QUALIDADE E ACESSIBILIDADE
3. OBRAS PÚBLICAS E EFETIVIDADE
A fiscalização de obras públicas realizada pelo Tribunal de Contas do Estado do Paraná, através da Diretoria de Fiscalização de Obras Públicas – DIFOP, está fortemente baseada em informações captadas pelo SIM, através do qual os Municípios paranaenses repassam ao TCE-PR dados referentes a todos os seus procedimentos administrativos e contábeis, inclusive sobre as obras que executam.
Mesmo considerando que os dados encaminhados via sistema informatizado são declaratórios, de responsabilidade de cada entidade municipal, e que alguns destes dados podem não corresponder à realidade ou estarem desatualizados, o TCE-PR possui um conjunto de informações único acerca das obras executadas pelos Municípios paranaenses.
A questão que fica pendente em toda e qualquer obra pública cadastrada, mesmo depois da conclusão, é: ao final do processo, houve efetividade?
Uma das premissas deste trabalho é que a efetividade está diretamente relacionada ao atendimento, de maneira satisfatória, das necessidades apontadas no planejamento e que isto, por sua vez, depende de a obra ter qualidade,
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acessibilidade (quando pertinente) e não somente poder ser utilizada, mas realmente estar em uso.
A resposta à questão levantada não é tarefa simples, mas é um dos objetivos do projeto de Fiscalização Conjunta – TCE-PR e CREA-PR – de Obras Públicas Pós-Conclusão: Qualidade e Acessibilidade. Devido ao agravante da distância física entre o TCE-PR e os 399 Municípios paranaenses, a concretização do projeto só foi possível graças à parceria entre este Tribunal e o CREA-PR.
3.1. Qualidade das Obras Públicas
A má qualidade das obras públicas, associada ou não a outros problemas, é notícia frequente nos meios de comunicação, embora não configure uma novidade para grande parte da população, que tem como certo o fato de que obras públicas são entregues em piores condições, quando comparadas a suas equivalentes, realizadas para a área privada. Esta parcela de brasileiros considera a má qualidade resultado do burocrático processo de contratação da administração pública, que, por força de lei, deve firmar acordo com a empresa habilitada que oferecer o menor preço. (MOTTA, 2005)
De acordo com Motta (2005), ao contrário do senso comum, a Lei nº 8.666/93 (Lei de Licitações) e a Lei Complementar nº 101/00 (Lei de Responsabilidade Fiscal – LRF) podem subsidiar a atuação tanto na execução quanto no controle das obras públicas, gerando aumento na eficácia e na efetividade das ações para concretização de obras públicas com qualidade.
Mas não é o que geralmente ocorre. Embora a Lei nº 8.666/93 busque a eficiência na contratação, garantida pela ampla concorrência e a seleção da proposta mais vantajosa para a administração, a realidade mostra a contratação de empresas
desqualificadas ou que não dedicam ao setor público o mesmo empenho mostrado no setor privado.
Somado a isto, existe o fato de a administração pública muitas vezes limitar-se a realizar a fiscalização e medição dos serviços já executados na obra, não tendo controle sobre os materiais empregados e processos construtivos. Muitas vezes, porque o fiscal da administração (profissional habilitado na área de engenharia ou arquitetura) não está presente tempo necessário para acompanhar o processo de execução de cada uma das diversas obras sob sua responsabilidade.
É importante salientar ainda que os problemas verificados nas obras não são responsabilidade total e absoluta do processo licitatório, da empresa contratada ou da inadequada fiscalização sobre ela, pois a qualidade da obra pública está também diretamente relacionada às etapas de Planejamento e Projeto Básico.
A questão é que a falta de planejamento e os projetos básicos mal elaborados ou não condizentes com as necessidades da administração, infelizmente, são problemas enraizados na administração pública.
Ao final, seja qual for o motivo, quem sofre as consequências da má qualidade das obras públicas é a sociedade, que, em maior ou menor medida, delas necessita, e o próprio Estado, que não consegue cumprir a contento com suas atribuições constitucionais e tem despesas extras com reformas e manutenções de obras de edificação e pavimentação.
