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A origem da noção de capacidade contributiva está intrinsecamente relacionada ao ideal de justiça fiscal, que por sua vez, é um anseio que remonta ao próprio surgimento da noção de tributo.

Destarte, no antigo Egito, os tributos eram cobrados proporcionalmente ao montante de riqueza do contribuinte, ou seja, a fixação do valor do tributo a ser pago era determinado em consonância com os parâmetros que os egípcios entendiam como determinantes para a consecução da justiça fiscal.174

Seguindo a mesma vertente, os filósofos gregos também tinham por escopo a contemplação da justiça distributiva no momento da determinação do valor do tributo a ser pago, de modo a repartir os encargos do Estado de acordo com as possibilidades de cada contribuinte. No entanto, para os gregos, a possibilidade de contribuir variava conforme o mérito de cada cidadão.175

Evidencia-se, assim, que o ideal de justiça fiscal e, conseqüentemente, o princípio da capacidade contributiva, já norteava o ato de tributar desde as primeiras civilizações. Atento a essa particularidade, Assunção leciona:

O princípio da capacidade contributiva, freqüentemente referido como política de Estado democrático é, na verdade, preceito milenar. Foustel de Colanges associa-o à religião antiga e aos direitos de cidadania, sem referir-se a ele pelo nome, ao relatar que em Roma o censo era realizado a cada catorze anos (em

174 COSTA, Regina Helena. Princípio da capacidade contributiva, 2003, p. 15.

175 COSTA, Regina Helena. Princípio da capacidade contributiva, 2003, p. 15.

Atenas, anual), ao duplo propósito de descobrir aqueles que poderiam ser conscritos ao serviço militar, e dimensionar a potencialidade tributável global, o que hoje poderíamos denominar

“capacidade contributiva coletiva”.176

Posteriormente, a capacidade contributiva foi implicitamente disposta na Magna Carta Britânica de 1215, na qual em seu artigo 12, determinava que as prestações coercitivas deveriam ser fixadas por parâmetros moderados.177

Seguindo uma orientação cronológica, é possível evidenciar que na Idade Média, utilizando-se do ideal de justiça distributiva, São Tomás de Aquino classificou o tributo como justo ou injusto. O primeiro era determinado de forma proporcional à capacidade contributiva do cidadão, ao passo que o segundo era fixado pelos soberanos de forma arbitrária. 178

Já em 1776, com a publicação da obra “A Riqueza das Nações” de Adam Smith, a noção de capacidade contributiva ganhou importância, uma vez que nesta obra restou determinado que todos deveriam arcar com as despesas públicas de acordo com seus haveres, sendo este o modo de concretização da justiça fiscal. Consoante anota Ribeiro:

A Riqueza das Nações, já firmava, dentre as suas quatro máximas a respeito dos impostos em geral, a idéia de que os súditos de cada Estado devem contribuir o máximo possível para a manutenção do Governo, em proporção a suas respectivas capacidades, isto é, em proporção ao rendimento que cada um desfruta, sob a proteção do Estado.179

Destarte, o ideal de justiça distributiva já se fazia presente na consciência dos primeiros povos civilizados, conforme ensina Costa:

Nesse momento histórico, tão arraigada já se encontrava a idéia de capacidade contributiva na consciência dos povos civilizados,

176ASSUNÇÃO, Lutero Xavier. Princípios de direito na jurisprudência tributária. São Paulo: Atlas, 2002, p. 69.

177 COSTA, Regina Helena. Princípio da capacidade contributiva, 2003, p. 15.

178COSTA, Regina Helena. Princípio da capacidade contributiva, 2003, p. 16.

179RIBEIRO, Ricardo Lodi. Justiça, interpretação e elisão tributária. Rio de Janeiro:

Editora Lúmen Juris, 2003, p. 55.

que vários episódios políticos de relevo podem ser atribuídos, direta ou indiretamente, à sua inobservância. 180

Como exemplo de dois acontecimentos políticos relevantes, pode-se elencar a Revolução Francesa de 1789, que foi motivada pela exacerbada cobrança fiscal do governo de Luís XVI aos cidadãos franceses e a Inconfidência Mineira, no Brasil, no mesmo ano, decorrência direta da política fiscal opressiva adotada pelos portugueses em face do ouro brasileiro.

Esses eventos repercutiram sobremaneira, de modo que em 1791, foi editada a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, estabelecendo que os impostos deveriam ser pagos proporcionalmente às possibilidades econômicas de cada indivíduo.

Ao cuidar do tema, Costa destaca que em razão da repercussão causada por esse documento “a mesma regra foi adotada por todas as Constituições editadas posteriormente, como a Brasileira de 1824 e o Estatuto Albertino, de 1848”. 181

Não obstante, somente no século XIX, graças à Ciência das Finanças, é que verdadeiramente surgiu uma teoria objetiva e coerente acerca do princípio da capacidade contributiva.

A propósito, a partir deste momento é que a capacidade contributiva passou a ser gradativamente inserida como objeto de estudo no âmbito jurídico. Nesse sentido, Costa evidencia como se deu a inserção de tal princípio na ciência do Direito, nos seguintes termos:

A introdução do tema como objeto de preocupação da Ciência Jurídica deveu-se ao trabalho do professor Benvenuto Griziotti, em 1929, e da escola de seus discípulos, conhecida por Escola de Pávia, uma vez que até então o assunto continuava restrito à apreciação dos estudiosos da Ciência das Finanças. Para Griziotti a capacidade contributiva era a própria causa da obrigação tributária. 182

180COSTA, Regina Helena. Princípio da capacidade contributiva. São Paulo:

Malheiros, 2003, p. 16.

181 COSTA, Regina Helena. Princípio da capacidade contributiva, 2003, p. 17.

182 COSTA, Regina Helena. Princípio da capacidade contributiva, 2003, p. 17.

Com efeito, em um primeiro momento, o princípio da capacidade contributiva era entendido tão somente como uma idéia deduzida da noção de justiça fiscal. Aos poucos, passou a ser associado ao princípio da isonomia, como uma forma de dar um sentido material a tal princípio, que até então, era compreendido apenas no seu aspecto formal. Nesse diapasão, Costa adverte que “o princípio da igualdade era, assim, complementado por um critério material de justiça apto a distinguir quais as situações iguais e quais as desiguais”.183

Seguindo a linha evolutiva, o aparecimento de tributos com natureza extrafiscal suscitou o surgimento de dúvidas quanto à associação do princípio da capacidade contributiva somente como critério de materialização do princípio da igualdade. Assim, a partir desse momento, funções distintas foram atribuídas aos dois princípios, sendo que este entendimento passou a ser incorporado na maioria das Constituições Modernas, inclusive na CRFB/88, em seus art. 145, § 1º e 150, inciso II, respectivamente.

Em arremate, cumpre salientar que a noção de capacidade contributiva surgiu juntamente com o ideal de justiça fiscal, quando do nascimento da própria noção de tributo, e, gradativamente, foi assumindo sua atual função, tornando-se, hodiernamente, uma verdadeira limitação ao poder de tributar, uma vez que utiliza como parâmetro de fixação do valor do tributo a possibilidade econômica de cada contribuinte.