Mudanças sociais importantes num processo social em curso implicam alterações na estrutura subjacente de um objeto ou situação. Uma dada estrutura social e econômica acaba definindo as funções e as formas espaciais (a natureza histórica do espaço), tal estrutura é um fator social que indicará quais as necessidades que lhe deram origem e qual a função que lhe foi designada desempenhar no espaço. Segundo Milton Santos (1997a, p. 17):
A estrutura espacial é algo assim: uma combinação localizada de uma estrutura demográfica específica, de uma estrutura de produção específica, de uma estrutura de renda específica, de uma estrutura de consumo específica, de uma estrutura de classes específica e de um arranjo específico de técnicas produtivas e organizativas utilizadas por aquelas estruturas e que definem as relações entre os recursos presentes.
Quanto ao processo, ele assume uma importância fundamental na relação entre forma, função e estrutura e está todo o tempo subjacente, pois é indissociável e inerente a este movimento. A noção de processo permite apreender o tempo em seu movimento, como uma ação contínua, desenvolvendo-se em direção a um resultado qualquer, implicando conceitos de tempo (continuidade) e mudança, indicando o movimento do passado em direção ao presente - uma estrutura em seu movimento de transformação.
Escolhidas por permitirem apreender o espaço enquanto totalidade, as quatro categorias analíticas (forma-função-estrutura-processo) não podem ser tomadas isoladamente, mas, sim, devem ser estudadas concomitantemente e consideradas na maneira como interagem para criar e moldar o espaço através do tempo. O encadeamento e a articulação dessas categorias é que permitirão compreender o espaço.
estudiosos e também agências governamentais estão empenhados em definir o que é o rural e estabelecer a melhor forma de localizá-lo no espaço.
Diante deste impasse surgiram algumas formas diferenciadas de abordar o tema. Em uma delas, a mais trivial, trata da abordagem do rural pelo senso comum, onde o rural assume feições e traços que o reportam a imagens bucólicas e idílicas, geralmente difundidas pelos meios de comunicação de massa.
Numa outra abordagem tem-se a discussão do meio acadêmico e também de instituições de pesquisa e governamentais, onde o debate se direciona para as questões analíticas e normativas do rural. No meio acadêmico, as reflexões tendem a aparecerem associadas a determinadas vertentes do pensamento científico que o assumem como um objeto empírico de pesquisa. Em instituições de pesquisa o tema surge vinculado à discussão normativa. Já nas instituições governamentais, o rural é apresentado e definido, invariavelmente, como um espaço físico, fonte de enumeradores demográficos e base para as ações político-administrativas dos governos.
O rural do senso comum sempre esteve inclinado a sofrer forte imposição de uma ideologia que lhe era contrária, a ideologia urbana. Esta emerge no momento em que se busca associar o rural a uma imagem que faz referência à tradição, ao que é passado, de local desprovido da oferta de serviços públicos básicos, sinônimo de atraso cultural, econômico e social. É desta forma que surgem as imagens pejorativas difundidos pela mídia que, à luz de um conjunto de idéias e valores considerados como modernos, urbanos, típicos da ‘cidade grande’, recorrem, no seu modo de agir, a situações geralmente jocosas que apresenta o morador das áreas rurais como ‘atrasado’.
Este conjunto de idéias e valores, segundo Martins (1986), têm-se difundido na tentativa de impor, através da dominação, a transição da sociedade tradicional (rural) para a sociedade moderna (urbana), urbanizando o campo para superar o ‘atraso’ do rural e ‘livrá-lo’
desse fardo, num dissimulado interesse altruísta. Esta concepção perpassa o senso comum e torna-se tema para a academia onde estas representações passam a ser investigadas.
No meio acadêmico, o rural é concebido através de terminologias, noções e conceitos que se propõem a abstrair da melhor forma a pertinência deste na condição de um objeto empírico de análise, observando as relações do meio rural. Tal modo faz com que o rural figure associado a correntes teóricas e desse modo procura-se apurar explicações empíricas como forma de apreender cientificamente as relações sociais e históricas que o caracterizam como espaço. No Brasil, o rural como objeto de estudo está associado principalmente a duas correntes distintas de pensamento.
Em uma das vertentes encontra-se o debate promovido por Graziano da Silva (1999) sobre “o novo rural brasileiro”14. Este autor apresenta o rural baseado na perspectiva do continuum e sustenta que a urbanização do campo é um processo iminente e irreversível.
Outra, e mais recente perspectiva é proposta por Ricardo Abramovay (2003), cuja ênfase recai sobre o enfoque territorial para discutir os problemas do meio rural e da ruralidade. As discussões promovidas por estas diferentes vertentes sintetizam o que pode ser considerado como o debate acerca da ruralidade brasileira, pois buscam manter a atualidade da discussão sobre o rural no Brasil.
As transformações que ocorreram a partir do final da década de 1980 no meio rural brasileiro fizeram emergir novos temas nesse debate. A discussão atual não se encontra mais apenas nas potencialidades econômicas do setor agropecuário, mas caminha no sentido de se compreender a diversidade dos processos geográficos, econômicos, políticos, sociais, culturais e ecológicos que têm acometido o meio rural.