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3.2. Acessibilidade em Obras Públicas
A acessibilidade, embora seja condição sine qua non para a qualidade de uma obra, por sua especificidade, foi tratada em separado neste trabalho.
Apesar de distante da realidade de muitos, a deficiência faz parte da vida de uma expressiva quantidade de pessoas. Segundo dados do IBGE (2010), 23,9% dos brasileiros apresentam algum tipo de deficiência, sendo que a visual figura em primeiro lugar e a deficiência motora é a segunda mais relatada pela população.
Não raramente, as pessoas com deficiência enfrentam limitações na vida diária. Essas limitações, intimamente relacionadas a problemas de acessibilidade, podem contribuir para a sua exclusão social.
A fim de proteger os direitos destes cidadãos, foi sancionada a Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000, a “Lei da Acessibilidade”, regulamentada, quatro anos mais tarde, pelo Decreto nº 5296/2004.
Este Decreto, em seu Art. 11, normatiza que, a partir de sua data de vigência, toda nova edificação de uso público ou coletivo deverá ser executada de maneira que seja ou se torne acessível à pessoa com deficiência ou mobilidade reduzida. Esta obrigatoriedade vale ainda para reformas, ampliações ou mudanças de destinação de edificações de uso público ou coletivo construídas antes do decreto entrar em vigor.
A definição de acessível pode ser encontrada na Norma Brasileira 9050, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT/NBR, 2004): “espaço, edificação, mobiliário, equipamento urbano ou elemento que possa ser alcançado, acionado, utilizado e vivenciado por qualquer pessoa, inclusive aquelas com mobilidade reduzida”.
A despeito da normatização pertinente, observa-se que a acessibilidade ainda não é uma
realidade palpável, nem mesmo nas áreas centrais das cidades – onde normalmente os recursos aplicados são maiores – e, sobretudo, em bairros periféricos.
Este quadro é provavelmente consequência da negligência e/ou desconhecimento por parte de projetistas e executores de obras e sua melhora depende da exigência, por parte dos devidos órgãos, da correta aplicação das leis.
Aos órgãos de controle, como o TCE- PR, cabe intensificar as ações no sentido de transformar os espaços de uso público acessíveis, hoje exceções, em regras, a fim de materializar não só o direito explícito de acessibilidade, mas os direitos de igualdade e cidadania de toda sociedade.
3.3. Utilização das Obras Públicas
A obra pública é a concretização das prioridades apontadas pela administração.
Porém, ter uma obra concluída não significa atendimento às necessidades levantadas na etapa de planejamento.
Para isso, é imprescindível que ela tenha condições de uso (o que inclui sua execução com qualidade e acessibilidade) e que realmente seja utilizada.
Mas, diversas vezes, o que se vê são obras, que poderiam ser úteis à população, abandonadas após a conclusão, como se a obrigação do gestor se findasse após a execução ou como se ele não fosse responsável pela integridade do patrimônio recém-criado, pelo simples fato de ele não estar sendo utilizado.
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Os motivos da não utilização das obras são diversos. Podem ser citados, entre outros: problemas de planejamento; falhas de projeto; problemas de execução da obra; mudança de gestão; e falta de recursos para compra de equipamentos essenciais ou para contratação de recursos humanos para funcionamento. No entanto, talvez o mais importante motivo a elencar seja a impunidade, que favorece a falta de zelo com os recursos públicos.
Dependendo do período passado entre a conclusão e a efetiva utilização ou dependendo da falta de segurança e/ou manutenção da obra, ela acaba sendo degradada pela ação do tempo ou humana, e maiores investimentos devem ser feitos para que possa voltar a ter condições de ser usufruída pela população.
Mas os prejuízos vão além dos valores dos materiais e mão-de-obra empregados nas obras. Deve também ser computada a frustração da expectativa gerada nas pessoas, que dependem dos benefícios que seriam proporcionados pelos empreendimentos.
Além disso, obras concluídas sem funcionamento acabam por contribuir com o agravamento da situação do local que deveria beneficiar. Além de alvo de vandalismo, as obras tornam-se lugares propícios a usuários de drogas, pontos de prostituição e outros crimes, quando não são invadidas por famílias sem condições financeiras de ter um lar digno.