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O Espaço no Olhar de Milton Santos

No documento Rafael Fernando de Faria.pdf - Univali (páginas 44-48)

Dialeticamente, é possível partirmos do espaço geográfico para chegarmos ao entendimento da sociedade, pois aquele é fruto da combinação entre o meio natural e a ação humana, que ao longo do tempo combinam-se de diferentes maneiras. A partir desse preceito é que Milton Santos propôs a categoria ‘formação sócio-espacial’ como um encaminhamento metodológico para a geografia. Assim, o entendimento do espaço à luz do paradigma proposto pelo autor deve considerar a inter-relação entre espaço, história e modo de produção.

Contudo, no caso deste autor, afora esse conceito totalizante, é preciso considerar que o arcabouço teórico legado é dos mais representativos e que ao longo de sua carreira ele apresenta diferentes concepções do espaço geográfico, sem, todavia, serem discrepantes, mas, ao contrário, complementam-se.

O conceito de espaço, para Milton Santos (1997a, p. 1-4), constitui a soma da configuração geográfica, ou seja, o conjunto de objetos geográficos naturais e artificiais distribuídos sobre o território, também denominado paisagem, e da sociedade – “o que dá vida a esses objetos”. O espaço representa uma realidade objetiva, um produto social em constante processo de transformação, sendo que o seu estudo depende da compreensão da sua relação com a sociedade.

Milton Santos procura diferenciar o conceito de espaço do de paisagem afirmando que

“a paisagem é o conjunto de formas que num dado momento exprime as heranças que representam as sucessivas relações localizadas entre homens e natureza. O espaço são essas formas mais a vida que as anima”. É nesse sentido que o autor considera o espaço como:

[...] uma instância da sociedade, ao mesmo título que a instância econômica e a instância cultural-ideológica. Isso significa que, como instância ele contém e é contido pelas demais instâncias, assim como cada uma delas o contém e é por ele contida. [...] Isso quer dizer que a essência do espaço é social. Nesse caso, o espaço não pode ser apenas formado pelas coisas [...]. O espaço é tudo isso, mais a sociedade [...], cada fração da natureza abriga uma fração da sociedade atual.

(SANTOS, 1997a. p. 1)

O espaço geográfico não é humano simplesmente porque o Homem o habita, mas, antes disso, porque é produto, condição e meio de toda a atividade humana. Na medida em que a sociedade produz e reproduz sua existência ela o faz de um modo determinado; este modo imprimirá características históricas específicas a esta sociedade e, conseqüentemente, influenciará e direcionará o processo de produção espacial.

A história assume um papel dinâmico sob esta perspectiva, e o movimento da história (numa perspectiva espacial) passa a ser relevante. Dessa maneira, o espaço geográfico deve ser concebido como um produto histórico e social das relações (especialmente as de trabalho) que se estabelecem entre a sociedade e o meio circundante.

Em outras palavras, ele (o espaço geográfico) é um produto histórico que sofreu (e sofre) um processo de acumulação técnica e cultural refletindo a cada momento as características e determinações da sociedade que o produz, onde o homem transforma a natureza, humanizando-a, apropriando-se dela e incorporando-a ao seu universo. Portanto, existe uma relação necessária e dialética entre sociedade e espaço.

Compreendido dessa maneira, fundado em relações entre sociedade e meio circundante, o processo de produção do espaço coloca-se como uma relação que deve ser entendida em suas múltiplas determinações: econômicas, políticas, jurídicas, naturais, sociais,

culturais, etc. É o encadeamento e a articulação das categorias de análise que permitirá a separação entre as determinações gerais e as específicas.

Buscando ampliar nossa compreensão acerca dos conceitos de espaço, Milton Santos convida-nos a pensar o espaço geográfico como um sistema12 de objetos e um sistema de ações, onde as duas categorias, objeto e ação (materialidade e evento), devem ser tratadas como uma unidade.

Essa caracterização visa contrapor os elementos de composição do espaço (os objetos geográficos) aos condicionantes de modificação desse mesmo espaço que, como já foi falado anteriormente, não constitui apenas um suporte para as relações sociais que sobre ele se dão, pois o espaço é condicionado, mas também é condicionante.

[...] o espaço é formado por um conjunto indissociável, solidário e também contraditório, entre sistemas de objetos e sistemas de ações, não considerados isoladamente, mas como quadro único no qual a história se dá. De um lado, os sistemas de objetos condicionam a forma como se dão as ações e, de outro lado, o sistema de ações leva à criação de objetos novos ou se realiza sobre objetos pré- existentes. (SANTOS, 1997b. p. 51-52).

A criação de objetos atende as condições sociais e técnicas presentes. Os objetos que formam o espaço são objetos técnicos resultantes das possibilidades da ciência e da tecnologia em um dado momento histórico e concebidos para exercer certas finalidades pré- determinadas, em localizações também a priori definidas; assim, o ordenamento espacial decorrente desse processo também é intencional.

