Pesquisas qualitativas têm como objeto o ser humano e a complexa rede que permeia o tecido social. Portanto, a escolha por um método qualitativo para o desenvolvimento desta pesquisa deve-se à sua condição de “facilitador no processo de interação entre o pesquisador e seu objeto – o ser humano em suas múltiplas relações”.(CAMPOLIN, 2005. p. 13).
De fato, é justamente essa interação que propicia a compreensão da realidade social na qual se insere o pesquisado, além de proporcionar maior confiabilidade à interpretação dos dados coletados. Dessa maneira, “as abordagens qualitativas se configuram alternativas viáveis, por possibilitarem estudos mais descritivos do meio social e cultural, além de permitirem análises contextualizadas da realidade” (Idem, 2005).
De acordo com Mynaio (1994) esse tipo de pesquisa trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes; correspondendo a um espaço mais profundo de relações e inter-relações dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis. Pretende-se, desse modo, a partir de um enfoque qualitativo, apreender a realidade social local no conjunto de suas relações sociais.
Relações essas que foram profundamente abaladas nas últimas décadas e recrudescidas pelas mudanças decorrentes da globalização e do seu impacto sobre a constituição da identidade, tanto individual quanto coletiva; trazendo consigo o sentimento de perda, esquecimento e desenraizamento social, cultural e histórico. Em decorrência, indivíduos e coletividades empreendem ações que permitam a recomposição da sua identidade. Talvez por isso nunca esteve tão forte a “demanda” pela presença do passado. (PEREIRA; FREIRE, 2002).
O caráter etnográfico da metodologia de pesquisa utilizada nesta dissertação deve-se aos métodos e técnicas de investigação empregados, tais como: observação participante,
diário de campo, registro da história oral e registro fotográfico. A pesquisa etnográfica tem início na antropologia e surge com a proposta de descrever e interpretar para tentar ‘explicar’
o que as pessoas fazem em determinado ambiente, quais os resultados de suas interações e, talvez o mais importante e complexo, como compreendem o que estão fazendo.
Para Rognon (1991, p. 99) “a pretensão da etnografia é grande e o projeto é vasto, basicamente consiste em tudo ver, tudo ouvir, tudo anotar, tudo registrar [...]. É esse trabalho, aplicado a cada cultura particular, que se espera da etnografia”. De acordo com o autor espera-se do etnógrafo que ele conviva o maior tempo possível com o grupo estudado, que ele aprenda as suas formas típicas de comunicação, que registre seus costumes, hábitos e depoimentos através de um diário de campo e, se possível, por meios capazes de registrar fatos, independentemente da interpretação pessoal do pesquisador, como gravadores de som, máquinas fotográficas, filmadoras de vídeo, etc.
Certamente essa é uma tarefa deveras árdua, pois diante da miríade de significados acerca do que as pessoas fazem e dizem, o etnógrafo está sozinho, munido apenas de sua sensibilidade, intuição ou experiência para decidir quando e quais sinais (falas, eventos, nomes, objetos, etc.) deve privilegiar na tentativa de reconstruir a realidade.
Contudo, a capacidade desses recursos de capturar com fidelidade imagens e sons não assegura, porém, a expressão do real, pois o pesquisador - ao filmar, fotografar ou gravar – seleciona, entre as inúmeras possibilidades que se apresentam, aquilo que ele deseja ver e ouvir, seja no momento em que os fatos se desenvolvem ou posteriormente ao selecionar quais as partes desses registros serão significativas para a sua interpretação. O mesmo ocorre no momento da seleção dos trechos mais relevantes das entrevistas ou na escolha das fotografias mais representativas daquilo que se pretende apresentar.
Devido à própria natureza complexa, multifacetada e dinâmica da realidade social, não é possível conceber uma representação etnográfica que reproduza integralmente a realidade, ainda que julguemos, prepotentemente, poder abordá-la em termos ou fatos totalizantes. Não obstante, segundo Geertz (2005, p. 29) os etnógrafos, por meio de seus textos etnográficos,
“precisam convencer-nos [...] não apenas de que eles mesmos realmente ‘estiveram lá’, mas ainda [...] de que, se houvéssemos estado lá, teríamos visto o que viram, sentido o que sentiram e concluído o que concluíram”.
Com as entrevistas semi-estruturadas procuramos resgatar a história das comunidades envolvidas na pesquisa e de seus moradores. Mas o aspecto histórico ao qual me refiro aqui diz respeito não apenas à ‘história oficial’ - aquela que durante séculos registrou tão somente grandes batalhas e guerras ou importantes acordos internacionais e feitos políticos; mas,
sobretudo, nos referimos à história social 20, que se preocupa também com o cotidiano das pessoas comuns e, de acordo com Barreto (2004, p. 11), inclui “[...] as relações econômicas e sociais, a vida doméstica, as condições de trabalho e lazer, a atitude para com a natureza, a cultura, a religião, a música, a arquitetura, a educação”.
