dos bem-postos, e gíria é o jargão dos despossuídos.” (HELVÉCIA, 2003)
Assim, conforme podemos observar, os grupos sociais e profissionais tendem a criar sua própria linguagem. Assim acontece com os economistas. O economês é a linguagem própria da área de economia. No entanto, muitas vezes o aspecto depreciativo, obscuro e corporativista desta linguagem é enfatizado.
Ieda Maria Alves (2001, p.178) postula que a introdução de termos do economês nos dicionários de língua pode indicar que esses termos não mais são usados exclusivamente por economistas e constituem unidades lexicais de interesse dos demais usuários da língua.
Podemos exemplificar essa afirmativa com os seguintes anglicismos encontrados em nosso corpus: bond, commodity, default, hedge, joint venture, leasing, merchandising, overnight, spread, que estão dicionarizados e que correspondem a palavras ou expressões de interesse do público geral.
Dessa forma, os termos técnicos vão aos poucos se introduzindo na língua, passando a fazer parte do léxico.
“Os jargões decorrem, pois, do registro social que certas atividades alcançam em determinadas épocas, fazendo com que seu vocabulário técnico, quase sempre muito restrito, conhecido por uma minoria, alcance também prestígio social. Justamente aqueles que desejam usufruir desse prestígio é que acabam por banalizar o vocabulário técnico profissional.” (ALVES, 2001, p. 179)