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Primeira Fase: Transformações Imediatas

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 63-67)

Quando as palavras passam de uma língua para a outra, é natural que se manifestem de imediato algumas transformações. Estas transformações serão tanto mais significativas quanto maior for a diferença entre as línguas, levando-se em conta aspectos como a estrutura morfológica, os parâmetros sintáticos, etc.

No entanto, por uma determinada palavra manifestar essas transformações imediatas, não se pode afirmar com certeza que um dia ela virá a ser integrada no léxico. Existem, com efeito, muitos casos de palavras importadas de outras línguas que não chegam a perder o estatuto de estrangeirismo, ou seja, que não passam pelas transformações necessárias para integrar o inventário de formas lexicais disponíveis na língua. É nessa situação que geralmente se encontram os nomes próprios estrangeiros, assim como as palavras que designam realidades específicas de outras culturas.

Consideram-se, então, algumas das propriedades evidenciadas pelas palavras estrangeiras na primeira fase de integração: adaptação morfossintática imediata; monossemia, ou seja, manutenção do significado com o qual a palavra é importada; grafia da língua de origem e hesitação nos tipos gráficos.

Os tipos de adaptações morfossintáticas que ocorrem nas palavras estrangeiras logo na primeira fase do processo de integração se referem à atribuição de gênero e da integração numa classe de palavras. O primeiro fenômeno é particularmente relevante no que diz respeito aos nomes comuns importados do inglês, que possuem uma marca de gênero inexistente na nossa língua. Quanto ao segundo, acreditamos que se trata de uma operação relativamente trivial, pelo fato de a categoria sintática da palavra normalmente não mudar na passagem de

uma língua para a outra, a não ser nos casos em que temos estruturas sintaticamente analisáveis na língua de origem, mas não no português.

Ieda Maria Alves (2007, p. 81) afirma que, no que diz respeito à categoria de gênero, a unidade lexical por empréstimo tende a flexionar-se de acordo com o gênero do idioma doador, mas, nos casos em que o elemento estrangeiro provém de idiomas em que não há flexão de gênero, como o inglês, o item lexical emprestado costuma adotar o gênero masculino, o não-marcado: no ranking. A autora acrescenta que a flexão de gênero pode também ocorrer com o equivalente em português da unidade léxica emprestada: uma corporation = corporação, como se pode constatar nos exemplos abaixo.

EXEMPLO: O Chile representa 5% do PIB latino-americano, mas tem 14% das empresas do ranking – a Deloitte atribui isso ao fato de a economia chilena ser uma das mais abertas da região. (E, ed. 1073, ano 48, nº17, 17/09/2014, p. 38)

EXEMPLO: As vantagens e as desvantagens das “corporations”, como esse tipo de empresa é conhecido, são discussão antiga nos Estados Unidos. (E, ed. 1073, ano 48, nº17, 17/09/2014, p. 78)

Freitas, Ramilo e Soalheiro (2005) também postulam que aos nomes comuns provenientes do inglês é normalmente atribuído o gênero masculino (ex: slogan, show, download, etc.). Podemos dizer, com efeito, que o traço [- fem] é atribuído por defeito, quando não existe qualquer tipo de motivação formal ou semântica para atribuir o traço [+

fem] à palavra. É por essa razão que nomes como flash, ketchup e software têm gênero masculino.

No entanto, segundo os autores, existem alguns nomes do inglês que, apesar da regra acima descrita, são femininos. Se a palavra estrangeira tiver uma estrutura -a# na língua de origem, existe uma probabilidade alta de adquirir o traço [+ fem], o que decorre do fato de os nomes terminados nessa vogal, em português, geralmente estarem associados a esse valor de gênero, como por exemplo: bazooka (inglês) > bazuca (português). Há também um fator de ordem semântica que pode ser decisivo na atribuição desse traço. É aquilo a que alguns autores chamam atração sinonímica, processo pelo qual o estrangeirismo adquire o gênero feminino por estar associado a uma palavra vernácula [+ fem] que designa um conceito equivalente.

TABELA 1 - Fatores que podem determinar a atribuição do gênero feminino Estrutura mórfica–a#

Obs.:A vogal /a/ tem de estar associada à estrutura fonológica da palavra, não apenas à sua representação gráfica. Nesse sentido, exemplos do tipo ice-tea são descartados.

bazuca < bazooka (inglês)

cóferdã<cofferdam (inglês), in HENRIQUES, 2014, p. 145.