Outra característica dos objetos é o seu caráter de continuidade, ou horizontalidade. As ações são processos e podem ser próximas e presenciais ou, como ocorre cada vez com mais freqüência, virtuais. As ações, assim como os objetos, também estão baseadas na ciência e na técnica. Segundo Santos (Ibid., p. 67)

As ações resultam de necessidades, naturais ou criadas. Essas necessidades:

materiais, imateriais, econômicas, sociais, culturais, morais, afetivas, conduzem o homem a agir [...]. Essas funções, de uma forma ou de outra, vão desembocar nos objetos. Realizadas através de formas sociais, elas próprias conduzem à criação e ao uso de objetos, formas geográficas.

12Um sistema se define por um nódulo, uma periferia e uma energia mediante a qual as características pioneiras elaboradas e localizadas no centro conseguem projetar-se na periferia, que será então modificada por elas. É somente a partir desse esquema que seremos capazes de apreender sistematicamente as articulações do espaço e reconhecer a sua própria natureza” (SANTOS, 2001. p. 79).

Outra possibilidade de análise do espaço é por meio do que Milton Santos chama de fixos e fluxos. Essa perspectiva expressa com clareza a dinâmica espacial, tanto horizontalmente quanto verticalmente. Contudo, para a compreensão do espaço utilizando essas categorias é necessário primeiro analisar os elementos que o constituem e a interação mantida entre eles para formar o espaço, quais sejam: os homens, as firmas, as instituições, o suporte (meio) ecológico, e as infra-estruturas. Cada um desses elementos apresenta suas próprias características.

De acordo com o autor, os homens são os “elementos do espaço, seja na qualidade de fornecedores de trabalho, seja na de candidatos a isso, trate-se de jovens, de desempregados ou não empregados”, ou seja, toda a população.

O simples fato de estar no espaço, fazer parte dele, implica necessariamente em algum tipo de demanda, seja de produtos, bens ou serviços; que são atendidas por empresas (firmas) – públicas ou privadas -, ou instituições representadas pelo Estado, responsáveis pela infra- estrutura básica e a super-estrutra da sociedade. Em outras palavras, as firmas têm como função essencial a produção de bens, serviços e idéias; quanto às instituições, estas produzem normas, ordens e legitimações. (SANTOS, 1997).

O meio ecológico diz respeito ao conjunto de complexos territoriais que constituem a base física do trabalho humano, o qual resultará nos fixos construídos socialmente através das relações de trabalho. Podemos considerar esses fixos como sendo as infra-estruturas - o trabalho humano materializado e geografizado na forma de casas, plantações, estradas, rodovias, estações de tratamento e armazenagem de água, etc. (SANTOS, 1997).

O esforço empreendido a fim de analisar o espaço e suas dinâmicas deve transcender a simples descrição individual de cada elemento que constitui o espaço. Voltamos a recorrer às palavras de Milton Santos quando o autor escreve que:

É somente a relação que existe entre as coisas que nos permite realmente conhecê- las e defini-las. Fatos isolados são abstrações e o que lhes dá concretude é a relação que mantêm entre si. Mas [...] não são relações apenas bilaterais, uma a uma, mas relações generalizadas. Por isso, e também pelo fato de que essas relações não são entre as coisas em si ou por si próprias, mas entre suas qualidades e atributos, se pode dizer que eles formam um verdadeiro sistema. (SANTOS, 1997. p. 14).

Neste conjunto de elementos que formam um sistema, cada elemento constitui um subsistema em relação ao sistema maior: o espaço. Todavia, esses elementos considerados

particularmente, em si só, também constituem um sistema. Em ambos os casos os elementos são regidos pelo modo de produção vigente.

Para melhor compreensão do espaço a partir desses elementos, é preciso compreender a interdependência entre os fixos e os fluxos. Os fixos são econômicos (os instrumentos de trabalho e as forças produtivas em geral, inclusive os homens), sociais e culturais. Os fluxos, por sua vez, se fazem presentes na circulação e no movimento e, graças a essa condição de mobilidade dos fluxos e a inseparabilidade entre ambos, os fixos deixam de ser objetos apenas técnicos e adquirem características de objetos sociais:

O espaço disso resultante pode ser tratado como um conjunto inseparável de fixos e fluxos. Se a definição dos fixos vem da qualidade e quantidade (ou densidade) técnicas que encerram, a definição dos fluxos deriva da sua qualidade e do seu peso políticos. Tal oposição é necessária. Ela é, mesmo, indispensável, para distinguir entre o processo imediato da produção, cuja definição é técnica, e as outras instâncias: circulação, distribuição, consumo, cuja definição é cada vez mais do domínio político. (SANTOS, 1993. p. 114).

Desse modo, as categorias clássicas de análise do espaço, isto é, a produção propriamente dita, a circulação, a distribuição e o consumo, podem ser estudados através desses dois elementos: fixos e fluxos. A produção pode, ainda, ser representada como uma verticalidade, enquanto a horizontalidade refere-se aos outros momentos da produção:

circulação, distribuição e consumo.

No documento Rafael Fernando de Faria.pdf - Univali (páginas 44-48)