Para tanto, na fase de coleta das entrevistas foi utilizado o método de História Oral21 do gênero Tradição Oral. Além dos historiadores, a história oral é geralmente utilizada por antropólogos, cientistas políticos, sociólogos, teóricos da literatura, pedagogos, psicólogos e outros. O que se pretende em estudos que fazem uso de história oral, e nesse em particular, é possibilitar ao entrevistado registrar a sua história de vida, como os fatos foram sentidos, compreendidos e até mesmo reinterpretados por aquele que os viveu. Pretende-se, dessa maneira, não só reviver a experiência cotidiana, mas também analisar como ela é percebida em relação aos acontecimentos econômicos, sociais, políticos, culturais, religiosos, entre outros, em que estiveram e estão inseridos. (CPDOC-FGV, 2007).
Pela riqueza de detalhes presentes nos relatos orais, este método (história oral do gênero tradição oral) revela-se eficaz no sentido de restabelecer identidades (intimamente ligadas à memória), sobretudo com relação à história local da comunidade. A busca da memória e das lembranças faz parte do sentido dado à história presente, onde por meio da narrativa oral se pode resgatar o papel do indivíduo enquanto agente social atuante, de fato partícipe da construção da história e não seu mero espectador.
A história oral possibilita a construção e a reconstituição da história por meio dos relatos individuais ou coletivos; para Azevedo (2002, p. 142) ela “pode constituir instrumento auxiliar valioso na reconstrução de patrimônio(s) humano(s), especialmente no caso de projetos turísticos ligados a comunidades tradicionais, as quais têm na oralidade, basicamente, sua forma de expressão.”
A pesquisa foi ‘construída’ em três momentos distintos. Um primeiro momento em
“gabinete” (expressão bastante utilizada por Clifford Geertz quando o autor se refere ao momento de ‘estar aqui’ – “being here”), que consistiu na pesquisa documental e bibliográfica em fontes secundárias. Nesta etapa foram consultados na internet endereços eletrônicos de instituições de pesquisa, órgãos do governo federal, estadual e municipal, assim como sites de busca de imagens e de produção intelectual do meio acadêmico. Além da rede
20 “O conceito de história social foi introduzido em 1725 por G. Vico, e propunha transferir o centro de interesse nos estudos históricos de fatos e proezas pessoais, guerras, tratados e alianças para costumes, instituições, formas de organização social, línguas, artes, religiões, ciências e climas de opinião”. (FGV-MEC, 1986. p. 556. In:
BARRETO, 2004. p. 11).
21 A grafia de História Oral com as iniciais maiúsculas é mera opção didática de nossa parte, os autores consultados escrevem com iniciais minúsculas.
mundial de computadores foi consultado o referencial bibliográfico pertinente ao tema que compõe o arcabouço teórico e sustenta as reflexões desse estudo.
O segundo momento foi desenvolvido em campo – o ‘estando lá’ (“being there”, para seguir com as palavras de Geertz). Essa fase contemplou as visitas sistemáticas às comunidades; consistindo na observação participante, na redação de um diário de campo, nos registros fotográficos, na seleção dos possíveis entrevistados e na aplicação das entrevistas semi-estruturadas. As impressões, percepções e insights durante os períodos em campo foram registrados em diário de campo, ferramenta que desempenhou um papel fundamental na fase seguinte: analisar os dados obtidos e transcrevê-los para o texto – construindo a textualização.
O terceiro e último momento ocorreu, a exemplo do primeiro, ‘em gabinete’. Essa foi a fase de análise dos dados e das informações obtidos, tanto em fontes secundárias quanto diretamente. Passamos, então, a transcrever as entrevistas gravadas em fitas K7 e a construir o texto interpretativo do legado sociocultural e espacial das comunidades de São Marcos, São Mateus e Canudos, com o apoio do referencial bibliográfico, especialmente do método de análise do Discurso do Sujeito Coletivo.
Talvez o que torne o texto etnográfico singular, quando o comparamos a outros das ciências sociais, seja a articulação que busca entre o trabalho de campo e a construção do texto na tentativa de trazer os fatos observados (vistos e ouvidos) para o campo do discurso.
Essa textualização da cultura, ou melhor, de nossas observações sobre ela, é uma tarefa complexa e temerária cujo discurso é fundado em uma atitude bastante particular que poderíamos definir como antropológica ou sociológica. Para Geertz, poder-se-ia entender toda a etnografia não apenas como tecnicamente difícil, uma vez que estamos escrevendo sobre vidas alheias em ‘nossos’ textos, mas, sobretudo, por esse trabalho ser moral, ética e politicamente delicado. (OLIVEIRA, 1998; GEERTZ, 2005).