No campo normativo ocorre o debate promovido sobre as definições do rural e do urbano por instituições governamentais e de pesquisas. Aqui apenas recentemente o enfoque territorial é trazido ao debate. A abordagem normativa se encontra estagnada e obscurecida pela obsolescência de seu método de análise. Por conseguinte, em sua fragilidade metodológica, esta é facilmente questionável por sua insuficiência ao mensurar apenas quantitativamente a magnitude do rural, além de transmitir a idéia deste como espaço vinculado unicamente às atividades agropecuárias e prestes a sucumbir perante a crescente taxa de urbanização.
Com essa concepção, o rural é apreendido como fonte de dados e indicadores estatísticos onde, por meio destes, são demarcadas as fronteiras entre o rural e o urbano e se estabelece a mensuração demográfica. Claro que esse aspecto não deve ser desconsiderado, pois há uma gama de atribuições e iniciativas que dependem diretamente destes dados e, por si só, justificam a importâncias de tais indicadores como, por exemplo, a alocação de serviços públicos (saúde, educação, transporte, comunicação, etc.), a disponibilização de infra- estrutura, repasses governamentais, entre outros.
14 José Graziano da Silva é professor (USP) e coordenador da pesquisa denominada de PROJETO RURBANO, patrocinado pelo MDA e parcialmente financiada pela Fapesp. É um projeto temático, denominado
“Caracterização do novo rural brasileiro, 1981/1995”. O Trabalho pretende analisar as principais transformações, ocorridas no meio rural, em 11 estados: PI, RN, AL, BA, MG, RJ, SP, PR, SC, RS e DF.
O que também prejudica a compreensão do que seja o rural brasileiro é uma norma administrativa simplificadora oriunda do Decreto Lei Oficial n° 311 de 193815, onde toda a população que estiver localizada na sede de um município ou em uma vila será considerada como urbana. Conseqüentemente, se a área estiver localizada fora deste espaço delimitado, será rural e a população contada como rural. Neste sentido, qualquer município que tenha um pequeno vilarejo ou um agrupamento de casas nos mais longínquos sítios do País, poderá ser considerado como urbano. Essa situação, como sabemos, não reflete adequadamente a realidade.
É contra esta condição residual que se justificam os esforços dos cientistas e pesquisadores que tentam atribuir novas definições que captem a real diversidade do rural.
Diante deste contexto, têm-se destacado um conjunto de novas perspectivas que passam a valorizar e incluir as dinâmicas sociais em um sentido mais amplo, incorporando indicativos diferenciados para as análises. Nessa direção, os estudiosos do rural passaram a recorrer ao aporte teórico de outras disciplinas das ciências sociais como a Geografia, a Sociologia, a Antropologia e a Economia, na busca de novas alternativas para o estudo do rural.
Dentre estas alternativas, destaca-se a abordagem territorial, que vem consolidando-se como uma nova maneira de proporcionar um entendimento outro acerca das questões relacionada ao meio rural. É com o advento dessa abordagem que o rural surge como um espaço diferenciado do agrícola e retorna revigorado aos debates.
O enfoque territorial busca qualificar o debate sobre o rural através da apreciação das dinâmicas sociais e espaciais de um grupo. Tal fato implica em lidar com novas perspectivas e novas técnicas de análise que proporcionem ampliar o entendimento do espaço rural, tanto no sentido de melhor precisar o que ele é, quanto no sentido de indicar onde se localiza. Esta proposição não é uma tarefa de fácil execução, pois preencher as duas indagações, simultaneamente, implica em encerrar em uma mesma proposição uma abordagem que seja ao mesmo tempo conceitual e prática.
Para observar as relações sociais com base na escala local, permitindo agregar ao rural categorias simbólicas construídas a partir de diferentes universos culturais, Tuan (1983) sugere outra maneira para a analise das questões referentes ao espaço rural: a perspectiva da experiência. Para o autor, estas categorias simbólicas tendem a orientar o sentido das análises
15 Até 1938, não existia no Brasil uma delimitação normativa para distinguir espaços urbanos e rurais. Antes desta data, o rural era concebido como uma continuidade que se adentrava continentalmente ao território, em direção ao interior. As cidades, ainda embrionárias neste período, se reduziam a parcas aglomerações que se localizavam estrategicamente ao longo da costa litorânea, a fim de coibir invasões e servir de abrigo aos navegantes.
para os agentes do processo e não exclusivamente para o espaço. Nesses termos, são os indivíduos que irão expressar o seu vínculo com o local através de suas práticas, independentemente de estarem ou não fisicamente no local definido como o de origem.
Os estudos de Tuan orientam para uma leitura diferenciada do rural, sendo oposta à condição fatalística preconizada pela concepção do continuum entre o rural e o urbano. Neste sentido, mais do que precisar as fronteiras entre ambos ou relevar as diferenças culturais, o autor sugere verificar a qualidade das relações que as práticas sociais estabelecem sobre o espaço e o local de análise, sendo que as práticas podem até mesmo ampliar a rede de relações sociais, sem, no entanto, proporcionar uma homogeneidade social. Mas para que isto ocorra as identidades devem estar ancoradas em um sentimento de pertencimento a uma determinada localidade (territorialidade) e, assim, criar “uma consciência de si na relação com o outro”.