Atração semântica

corporation (corporação, empresa) internet (rede)

holding (empresa que administra outras empresas) startup (empresa em fase de desenvolvimento) commodity (produto primário)

chips (batatas cortadas em rodelas finas)

EXEMPLO: As vantagens e as desvantagens das “corporations”, como esse tipo de empresa é conhecido, são discussão antiga nos Estados Unidos. (E, ed. 1073, ano 48, nº17, 17/09/2014, p. 78)

EXEMPLO: Em tese uma “corporation’ teria tudo para liberar esse processo. (E, ed.

1073, ano 48, nº17, 17/09/2014, p. 78)

EXEMPLO: Com 1 bilhão de visualizações em dois anos, o canal de humor Porta dos Fundos cria uma holding para gerir seus negócios. (E, ed. 1075, ano 48, nº19, 15/10/2014, p. 66)

EXEMPLO: Por que o senhor decidiu trabalhar no Alibaba?

Estava numa agência de publicidade multinacional em Pequim, mas sempre quis trabalhar numa startup. (E, ed. 1073, ano 48, nº17, 17/09/2014, p. 120)

Freitas, Ramilo e Soalheiro (2005) acrescentam que a integração das palavras estrangeiras numa determinada classe de palavras, tal como a atribuição do gênero, processa- se de um modo imediato. Essa é uma operação relativamente trivial, a não ser no caso das estruturas sintaticamente analisáveis na língua de origem que, na passagem para o português, se tornam impossíveis de serem analisados. Como exemplo cita-se a transformação dos sintagmas do inglês free shops, wearable computers e world music em substantivos comuns.

A descrição do que acontece em nível semântico, no primeiro momento em que uma palavra passa de uma língua para outra, mostra uma tendência muito forte para que as formas mantenham o significado da língua de origem, uma vez que normalmente designam uma realidade específica para a qual não existe um correspondente vernáculo. Existem vários casos de palavras importadas do inglês que, na sua origem, podem corresponder a acepções diversas, mas que, no português, apresentam um significado restrito. Consideremos esses dois exemplos listados na Tabela 2:

TABELA 2 – Palavras importadas do inglês com significado restrito em português FORMA SIGNIFICADO EM INGLÊS SIGNIFICADO EM

PORTUGUÊS roaming Termo originado do verbo to roam

que significa “vagar”.

Serviço que permite o funcionamento de celulares no estrangeiro

retarder Termo originado to verbo to retard que significa “retardar” (tornar mais lento o progresso ou

desenvolvimento de algo)

dispositivo instalado em alguns veículos que funciona junto com os freios para diminuir a velocidade por segurança

Antes de abordar os fenômenos que caracterizam a segunda fase de integração dos estrangeirismos, cumpre mencionar que a sua representação gráfica depende muito de fatores extralinguísticos, principalmente os que dizem respeito à normalização e à política de integração dos estrangeirismos na língua. Acredita-se, com efeito, que o critério gráfico não é decisivo no apuramento do grau de integração de uma palavra, o que não implica, no entanto, que a grafia não seja um indício da integração (FREITAS, RAMILO e SOALHEIRO, 2005), conforme observamos no exemplo abaixo, a palavra inglesa corner acentuada:

EXEMPLO: UM SÓCIO EM CADA CÓRNER

Auditorias, demissões, processos, ameaças. A siderúrgica Usiminas tem dois controladores em pé de guerra – e a situação só piora. (E, ed. 1075, ano 48, nº1, 15/10/2014, p. 54)

As palavras estrangeiras que se encontram nesta primeira parte caracterizam-se por apresentar uma grafia idêntica à da língua de origem. Pelo fato de serem sentidas como estranhas ao sistema linguístico, é comum ocorrerem com tipos gráficos (aspas, itálicos, negrito, etc.) distintos, como provam os exemplos abaixo:

EXEMPLO: Hoje, a Renner é uma das poucas empresas brasileiras com capital pulverizado, no modelo de “corporation” típico dos Estados Unidos. (E, ed. 1073, ano 48, nº17, 17/09/2014, p. 74)

EXEMPLO: O trabalho foi concluído com um workshop com lideranças empresariais.

(CE, volume 68, nº09, de setembro de 2014, pág. 49)

EXEMPLO: Oculus VR: criada por crowdfunding. (E, ed. 1085, ano 49, nº5, 18/03/2015, p. 106)

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 63-67)

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